Em 2015, um grupo de super-humanos escapa de uma base do governo para salvar o mundo, e acaba descobrindo uma série de segredos sombrios. Essas são suas histórias.
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Disguise

Quando conheci Grenko Mardov, tive de imediato a certeza de que não se tratava de um ser humano. Isso foi a 4 anos e, na ocasião, lembro-me de tê-lo julgado um animal selvagem e irracional. Hoje sei que estava parcialmente correto em minhas conclusões precipitadas. De fato, os anos mostraram-me que Grenko Mardov não era, de fato, humano. Mas eu me enganava, e hoje sei disso, quanto a sua real natureza. Hoje, quatro anos após abandonar minha antiga e sepultada vida e me tornar Yulav Dardenko, braço direito do mesmo Mardov, sei que tal indivíduo – talvez o mais extraordinário que eu já tenha conhecido – não é um animal selvagem. Não. Grenko Mardov é a realização somática mais genuína que se possa chamar de um monstro. Um legítimo monstro retirado das antigas literaturas vitorianas.

Não tenho a menor idéia de como ou porque ele se tornou o que é. Não sei de histórias de infâncias duras na URSS, nem de qualquer tipo de abuso físico ou psicológico ao longo de sua adolescência, se é que esse homem já foi mesmo algum dia uma criança.

O aspecto e fama de Mardov não advêm apenas de sua dureza como líder. É bem verdade que ele executa pessoalmente todo capanga que não cumpre seus deveres, como também é verdade que já o vi matar a sangue frio homens, mulheres, crianças, idosos e até gestantes com igual e indiscernível frieza. Mas nada disso era real diferencial no meio em que trabalha.

Grenko Mardov é um sujeito sem qualquer nível de escolaridade que aprendeu absolutamente tudo o que sabe por empirismo e teimosia. Essa teimosia rendeu-lhe os dois atributos que o tornaram respeitado, temido e procurado internacionalmente.

Primeiro, Grenko é um gênio nas artes às quais se propôs. Atira, luta e comanda melhor do que qualquer um das dezenas de Special Ops que já matou. Aprendeu os idiomas de seus inimigos e espalhou seu poder pela Ásia Menor. Controla tudo aquilo que compreende dentro de sua facção e deixa tudo o restante que não compreende em minhas mãos. Tenho que confessar, afinal: nenhum dinheiro no mundo pagaria o risco que corro diariamente. Eu, como os outros, se sigo Mardov é porque o admiro.

Segundo, porque Grenko é implacável. Em combate e em debate, absolutamente implacável. Intransigente, impassível, ele transparece enquanto negocia e enquanto luta que não vai ceder nada em condição alguma. Sei que isso parece exagero, mas como já disse: eu o vi liderar por quatro anos, e em todo esse tempo, ele só fez impressionar – para bem e, mais freqüentemente, para mal – a mim e a todos que o conheceram. Se nesses quatro anos eu disser que o vi errar uma única vez, minto.

E foi por isso que, quando aquele homem com fenótipo oeste-europeu e sotaque francês bateu na porta da frente do quartel-general e disse que tinha uma adesão, tive a certeza de que não era um Interpol disfarçado. Porque Grenko pessoalmente abriu a porta para o homem, apontando-lhe um rifle e olhando-o no fundo dos olhos.

Olhos de gatuno, foi o que Grenko me disse, quando perguntei-lhe como sabia que não era uma armadilha. Olhos de gatuno, segundo ele, podem ser encontrados em bandidos, terroristas, assassinos, ladrões, mercenários e até mesmo em alguns políticos. Nunca em policiais ou agentes da lei. Uma forma de olhar para as pessoas e para as coisas que as pessoas portam e para as coisas ao redor das pessoas. Mais do que tudo, acredito que Mardov se impressionou com a audácia do sujeito.

O misterioso homem se apresentou como Jean Jacques Perrault, certamente um nome falso. Ex-assassino da máfia francesa, ex-mercenário no Taliban. Dizia ser capaz de derrubar doze homens armados e de liderar qualquer grupo de assalto. Grenko gargalhou e lembro-me do sujeito limpando a saliva que voava da boca de Grenko enquanto ria. Lembro-me de ver Grenko saindo da sala e ordenando aos mais de vinte que lá estavam junto comigo para que matassem o homem e jogassem seu corpo aos cães.

Mas, com muito mais nitidez, lembro-me de ver aquele homem desarmar, fraturar e nocautear mais de vinte homens e, de tudo, nada me é mais claro na memória do que o momento em que ele quebrou meu braço esquerdo em três partes distintas. Chutou nossas costelas quando caímos no chão, descarregou um fuzil nas paredes da sala como quem desafia qualquer um a se opor, e gritou por Mardov.

Mardov atendeu-o prontamente, caindo de um salto pelas costas do homem, e eu pude ver sua faca enterrando fundo e rasgando generosa a carne do intruso, lavando com seu sangue um capanga caído. Acreditei que aquilo encerrava tudo e que então Grenko nos daria um longo e violento sermão sobre como somos fracos.

Deixei de acreditar naquilo quando vi o homem se levantando com a mão sobre a barriga e notei que o ferimento havia simplesmente desaparecido. O homem misterioso que se chamava Perrault era um deles, um dos inumanos, que a mídia chama Geneativos.

Ele se levantou e, no minuto que seguiu, trocou socos e golpes com Mardov. Quando pareciam cansados, Grenko acenou e disse que já bastava. Parecia, ao menos para mim, impossível acreditar naquilo, mas o homem ganhou a confiança de Grenko Mardov exatos quarenta e dois minutos após entrar pela porta de sua casa.

“Ei, Yulav, o chefe ainda não saiu?”

Meus pensamentos se interrompem com a voz de Boris. Ele, como eu e como todos, não está se sentindo nada confortável com isso. Grenko e o homem já a duas horas trancados sozinhos na sala de reunião. Já escutamos um tiro, uma janela quebrando, e uma gargalhada. De resto, mais nada. Não é o primeiro negociante livre que chega aqui, mas é o primeiro que negocia com Mardov sem estar rodeado por armas.

“Teremos que esperar, Boris. Eu confio em Mardov, mas também estou curioso para saber o que esse francês quer”.

Innuendo

Em 1947, na pequena cidade de Roswell, nos Estados Unidos da América, uma experiência envolvendo alguns dos maiores cientistas do mundo e um artefato de origens e propriedades desconhecidas desencadeou uma sucessão de eventos que, nas décadas seguintes, daria início a uma Guerra Fria de supersoldados e arquivilões que mudaria por completo e para sempre o destino do pequeno planeta Terra e de alguns de seus patéticos habitantes. Não para melhor, na maioria dos casos, e não de quaisquer de seus patéticos habitantes. Na verdade, apenas alguns poucos – predestinados, eleitos ou simplesmente condenados – de qualquer sorte de poder – humano ou superior – que o colocasse em condição de ver ligeiramente através das paredes de vidro negro. A presença de super-humanos nas principais agências governamentais de Inteligência do mundo cuidou , nos quase 70 anos que hoje nos separam da infeliz e audaz experiência de Roswell, para que tais eleitos tivessem seríssimas dificuldades em agir furtivamente na Terra de 2017. É claro que medidas como aquelas eram absolutamente necessárias, visto que mesmo assim não era possível conter por completo os movimentos desses predestinados. Alguns deles se infiltravam em organizações para-governamentais de iniciativas ocultas para buscar proteção. Outros, tentavam unir-se para somar possibilidades. Existiam, no entanto, alguns condenados que haviam entrado no jogo por acidente, e agora precisavam manter-se vivos. Eram em geral pessoas com poder demasiadamente insignificante para interessar a qualquer grupo de poder, e ao mesmo tempo perigosos e traiçoeiros demais para conseguirem aliados. A essas pessoas, os mais desgraçados de toda a Tragédia Roswelliana, restava cavar buracos até os mais profundos confins da Terra e, de lá, tentar mover suas peças em um tabuleiro de xadrez infinito onde cada peça – cada reles peão – é um jogador.

Grenko Mardov era um desses homens. No ano de 2017, seu grupo de extermínio conseguiu recrutar um jovem com habilidades sobre-humanas. Ninguém soube detalhes de como isso ocorreu, mas nos meses seguintes, o grupo de extermínio de Grenko Mardov decuplicou em contingente e influência. Havia entrado, em Agosto de 2017, na lista dos 50 mais procurados da Interpol, e sua lista de crimes superava até mesmo a de países em que era procurado. Sem poderes que o mantivessem a salvo de olhos e garras hostis, Mardov buscou segurança isolando-se no lugar mais obscuro e remoto que conseguiu encontrar na Terra.

Duchambe, 02h11min AM, GMT+5, hora local.
Tente imaginar becos escuros, de poucos metros de largura entre paredes de pedra irregular e madeira rota e úmida, chão de uma terra vermelha seca a ponto de agredir as narinas de alguém pouco habituado ao árido. Ao longo dessas ruas, homens, mulheres, velhos, crianças e animais partilham em total igualdade da glória do Grande Allah e da desconsolante miséria da menor e mais pobre nação da Ásia Menor. Dos seus pouco mais de sete milhões de habitantes, mais da metade vive em situação de insustentável e deplorável pobreza. Seus fiéis súditos de Allah, os Tadjiques, ainda se recuperavam de uma guerra civil que a menos de duas décadas devastara toda a pequena nação do Tadjiquistão. Seus habitantes, árabes, persas e russos ainda remanescentes, resquícios da Guerra Fria, viviam um governo de desmandos e corrupção que deixava poucas portas abertas ao progresso e muitas a interesses de homens como Grenko Mardov.

E foi em um daqueles becos, escuros e imundos, de odor transitando entre suor, excrementos e ópio, iluminado por uma ou outra rara lamparina a óleo e pelas estrelas de um céu limpo como a Terra jamais seria, que Claude Monet Nistelroy, trajando vestes locais pobres e intencionalmente surradas, olhou ao redor e perguntou-se como diabos encontraria aquele homem naquele inferno.

É bem verdade que qualquer homem, honesto ou bandido, cristão ou muçulmano, veria em tal paradigma um problema insolúvel. Claude não conhecia sequer o centro de Duchambe, a capital do Tadjiquistão, quanto menos sua periferia. As ruas eram incubadoras de assassinos, prostitutas, mercadores de ópio, vigaristas em geral e toda sorte de ladrões. Pelo menos com a última casta Claude estava bem habituado. Os adeptos da vida fácil de Duchambe não podiam, afinal, ser tão diferentes dos de qualquer outro lugar. Além disso, Claude não era qualquer homem, não era um bandido e tampouco um homem honesto e nunca fora cristão ou muçulmano.

Não falar sequer uma palavra do idioma local, uma variação moderna do persa chamada Tadji, também não era exatamente um problema para quem sabia se comunicar com o corpo. Um olhar ameaçador, uma mão que rouba Somonis do bolso de um Tadjique para estendê-los a outro, alguns eventuais e inevitáveis golpes, sempre tomando cuidado com velocidades excessivas, e a capacidade de pronunciar em voz baixa o nome de Grenko Mardov, foram suficientes para que antes do nascer do Sol o londrino com nome francês e sobrenome holandês chegasse ao pequeno sobrado de pedra com grades altas e grossas de ferro arcaicamente enferrujado.

Sabia que estava agindo precipitadamente, sabia que entrar em sigilo no Tadjiquistão, perguntar pelo nome de Mardov nos becos do submundo, roubar, espancar e ameaçar seus homens e bater à porta da frente do covil de um homem que foge de algumas das mais poderosas instituições do mundo, não era exatamente o que se chamaria de um plano prudente e bem arquitetado. Mas Claude sabia improvisar, sabia pensar rápido, e tinha consigo que somente isso poderia mantê-lo no controle da situação toda.

Com movimentos felinos e inauditos, ele se esgueirou escondeu, saltou por sobre grades e nocauteou dois guardas do portão sem emitir um único ruído. Pegou suas armas, os amarrou ao portão e, com a maior naturalidade que seu amadeirado semblante permitiu, acendeu um charuto, caminhando até a grande porta igualmente amadeirada da frente, batendo nela com três pesados golpes. Uma pequena janela de deslizar correu lateralmente, revelando um par de olhos azuis e um cano metálico que parecia de uma .45 norte-americana. O homem grunhiu algo interrogativo em idioma Tadji, que Claude incompreendeu por completo. Deu uma longa tragada no charuto. A fumaça esvaiu, revelando aos olhos azuis um Claude de cabelos grenhos e ensebados, sujo, malcheiroso e que não fazia barba a mais de uma semana. Tirou o charuto da boca e disse aos olhos e ao cano, no mais puro e legítimo inglês que conhecia.

“Diga ao senhor Mardov que ele tem uma adesão”

The Adorable Cricket - Parte X - Final

Quando finalmente se acostumou com a luz, a Salteadora ficou realmente assustada. Estava cercada de super-heróis, ou, mais precisamente, dúzias de posters e action-figures de super-heróis. Tentou se levantar, mas uma dor enorme nas costas decidiu que não era uma opção viável.

"Olha só! Acordou a Cinderela!" falou Josh. Girou a cadeira para se acomodar melhor e fechou o notebook. "Como está se sentindo?"

O rosto da menina apresentava um misto das expressões não-consigo-coçar-aquele-cantinho-costas e da famosa quem-é-você-e-onde-estou. "Quem é você? Onde estou?" Ela tentou mover os braços, mas além da dor, eles estavam sob toneladas de cobertores quentinhos, e algo dizia que seria melhor se manter aquecida. E algo lhe dizia que o rapaz não tinha assistido filmes da Disney o suficiente para saber quem era Cinderela.

"Eu sou um amigo do Carismático Cricket! Ele te trouxe aqui e disse para te tratar bem. Você está no meu quarto, eu até limpei as coisas, não é sempre que uma garota bonita vem aqui." Ela corou, mas provavelmente foi mais raiva que qualquer outra coisa. "E você se machucou muito, os médicos disseram que vai ficar de cama por um bom tempo..."

"Médicos? Não, eu... eu preciso sair daqui!" Disse ela, tentando se levantar novamente e quase gritando com o esforço. "Droga, você não entende, os médicos não podem me examinar, eles vão..."

"O Precavido Cricket me disse que pensou nisso quanto te trouxe pra cá. Ele só te levou para o hospital por causa dos ferimentos, mas assim que os médicos disseram que estava estável, ele fugiu com você do lugar." Josh sorria como um gato, se gatos pudessem sorrir. "Mas você deve estar com fome! Quer que eu faça uma sopa?"

"Olha, eu agradeço o que você está fazendo, mas eu não posso ficar aqui! Você não entende, eu..." ela estava realmente preocupada com o fato de não poder se mover.

"Bom, vou trazer uma sopinha então." Josh saiu do quarto.

Os minutos seguintes foram tentativas frustradas de se levantar, constatação de que não conseguia sentir as pernas e o incomodo cheiro de xampu estranho em seus cabelos. Finalmente, seu corpo começou a responder aos estímulos. Sentiu uma dor horrível quando sua espinha começou a apresentar sinais de melhora, mas era assim que tinha que ser. Sentiu-se feliz quando sentiu que os pés estavam quentinhos.

Por fim, Josh entrou no quarto com um prato de sopa quente e um copo d'água. Teria trazido um suco ou refrigerante, mas não sabia o que a menina gostava. "Aqui, uma sopinha bem sonsa. Você não é alérgica a batatas, é?"

Ela sorriu. Josh se sentou do lado da cama e colocou gentilmente um guardanapo sobre o cobertor. Ele com certeza teria dado sopa na boca dela, não fosse pelo fato da menina ter cambaleado pela cama e, num movimento rápido, estar segurando ele contra a parede, apoiando o braço em seu pescoço.

"S-se você não g-gosta de batatas - ufff - eu também tenho pizza!" Disse Josh, tentando se manter respirando. Ela não apertou forte o suficiente para machucá-lo de verdade, mas a menina era muito mais forte do que aparentava. Do tipo de força que arranca do chão um homem crescido e o arremessa metros adiante.

"Chega de brincadeiras! Onde eu estou?" Ela apertou um pouquinho mais. Josh pensou que até poderia sair, mas não era uma boa idéia destruir o quarto para algo tão besta.

"Newark - coff - N-newark! Dá pra pegar o trem pra New York daqui, não é nem meia hora!" Ele colocou as mãos no braço dela, tentando empurrá-la, mas não fez muita força. "Você - arff - v-você não faria a gentileza..."

"O que?" Ela então notou que o rapaz estava vermelho, e o soltou. Ela corou, envergonhada, por alguns segundos. "Desculpe-me, não sei o que deu em mim. Mas quem é você, afinal?"

Ele retomou a respiração e esperou um pouco antes de falar, como se estivesse tomando fôlego. "Eu me chamo Josh, sou amigo do Memorável Cricket, já disse." Respirou mais um pouco. "Ele disse que você havia se ferido e que não podia deixá-la no hospital, então pediu para que eu cuidasse de você!"

Ela pensou alguns instantes. Sentou-se na cama, como se soubesse que pudesse confiar em Josh. Ele a achava bem atraente; cabelos dourados, olhos azuis e corpo atlético. Usava aparelho, era verdade, mas não se importava.

"Que horas são?"

"Umas duas e meia."

"Então eu fiquei apagada por quase meio dia. Parece que tomei uma surra... quer dizer..."

"Um dia e meio. Hoje é domingo."

"Que?" Ela pulou novamente, e ele se protegeu instintivamente com os braços. "Não, eu não acredito! Meus pais vão me matar! Eu tenho que ir embora!"

"Eu posso te dar uma carona, se quiser. Quero dizer, posso te acompanhar, eu não tenho carta de motorista ainda. Ou você pode telefonar!" Ele disse, pegando as coisas que havia derrubado no chão. Ela se desculpou novamente.

"Eu... não sei como agradecer, mas eu preciso ir sozinha. Eu, eu tenho que fazer umas coisas. Eu já estou bem, não precisa se preocupar." Disse ela. Na verdade, ela se sentia tão bem quanto se sente a maioria das pessoas que entra na emergência de um hospital, mas não podia esperar.

Eles comeram o resto da Pizza do outro dia e conversaram sobre o tempo. Josh emprestou roupas, mas ficaram largas. Os tênis particularmente saiam dos pés. Era estranho estar vestindo as roupas de um menino, mas ela procurou não pensar nisso. Ele a acompanhou até a estação de trem comprou a passagem e deu-lhe o dinheiro para o ônibus.

"O Confiável Cricket disse para você esperar ele hoje à noite, onde se encontraram da outra vez. Ele está com suas coisas, acho que vai ficar contente em poder devolvê-las." Disse Josh.

Ela sorriu. Ficaram se olhando por alguns segundos, até o trem apitar. Ela então deu um passo à frente e deu-lhe um beijo rápido nos lábios. "Obrigado por tudo!" disse, e entrou no carro sem olhar para trás e partiu. Seis metros dali estava a vizinha Sally, que havia seguido o casal, querendo saber quem era a garota estranha que estava com Josh. Ela saiu correndo chorando antes que Josh pudesse notar sua presença. Alias, Josh não notou nada por uns bons três minutos.

...

Naquela noite, Cricket estava esperando. Estava no topo da torre da antena, comendo um cachorro quente com cebolas e mostarda, típica iguaria da Grande Maçã. Perdeu-se nos pensamentos (e na música em volume absurdo que tocava em seu iPod).

"Desculpe o atraso" disse ela "Fiquei presa no transito". Cricket se assustou novamente e caiu da torre de metal. A Salteadora pulou na mesma direção.

"Ah, oi! O Preocupado Cricket adoraria saber se está tudo bem com você." Ele se levantou e limpou a roupa. Por sorte, os poderes (e a experiência em cair de lugares altos) permitiram que ele não se machucasse.

"O que você queria falar comigo?" ela disse, meio desconfiada.

Cricket saltou novamente na torre; a menina se assustou um pouco. Ele caiu uns segundos depois, segurando uma sacola. "Aqui, suas coisas. Eu costurei o uniforme, se não se importa."

"Eu... obrigada". Ela pegou. Mexeu nas coisas e notou que a bolsa ainda estava lá, com as coisas que tinha pegado. "Você... por que você..."

"Precisamos confiar uns nos outros se queremos sair vivos nessa linha de trabalho. O Informado Cricket sabe sobre os remédios. Não geram dependência, não são alucinógenos. São perigosos, no entanto. O Preocupado Cricket acha que você deveria contar a verdade." Ele estava sério.

Ela se sentou no parapeito do prédio. Cricket a acompanhou. A cidade parecia um oceano de pequenas luzes. "Você está certo. Seu sei que é pedir de mais para confiar em mim, mas... bem, eu vou contar tudo, desde o começo."

E contou. Cricket podia sentir a sinceridade nas palavras. Pensou que Cricket & Salteadora realmente não sairia tão ruim nos jornais. Bem, eles pelo menos poderiam se aliar quando ele viesse para Manhattan, não é mesmo?

The Naïve Cricket - Parte IX

Entrar numa sala de emergência com uma garota ferida nos braços seria uma cena de filme, não fosse pelo fato de ambos estarem fantasiados. O mais incrível é a estranha capacidade dos médicos plantonistas ignorarem todos os detalhes estranhos e prepararem imediatamente uma sala de cirurgia.

"Estavamos saindo de um baile a fantasias" disse Josh ao policial "Ai quatro ou cinco caras nos cercaram, queriam o dinheiro... ah seu guarda, eu não consigo me concentrar, eu estava assustado"

O policial assentiu com um sorriso. "Meu bom garoto, você é corajoso de mais. Todo ferido, ainda trouxe a namorada nos braços. Com certeza vamos pegar esse vândalos, a polícia vai fazer o possível!" e saiu do quarto.

Josh estava com várias bandagens, cortes costurados e recebia uma transfusão de sangue. Ainda era três da manhã, e esperava notícias da Salteadora. Além de inventar umas bobagens para manter os policiais ocupados, era só fazer o papel de garoto assustado de mais para entender qualquer coisa e não fariam perguntas.

Não era a primeira vez que teve de ser costurado. Falando a verdade, era a quarta só esse mês. Por alguma sorte, seus ferimentos se cicatrizavam muito mais rápidamente que o das pessoas comuns. Na outra semana, havia tomado um tiro no ombro; hoje não havia nem cicatriz. Sabia que tinha que ser rápido e sair pela janela assim que estivesse se sentindo melhor, mas não podia deixar a Salteadora sozinha. Ele precisava ver ela, precisava falar com ela. Não queria que ela... não podia deixar que morresse sozinha. Os ferimentos dela eram muito graves, disseram os médicos.

"Senhor Parker... Parker Kent, é você? Sua namorada está estabilizada. Foi um milagre cirurgico, eu ainda não entendo o que aconteceu. O ferimento desviou dos orgãos vitais, não houve sangramento interno, ela realmente foi abençoada!" disse um médico ainda com marcas de sangue na roupa.

Josh quase pulou da cama. Depois, conversou com o médico. Sua namorada, "Mary Lane", estaria livre do hospital em uma semana, apesar de provavelmente permanecer esse período inconsciente. Provavelmente teria de fazer muita fisioterapia, pois a ponta da flecha raspou na espinha; teria dificuldades para se mover por meses. Mas apesar disso, estava estabilizada e não corria risco de vida.

Claro que Josh já estava pensando adiante. Ele havia visto a menina tomar o disparo, e era impossível que a flecha tivesse desviado de qualquer orgão vital. A solução lógica era que ela, assim como ele, se curasse mais rápidamente que pessoas comuns. E claro, isso trazia uma nova série de problemas. O que os médicos diriam quando ela começasse a se recuperar milagrosamente, apesar do acompanhamento próximo? Será que lembrariam que eles entraram no hospital vestidos de super-heróis?

Cricket não pensou nisso por algum tempo. Pelo menos não até o trem parar na estação final em Newark. Incrível como as pessoas não notam uma menina inconsciente com roupas de hospital às cinco da manha num trem que vai contra o fluxo.

The Instable Cricket - Parte VIII

A vantagem que super-poderes dão em uma briga é assunto para lendas. Para Cricket, era como se o mundo fosse feito de papel e se movesse em câmera lenta. Nunca havia lutado assim antes, movido apenas pelos instintos. Os anos de Kung Fu haviam apagado esse seu lado, acreditava. De certa forma, era louvavel como mesmo em fúria, seus golpes mantivessem todas as características do estilo.

O Alvejador ainda sim era um adversário bem mais que digno. Estava com quatro costelas quebradas, parcialmente surdo e com o ombro deslocado. Ainda sim, havia enfiado vários dardos e lâminas no adversário, e não parecia nem um pouco interessado em parar. "Aceite, garoto, você vai sangrar até morrer, não importa o quão violento você seja sobre isso." Parecia manter a confiança, da forma que fazem os profissionais diante de um problema que já resolveram mil vezes. "São os fatos!"

Cricket não respondeu. Na verdade, nem escutou, nem sentiu as feridas em seu corpo escorrendo sangue. Manteve-se avançando, mesmo sabendo que tal atitude taurina não seria nem um pouco saudável. A única coisa que podia pensar era que alguém havia sacrificado a própria vida pela sua, e que não era uma troca justa.

"Você não tem chances de vencer, já está fraquejando. Nem com toda a força e velocidade do mundo você vai -" mas o Alvejador teve que parar de falar. Exige extrema perícia para se falar com o maxilar quebrado, e essa era uma das habilidades que ele nunca havia tido tempo de treinar. Cricket aproveitou o silêncio oportuno para desferir mais um golpe, arremessando o vilão na parede metálica do barco.

"Você já era! Eu vou quebrar você de um modo que você nunca mais consiga jogar nada! Nem video-poker!" E chutou o vilão no estomago. O Alvejador era profissional o suficiente para saber que agora tinha cinco costelas quebradas, e mais duas trincadas.

Cricket olhou com furia para o inimigo caido e cerrou os punhos. Seria extremamente fácil esmagar o crânio desse monstro, nem a mãe dele iria sentir falta. Tremeu as mãos, ameaçou, mas não conseguiu. Não conseguiu desferir um golpe fatal.

"Egah ixda dida..." apontou o Alvejador, ainda fortemente abalado pelo impacto.

"O que?" Cricket parecia reconsiderar o golpe fatal.

"Eua... a meinha... a medina... eua izda ziza" apontou novamente. "Zi voze gorrer vode zaubar a ziza deia..." o Alvejador parecia ter encontrado uma forma de permanecer vivo.

Cricket olhou para trás. A Salteadora estava encostava numa estante, sangrando. Parecia se mover, se tivesse tentado arrancar a flecha do peito e desistido. Gemia levemente.

Foi o suficiente para o garoto sai correndo. Agarrou-a nos braços e sorriu. Saltou pela abertura no teto e avançou pelos prédios da cidade em direção à um hospital. A vantagem que super-poderes dão em assuntos de vida ou morte também é assunto de lendas.

The Lone Cricket - Parte VII

A Salteadora lutava com a graça de um rinoceronte míope numa loja de cristais, notou o Perceptivo Cricket. A menina batia com a confiança de um caminhão cargueiro nos pobres bandidos desalmados, num ritmo que dava um pouco de dó.

Diferente de Cricket, ela preferia atacar pelas sombras. Subia pelos caixotes do porto e caia com os pés no peito dos pobres infelizes que haviam feito pobres escolhas vocacionais como se fosse feita de pedra. O interessante é que era tão ágil que poderia ser usada como parâmetro para imaginar o que aconteceria de Bruce Lee usasse Crack, caso Bruce Lee lutasse como uma menina nervosa. Na verdade, era a total falta de técnica aliada aos movimentos rápidos e de força extrema que faziam que Josh prestasse mais atenção nela do que na luta.

Cricket, por outro lado, era instrutor honorário de Kung Fu, estilo do Louva-Deus. Seus golpes, aliados com todo aquele Parkour que aprendera e ao uniforme davam a impressão de se estar lutando contra um grilo gigante e tagarela. "O Moralista Cricket vai fazer uma palestra sobre armas de fogo..." E distribuiu uma dúzia de golpes em um dos homens. "... no auditório da penitenciaria estadual!". Chutou numa pirueta o último dos homens, e sorriu. "Bem, bem, Salteadora! Parece que formamos uma bela dupla, você e o Amigável Cricket!".

Não houve resposta.

Cricket tentou senti-la com o Sentido-Cricket, mas havia simplesmente sumido. Fez silêncio (inclusive chutando um dos homens que estava gemendo no chão) e tentou se concentrar. Talvez por isso, ainda esteja respirando.

Uma seta do tamanho de um lápis 02 cortou o ar, e Cricket teve menos de uma fração de segundo para tirar seu corpo da reta; a seta quicou por entre as caixas e retornou, mas Josh conseguiu evitar o disparo saltando uma dúzia de metros para cima. Isso deu tempo para encontrar seu agressor, que estava parado no telhado do armazém onde ele e a Salteadora estavam momentos antes.

"Agora fique parado ai, que vai ser só uma picadinha, não vai doer nada!" O Alvejador era um homem mais alto e forte do que parecia nas fotos de seu site. O uniforme, no entanto, era mais feio. Preto e amarelo, numa seqüência de alvos desenhados. Usava óculos amarelos (o Plagiavel Cricket sentiu-se ofendido) e possuía uma quantidade enorme de armas à distância penduradas pelo corpo, das quais um enorme arco de caça era o menos discreto. "E pode escrever na lápide que foi o Alvejador."

Ficar parado não era uma das especialidades de Cricket. Ele não tinha nenhuma vocação para a coisa. Desviou com certa facilidade dos dois primeiros disparos, mas a terceira seta rasgou o kevlar leve da armadura corporal e perfurou sua coxa. "Ah! Seu f-" profanou Josh enquanto caia no chão.

"Olhe o linguajar, moleque. Eu acertei a artéria femoral com um dardo oco. Se você tentar remover, ele vai abrir a ferida. Se deixar ele ai, ele vai servir de canudo para o sangue sair. De uma forma ou de outra, você vai morrer por sangramento em três minutos." O Alvejador empunhou o enorme arco e preparou cuidadosamente uma flecha com aspecto de poucos amigos.

"É veia - hugh - seu inculto." Disse Cricket, enquanto apertava o ferimento.

"Como disse?" falou o Alvejador num tom de desinteresse.

"Veia Femoral. A - aarg - artéria femoral é do outro lado. Não teve aulas de biologia não, lá no cursinho para capangas do mal?" Cricket esperou o Alvejador demonstrar um sinal de fraqueza por um segundo, devido à provocação. Saltou imediatamente, com a maior dor do universo lembrando que havia um corpo estranho afundado em sua perna.

O Alvejador atirou uma flecha de surpresa. Uma excelente surpresa, ela atingiu em cheio a mão esquerda de Cricket, perfurando-a fora a fora. Mas Josh já estava preparado. Com toda a força do mundo, ainda no primeiro instante do pulo, bateu as canelas uma contra a outra. Um ruído enorme tomou conta do lugar, mil vezes mais estridente que giz raspando na lousa. Foi suficiente para destroçar as tábuas do cais e explodir vidraças próximas. O vilão perdeu o equilíbrio por um instante, deixando cair o arco; havia sangue saindo de seus ouvidos.

Era o tipo de distração que Cricket precisava. Não iria conseguir enfrentar o cara sozinho, não estando tão ferido. Não de frente. Dar uma surra no Morsa e seus capangas era quase que uma terapia, mas lutar com um assassino treinado não era nem um pouco divertido.

Seguiu seu instinto e entrou no navio. Podia sentir o perfume da Salteadora no ar. Amassou o cilindro de metal para evitar que mais sangue saísse de sua perna, arrancou a flecha da mão e gritou mais palavrões do que havia nos últimos dois meses combinados. Correu por entre o convés da embarcação, um cargueiro pequeno e enferrujado. Teve certeza de sentir a menina no andar de carga, e se jogou sem pensar.

A Salteadora estava lá, e mais dois homens caídos no chão. Ela estava de frente a uma das várias prateleiras de suprimentos médicos, mas fazia algo estranho. Jogava desesperadamente caixas de alguns dos medicamentos em uma bolsa que carregava por baixo do manto. Ela notou Cricket, e deixou cair vários pacotes, assustada.

"Eu posso explicar! Não é o que parece!" Ela disse, aflita.

"Não é o que parece, é? Eu quase morro pra te ajudar e você é uma ladrazinha mentirosa que só queria um palhaço pra enganar, não é isso?" Cricket estava tão furioso que estava falando em primeira pessoa. Como qualquer pessoa sensata, odiava ser enganado. Andou na direção dela num passo meio autoritário, meio coxo.

"Espere! Eu preciso desses remédios, você não entende! A minha vida é um inferno por causa dos poderes, eles são descontrolados! Se eu não me medicar eu vou enlouquecer, ou morrer!" E apesar do suplício, não parecia mais que uma ladrazinha drogada agora. Ela parecia assustada de mais para correr.

"Olhe aqui, suma da minha frente, você tem sorte de eu estar ferido! Mas da próxima vez que te ver sujando o nome de uma heroína de verdade, vou te entregar em papel de presente para a polícia!" Cricket deu um soco numa das estantes, que caiu, derrubando tudo que estava lá. O barulho de metal batendo em metal era muito forte.

Era tão forte que não ouviram quase 100 kg de mercenário cair na sala. O Alvejador ainda tinha sangue escorrendo dos ouvidos e das narinas. Não fosse o capacete especialmente projetado, Cricket estaria na mesma situação. "Bem, bem, cavalo dado não se olha os dentes. É hora de fechar a cortina!" e disparou.

A flecha cortou o ar, passando por entre uma prateleira, indo numa reta perfeita em direção ao coração de Cricket. Um a um, foi passando pelos oito metros de obstáculos que separavam o herói do vilão, estourando pacotes de remédios e zumbindo voraz. Por fim, atravessou-lhe o peito, derrubando uma linha de sangue logo atrás.

Cricket olhou assustado. Havia sangue em sua máscara. A Salteadora caiu em sua direção, segurou-a pelos ombros. Ela sussurrou bem lentamente, engasgada. "Eu n-não sou uma má p-pessoa — urhn — eu só achei que não ia f-fazer mal a n-ninguém se... se eu — ahgh — se eu... p-por favor..." e caiu pesada.

Ele a abaixou lentamente no chão e levantou-se mais furioso ainda. Ela havia se sacrificado por ele, mesmo depois do que ele dissera. Não era certo. Não podia ser assim. "Péssima jogada, cara. Péssima jogada."

The Amused Cricket - Parte VI

Saltar veloz pelos cânions de vidro-e-aço que é Manhattan? Fantástico. Transformar isso numa corrida não oficializada até o ponto mais distante da cidade? Diversão.

Cricket e Salteadora, eis um bom nome para uma dupla. Salteadora, pensou Josh, dava um nome bem razoável para uma ajudante. Ela teria de mudar o uniforme, com certeza: cinza-e-preto não combinavam com heroísmo. Faltava-lhe verde, que é uma cor bem mais nobre.

Queria ter conversado com ela durante o trajeto, mas se deslocavam de modos diferentes. Ele era do tipo que saltava feito um inseto, o que era de se esperar. Ela corria pelos parapeitos e atingia os terraços por pouco. Todo esse pensamento fez com que ele continuasse avançando, até, minutos depois, notar que já havia passado do porto. Retornou meio envergonhado, encontrando-a no telhado do armazém B-29, que ficava convenientemente no canto mais mal iluminado e isolado das docas.

"Ali embaixo, perto daquela barca enferrujada. Contei oito homens, mas nem sinal do Alvejador." Ela então olhou para os capangas, uns dez metros adiante. "Você sempre se perde assim?" Soltou, enquanto guardava um par de binóculos pequenos.

"Você sempre grita quanto pula?" disse o Afiado Cricket, enquanto discretamente alargava a roupa em regiões mais intimas. Arrependia-se da idéia idiota de usar roupas justas, que por mais que ficasse legal nas fotos, são frias, desconfortáveis e sempre te lembram se você comeu mais do que devia nos últimos dias.

"Em primeiro lugar, eu assustei por que eu escorreguei... umas vezes. E depois, o que tem de mais em gritar? Eu sou menina!" Cricket sabia que nessa hora, faltavam também sobrancelhas na máscara da Salteadora. "Preste atenção, aqueles caras estão armados. Aposto que tem mais deles por ai, e não vai demorar pra perceberem que estamos aqui! Vamos primeiro procurar os medicamentos, e ai vamos limpar a área pra polícia, entendido?"

Cricket colocou as mãos nas anteninhas no uniforme. Nem eram enfeites, mas potentes antenas de rádio que garantiam que estivesse sempre sintonizado com o canal da polícia, e que não perdesse o horário de piadas no final da tarde, entre outras coisas. Mas o uso de que ele mais se orgulhava eram os "Grilos no Sinal", um gerador de interferência num raio de 20 metros, por pelo menos dez minutos (ou menos, não lembrava se as baterias estavam recarregadas).

"O Atento Cricket está ciente do plano, mas gostaria de ter sua parte do acordo cumprida." Disse ele, ganhando tempo para analisar o ambiente com seu Sentido-Cricket.

"O quê? Não está vendo que estamos num ninho de cobras?" Talvez tenha passado pela mente dela que seria uma boa idéia colocar sobrancelhas na máscara, não fosse pelo tradicional senso de ridículo tão ausente em aventureiros mascarados.

"Bem, o Justo Cricket acredita que trato é trato, certo?" Ele arrumou as lentes da mascara como quem ajusta óculos; muitas pessoas não sabem, mas lentes amarelas ajudam a ver melhor no escuro. Quando se tem tanta paciência quanto Josh, é fácil colocar ajustes focais discretos para usar como luneta ou lente de aumento, conforme a necessidade. "Qual seu sorvete favorito?"

"O quê?" ela disse, quase esquecendo de que tinha que sussurrar.

"Qual seu sorvete favorito?"

"Você não pode estar falando sério! Eles vão nos matar!"

"Qual seu sorvete favorito?" Disse ele num tom mais melódico, quase musical.

"Ah, droga. Pistache. Eu gosto de Pistache." Nessa hora, talvez nem as sobrancelhas fossem suficientes.

Ele ainda estava se concentrando nos seus super-sentidos. Parte do truque para que ele parecesse fabuloso era que as pessoas nunca soubessem quanto trabalho realmente dava alguma coisa. Enquanto a Salteadora se mantivesse ocupada, ele poderia gastar o tempo refinando o mapa mental do cais em sua mente. Claro que na condição de rapaz adolescente, ele gastou mais tempo analisando a topografia da menina que do terreno de combate. "Qual sua música favorita?"

"Ah, não, pare com isso! Não vê o quão perigosa é nossa posição?"

"Qual sua música favorita?" Cantou ele novamente.

"Ah... Sweet Home Alabama, do Lynyrd Skynyrd! Agora chega disso, vamos acabar logo com esses caras!”Ela se colocou em uma posição da qual seria mais fácil se arremessar nos pobres infelizes contratados para fazer a segurança do lugar.

"O quê aconteceu com a antiga Salteadora?" Disse ele, pronto. Havia detectado mais dois homens que ela havia deixado passar, além de dezoito ratos, vinte e cinco baratas e uma colônia de cupins.

"Como assim, eu sou a única Salteadora!" Ela demorou, no entanto, mais de dez segundos para proferir tais palavras

"Sim, bem, então eu vou indo para casa, até mais." E fez que ia pular para longe.

"Não! Ei, eu respondi! Espera ai!"

"Mas não respondeu sinceramente, não é? Meu sentido Cricket sabe quando uma pessoa está mentindo", disse ele, quando seria mais fácil dizer que ela não parecia nada com a menina nas fotos.

"Ai, droga. Eu não posso contar! Eu prometi!" Ela parecia um pouco aflita com o fato de oito homens armados ainda não terem notado a presença dos dois tagarelas.

"Bem, se vai ser assim, o Decepcionado Cricket vai voltar para casa, afinal o Trabalhador Cricket tem que acordar cedo para salvar o dia..." E se ela caísse nesse truque, ela com certeza era a maior crédula da face da terra. Na verdade, ele já havia decidido que ia ficar no momento em que ela mandou bem no sorvete. Pistache é verde, e nada verde pode ser completamente ruim.

"Droga, ta bom. Eu... ela... ai, ai, droga, ela..." e ficou uns bons segundos balbuciando. "Ela morreu, está satisfeito? Ela era minha amiga, e morreu. Eu achei que o melhor que eu podia fazer era tomar o lugar dela." Parecia triste enquanto falava, chegando a engolir o choro.

Cricket colocou a mão no rosto dela (ou na máscara por baixo do manto) e sorriu. Não ligava se a menina tivesse demorado tanto tempo para inventar uma desculpa, nem do fato de não acreditar nela. Ela parecia realmente disposta para salvar o dia, e isso era o que importava.

"Bem, então, vamos lá. Você pega o da direita."

Ela olhou para ele, se recompondo. "Como assim, o da direita?"

Ele não respondeu. Na verdade, saltou duzentos metros para cima, caindo no meio dos homens.

"Senhoritas, seria aqui por acaso a bilheteria para o show da Amanda Fontana? Eu sou novo na cidade, sabe como é!" e aproveitou os dez segundos em que os homens ficaram paralisados para nocautear o mais feio deles.

A Salteadora ainda olhava atônita para a situação. Ele simplesmente pulou no meio deles. O moleque se jogou no meio de oito homens armados, cada um do tamanho de um cavalo pequeno, e ainda fez piada! Ele era insano, completamente insano! "Como assim, o da direita?!" resmungou ela.

The Nostalgic Cricket - Parte V

A Salteadora? A mesma das fotos? Ele não tinha o álbum, mas havia feito download; era o que todo mundo fazia. A essa altura, Cricket sabia com certeza que a garota que estava a sua frente não era a Salteadora das fotos.

O vento frio e o trânsito foram o único som que se ouviu na torre por quase um minuto.

"E então, Cricket, eu... olha, você vai me ajudar ou não?"

"A Salteadora? A dos jornais?"

"É sério, eu não pediria ajuda se não fosse importante, não assim! Eu queria pular toda a parte do brigam-e-se-aliam, nós estamos do mesmo lado!"

"Mas se você é a Salteadora, o que aconteceu com o uniforme? O que diabos fizeram com seu corpo?"

"Como assim? O que tem de errado com meu corpo?" e então mudou o tom de voz para algo menos nervoso "Você vai me ajudar ou não?" Ela saltou da torre, caindo há uns poucos passos de Cricket, sem arriscar nenhuma acrobacia para abafar o impacto.

"É verdade!" disse ele, ficando ereto. Quando Josh se esticava todo naquela roupa verde, parecia ser bem mais alto e magro do que realmente era.

"O que? O que é verdade?" disse ela, confusa e impaciente.

"É verdade que o Gramático Cricket vai ajudar-ou-não" apesar do trocadilho ter parecido bem melhor em sua cabeça. Cricket estava desconfiado de mais para abaixar a guardar, então usava o truque de sempre: ser confusamente irritante, para desconcentrar eventuais inimigos.

A menina bufou, ou ao menos, Cricket pensou ter ouvido-a bufar. Enfiou a mão no manto e tirou um punhado de papéis. "Você acompanha as notícias nos Fóruns? Alguém está roubando suprimentos médicos em New York, e traficando para Porco Rico. Metade dessas coisas são substâncias experimentais, e tem alto valor no mercado negro."

Cricket ouviu tudo atentamente. Fez uma nota mental de construir sobrancelhas para sua mascara; sentia uma falta enorme da capacidade de franzi-las nesse instante. Ao menos, sentia falta das pessoas saberem que ele o estava a fazer. "O Sensato Cricket acha que seria melhor chamar a polícia e as demais autoridades competentes para resolver esse problema..."

"Não! Eles não conseguiriam fazer nada! Olhe só" apontou para uma das fotos "Não reconhece? Esse é Bart Clinton, O Alvejador, lembra? Ex-atleta olímpico, forças especiais, e agora, mercenário. O cara tem um site com tudo isso!" ela foi mudando as fotos "Um assassino desse nível não seria contratado para guardar essa carga, a não ser que fosse algo mais. Capangas chamariam menos atenção, e são mais baratos!"

"O Confuso Cricket não compreende! Se os bandidos têm dinheiro para contratar alguém tão barra-pesada quanto o Alvejador, por que não gastar esse dinheiro para conseguir os medicamentos legalmente?" ele havia notado que a 'Salteadora' usava um perfume bem suave, e que provavelmente havia lavado os cabelos fazia poucas horas.

"É esse o ponto! Eles estão obviamente querendo fazer com que isso pareça contrabando de remédios! Meu palpite é que eles têm algo grande lá, sabe? Algo tão grande que estão usando os medicamentos como cobertura, caso sejam pegos!" Ela parecia ter certa empolgação na voz.

Cricket estava ligando as idéias. Essa seria à hora perfeita para ele ter se lembrado de trazer o comunicador que Cruzader e Liquid lhe deram. O Alvejador era um nível acima do que qualquer coisa que havia enfrentado. Mesmo com ajuda, ele não estava confiante. Ele tinha milhões de perguntas para a desconhecida, mas só tinha uma resposta - não podia confiar nela. Não inteiramente. Mas, se quisesse saber o que estava acontecendo, teria que jogar o jogo dela.

"Bem, bem, o Indeciso Cricket aceita ajudar" ele notou que ela pareceu aliviada "Porem, com uma condição. Você vai responder as questões do Curioso Cricket enquanto isso."

"Como assim? Quero dizer, eu..." ela parecia meio aflita.

"O Sensível Cricket sabe que se a donzela usa uma máscara, é por algum bom motivo. O Confidenciavel Cricket não deseja saber sobre a donzela por baixo da máscara, longe disso. Em nossa linha de serviço, o Curioso Cricket quer saber sobre a donzela mascarada." ele novamente estava pronto para pular para longe.

"Eu... bem, se você não perguntar nada sobre minha... identidade secreta, eu respondo." disse ela. Cricket era o único aliado que parecia ter, e não queria perder a oportunidade.

"Bem, então o Satisfeito Cricket está pronto! Quando partimos?" Disse ele. Não confiava nela nem um pouco mais do que quando achava que era um trote de internet.

"Agora. Para o porto."

The Exhausted Cricket - Parte IV

Josh saltou do trem assim que entrou em Manhattan. Literalmente.

Quando a gravidade finalmente se fez sentir, ele já estava no topo de um prédio de escritórios. O frio era terrível, nem mesmo o tecido térmico parecia fazer alguma diferença. Esfregou as mãos e vestiu o resto do uniforme, o que era saudável para manter a identidade secreta.

"Vamos lá, Cricket, sem timidez, você vai conhecer outro super-cara! Às vezes vocês podem até virar parceiros..." pulava de cobertura em cobertura. Às vezes, corria pelas paredes espelhadas de algum edifício por diversão. "Ou quem sabe um vilão novo para a galeria..." e lembrou-se de todos os avisos que Crusader e Liquid haviam passado no último sermão.

Chegar ao Empire State Building é extremamente fácil, quando se vai por cima. É possível ver o prédio de qualquer lugar da ilha, fazendo com que nem um idiota consiga se perder. "Ai vai o Nervoso Cricket cair numa pegadinha de um maluco de internet", gritou certo de que a 200 metros de altura ninguém o ouviria. E caiu graciosamente na beirada da torre.

Olhou ao redor. Céus, era uma queda monstruosa!, mas ele adorava isso. Nunca teve medo de altura, e o vento frio do topo-do-mundo aliado à vista assombrosa faziam com que se esquecesse de todos os problemas.

"Está atrasado", disse uma voz feminina. "Já passa da meia noite e quinze".

Cricket pulou de susto, trezentos e oitenta metros para cima. Demorou meio minuto para chegar de volta à torre.

"Ei, ei, ei!" disse, num tom de desculpa "O Pontual Cricket teve imprevistos no caminho!" Procurou pela mulher. Podia ver mais cores, ouvir mais sons e farejar mais odores que um ser humano normal, mas não tinha sentidos exatamente aguçados. Eram só um pouco diferentes. O "sentido-cricket", no entanto, que era extraordinário. Era como se seu corpo inteiro fosse uma antena para vibrações. Poderia mapear instantaneamente qualquer sala do mundo, desde que não fosse muito grande e estivesse moderadamente livre de entulhos.

"Cricket... eu li seu blog" disse ela. "Você é mesmo de outro planeta?" não era como se ele nunca tivesse ouvido essa questão. Na verdade, parte dele preferiria ter usado a história do grilo radioativo.

"Oh, sim, sim, o Alienígena Cricket viajou muitos anos-luz para chegar a esse planeta!" claro que o vento congelante atrapalhava tudo. Tinha quase certeza de que a moça estava escondida perto da torre de rádio, mas não podia dizer exatamente em que ponto. "Mas, calma lá! o Pwr@Pwr é um cara, quer dizer, um homem! Qual seu super-poder, você vira mulher? O Inquisitivo Cricket gostaria dessa resposta, donzela-cavalheiro!" disse, esperando localizá-la pelo som. Aprendeu esse truque cedo: tagarelar é ótimo para desconcentrar pessoas.

"Ei! Não! Eu sou mulher! Eu nasci mulher! Aquele profile é falso, não quero ninguém no fórum me tratando diferente!" disse, naquele tom de indignação que só técnicos de computador costumam usar. "Quero dizer, eu sou mulher mulher, mas aquele bando de nerds jamais me levaria a serio, iam ficar babando ovo!" mas não parecia conseguir explicar realmente.

Cricket pôde sentir, pela vibração do ar e do chão, onde ela estava. Mais ainda, pode sentir exatamente como ela era. Tinha entre 1,50m e 1,80m, pesava entre 40 e 60 kg, o que seria justamente o tipo de chute que qualquer pessoa, mesmo sem o auxilio de super poderes, seria capaz de dar. Certo, certo, não podia sentir exatamente, ela estava muito longe, e também estava ventando gelado!, Pensou ele, tentando consolar a si mesmo.

"O Paranóico Cricket gostaria de saber afinal, se você é... er... digamos, amiga ou inimiga? O Ofegante Cricket não gostaria de uma luta, está muito frio, e a corrida me deu fome..." falou, enquanto procurou por ela sem mover a cabeça. As enormes lentes que protegiam seus olhos (e metade de seu rosto) eram perfeitas para evitar que as pessoas soubessem para onde ele estava olhando. Claro que, há essa hora, ele já estava abaixado, como se estivesse se preparando para pular.

"Eu... olha, eu e você, a gente está do mesmo lado, ok? Pra falar a verdade, eu esperava que alguns dos caras da primeira divisão fosse aparecer... sei lá, o Lightning, o Sentinela..." disse ela, com um toque de desapontamento.

"Hey! Hey! O Ofendido Cricket pode não ser da primeira divisão, mas não precisa menosprezar! Mesmo heróis da segunda..." e ela interrompeu.

"Tecnicamente, terceira."

"Hey! Terceira já é maldade com o Menosprezado Cricket! Mas o Presente Cricket é tão herói quanto qualquer um, e só ele apareceu nesse encontro às cegas!".

"Oh, ok, desculpe. O que eu queria dizer é que eu esperava alguém mais forte. Eu sei que parece meio forçado, mas eu preciso de ajuda e o... digamos, o 'nosso pessoal', não é exatamente fácil de entrar em contato." Ela disse. "Eu acho que foi inocência minha, dei sorte de ter aparecido alguém conhecido, pelo menos. Mas... é que eu preciso de ajuda, de verdade."

Cricket estava com os braços apoiados nas pernas, ajustando levemente as luvas.

"Ora, mais é claro que o Disponível Cricket vai ajudar a donzela! Mas acho que é mais que justo que o Curioso Cricket tenha suas questões respondidas antes disso, não é?" ele disse. Ela concordou "Então, para começar, o Sagaz Cricket gostaria de saber... quem é você, ó donzela? Mostre-se!" A esse ponto, ele já estava preparando-se para pular para longe caso fosse uma armadilha.

Ela demorou alguns segundos, e então finalmente deu um passo para fora de seu esconderijo. Devia ter perto de 1,70m, e talvez uns 50 kg. Usava um manto comprido e um traje acinzentado por baixo.

"Eu sou a Salteadora".

The Reasonable Cricket - III

Passar o final de semana de castigo era um tédio. Estava, até segunda ordem, trancado no quarto. Claro que seria fácil para ele pular pela janela, mas não tinha coragem de fazer isso na vizinhança; alguém poderia ver, e ai, a coisa ficaria complicada.

Restava-lhe a internet. Atualizou o blog. "Mais uma vez o Brilhante Cricket salva o dia do Morsa", seguidos de uma série de fotos que recortou do jornal. Checou várias vezes para limpar seus rastros - aparentemente, o time de Crusader possuia bons hackers, e não queria que o encontrassem. Passou o restante do dia visitando os mesmos forums de sempre.

"Estou dizendo, o Impacto e o Through são a mesma pessoa, mas o Thunderboy é um cara completamente diferente! É só olhar nas fotos!" dizia Jess\^_^\NY. Josh achou bobagem. Havia conhecido Impacto pessoalmente, semanas antes, e tinha a teoria de que Thunderboy, o ex-parceito de Lightning, havia brigado com ele e se tornado independente. Ele parecia ser novo e inseguro de mais. Além disso, qualquer pessoa que lia forums de heróis sabia que Through era um ninja, e não um fortão. Era como dizer que o Sentinela e Lightning eram a mesma pessoa.

"Eu já catei a Sunshine" era um tópico com mais de três mil respostas feito por um alegado técnico do time de futebol da UCLA. Era só um super-herói ter identidade pública que qualquer um tentava dizer que se conheciam. Josh riu do post do infeliz, que dizia que inclusive a canadense o havia ameaçado de morte em tempos recentes. Claro que, por outro lado, Josh colecionava duzias de posters da tal Alisia...

"Eu estou te vendo" dizia o enigmático post de *\/*1*R*u*Z*. Josh achou esranho que um post sem respostas permanecesse em primeiro lugar de todas as páginas. Provavelmente um hacker engraçadinho.

"Todos esses super-caras são amigos, eles fingem essas lutas pra manter a gente assustado! Bando de ******, isso sim!" dizia B0b-Stuf3d. Josh perdeu meia hora escrevendo uma resposta muito boa, mas apertou voltar sem querer e perdeu o texto.

"Eu tenho super poderes, se você também tem, me encontre a meia noite de hoje no topo da torre da antena do Empire State Building", por Pwr@Pwr. Josh leu várias e várias vezes. As respostas eram todas debochadas, mas o tal Pwr@Pwr era um cara sério. Estava na comunidade fazia mais de um ano, tinha boas recomendações.

Ficou se remoendo o resto da tarde. Deveria ir ou não? Seria uma armadilha, ou apenas uma piada? Será que iria conhecer alguém com poderes que fosse de sua idade? Alguém que não tentasse convence-lo a parar de ser herói toda vez que o encontrasse? Era quase onze da noite, e se pegasse o trem agora, talvez conseguisse chegar em New York a tempo.

"Estarei lá - O Presente Cricket" e pulou pela janela, com o uniforme na mochila.

The Dynamic Cricket - II

Havia um punhado de coisas que Josh Sheldon não gostava. Cheiro de cigarro, refrigerante diet, macarrão e gatos. Ele também não gostava de música gospel, livros de auto-ajuda e de Gilmore Girls. E gelatina. Céus, a lista não era tão pequena. Mas provavelmente, disputando o primeiro lugar com macarrão, estavam os Super-Vilões.

Ele era o super-herói da vizinhança fazia uns 6 meses já; se ele fosse um dos figurões, como Lightning ou o Sentinela, provavelmente a coisa seria mais respeitosa, mas o fato é que tinha uma galeria de vilões. Bem, não eram vilões de notoriedade, como RDX ou Voltage. Não eram nem vilões menores, porém, assustadores, como o homem-de-lata-de-Paris. Seus vilões eram quase uma vergonha.

Primeiro, o Falcão Vermelho. Era um malandro qualquer que roubou um protótipo das armaduras dos MaxCops londrinos, ou algo assim. Depois, havia o Doutor Fantasma, um cientista louco especializado em truques de mágica, que roubava bancos e coisas do tipo. E claro, por fim, havia o Morsa, um mafioso local cuja aparência entregava o apelido. Céus, como odiava o Morsa.

Lembrou disso enquanto esquivava das balas dos capangas, e distribuia olhos-roxos. As vezes se esquecia de como pessoas normais eram frageis, e quase cometia alguma bobagem. Segurou um pouco a força e garantiu que O Morsa ficasse só inconsciente. A polícia cuidaria do resto.

"Não temam, senhores! O Prestativo Cricket acaba de salvar o dia... ou a noite!" disse aos refens que ainda estavam aterrorizados com o espetáculo. "Agora, por favor, queiram manter a paz enquanto o Paciente Cricket espera a polícia chegar para garantir que vocês vão estar em segurança!"

Ele odiava gritos, também. Droga, será que ele deveria escrever "Herói" em neon em seu peito? Nesse instante, o "Comunicador" tocou. E entenda-se por comunicador o fone de ouvido do celular escondido por debaixo da roupa.

"Josh Sheldom, onde diabos você está? A sua amiga Sally disse que você fugiu do baile!" gritou sua mãe. Josh saltou pela janela e escalou um prédio qualquer.

"Ah, mão, não é nada disso, eu já estou chegando em casa... é que, é que o clima tava ruim e..."

"E nada! Como você pôde deixar a Sally sozinha? O senhor vai ter que dar boas explicações em casa, rapaizinho!" Ela desligou antes dele falar qualquer coisa.

Ah. Sim. Ele odiava, provavelmente mais ainda que macarrão, o modo como sua mãe o tratava feito criança. Ah, se odiava.

The Awesome Cricket - I

A parte mais difícil da adolescencia eram, sem sombra de dúvidas, os super-poderes. Josh Sheldom jamais teria pensado isso meses antes, mas agora era o tipo de coisa que consumia seus momentos de monotonia. Era aquele tipo de pensamentos que ocorrem sem parar justamente quando não podemos fazer nada a respeito.

Sally Walters havia aceitado ir com ele ao baile, mas acabara de mandar uma mensagem de celular dizendo que havia mudado de ideia e que iria com Garry Trump. Justamente o Garry Trump que caçoava dele desde o jardim de infância. Justamente o Garry Trump que era o maior fan do Adorável Cricket em toda Newark.

Josh pensou na vida enquanto tomava um ar no pátio da escola. Todos os garotos legais estavam dentro do ginásio, no baile. Aqui fora, haviam apenas os nerds e outros que não tinham par. Droga, ele pensou. Ele não era exatamente um nerd! Fazia esportes! Le Parkour, Kung Fu, basquete. Ele no máximo era bom com computadores e ciências. E gostava de Jornada nas Estrelas. E tinha a coleção completa de X-Men. E jogava Dungeons & Dragons toda quinta-feira a noite. Céus, ele era um nerd.

Foi preso em pensamentos como esses que notou um brilho no horizonte. Um incêndio, provavelmente. Sirenes. O traje estava escondido no terraço de um predio seis quadras abaixo. Ah, sim, um pouco de ação.

"Josh... olha, desculpe, eu não sei por que fiz aquilo" disse Sally, docemente, enquanto se aproximava. "O Garry e eu temos história, mas... se você estiver disposto a perdoar, podemos dançar, eu... eu gosto de v..."

"Desculpa, Sally! Eu tenho que ir, a gente se fala na aula" disse ele, beijando a testa da menina. Josh saiu correndo pelos portões da escola, rezando para que ninguém o acompanhasse com a vista. Tirou o paletó e desabotoou as calças. Os sapatos já estavam em suas mãos. Se alguém estivesse vendo agora, pensariam que era um tarado correndo pela noite. Saltou então. Pelo menos trezendos metros para frente, num arco de mais de noventa metros de altura, caindo suavemente a uns poucos passos de onde guardara o uniforme.

Droga, ele podia estar com Sally agora mesmo. Mas alguém pode morrer se ele fizer isso. A parte mais difícil da adolescencia eram, sem sombra de dúvidas, os super-poderes.

Temporada de Caça

New Jersey. Madrugada. No segundo andar da luxuosa mansão dos Nistelroy, uma janela destoava acesa do restante da residência. Sentado na ampla poltrona de couro, vestindo pijama com os pés de pantufas sobre a mesa, Claude Nistelroy devorava um pequeno embrulho de comida chinesa com um par de hashi, enquanto com a outra mão operava o teclado do notebook em seu colo. Estava compenetrado, já fazia quatro horas ali, sem encontrar nenhuma pista. Parou por um instante quando um camarão frito escapou do hashi, despencando rumo ao chão. Desviou os olhos do computador e, em um movimento invisível, apanhou o camarão com os palitinhos antes que o mesmo alvejasse a tonalidade creme do carpete. Descompenetrado, olhou para o relógio. 2h13 am. Suspirou, frustrado.

Era inacreditável. Oito assaltos em um mês. Dois bancos na Suíça, três museus entre a Itália e a França, e acervos pessoais de arte no Canadá, na Rússia e na Inglaterra. Títulos de ações ao portador, diamantes, obras de arte super-avaliadas, sempre coisas que podiam se tornar milhões de dólares rapidamente. Nenhum rastro. Pouquíssimas informações concretas. Das oito vítimas, quatro eram clientes preferenciais da Nistelroy Security Technologies. Desses quatro, três tinham seguro parcial contra roubos, o que significou ao final do mês uma duplicata de 11 milhões de dólares à Nistelroy Security. Em um mês onde o Crusade já fizera um volumoso e milionário saque dos cofres da empresa para pagar aos Black Ops – e Claude não gostava sequer de se lembrar daquilo – era causa suficiente para tirar o sono e a tranqüilidade do jovem empresário.

Súbito, um estalo, um lampejo luminoso dentro da mente de Claude, e em seguida um lampejo luminoso no quarto, revirando papéis e deixando cair de uma vez por todas a comida chinesa no chão. A duzentos quilômetros dali, e se afastando rápido como um raio, o Lightning disparava em direção a Londres, local do último assalto. Uma vez diante do prédio, propriedade de um magnata inglês que perdera três quadros de Degas com o assalto, Claude rapidamente adentrou o salão, cena do crime. Aproximou-se do cofre, um USR-536, tecnologia de última geração. Haviam categoricamente três formas de se abrir aquele equipamento. Atravessando o metal, por força ou incorporealidade, abrindo o sistema com um modem remoto e tomando o controle do dispositivo – opção mais plausível, embora se tratasse de uma tarefa árdua, ou pela manipulação dos ferrolhos e mecanismos internos da trava por meio de ímãs hipercarregados. A terceira opção era, por incrível que pareça, mais improvável do que a primeira. Tanto porque ímãs desse nível eram muito difíceis de se conseguir quanto porque a habilidade necessária para executar tal peripécia era própria de, no máximo, quatro pessoas no mundo, e Claude era uma delas.

Levou a mão direita ao cofre, encostando nele um sensor e ligou-o a um pequeno computador que segurava. Um software simples começou a medir, em altíssima precisão, o campo magnético da superfície metálica, traçando um desenho sobre a tela. Muito mais indignado do que surpreso, Claude suspirou novamente. Fazia sentido. Fazia todo o sentido.

Uma semana mais tarde. Cidade do México. Madrugada. Em um quarto de hotel barato, deitado sobre a cama, Claude bebia um milk shake de chocolate, enquanto na tela do laptop ao lado, diversas leituras corriam pelo display. Vinte e sete sensores instalados na propriedade do bilionário mexicano Carlos Slim. Claude estava tranqüilo. Sabia a quem procurava, conhecia muito bem aquele jogo e isso lhe dava a segurança necessária para não cometer erros. Se suas suposições estivessem acertadas, seria exatamente ali o próximo roubo. Se estivessem erradas, estaria fazendo papel d idiota a milhares de quilômetros do lugar onde deveria estar. Sorriu. Sabia que não se enganava, e a confirmação veio quando os sensores dispararam alarmes de leitura no laptop. Levantou os olhos em direção da tela. Impressionante. Sem temperatura, sem barulho, sem imagem visível. Um fantasma.

Exceto pela alteração na pressão atmosférica do salão de jóias da família Slim. Claude gargalhou. Sentia-se daquela forma, como um gato que pegou o pardal, sempre que uma idéia nova da Nistelroy funcionava bem. Claro, fazia pouco sentido usar sensores de pressão atmosférica em um ambiente com imagem, som e temperatura já monitorados.

A menos que se tratasse da pessoa que Claude procurava. Um novo clarão, mais papéis voando e um milk shake sujando o assoalho, e o Lightning já estava diante dos jardins da propriedade.

Dentro da sala reservada às jóias, antiguidades e obras de arte da família Slim, o ambiente estava escuro, iluminado apenas por suaves lâmpadas vermelhas nas paredes. Eram suficientes para alimentar as câmeras de vigilância, e não agrediam desnecessariamente as pinturas expostas pelo ccômodo. Sem que ruído algum fosse emitido, a tampa superior do duto de ar condicionado se moveu. Uma suave e finíssima fumaça começou a espalhar-se em direção ao ambiente, revelando dúzias de filamentos infravermelhos que cortavam o salão em várias direções. Ágil e equilibrada como um gato, a figura sombria do invasor esgueirou-se pelo teto, evitando sensores e aproximando-se de uma das vidraças de exposição, onde era possível ver um amuleto de aparência Azteca. Deslizando do teto em direção a seu objetivo, silencioso e delicado como uma aranha, o gatuno pairou diante do vidro e começou a manusear alguns instrumentos eletrônicos. Ligou uma ponta cristalina a um pequeno dispositivo, e o ativou. Um campo circunferencial de laser de microcorte se formou, e um disco perfeito foi destacado da redoma. Com a frieza de quem já treinara muito aquele movimento, esgueirou a mão direita para dentro do vidro, apanhando e trazendo para junto de si o amuleto.

“Devo admitir, colega, que o gerador de campo acústico estacionário foi brilhante, e que o traje fotorefratário invisível ao espectro vermelho foi absolutamente genial ...” virando-se abruptamente para trás, o ladrão pôde ver a imponente figura do Lightning, em seu traje vermelho e dourado reforçados ainda mais pela luminosidade do lugar. Estava sentado sobre uma bancada ao lado de um vaso chinês, batendo discretas palmas ao interlocutor, que pareceu notavelmente assustado.

“Não precisa se preocupar, os sistemas não vão nos acusar aqui, cuidei disso ao entrar. Somos só nós dois aqui, menininha.” Disse, acendendo um cigarro e retirando a máscara. O invasor se aproximou silencioso de Claude, e tirou também o capuz. Os longos cabelos negros correram por suas costas, revelando uma solitária mecha cor-de-rosa e um delicado rosto de mulher que, apesar de lindo, parecia raivoso e contendo uma explosão de fúria. Rosnou, impaciente.

“O que diabos você quer aqui, Claude?!”tão logo disse isso, foi em um estampido surdo e abafado levada pelos braços do inglês até a parede do outro lado da sala. Pressionada contra o concreto pela mão direita do homem, Victoria Lupin, a famosa ladra que se auto-denominava Pink Panther, notou que ele não estava tão brincalhão como de costume.

“O que eu quero aqui? Quero onze milhões de dólares que a senhorita me causou em prejuízos no último mês, quero saber para quem você está trabalhando e, mais do que qualquer outra coisa, quero que você pare de roubar meus clientes preferenciais!”seus músculos conduziram pequenas cargas elétricas azuladas pela superfície de seu uniforme, dando-lhe um aspecto muito apropriado a seu humor. Ela sorriu, passando os braços pelo pescoço do jovem e dando-lhe um beijo nos lábios. Em uma primeira metade de segundo, ele correspondeu, afastando-se dela logo em seguida.

“Merda, Victoria! É tudo brincadeira para você? Eu não sou mais o Esquiva-Balas, eu não estou mais nesse jogo! Você -”aproximou-se novamente dela, agora atento a seus movimentos. Sabia o quanto ela era perigosa, e que qualquer distração seria o bastante para que ela escapassse “Você vai me dizer para quem está trabalhando, e vai ser agora”

Ela sorriu, novamente. Pegou o cigarro da mão de Claude e deu um trago.

“Onze milhões? Francamente, Claude Monet Nistelroy, você já teve mais classe. Eu não pedi onze milhões emprestados, mon cher, eu os roubei de você. Quer eles de volta? Roube de mim. Quanto a parar de roubar seus clientes, bom, eu não queria colocar as coisas dessa maneira, mon amour, mas se você não consegue mantê-los em segurança ...” novamente, um sorriso pueril. Claude segurou-se, queria joga-la pela janela. Era exatamente o que ela queria que fizesse, estava o provocando. Respirou profundamente, conhecia aquele jogo.

“Se eu quisesse roubar você, menininha, não teria dinheiro nem para tingir o cabelo de rosa. Quanto aos meus clientes, eu te peguei hoje, e agora que sei que é você quem estava me roubando, posso te pegar sempre. Conheço suas técnicas, garota, ensinei metade delas para você. E você ainda não respondeu a pergunta mais importante ...”

Victoria voltou os olhos para Claude, em uma atitude cênicamente disfarçada, e com o ar de quem não entendeu, perguntou cinicamente “Hum? Qual pergunta?” parecia querer de alguma forma ganhar tempo.

“Você tem dinheiro, não precisa se tornar milionária e pode roubar qualquer coisa que não possa comprar. Agora, eu te conheço bem o bastante para saber que você não gosta de artes impressionistas, nem coleciona amuletos nativo-americanos. Assim, é evidente que alguém te pagou para fazer isso, o que me leva à pergunta: quem está interessado nessas peças?”

“Uma pena que eu não vá poder responder isso, não é mesmo, mon petit?” ela gostava de usar aquele francês vagabundo, tudo para provoca-lo. Ele a encostou novamente contra a parede, ainda que dessa vez sem forçar.

“É claro que você pode. Eu não vou te prender, e seja quem for não vai poder te fazer nada ... Então fale!” sentiu uma náusea ao dizer aquilo. A jovem o devolveu para trás com a mão sobre seu peito, e olhou para a entrada do ar condicionado.

“Claude, meu anjo, não é nada disso. Eu só não vou poder te responder porque você não estará acordado para ouvir, e além do que estou com pressa, o sedativo só deve te derrubar por alguns minutos ...”

Sentiu a cabeça girar. A náusea aumentou e as pálpebras começaram a pesar. Pensou em desacorda-la antes de desmaiar, mas deteve-se tempo demais tentando imaginar como diabos aquela maldita trapaceira o sedara.

O batom. Claro. O batom, seu cretino.

Horóscopo

Sete e dez da manhã, horário de Greenwich. A mortalha de silêncio e quietude do quarto escuro foi quebrada pelo estilhaçante toque do telefone. Alisia acordou e não quis abrir os olhos. Estava confortável daquela forma e de qualquer maneira, pôde ver toda a extensão do quarto assim que acordou. Estendeu o braço para alcançar o aparelho e desejou como nunca que seus poderes fossem telecinéticos. Ajustando o fone no rosto da melhor forma possível para o momento, balbuciou algo e a voz da recepcionista soou amigável como devem ser as pessoas que nos acordam antes das nove.

“Bom dia, senhorita Bryant, são sete horas e onze minutos, a senhorita pediu para ser acordada, está certo?” pronunciou aquelas palavras como se já tivesse acordado mil pessoas com aquela frase. Alisia respondeu um “muito obrigado” como se já tivesse sido acordada por mil recepcionistas com aquela frase.

Levantou-se. Agora o fósforo já se assentava no cérebro e ela lembrou que estava no Hilton Plaza, em Londres. Levou as mãos à cabeça. Era verdade, tinha compromissos para aquela manhã, e o primeiro deles era o mais importante.

Levantou-se e caminhou até o chuveiro. No banho, pensou no que estava fazendo em Londres e em tudo que acontecera na última semana. Ainda não conseguia deixar de pensar em Richard com mágoa, apesar de já ter os pensamentos melhor assentados. Sabia que havia exagerado, que não devia e nem podia julgá-lo por seus atos. A maioria das pessoas que tinham super-habilidades se preocupava mais em dominar do que em ajudar o mundo. Não, uma caçada por vingança pessoal motivada por meia dúzia de brinquedos quebrados não era certa, e nenhuma boa ação do mundo o eximiria da culpa. Mas e quanto a Robert Porter? Ele morreu dilacerado em uma cama ensopada com seu próprio sangue, e o fato de que ele era um assassino estuprador também não a eximia do remorso. Enxaguou os cabelos e retomou a linearidade do pensamento. Não estava partindo por conta de Richard. Isso também não significava que estava disposta a trabalhar novamente com ele. Não podia mais confiar nele.

Oito e dez da manhã, hora de Greenwich. Uma paisagem caribenha de céu azulado e praias da mais cândida areia emoldurava uma cena envolvendo Claude Nistelroy e três jovens Third Steppers. Súbito como um relâmpago, o estrondoso e catastrófico rugir do despertador irrompeu através do quarto, estraçalhando céus, areias e mulheres com o impiedoso soar da manhã. Ainda um tanto desnorteado com o retorno, Claude estendeu a mão até o despertador, desejando que seus poderes geneativos incluíssem rajadas laser.

Olhou para o relógio. Devia estar em sua sala a dez minutos atrás. Muito pior, Klaus devia estar no ônibus da escola a quinze minutos atrás. Detestava entrar em velocidade ampliada logo que acordava, mas a situação urgia. Antes que o colchão notasse a ausência de seu corpo e pudesse retomar o formato original, Claude já havia passado pelo quarto de Klaus e notado que o menino não estava lá. Correu até o computador e solicitou a visão das câmeras da escola. Privilégios de quem havia desenhado o sistema de vigilância e segurança da escola do próprio filho. Lá estava ele, sentado na última carteira do fundo da classe. Devia ter acordado sozinho e apanhado o ônibus sem acordá-lo. Era independente com sete anos de idade, o que fazia Claude ponderar sobre o que aconteceria se ele desenvolvesse poderes. Não tinha tempo para pensar naquilo às oito e onze da manhã.

Em um clarão de luz seguido de um estampido surdo de som, Claude cuidou de tomar banho, fazer a barba e se trajar com um elegante terno marrom de corte italiano discreto. Oito e doze, e o elevador que o conduzia através de trezentos metros de rocha que separavam o Poliedro – base de operações de Lightning e lar secreto dos Nistelroy – do prédio da Nistelroy Security Technologies de Londres já o entregava no sexto e último andar da construção.

Parou por um segundo diante da porta. Abriu o celular e, enquanto sensores espalhados pelas paredes faziam dezenas de leituras por seu corpo em diferentes comprimentos de onda, o milionário acompanhava os resultados na tela do portátil. Era o protótipo NISS-6942, já em fase final de testes para ser aplicado ao Consulado do México, seu mais novo cliente. Um suave ruído, seguido do acender de luzes, anunciou a liberação de acesso ao andar. Uma voz feminina sintética e agradável desejou-lhe bom dia.

Olhou por sobre sua mesa enquanto ligava o notebook. Uma garrafa de café, certamente servida por Rosemary às oito em ponto. E o jornal, ah, como começar o dia sem o jornal?

Sentou-se esparramado em sua enorme poltrona de couro e, enquanto colocava café em uma xícara, começou a passar rapidamente os olhos pela primeira página. Atentados no Japão, resgate de vítimas na Costa Oeste dos EUA, eleições na França. Nada de mais. Tomou um largo gole de café e, enquanto apertava o botão do aparelho telefônico que chamava Rosemary, virou a página do jornal. Achou graça ao ler o horóscopo do dia. Áries, de 20 de Março a 20 de Abril. O dia é propício para mudanças, seja favorável a convites inusitados. Cor da sorte: Azul. Número da sorte: 4.

Uma voz feminina, mas agora bastante natural e muito menos agradável, soou do viva-voz. “Para alguém com suas habilidades, senhor Nistelroy, o senhor compromete seriissimamente a reputação da pontualidade inglesa...” a voz de Rosemary era casual e cínica, demonstrando que mais infalível do que a pontualidade era o sarcasmo britânico. Divagou por mais um instante, como conseqüência do sono deixado ainda a pouco na cama. Rosemary era sem dúvida a mais imprescindível dos mais de mil empregados que compunham a Nistelroy Security Technologies. Mais até do que o próprio Claude. Sabia das senhas, dos compromissos, dos clientes secretos, do passado criminoso de seu patrão e até mesmo de sua vida oculta como Lightning. Era a pessoa em que o até mesmo o ladrão confiava. Quarenta anos, nenhum filho, nenhum parente vivo e um pós-doutorado em Administração de Empresas. Lembrou-se dos heróis da ficção e concluiu que, sem dúvida, todo super-herói deveria mesmo ter um Alfred em quem possa confiar.

“É o sangue francês, Rosie, meu fuso horário está em Paris, cherí” sorriu, fechando o jornal e voltando-se para o computador. “Tenho algum compromisso urgente para o qual já esteja perdendo hora nesse momento?” perguntou, um tanto temeroso da resposta, que nunca era muito boa naqueles contextos.

“Só a senhorita Alisia Bryant, da ONU, que o está aguardando aqui embaixo desde as oito. Devo manda-la subir?”

Alisia. Claude engoliu seco como que em um reflexo. Havia conversado no telefone com Nicholas na manhã anterior e ficara sabendo do conflito entre ela e Crusade. Ela havia deixado a equipe de Nova York, mas Claude não fazia a mínima idéia de o que ela poderia querer ali.

“É claro que pode, traga também chá verde, ela gosta bastante. Ahn, pode por favor deter todas as ligações para a minha sala enquanto ela estiver aqui?” Rosemary respondeu afirmativamente e Claude desligou o telefone. No tempo que decorreu até que ela entrasse na sala, conseguiu ponderar quatro possibilidades para o que a jovem diplomata poderia querer. Fechou os olhos e torceu para que não fosse a terceira possibilidade.

“A senhorita pode subir, o senhor Nistelroy a está aguardando em sua sala ...”

Alisia levantou-se e ajustou a barra da calça de tom pastel que delineava suas formas femininas perfeitas. Não usava roupas civis todos os dias, normalmente preferia moldar roupas de luz sólida e vestir-se de ilusões, mas naquela manhã sentiu a necessidade de algo mais real. Agradeceu e dirigiu-se ao elevador. Conhecia bem o caminho, e podia ver nitidamente cada uma das dúzias de câmeras e sensores espalhados e minuciosamente escondidos pelos corredores e portas. Chegou ao último andar e observou ainda de dentro do elevador que não havia mais ninguém ali. Tentou olhar dentro da sala de Claude. Finas camadas de espelhos sobrepostas por entre o concreto e a alvenaria bloqueavam completamente sua visão. Muito inteligente, pensou, um lugar onde nem mesmo os amigos podem observa-lo. Chegou à porta e abriu, sem bater.

“Onde está a diplomacia canadense, meu Deus?” brincou o inglês, acerca da entrada sem bater na porta. Ele levantou-se e deu três passos até ela, observando cuidadosamente suas vestes e, inevitavelmente, perguntando-se se o que ela vestia eram mesmo roupas ou apenas luz. Era difícil, de qualquer forma, não se distrair da conversa com uma mulher tão deslumbrantemente linda.

“Creio que esteja no Canadá. Já tem um bom tempo que não nos vemos, senhor Nistelroy, como está Klaus?” ela tinha aquele suave tom que misturava uma finíssima ironia com a maciez de palavras amigas. Claude a abraçou e deu-lhe um beijo no rosto. Tentou deduzir algo das roupas pelo toque, mas não pôde ser conclusivo.

Sentaram-se. A porta foi aberta novamente e Rosemary entrou na sala carregando uma bandeja com chá verde. Claude e Alisia agradeceram e, tão logo a secretária os deixou, voltaram-se um para o outro.

“Você deve estar se perguntando porque eu vim para cá, certo?”

“Imagino que não tenha sido para provar a mundialmente famosa culinária inglesa. O que aconteceu em Nova York?” Claude cruzava as pernas e colocava mais café em sua xícara. A pergunta eliminou a primeira hipótese.

“Mundialmente infame, você quer dizer. De fato, não. O que aconteceu em Nova York você já sabe, é evidente. O porquê, isso realmente não faz mais diferença alguma. Eu preciso de sua ajuda, Claude.”

Segunda hipótese descartada. Torceu para que não fosse mesmo a terceira. Deu um gole no café e, quando a jovem acendeu um cigarro, não conseguiu deixar de pedir um. Fez sinal para que ela prosseguisse.

“O que sabe dos MaxCops?” perguntou, incisivamente. Ainda não descartava totalmente a terceira hipótese, mas fez com que Claude ponderasse acerca de onde ela queria chegar.

“Projeto da MaxCorp que conseguiu legitimidade legal para patrulhar as ruas de Londres. A opinião pública a respeito deles é dividida mas os favoráveis têm crescido em número ... Nada que não esteja nos jornais, porque?”

Alisia abriu uma pasta e apanhou alguns papéis, estendendo-os para o milionário. Ele folheou em um micronésimo de segundo e, em seguida, retornou um olhar assustado para a bela mulher.

“MaxCops pelo mundo? Ele quer formar uma nova ISC?”

“Ele já tem algo próximo disso. O primeiro passo agora é conseguir instalar a MaxCorp como mantenedora da ordem pública na América do Norte. Lá terão uma vitrine mundial que certamente fará outros governantes a se questionarem sobre se não valeria a pena tercerizar o problema da criminalidade. Entende o que isso acarretaria, Claude?”

“Eles teriam controle sobre a inocência ou culpa dos civis que interessassem a Maxwell. Poderiam criar unidades governamentalmente amparadas para impedir a ação de super-humanos que não trabalhassem para o maldito ... Quando isso vai acontecer?”

“Em dois meses haverá uma assembléia governamental na ONU que decidirá a aprovação ou não de uma unidade experimental em Nova York e em Montreal. Eu estou fazendo de tudo para ser nomeada para discursar nessa reunião, mas isso não vai bastar, e é por isso que preciso de você.”

Claude engoliu seco novamente. Não queria mais pensar nas quatro hipóteses, então olhou para Alisia e fez a pergunta crucial. “E no que consiste essa ajuda?”

“Eu estou tirando férias da vida como Sunshine durante esses meses. Primeiro porque tenho trabalhado demais e o stress começou a comprometer a clareza de algumas escolhas que tenho feito. Segundo, porque não tenho mais o menor desejo de voltar a trabalhar com Richard Teabing nos próximos vinte ou trinta anos. Finalmente, porque nesses meses pretendo permanecer em Londres e investigar até o último beco dessa cidade atrás de sujeiras da MaxCorp que possam ser utilizadas para impedir que essa loucura vá adiante.” Alisia interrompeu-se quando Claude levantou, com olhar cinicamente ingênuo, a mão. “Sim?”

“Eu não perguntei a razão de ter se afastado, mon amour, eu perguntei no que consiste a judá que me envolve ...”

Alisia sorriu e respirou um pouco mais fundo. Ele era irritante e provocativo, e era exatamente o que o fazia um adversário patético porém divertido para retórica. Decidiu cortar diretamente ao ponto.

“Eu quero usar o Poliedro nesses meses, e quero que você vá para Nova York trabalhar com eles.”

Silêncio. Não era a terceira hipótese. Nem a quarta. Perguntou-se sobre se Richard teria pensado nessa quinta hipótese ou mesmo em outras dezenas que não lhe vieram à mente.

“E o que eu vou fazer em Nova York, pelo amor de Deus?!” exclamou, estupefato pela inesperabilidade do pedido.

“Ajuda-los. Sem mim eles estão com uma baixa estratégica de suporte em combate. Você tem o cinismo necessário para lidar com Crusade e é o único que conhece a equipe bem o bastante para me substituir. Além disso, e agora o mais importante, se Maxwell souber que o Lightning está atuando na América do Norte, vai diminuir suas ações por lá em vista do processo iminente da MaxCops e descuidar-se em Londres, onde eu estarei observando cuidadosa e silenciosamente.”

Claude odiava aquilo, mas Alisia sabia unir elementos retóricos aparentemente soltos em um discurso que, para quem partilhava o momento da performance, convenciam como o diabo.

“E Klaus? Ele está em época de provas na escola, não posso simplesmente tira-lo de lá agora!” não sabia muito bem o quanto daquilo era pelo menino e o quanto era por si próprio. “Além disso, onde vou morar em Nova York? Eu não tenho nada contra Richard, mas não quero morar em algum lugar onde não controlo os sistemas de segurança!”

“Fique tranqüilo, querido. Eu pensei em tudo, olha só: vocês vão morar no meu apartamento de cobertura em NY, pertinho do prédio da ONU e de uma excelente escola. E quanto a Klaus, ele pode fazer as provas lá, deixe toda essa parte de burocracia comigo, certo?”

Claude respirou fundo e, consciente de que não possuía a eloqüência necessária para dissuadir a diplomata de cabelos e olhos dourados, olhou vencido para o jornal dobrado sobre a mesa e só conseguiu pensar no horóscopo do dia.

Áries, de 20 de Março a 20 de Abril. O dia é propício para mudanças, seja favorável a convites inusitados. Cor da sorte: Azul. Número da sorte: 4.

O Retorno de Midnighter – Parte V

Quando sai da prisão, pensei que eu, Gabriel Shedd, encontraria um mundo mais limpo. Toda aquela televisão me fez mal. Não esperava que as coisas tivessem mudado para pior, no entanto.

"Não fui eu, eu juro! Eu juro!". O maldito grita mais uma vez. Eu enfio a ponta do meu coturno no buraco de bala na perna dele. Ele grita.

Eu não gosto dos gritos. Faz-me parecer o cara mau. Eu sou o herói aqui, como meu Pai foi antes de mim. Mas esse filho da mãe merece. Ele estuprou oito mulheres nas ultimas semanas. Matou duas. Eu estudei com uma delas no ginásio, Anne Chetter, moça de familia, mãe de um garotinho gordo. Morreu sufocada por um maldito saco de plástico, num beco miserável. O nome do desgraçado é Fabio Lusagrelli, sobrinho de um mafioso local. Ele é o primo feio da família. Não, ele não mora aqui, esse lugar é mais um santuário.
Claro, eu sei que ele é tudo isso. Encontro restos de drogas, papelotes amassados. Ele compra de alguém, e nada pior que um envenenador. Eu tenho ódio pessoal às drogas, fui preso por ser acusado de vendê-las. Enquanto o desgraçado chora aos meus pés, olho rapidamente pelo apartamento. Ele guarda fotos delas. Fotos! Eu não agindo de raiva, e atiro mais uma vez. Mas faço questão de mirar na "virilidade" dele.
Ele urra de dor. Urra como um porco que é. Eu saio andando pelo apartamento. Sujo. Descubro uma caixa onde ele guarda mexas de cabelo de suas vítimas. Queimo-as. Entre as gavetas, descubro anotações. Cheiram a veneno. É o contato, o vendedor dele. Guardo isso, já tenho um próximo verme a caçar.

Olho pra ele gritando no chão. Existe sangue espalhado por todo o assoalho. Miro nele de novo. "Pare, por favor, pare!". Ele olha lacrimejando, para de berrar um pouco.

Eu olho com ódio pela mascara. "Você sabe por que vai morrer, Fabio? Você vai morrer por que quando elas imploraram para parar, você não parou. Mas eu vou ser bonzinho. vou te dar a chance de escapar. Vou te largar aqui, igual você fez com elas. O telefone está logo ali. Se a emergência ligar a tempo, você vai ter sua chance".
Eu atiro na mão direita dele. Vejo os dedos escapando. Mas fui descuidado. Achei que ele iria estar sem segurança. Estou aqui faz oito minutos. Vejo pelo vão da porta dois homens se aproximando. Deviam estar no carro que estava parado no final do quarteirão. Outros se aproximam.
Jogo-me atrás de uma escrivaninha e atiro. O primeiro cai com força. Nada de sangue. Os desgraçados usam colete. Enquanto eles começam a atirar cegamente, jogo uma granada de fumaça. Isso vai me dar alguns segundos.

Ainda ouço os tiros. Troco rapidamente o pente. Meu pai me ensinou, faz muitos anos, que se o bandido usar colete, devemos usar balas perfurantes. Faz sentido. Enquanto puxo a trava do fuzil, um dos disparos dos desgraçados atinge meu ombro.
Meu colete segura a maior parte do impacto, mas eu sinto que vomitei sangue. Por dentro da mascara, o sangue se gruda ao tecido, numa textura pegajosa. Quase vomito com o cheiro de ferro. Meu ombro deve ter deslocado. Não tem problema. Eu tenho outro.

Começo a atirar. A fumaça é tão ruim para eles quanto é para mim. Pego a câmera de visão noturna que trouxe comigo. Eu sabia que ia ser útil. Seguro ela com o braço ruim, e atiro apoiando o fuzil na minha barriga. Dói muito, mas é a única saída.
Derrubo uns três deles. Eu não havia me preparado para uma briga de verdade, deixei o armamento pesado no carro. Percebo então minha saída. Quatro homens estão atirando de uma parede. Eles não perceberam que eu já mudei de lugar faz tempo. Vejo um extintor de incêndio enferrujado atrás deles. É bom de mais para ser verdade.

Dois tiros. Eu posso jurar que vi pedaços de um deles voando por cima de mim. Existem outros chegando pela porta, e minhas balas estão quase no fim. Eu preciso voltar para o carro. Meu pai me ensinou que o bom guerreiro sabe a hora de se retirar.
Tento minha última saída. Uma granada de fragmentos. Arremesso ela fora da casa, e rezo para que não tenha nenhum civil próximo desse cortiço. Jogo-me atrás de uma estante.
A explosão não é tão grande. Eu esperava mais barulho. No instante seguinte, o lugar inteiro parece ser fuzilado por uma chuva de fogo. Os fragmentos fazem jus ao nome, perfuram parte da parede de madeira da casa. Os homens lá fora se assustam. Um deles grita de dor.

Olho para o chão, Fabio ainda está vivo. Vou correndo na direção da janela dos fundos, não vou ter outra chance para escapar. Enquanto estou saindo, ele grita num misto de dor e ódio “Quem diabos é você, seu monstro?”. Eu?

Eu sou Midnighter.

Olhos Nublados – Parte IV

Mila sentiu o sangue respingar em seu rosto. Estava completamente imóvel, e seu olhar parecia perdido na desconfortante visão da cidade que se projetava das enormes janelas do MaxCorp Silver Tower. As luzes estavam apagadas, mas os disparos das armas criavam uma iluminação aterradora que revelava apenas pequenos traços da cena. Ouvia Zed gritando, mas as palavras eram incompreensíveis. Seu corpo foi arrastado para longe, sua visão tornou-se turva – parte pelo sangue escorrendo pelo próprio rosto – e os sons ficaram cada vez mais distantes.

Acordou. As luzes se moviam rápido de mais. Pareciam tentar chegar a ela por todas as direções. Ouviu um sussurro, talvez de Zed. O gosto de ferro em sua boca era forte. O sangue coagulado perde o calor reconfortante, e se torna congelante. Tudo parecia ficar escuro. Ouvia sirenes. As imagens sumiram novamente.

Abriu os olhos mais uma vez. Uma luz forte. Uma pergunta foi feita, mas ela não entendeu nenhuma palavra. Era difícil respirar. Sentiu sua pele sendo perfurada, mas não soube dizer onde; a dor já dominava seu corpo. Tudo parecia azul. Azul e branco. Era como deitar no chão do banheiro, frio, muito frio. O cheiro de ferro entupia suas narinas. O ar pareceu se recusar a entrar em seus pulmões. As coisas tornaram-se escuras mais uma vez.

Uma sensação confortável abraçou seu corpo. A dor havia melhorado. Abriu os olhos, mas eles se recusaram a aceitar a luz.

– Se sente melhor?

Mila tentou olhar para o dono da voz, mas suas pálpebras recusaram se abrir. Ela tentou mover um dos braços, mas sentiu uma dor alfinetando todos seus músculos.

– Calma, calma, você teve sorte! Agora descanse, você precisa de repouso.

Ela tentou balbuciar alguma coisa, mas não conseguiu formar palavras. Sentiu uma mão correndo sua testa. Pele suave, quase que veludo. Mila não ouviu mais nada. Não conseguia pensar direito. Perdeu a noção do tempo, e não teve certeza se estava acordada.
Teve um sonho estranho em algum momento. O mesmo sonho que a perseguia desde aquela noite, quatro meses antes. Pilhas e mais pilhas de corpos, alguns de crianças. Uns poucos homens esqueléticos se esgueiravam revirando os cadáveres. Uma torre retorcida se erguia no horizonte, e parecia tragar a atenção do devaneio. Uma sala do trono feita de esmeraldas pontiagudas. Havia uma pessoa usando uma armadura verde e negra, sentado em um trono disforme. No horizonte, é possível ver uma tempestade vermelha, uma chuva de sangue. A aterradora figura olhou diretamente para ela. “Você não pode impedir”.

– Abra a boca, você precisa de água.

Mila sentiu o liquido escorrendo por seus lábios. Fez o possível para bebê-lo sem engasgar. Seus pensamentos ficavam mais claros. Por que não soube que os homens iriam entrar na sala? Isso nunca havia acontecido, a maldição podia ter acabado com suas noites de sono, mas pelo menos não cometia erros tolos como esse.
Tentou abrir os olhos novamente. Ouvia gaivotas, e um ronco de motor. A luz feriu sua retina, mas ela se recusou a fraquejar. Lentamente, acostumou-se com a luz. Então, tudo ficou nublado.

– Finalmente! Eu já achava que meu investimento tinha ido por água abaixo – Disse Zed. Mila podia vê-lo agora, estava sentado em uma cadeira branca. – Você consegue falar?

– C-como ch-cheg... chegamos aq-qui? – A garganta da moça doía um pouco, como se tivesse gritado muito na noite anterior.

Zed sorriu. Levantou-se e saiu da sala sem falar uma palavra. Mila sentia o corpo doer. Tentou se levantar para segui-lo, mas não teve forças. Sentiu certo desespero em não conseguir sair da cama. Ela quase chorou, sua respiração ficou pesada.

– P-por favor, n-não... – tentou falar, tentando esconder o medo em sua voz.

Mas não adiantou. Zed só retornou muito tempo depois. Mais de uma hora. Trazia uma bandeja com um prato de algum tipo de caldo ou sopa. A garota tentou falar alguma coisa, mas Zed pareceu bastante convincente em dizer que ela deveria comer. Comeu. Meio forçada, a garganta arranhava a cada colherada. Quando terminou, se sentia mais calma. Seus pensamentos ficaram lentamente mais claros.

– Como saímos de lá? – tentou perguntar, com uma voz mais suave.

Zed não respondeu.

– Eu sei onde estamos, sei que fiquei inconsciente por dois dias. Eu sei até que você seduziu a esposa do dono desse barco. Mas por favor, me responda como saímos de lá?

Mais uma vez, ele permaneceu em silêncio. O barulho de um helicóptero preencheu a sala, mas gradualmente foi diminuindo. Mila tentou se levantar bruscamente, seus olhos pareciam mais nublados que nunca.

– Siga o helicóptero, não temos muito tempo! – ela disse. Sentiu dor ao falar tão rápido.

– Não. – Zed respondeu num tom de voz suave, com um sorriso leve no rosto.

Mila ficou paralisada por alguns instantes.

– Você precisa me ajudar! Se não fizer isso, vai acontecer algo muito ruim! – ela tentou justificar. Falar parecia causar certa dor em seu corpo.

– Claro, eu sempre preciso ajudar. Vamos fazer isso mais interessante para mim. Quem vai ganhar a Liga dos Campeões? – disse ele, numa cadencia calma e suave.

– O que? Milhões de pessoas podem morrer, e você está preocupado com futebol? Você não tem coração? – ela tentou segurar a respiração, mas já sentia um gosto de ferro na boca.

– É uma troca justa. Uma resposta inocente não é um preço razoável pela vida de milhões? – Zed parecia examinar a palma da própria mão.

Mila não podia acreditar. Ele parecia ser pessoa completamente diferente de quem havia conhecido. Um barulho de explosão ao longe. Ela não tinha muito tempo.

– Manchester, 3 a 2 contra Milan. – ela não entendia direito, mas se sentia usada. Ela tinha más lembranças de usar o dom para proveito próprio.

Zed se levantou e saiu. Mila sentiu o barco mudando de direção.

O Retorno de Midnighter — Parte IV

Checo mais uma vez a bateria da armadura, e quase fico feliz em saber que ainda tenho 21 minutos. Tempo suficiente para uma última volta. Estico o braço para o lado e puxo uma trava com um leve movimento de dedos, fazendo disparar uma câmera voadora de meu cinturão. Meu irmão, Albert Samsom, projetou um sistema de câmeras controladas facilmente por um sistema remoto. Graças a isso, eu consigo ter uma idéia do que está acontecendo na vizinhança sem ter que gastar a preciosa energia do traje. Claro que a imagem não é muito boa, parece com câmera de telefone celular de dez anos atrás, mas dá para ter uma idéia.
Três quadras abaixo, na Union Dale, a pequena câmera me mostra algo suspeito. Quatro carros blindados, uma dúzia de homens com armamento pesado saindo e se preparando para algo grande. Eles olham para o prédio do Hospital St. Claire, onde descubro, graças à meu acesso à Internet sem fio nos sistemas da armadura, estar internado Fabio “Garanhão” Lusagrelli, sobrinho de Henrico Mancini, um chefão falido que achou que poderia peitar Don Lorenzo Maggio, um dos manda-chuvas do crime em Chicago. Qualquer um que assiste os noticiários sabe que máfia é coisa suja, e que o St. Claire é por acaso o hospital beneficiado por generosas doações da família Mancini.
Eu salto os dois primeiros prédios que me separam dos capangas. As ruas são pequenas quando vistas de tão alto, fico feliz em não ter medo de altura. Depois do segundo pulo, o motor de ar comprimido da armadura fica sem gás, e corro os quase vinte metros seguintes antes de poder pular novamente. Cada passo meu bombeia ar para a o cilindro de compressão e, com ele cheio, tenho energia para pular mais uns dez metros. Claro, a queda provavelmente me mataria, por isso acabo gastando uma quantidade enorme de gás para amortecer o impacto. Dói pra diabos, mas não mais do que cair de barriga numa piscina cheinha. Por segurança, uma série de ganchos dispara automaticamente na direção dos prédios mais próximos quando estou no ápice vertical de meu movimento, evitando acidentes.
Olho do parapeito. Estou vendo os homens, seis andares abaixo. Apanho a câmera voadora e guardo em meu cinturão – essa coisa é cara, tenho que tomar todo o cuidado do mundo para não quebra-la. Travo um gancho no chão atrás de mim e respiro fundo. Fico imaginando como Abe fazia essas coisas sem nenhum dos recursos que disponho. Sinto um pouco de orgulho dele, afinal, ele é Big Abe Samsom, e fez por merecer a fama de mais duro dos irmãos. Pego um cilindro do cinturão. É um bastão retrátil de titânio com um pequeno motor de vibração – não que seja de grande valia, mas deve nocautear facilmente os brutamontes que estão lá embaixo. Tem quase dois metros quando ativado. Confiro o tempo da minha armadura. Quatorze minutos.
Vejo os homens apontarem as armas. Parecem metralhadoras pequenas, mas não sei dizer a essa distância. Eu devia ter instalado uma lente de ampliação nessa droga de capacete. Calculo meu salto para o capô do carro da frente. Deve assustar os bandidos por tempo o suficiente para que eu me recupere da queda. Quando vejo que um deles começa a atirar, salto com força para baixo. Durante a queda, me lembro de que nunca testei a armadura para uma parada brusca.
Sinto o metal de minhas botas afundando na blindagem do capô do carro. O impacto é tão forte que o resto do veículo se dobra para cima, estourando os vidros. Meus pés estraçalham o motor do veículo. Minhas pernas doem como o diabo, e teria me ajoelhado de dor se o metal do capô não tivesse se dobrado ao meu redor, impedindo os movimentos. Sinto o fisgo do gancho preso em minhas costas, e vejo o cabo de metal me puxando para cima. Subo meio metro, e caio de novo. Enfio uma perna na frente, e consigo parar na calçada, quase desequilibrado. Ordeno para o gancho soltar. Ele vem em alta velocidade e chicoteia em um cabo elétrico, que é cortado ao meio. O resto do gancho bate em minhas costas com violência. É como tomar um soco daqueles. Fico sem ar.
Vejo o quarteirão inteiro se apagando por causa de minha entrada triunfal. Os mafiosos param de atirar por um segundo. Eu acho que os assustei de jeito. Uso o bastão de titânio – essa porcaria que me custou duas mil pratas – como bengala e me levanto corretamente. A armadura pesa uma tonelada em meus ombros, mas é forte como um diamante. Perdi o sistema de giroscópio, não vou conseguir estabilidade suficiente para usar o disparador de balas de borracha. Sinto que vou precisar de uns dois dias de gelo e repouso quando sair daqui.
Dou um salto para frente, tentando bater meu bastão em um dos italianos. Eles são lentos, quase se esqueceram do que é uma briga de homens. Quando piso no chão no final do pulo, urro de dor. Minha perna se dobra sozinha, ainda sentindo a pancada da queda. Eu jogo todo meu peso para o outro lado, e empurro meu corpo para frente, caindo de encontrão num mafioso. Nessas horas, eu penso que valeu a pena ter engordado. Com a armadura, estou pesando mais de trezentos quilos, e não me surpreendo ao ouvir um osso quebrando abaixo de mim. Um bandido a menos, mas eu estou caído.

Eles demoram um precioso segundo para olharem para mim. Ativo a camuflagem nesse meio tempo. A escuridão repentina e os flashes de luz do cabo elétrico chicoteando a rua me dão a distração necessária para me levantar. Começo a pensar que eu deveria ter atropelado eles com meu furgão – ia ser mais seguro. Retomo meu fôlego, olho para os lados. Giro o bastão com força, e três dos rapazes caem inconscientes. Restam oito agora. Eu gosto do barulho oco que o metal faz quando bate em bandidos. Faz-me sentir no controle da situação.
Eles começam a atirar. Eu devia ter pensado nisso antes. Minha camuflagem não chega nem aos pés da dos filmes do Predador – na verdade, ela é uma fina cama de fibra ótica que projeta imagens do ambiente – e o bastão visível, brilhando com cada flash da eletricidade na rua, também não ajuda muito. Claro, a surpresa faz com que muitas balas passem longe. Algumas resvalam na minha blindagem sem que eu sinta nada. Outras me atingem reto. Uma coisa que eu sempre tive curiosidade era o quão forte era o impacto de uma bala quando se usava colete. Estou usando uma armadura com meia polegada de titânio e liga de carbono, além das camadas de chumbo, tungstênio, amianto e outras paranóias minhas. Essa droga deveria parar (com sorte) balas de canhão. Mas mesmo assim, eu sinto cada impacto. É como ser atingido por um bastão de baseball, cada golpe só multiplica a dor do primeiro. Um dos tiros atinge um receptor externo da minha camuflagem no braço direito, e eu fico parecendo ruído de televisão fora do ar. Desligo. Eu devia ter pintado a droga de armadura de preto, pelo menos, ia chamar menos atenção a noite do que o metal polido.

A camuflagem com defeito comeu metade de minha bateria. Provavelmente, a queda e as tentativas do traje de amortecer os impactos fizeram um bom serviço. Tenho quatro minutos e doze segundos. Não tenho ar comprimido para dar um salto, e eles estão a quase dez metros de mim. Minhas pernas estão me matando. Confiro novamente a bateria, e me surpreendo com três minutos e quarenta e sete segundos. Assusto-me. Deve estar vazando energia. Ótimo.
Vou correndo na direção deles. Anos de futebol na faculdade me fazem derrubar dois deles em alguns instantes, e ainda consigo levantar o segundo e arremessá-lo nos outros. Derrubo mais um no processo. Sinto as balas cada vez mais fortes. Três minutos e vinte e dois segundos. Droga. Droga. Droga.
Uma das balas atinge meu elmo. Minha câmera de visão noturna vai pros ares, está tudo escuro. Eles acabaram de destruir novecentos e trinta dólares de investimento, e uma tarde inteira de serviço. Enquanto meus olhos se acostumam, esbarro em mais um deles. Espero que tenha sido um deles. Espero, por que no instante seguinte, eu dou o famoso soco de direita dos Samsom. O infeliz não vai mastigar por duas semanas. Dois minutos e trinta e oito segundos. Faltam quatro bandidos.
Arremesso meu bastão no mais próximo, que tomba. Ótimo, agora estou desarmado. Eu devia ter pensado em usar bumerangues, ou então, amarrar uma corrente na minha arma. Dois minutos e três segundos. Um apito no meu ouvido. O motor de compressão. Eu tenho energia suficiente para dar um pulo. Penso com toda a vontade do mundo que eu deveria aproveitar isso e sair desse lugar, mas algo em mim diz que não. E concordo. Abe com certeza não pensou em voltar atrás quando os malditos o emboscaram. Ele lutou até o final, pelo que era certo. Eu sou um Samsom, não vou cair. Não vou envergonhar meu irmão. Não vou sujar o nome de Hasler.
Com um minuto e vinte e sete segundos, eu chego correndo em um dos homens. Apoio minha perna em seu peito, e ativo o motor de pulo. Um jato de ar o arremessa quase vinte metros para trás, fazendo-o afundar o corpo na lateral de um carro. Arremesso meu gancho num outro homem. Mantenho a ponta fechada, eu não sou um assassino. Hasler nunca matou homens assim, não é a maneira correta de fazer justiça. Vejo o infeliz girando no ar. Meu gancho bate na parede do hospital, e volta para mim no instante seguinte. Sinto seu golpe chicotear em minhas costas. Trinta e dois segundos. O último homem atira em minha cabeça novamente. A câmera reserva desliga. Está tudo escuro. As balas ressoam em meu elmo. Sinto muita dor, quase perco a consciência. Escuto a direção dos tiros e me jogo. Doze segundos. Se eu errar, estou perdido. Resolvo arriscar tudo, e ativo minha surpresa especial. Uma descarga elétrica na blindagem da armadura. Sinto que toquei apenas de leve no infeliz, mas ele grita desesperadamente, até apagar.

Fico parado, caído no chão. A armadura pesa demais, mesmo para mim. Com um esforço épico, giro meu corpo para o lado. Movo minha mão até o capacete, e puxo a trava de segurança. Tiro da cabeça. Estou suado como a peste, e a borracha amortecedora que uso por baixo da armadura não serve como alívio. Sinto que vou ter assaduras pela manhã.
Faço força para levantar. Se eu tivesse bateria, poderia controlar o furgão por controle remoto. Enquanto dou meu primeiro passo, um dos homens acorda, e olha para mim, assustado. “Quem diabos é você, seu monstro?”. Eu?

Eu sou Midnighter.