Em 2015, um grupo de super-humanos escapa de uma base do governo para salvar o mundo, e acaba descobrindo uma série de segredos sombrios. Essas são suas histórias.
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O Retorno de Midnighter — Parte II

Meu nome é Shedd. Gabriel Shedd II. Mas não soa tão legal quanto em filmes. Cresci na DownTown de Chicago, ouvindo música eletrônica e jogando video-games. Meu pai era um policial do 44º Distrito, havia servido no Golfo e tinha meia dúzia de medalhas de honra ao mérito. Ele era meu herói, minha infância inteira foi baseada na idéia de que um dia eu seria como ele. Ele saia de casa às sete da noite, e só voltava no começo da madrugada, sempre com uniforme impecável. Quando eu tinha oito anos, ele me ensinou a atirar, e me levava nos churrascos da polícia para que eu conhecesse o pessoal. Eram todos bons homens, mas meu pai era o único herói de lá.
Claro, as coisas não eram tão simples. Quando eu tinha nove anos, descobri que ele não era exatamente um policial. Pelo menos, não o tempo todo. Meu pai era um Vigilante. Junto de outros três colegas que lutaram na guerra, eles passavam a madrugada correndo pela cidade, pulando de prédio em prédio, ajudando pessoas e capturando criminosos de uma forma que a polícia não conseguiria, nem ousaria. Não podia contar isso para ninguém, ele me fez prometer. Apresentou-me aos parceiros. Tio Albert, tio John e tia Andrea, era assim que eu os chamava. Eles eram para mim super-heróis de verdade, eram o esquadrão MidNight, os salvadores de Chicago.
Em 2005, eu já tinha 19 anos. Meu pai havia gasto boa parte de seu tempo me convencendo de que eu não deveria ser como ele. Que eu deveria me formar, virar um advogado. Conseguiu pagar com se salário miserável de policial o primeiro semestre em Harvard. Eu estudei, fui o melhor aluno de uma turma de duzentos. Não queria decepcionar meu herói. Ele nunca havia me decepcionado. Ele nunca havia faltado em nenhum dos jogos de baseball da escola, nunca havia descumprido uma promessa. Ele era esse tipo de homem, e havia me criado para ser igual. Quando voltei para casa naquele verão, queria mostrar para ele o quão bem eu havia me saído. Queria que ele tivesse orgulho de mim.
No terminal de ônibus, não o encontrei. Ele nunca se atrasava, nem mesmo quando aconteciam coisas ruins. Eu liguei em casa, mas ninguém atendeu. Não sabia o que fazer. Tio John apareceu em seu lugar. Estava com um olho roxo, um braço engessado, e um curativo enorme no pescoço. Quando vi aquilo, comecei a chorar. Eu sabia o que havia acontecido.
Tio John me contou que a desgraçada da Andrea os havia traído. Uma emboscada, tio Albert foi morto no lugar. Meu pai havia tomado um tiro por tio John, mas havia escapado. Os dois correram quase um quilometro nos esgotos antes de meu pai sucumbir aos ferimentos. Fomos no carro dele até em casa. Mamãe estava chorando, mas ela não sabia a verdade. Para ela, papai havia morrido em serviço, e tio John havia sofrido um acidente de carro. Eu chorei muito. Todos os dias das férias de verão, visitei o túmulo de meu pai, e todos os dias, jurei que ele teria orgulho de mim.
Na época, tio John havia acabado de abrir um negócio, e estava ganhando bastante dinheiro. Disse que eu não deveria me preocupar, pois ele garantiria que eu e mamãe pudéssemos viver em paz. Ele pagou minha faculdade, e fazia questão de me visitar no campus sempre que podia. Eu nunca terei uma forma de repagar a ele tudo que fez por nós.
Nos anos seguintes, usei todo meu tempo livre para me tornar forte. Entrei para o clube de tiro local, me afiliei ao ginásio, aprendi a lutar Full Contact. Estudava como um louco. Não me lembro de um único dia que tivesse abdicado da rotina. Tio John estava me oferecendo uma forma para me tornar bom o suficiente para acabar com a desgraçada que matou meu pai, mesmo que ele não soubesse. Isso me custou toda a vida social da faculdade, mas era um preço pequeno, muito menos do que eu estava disposto a pagar.
Numa noite, estava estudando para uma prova quando vi na Internet notícias sobre um misterioso vigilante de Chicago. Seu nome era Midnigther. Eu sabia que era tio John, sabia que ele não desistiria. Meu pai não desistiria. Nem eu. Formei-me em primeiro lugar, com as melhor médias que Harvard havia visto. Tio John queria que eu fosse trabalhar com ele em Chicago, mas eu não conseguiria ficar naquela cidade sem que as memórias voltassem. Naquela época, eu poderia ter alcançado tudo que quisesse, mas resolvi trabalhar com os casos mais difíceis, que ninguém pegaria em sã consciência, com medo de destruir a própria carreira. Eu não estava interessado no dinheiro, eu queria ajudar as pessoas. Mas ainda não pensava na hipótese de me tornar um vigilante, pois acreditava no sistema, e sabia que, se descobrisse o que aconteceu naquela noite, mandaria todos para a prisão para o resto de suas vidas. Até conhecer Maximillian Maxwell.
Foi em março de 2012. Não faz tanto tempo. Maxwell queria expandir sua empresa, a MaxCorp, para a America. Comparam o quarteirão onde cresci, e despejaram minha mãe. O único problema é que o apartamento era nosso, e não havia meios legais para que tivessem feito aquilo. Preparei o processo. Descobri uma série de irregularidades na empresa. Trabalho escravo, experimentos com seres humanos, uso de produtos proibidos, substâncias tóxicas como matéria prima para alimentos, poluição muito além dos limites permitidos, sonegação de impostos, e mais uma interminável lista. Eu tinha o material perfeito, eu tiraria a MaxCorp do ramo em menos tempo que eles demoliriam o meu velho prédio. Ou assim pensava.
Minha demissão do setor público foi praticamente política. Caçaram minha licença, e me meteram em fraude atrás de fraude. Os advogados da MaxCorp compraram o juiz, e ainda me processaram por difamação. Em um mês, eu perdi tudo que havia conquistado. Todas as provas que reuni desapareceram dos arquivos públicos, fui despejado de casa, e minha noiva me abandonou por achar que eu estava tendo um caso. Tudo em um mês. Mamãe morreu semanas depois, num acidente de carro, onde dirigiu bêbada. Mas ela não sabia sequer dar partida no carro. Pouco tempo depois, fui preso por homicídio e trafico de drogas, sendo que eu sequer bebia álcool, em respeito ao pedido de meu pai. Fiquei cinco anos sendo humilhado, com o pior tratamento possível, um presídio desumano. Presente pessoal da MaxCorp.
Durante todo esse tempo, tio John me visitou. Tinha seus advogados trabalhando no meu caso, contratara detetives. Disse que eu sairia logo. Eu acreditei nele. Tio John nunca mentiu. No começo de 2017, fui solto, mas nunca voltei a ver meu benfeitor. Ele havia sido morto.
Não exatamente. Midnighter morreu, salvando o mundo de um louco em Paris, mas tio John ainda faz aparições em videoconferências. Eu sei que não é ele, que é apenas uma imagem de computador. Fico com dó da filha dele, Shauny, que não deve ter idéia do quão importante é o pai dela. Provavelmente, ela nem sabe que ele morreu. Tio John com certeza pensou em tudo para protegê-la da verdade. Deve ter contratado sósias muitos anos antes. Provavelmente simularia a morte em um acidente aéreo em algumas semanas, ou algo assim. Nunca consegui falar com ela. Ela se tornou reclusa como o pai. Na infância, tínhamos sido bons amigos, mas agora, éramos estranhos.
Chegará a hora de eu fazer alguma coisa. Não podia deixar que os bandidos se safassem dessa, depois de tudo isso. Havia um depósito da guarda nacional a poucos quilômetros da cidade. Não era um posto grande, mas era usado como depósito de equipamento para os quartéis que ficavam nas cidades vizinhas. Brincava lá quando era criança, quando meu pai me levava para conhecer seus amigos da guerra. Demorei semanas para ficar pronto.
Montei um traje a prova de balas, usei os anos que havia estudado para preparar todo o resto. Modifiquei as armas, pintei de preto um blindado urbano, preparei explosivos e todo o tipo de coisa que achei que poderia usar. Agora, estou pronto. Finalmente estou pronto para vingar meu Pai e meu Patrono. Estou pronto para cumprir a única tarefa que me resta nesse mundo.
Pois agora, sou Midnighter.

Olhos Nublados — Parte III

Zed trancou a porta rapidamente e olhou para Mila. Ofegava. Suas mãos tremiam incontrolavelmente, num nervosismo que não estava habituado. "Droga", pensou, "Eu não sou nenhum Nistelroy para ficar invadindo prédios assim, eu não sou um ladrão!".

— Se continuar tremendo, vão perceber.

O golpe da voz triste da garota o fez voltar para a realidade. Ela lhe causava uma sensação completamente estranha de dúvida e piedade. Zed não tinha certeza do que estava fazendo, mas alguma parte dele — talvez a parte que acreditasse em fé, que havia tanto negado — estava trabalhando contra seus instintos.

— Ah!, Moça! Você tem enrolado o Zed aqui até o limite! Fale de uma vez! O que viemos fazer aqui?

Mila fingiu que não ouviu, mas ele insistiu em mais alguns comentários. Ela andou até um dos computadores da sala de segurança e derramou o liquido frio que sobrara num copo de café deixado ali por algum guarda indisciplinado. O soro negro escorreu pela mesa de controle, causando faíscas. As telas de monitoramento começaram a chuviscar. Apanhou um microfone e enfiou o cabo de ligação na mesa faiscante. Zed teve a impressão de que ela tomara choque elétrico.

— Brownwell Park, 2334, é um armazém de peças de carro - sussurrou. O rosto de Zed cresceu em interrogação; sua paciência estava se esgotando.

Ele se sentou em uma cadeira, e sacou a arma. Girou duas vezes entre os dedos, conferiu alguma coisa, e deitou-a sobre a mesa no meio da sala. Levou um cigarro à boca, e começou a estudar Mila calmamente.

— O que está fazendo? Eles vão nos encontrar! O guarda vai entrar pela porta em um instante...

Zed sorriu. Girou o cigarro entre os lábios, e tirou do caminho uma mecha que tampava a visão de seu olho direito. Calmamente, sacou o isqueiro — um raríssimo Ronson Blueberry da época da segunda guerra mundial — e o fez funcionar, tampando a faísca com a outra mão. Deu uma tragada lenta, e soltou a fumaça pelas narinas. Parecia cada vez mais com um ator de filmes Noir.

— Eu cansei de seu jogo, Mila. Tentei ser bonzinho com você, tentei mesmo. Eu não sou o idiota que você deve pensar.

— Você não está entendendo, isso não deveria estar... — os olhos de Mila ficaram enevoados, e ela pareceu perder contato com a realidade por alguns instantes.

— E lá vai você de novo. O plano deu errado, e agora você vai fazer alguma coisa sem sentido para que ele volte ao rumo em... três... dois... um...

Mila jogou o copo de café do lado da porta. Um guarda truculento entrou correndo, com a arma em mãos.

— Mas quem por... — e escorregou no copo, caindo de cabeça no chão. Estava inconsciente.

Mila respirava forte, como se tivesse acordado de um pesadelo. Era como se tivesse perdido todas as palavras.

— Mocinha, agora é a hora de a gente conversar. Se você for prestativa, nosso amigo dorminhoco nem vai entender o que aconteceu. Por que estamos aqui?

— Eu não... eu não sei. — Mila engoliu seco; as coisas pareciam estar saindo de controle — eu não consigo mais controlar. Eu só estou tentando ajudar!

Zed mastigou o filtro do cigarro, e deixou-o pender pelo canto da boca. Não parecia satisfeito. Olhou para o relógio.

— O turno deve acabar em mais uns minutos, e ai o próximo guarda vai chegar... e não estamos vendo nenhum outro copo de café por aqui, estamos?

— Algo ruim... algo muito ruim vai acontecer. Eu não sei o que é, mas... eu... nós podemos impedir, se fizermos direito.

— Minha paciência tem limites, moça. Por que você está invadindo a MaxCorp, e o que eu tenho a ver com isso? — Zed andou até o guarda caído, e começou a revistá-lo.

— O laboratório do quadragésimo oitavo andar... eu... preciso chegar lá, mas não vou conseguir sozinha. Você tem que me ajudar. Se eu não fizer isso, muitas pessoas vão morrer.

Zed tirou alguma coisa da cintura do guarda. Levantou-se, e foi até Mila. Acariciou o rosto da garota com as costas da mão, e sorriu.

— Pronto, vamos. Eu só queria o cartão de acesso do rapaz aqui.

Mila ficou confusa.

— Quer dizer que você só estava..? — ela parecia brava.

Ele riu. Guardou o cartão no bolso, e foi andando. Deu um belo chute na cabeça do guarda, para garantir que ele não acordasse nas próximas horas.

— Eu o vi chegando quando entrei, havia tirado o comunicador para falar no telefone com uma mulher. Eu sabia que ele não ia chamar reforços. Além disso, eu precisava testar como é que você faz seu truquezinho — Ela tentou interromper brava, mas Zed continuou falando — vamos andando, antes que descubram esse aqui.

Saíram pela porta dos fundos, e correram até a escadaria. Vinte minutos depois, estavam os dois no quadragésimo oitavo andar do MaxCorp Silver Tower. O prédio tinha esse nome por parecer ser de uma única peça de vidro espelhado com um tom levemente metálico. Zed acenava para os trabalhadores do escritório, que sorriam em resposta, como se fosse mais um da turma. Ele se divertiu inventando uma história sobre ser do setor de corte de verbas, e fofocou sobre o caso que o fictício Lenny do Recursos Humanos tinha com a secretária gorda do nono andar. Pararam ao se deparar com a ameaçadora imagem dos seguranças da porta dupla no final do corredor.
Zed tentou adivinhar quais seriam as armas que os truculentos homens guardavam sob o uniforme. O negro com nariz achatado tinha cara de uma P-85 Mark II, enquanto o careca com queixo duplo com absoluta certeza portava uma daquelas Colt Double Eagle. Fora isso, havia quatro câmeras panorâmicas e as duas secretárias na recepção ao lado. Ele conhecia bem esses sistemas de segurança, e pensou consigo mesmo que havia acertado em ter se tornado um negociador de risco — nome pelo qual se referia a toda classe de profissionais do jogo, golpistas, banqueiros, e o resto da malandragem formalizada — e não um ladrãozinho qualquer.
Mila o puxou para uma sala. No instante seguinte, a porta dupla da diretoria se abriu, e Zed teve um vislumbre rápido do figurão que era Maximillian Maxwell II, oitavo homem mais rico do mundo, personalidade do ano da Times e rei da filantropia na América. Como da maior parte da população, a opinião de Zed sobre ele era favorável; o homem havia ajudado o mundo a se reconstruir depois de duas crises, havia criado a primeira força policial com capacidade super-humana, e mais um monte de coisas. Claro, houve aquela vez que tiraram todos os remédios da MaxMed de circulação, mas ninguém parecia se lembrar disso.

Mila andou pela sala. Era um laboratório branco-azulado, cheio de geladeiras em miniatura. O lugar cheirava a hospital. Ela abriu uma das portinhas na parede e tomou um saco plástico. Havia um frasco de vidro cheio de um liquido amarelado, mas ela não se deu ao trabalho de olhar. Andou até o final da sala, abrindo sem ver todas as portas disponíveis. No final, abriu uma gaveta e tirou de lá uma ampola vazia. Zed teve a impressão de que a moça fosse uma experiência mal-sucedida de algum cientista louco, e agora estava se voltando contra o criador.

— Zed, preste atenção. Convença os seguranças para que nos deixem entrar na sala do final do corredor.

— Mas ein? Isso é suicídio! Será que não tem nenhum copo de café vazio por aqui?

Mila não respondeu; empurrou Zed com o peso de seu corpo, e o rapaz saiu pela porta, quase batendo de frente com uma parede. Os seguranças trocaram olhares, e o careca foi na direção do rapaz.

— Eu posso ver sua identificação? Eu não acho que tenha te visto aqui dentro antes. — O homem tinha quase dois metros de altura, e com certeza tinha músculos o suficiente para quebrar Zed ao meio sem muito esforço.

Zed tremeu um pouco. Pensou em sacar a arma e acabar com tudo ali mesmo, mas não teve coragem. Leu o nome do segurança no crachá. "Terrance Walker". Era possível sentir a antipatia do brutamontes no ar, e Zed podia dizer facilmente que bastaria uma palavra errada para que fosse parar na delegacia local, na melhor das hipóteses.

— E então? Vai mostrar ou não?

Zed sacou o cartão que havia tirado do guarda. O segurança precisaria estar bêbado para acreditar que era ele na foto. Mostrou-a.

— Ahn... Terry, Terry, você não se lembra de mim? Nós conversamos no elevador, eu te recomendei apostar nos Giants, lembra?

— Em primeiro lugar — o careca segurou o colarinho de Zed — eu sou de Ohio, os Giants são para perdedores. E em segundo lugar — prensou o pobre rapaz com toda a força na parede — é Sr. Walker para você! Agora me diz, que porra você está fazendo aqui, ou eu estouro seus miolos, seu merdinha!

O negro sacou a arma. Era realmente uma Mark II, mas com silenciador. Zed quase sorriu, pensando que tipo de idiota colocaria um silenciador numa Mark II, mas teve a impressão que não seria o melhor comentário a se fazer naquele momento.

— Olha-ugh, olha, eu só preciso entrar ali um-uhg um m-minuto só, vocês... v-vocês podem até fazer um intervalo, que tal? — Zed nesse momento esperava que Mila tivesse encontrado todo o estoque de copos de café do prédio, para tirá-lo dessa confusão. A mão do careca pesava uma tonelada.

Zed tentou alcançar sua arma, mas sentiu que ela não estava mais onde deveria. Sabia que não teria tempo para nenhuma brincadeira. O careca gritava com ele. As secretárias saíram correndo e se esconderam dentro de alguma sala fora do campo de visão.

— Me deixem em paz! — Zed gritou, perdendo todo o ar que tinha acumulado. Sua voz ecoou pela sala, e pareceu ter um poder descomunal.

— Perdão, senhor, perdão! — gritaram os guardas.

Os dois saíram correndo, assustados. O negro tropeçou e foi se arrastando até o final do corredor. Zed ficou parado por alguns instantes, tentando entender o que havia acontecido. Talvez tivesse ficado parado lá pelo resto do dia, se Mila não saísse pela porta e o puxasse. Entraram na sala de porta dupla sem falar uma palavra. Então, Zed explodiu.

— Você quer me matar, sua desgraçada? Aqueles filhos da puta quase fizeram picadinho de Zed! Ou você fala, ou vai tomar uma bala do meio da testa!— Estava já com a arma apontada para a menina, e seu coração batia tão rápido que fazia as costelas vibrar.

— Se não tivesse demorado tanto para usar seu dom, poderia ter evitado tudo isso. — Mila foi andando calmamente na direção de um notebook que estava em cima da mesa de reuniões.

— Que porra é essa, Dom? Do que diabos você está falando? — Zed ainda estava com a arma apontada, mas já não tinha certeza de que iria atirar.

Mila digitou alguma coisa, e só respondeu para Zed quando ele ameaçou ficar histérico.

— Seu dom, sua habilidade especial... — parou um instante, e seus olhos ficaram vazios por alguns segundos — Ah, não! Você não sabia?

— Do que você está falando, moça? Eu não estou entendendo nada, droga!

— Você tem um dom, como o meu... eu achei que você já soubesse, foi um engano! Eu nunca teria...

A porta se abriu num golpe forte. Meia dúzia de homens bem armados entrou no lugar, gritando e berrando. Pareciam estar vestidos para a guerra, com uma armadura cinza e capacetes. Em um instante, cercaram Zed e Mila. O líder deles tinha um bigode farto por trás do vidro da mascara, e sua voz era muito grave, mais ainda quando gritava.

— Muito bem, os dois, pro chão!

Zed olhou nervoso para Mila. A menina parecia calma, mas os olhos dela haviam se perdido no tom acinzentado. O céu já estava escuro, e a janela gigantesca na sala de reuniões dava uma visão bem clara de que os dois não tinham saída.
O som de um disparo assustou as secretárias que estavam escondidas na cozinha do andar. Havia começado.

Olhos Nublados — Parte II

Ela acordou lentamente. Seus olhos se abriram, vazios por alguns instantes, e vasculharam lentamente o lugar. Não ousava se mover. Quando encontrou os olhos de Zed no caminho, o rapaz esboçou um sorriso e lançou-se para a frente da poltrona, interessado.

— Então, será que terei a honra de ouvir seu nome, senhorita? Você me pregou peças a noite inteira, com seus bilhetinhos!

Jovem e bonito, Zed ainda demonstrava um corpo atlético, um ar charmoso, e aquela voz melosa e firme de locutor de rádio da decada de 50. Suas roupas eram modernas, como as de um artista, com calça azul-acinzentada, um blazer azul e uma camisa branca sem gravata. Seus cabelos loiros pendiam pelos lados da cabeça, longos o suficiente para dar um ar de descuidado, mas bem cuidados o suficiente para perceber-se que ele cuidava da aparência. A moça pareceu assimilar lentamente cada um dos detalhes da aparência do rapaz, como se as comparasse com alguma imagem mental antiga.

— Ah, qualé? — insistiu Zed — você fala ingês, eu sei disso! Só um nome, como gratidão, não?

Ela respirou fundo e ponderou por alguns instantes. Zed teve a impressão de que os olhos da garota ficaram levemente turvos e vazios, como se cobertos por um chiado de televisão. Antes que ele pudesse ficar assustado, ela abriu bem as mãos por baixo dos cobertores, e forçou os ombros pra fora.

— Mila... Mila Radjavitch, mas o nome muda alguma coisa? — Disse com um sotaque suave de alguma língua do leste europeu. Zed adivinhou que era do leste europeu por que havia passado uma temporada lá, alguns anos antes, para deixar a poeira baixar.

Ela se levantou. Estava usando pijamas estranhos, muito largos. Talvez tivesse sentido a falta do peso frio de suas roupas molhadas.

— São do Hotel, Mila... — Zed saboreou o nome — Você estava congelando, então achei que não se importaria. Pelo menos não li nenhum dos seus bilhetes falando que eu não poderia fazer isso.

Ele sorriu confiante. Levantou-se da poltrona, e jogou o livro que estava em seu colo numa mesinha qualquer. Tagarelou qualquer coisa sobre a baixa qualidade do vinho do bar do hotel, mas seu raciocínio foi interrompido pela voz triste da garota.

— Diga que não quer, que ainda está dormindo.

Antes de Zed poder perguntar alguma coisa, a porta bateu, e um grito avisando serviço de quarto foi ouvido. Zed dispensou. Olhou então para a garota.

— Viu, é desse tipo de coisa que estou falando! Como diabos você faz isso?

— Somos iguais... mas somos diferentes também. Somos diferentes das pessoas normais, não percebe?

Zed fingiu entender. Era algum tipo de filosofia? Talvez ela fosse uma maluca, ou apenas alguma garota em um esquema para lhe pregar uma peça. Ele se jogou na poltrona mais uma vez, afundando bem o corpo.

— Tá, pode parar por ai. Fale em inglês claro, sem rodeios! Quem diabos é você, e o que você quer comigo?

— É engano, não se de ao trabalho...

— Mas que diabos, engano? Eu — o telefone o interrompeu. O recepcionista do hotel havia feito a ligação para o apartamento errado, e se desculpou envergonhado. Zed jogou o aparelho para o lado, assustado.

Ele encarou a menina por alguns minutos. Ela permanecia com um rosto desanimado e um olha vazio. Talvez Zed estivesse esperando que ela lhe dissesse alguma outra coisa dessas, e ele não queria ser pego de surpresa. Quando a ansiedade passou, ele voltou à sua posição inquisidora.

— Como você sabe meu nome?

— Sim.

— Como diabos sim? Que tipo de resposta é essa, que tipo de doida você é?

— Não.

— Ei!, Ei!, Ei!, sem essa de "Bola 8" pra cima de mim! Me diga como você sabe quem eu sou!

— Eu sei.

— Sera que diabos você não entende inglês? - Zed pronunciou novamente todas as palavras lentamente, gesticulando exageradamente.

— Eu entendo inglês. Eu sei essas coisas. Só sei. Igual você, mas diferente, é tão difícil aceitar?

Mais uma vez, Zed estava confuso. Ele pensou em pegar sua arma, mas ela estava no criado mundo do lado da garota. Ele alargou a gola da camisa, respirou fundo, e massageou a testa, pensativo.

— Tá, tá. E por que diabos eu? Por que justo eu? E não me venha com resposta enigmática, eu salvei sua vida, você me deve isso!

— Eu não posso fazer sozinha. Você vai me ajudar, precisa me ajudar.

— Ou então...? O que eu ganho com isso? Digo, além dessa dor de cabeça que você está me dando?

— O suficiente. Às onze e dezessete, dois homens vão entrar no hotel. Eles vão subir o elevador e vão forçar a entrada. Por sorte, vai ser a porta errada. Mas eles vão tentar de novo, e acertar. Se você não vier comigo, eles vão cobrar pelo golpe que você deu no velho do barco. Vão entrar atirando, então você não vai ter tempo de tentar acalma-los.

— Como diabos...?

Zed olhou para o relógio na parede do hotel. Onze e dezesseis. Correu para a janela, e forçou a vista para baixo. Viu dois homens entrando no hotel pela porta da frente. Reconheceu um deles do jogo no iate de Don Rosso, um mafioso local (que, por acaso, havia perdido no Poquer ontém a noite). Diabos, como essa menina fazia isso?

— Tá, você está na liderança. Como eu saio dessa?

Ela fez força para se levantar da cama. O relógio corria ao fundo. Zed pegou a pistola rapidamente, e apertou-a entre os dedos. Ela andou até a janela e puxou uma corda. Uma plataforma para limpadores-de-janela surgiu. Mila fez força para entrar. Zed a empurrou, e se jogou. Com toda sua força, ele puxou as cordas, erguendo-se a pouco mais de metro e meio do limite da janela.
A porta do quarto ao lado se abriu. Tiros. Um grito de pavor. Instante depois, a porta do quarto de Zed se abriu com violência. Uma rajada de balas foi disparada. Um dos homens gritou com um sotaque estranho, enquanto uma barulheira enorme se seguiu. Eles pareceram deixar o quarto. Minutos depois, sirenes foram ouvidas.

— Solte a corda.

— O que? Você está louca, nós vamos cair! São pelo menos vinte metros!

— Não.

— Não o que?

— Solte a corda, agora! — ela puxou uma das mãos de Zed, o balanço da plataforma fez com que ele soltasse a outra.

A plataforma seguiu em queda livre por talvez uns dez metros, e então parou suavemente. Inclinou-se lentamente em uma janela aberta, e os dois deslizaram para dentro de um quarto. Zed estava inginado com aquilo, mas antes de argumentar, lembrou que ele poderia estar morto.

— Tá, tá, e agora?

Mila não respondeu. Andou até o armario e tirou de lá algumas roupas.

— Vire-se.

— Que? Não, perai, o que...

Ela começou a se despir. Zed já havia visto a cena um milhão de vezes. Ele mesmo havia dado um banho quente na desacordada Mila, horas antes, mas ele se sentiu um pouco envergonhado. Se virou.

— Bem, pelo menos não podem dizer que Zed não é um cavalheiro, não senhor.

Percebeu que estava nervoso, pois sempre falava em terceira pessoa quando perdia o controle da situação. Ouviu a porta abrindo, e se virou assustado. Mila estava saindo. Correu até ela.

— Ei, ei, você não vai se livrar de mim assim tão fácil! Pode parar por ai, mocinha!

Ela chamou o elevador. Estava agora vestida com calça jeans e uma camiseta branca. Seus cabelos arrepiados e seus olhos brilhantes contrastavam com a cor de sua pele, e ela parecia magra como uma modelo de moda. Zed pensou que ela provavelmente deveria estar faminta.
Desceram até o andar do térreo, e foram até o balcão. Zed olhou para o responsável, um homem magro e careca, com queixo saliente, pronunciado ainda mais pela gola alta do ridiculo uniforme do hotel.

— O senhor foi procurado por uns cavalheiros, senhor Andreas. Acho que seria incomodo se eles fossem notificados de sua saida — o homem fez um sinal com a mão, esfregando os dedos.
Zed havia sido traido por um atendente de hotel barato. Ótimo, era tudo que ele queria! Olhou firme nos olhos do homem, e falou alguma coisa em tom bem firme. Mila pareceu interessada no que estava acontecendo.

O homem se encolheu atrás do balcão, em posição fetal. Zed calmamente apagou os registros de sua estada no hotel — mesmo de seu nome falso, Pablo Andreas, que ele havia inventado na entrada do lugar. Foi sendo guiado por Mila por um caminho estranho, até chegarem na garagem. Lá, entrou em um carro esporte prata, que havia usado na noite passada.

— Moça, é bom que você realmente valha a pena, esse trabalho todo vai acabar comigo.

Ela sorriu para ela mesma, mas seus olhos ainda pareciam nublados. Zed parecia ser o tipo de canalha que destroi corações de mocinhas por diversão, mas ela não pensou nisso.

— Ceeerto, estamos no Zed-movel, pra onde agora?

— MaxCorp.