Em 2015, um grupo de super-humanos escapa de uma base do governo para salvar o mundo, e acaba descobrindo uma série de segredos sombrios. Essas são suas histórias.
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Olhos Nublados – Parte IV

Mila sentiu o sangue respingar em seu rosto. Estava completamente imóvel, e seu olhar parecia perdido na desconfortante visão da cidade que se projetava das enormes janelas do MaxCorp Silver Tower. As luzes estavam apagadas, mas os disparos das armas criavam uma iluminação aterradora que revelava apenas pequenos traços da cena. Ouvia Zed gritando, mas as palavras eram incompreensíveis. Seu corpo foi arrastado para longe, sua visão tornou-se turva – parte pelo sangue escorrendo pelo próprio rosto – e os sons ficaram cada vez mais distantes.

Acordou. As luzes se moviam rápido de mais. Pareciam tentar chegar a ela por todas as direções. Ouviu um sussurro, talvez de Zed. O gosto de ferro em sua boca era forte. O sangue coagulado perde o calor reconfortante, e se torna congelante. Tudo parecia ficar escuro. Ouvia sirenes. As imagens sumiram novamente.

Abriu os olhos mais uma vez. Uma luz forte. Uma pergunta foi feita, mas ela não entendeu nenhuma palavra. Era difícil respirar. Sentiu sua pele sendo perfurada, mas não soube dizer onde; a dor já dominava seu corpo. Tudo parecia azul. Azul e branco. Era como deitar no chão do banheiro, frio, muito frio. O cheiro de ferro entupia suas narinas. O ar pareceu se recusar a entrar em seus pulmões. As coisas tornaram-se escuras mais uma vez.

Uma sensação confortável abraçou seu corpo. A dor havia melhorado. Abriu os olhos, mas eles se recusaram a aceitar a luz.

– Se sente melhor?

Mila tentou olhar para o dono da voz, mas suas pálpebras recusaram se abrir. Ela tentou mover um dos braços, mas sentiu uma dor alfinetando todos seus músculos.

– Calma, calma, você teve sorte! Agora descanse, você precisa de repouso.

Ela tentou balbuciar alguma coisa, mas não conseguiu formar palavras. Sentiu uma mão correndo sua testa. Pele suave, quase que veludo. Mila não ouviu mais nada. Não conseguia pensar direito. Perdeu a noção do tempo, e não teve certeza se estava acordada.
Teve um sonho estranho em algum momento. O mesmo sonho que a perseguia desde aquela noite, quatro meses antes. Pilhas e mais pilhas de corpos, alguns de crianças. Uns poucos homens esqueléticos se esgueiravam revirando os cadáveres. Uma torre retorcida se erguia no horizonte, e parecia tragar a atenção do devaneio. Uma sala do trono feita de esmeraldas pontiagudas. Havia uma pessoa usando uma armadura verde e negra, sentado em um trono disforme. No horizonte, é possível ver uma tempestade vermelha, uma chuva de sangue. A aterradora figura olhou diretamente para ela. “Você não pode impedir”.

– Abra a boca, você precisa de água.

Mila sentiu o liquido escorrendo por seus lábios. Fez o possível para bebê-lo sem engasgar. Seus pensamentos ficavam mais claros. Por que não soube que os homens iriam entrar na sala? Isso nunca havia acontecido, a maldição podia ter acabado com suas noites de sono, mas pelo menos não cometia erros tolos como esse.
Tentou abrir os olhos novamente. Ouvia gaivotas, e um ronco de motor. A luz feriu sua retina, mas ela se recusou a fraquejar. Lentamente, acostumou-se com a luz. Então, tudo ficou nublado.

– Finalmente! Eu já achava que meu investimento tinha ido por água abaixo – Disse Zed. Mila podia vê-lo agora, estava sentado em uma cadeira branca. – Você consegue falar?

– C-como ch-cheg... chegamos aq-qui? – A garganta da moça doía um pouco, como se tivesse gritado muito na noite anterior.

Zed sorriu. Levantou-se e saiu da sala sem falar uma palavra. Mila sentia o corpo doer. Tentou se levantar para segui-lo, mas não teve forças. Sentiu certo desespero em não conseguir sair da cama. Ela quase chorou, sua respiração ficou pesada.

– P-por favor, n-não... – tentou falar, tentando esconder o medo em sua voz.

Mas não adiantou. Zed só retornou muito tempo depois. Mais de uma hora. Trazia uma bandeja com um prato de algum tipo de caldo ou sopa. A garota tentou falar alguma coisa, mas Zed pareceu bastante convincente em dizer que ela deveria comer. Comeu. Meio forçada, a garganta arranhava a cada colherada. Quando terminou, se sentia mais calma. Seus pensamentos ficaram lentamente mais claros.

– Como saímos de lá? – tentou perguntar, com uma voz mais suave.

Zed não respondeu.

– Eu sei onde estamos, sei que fiquei inconsciente por dois dias. Eu sei até que você seduziu a esposa do dono desse barco. Mas por favor, me responda como saímos de lá?

Mais uma vez, ele permaneceu em silêncio. O barulho de um helicóptero preencheu a sala, mas gradualmente foi diminuindo. Mila tentou se levantar bruscamente, seus olhos pareciam mais nublados que nunca.

– Siga o helicóptero, não temos muito tempo! – ela disse. Sentiu dor ao falar tão rápido.

– Não. – Zed respondeu num tom de voz suave, com um sorriso leve no rosto.

Mila ficou paralisada por alguns instantes.

– Você precisa me ajudar! Se não fizer isso, vai acontecer algo muito ruim! – ela tentou justificar. Falar parecia causar certa dor em seu corpo.

– Claro, eu sempre preciso ajudar. Vamos fazer isso mais interessante para mim. Quem vai ganhar a Liga dos Campeões? – disse ele, numa cadencia calma e suave.

– O que? Milhões de pessoas podem morrer, e você está preocupado com futebol? Você não tem coração? – ela tentou segurar a respiração, mas já sentia um gosto de ferro na boca.

– É uma troca justa. Uma resposta inocente não é um preço razoável pela vida de milhões? – Zed parecia examinar a palma da própria mão.

Mila não podia acreditar. Ele parecia ser pessoa completamente diferente de quem havia conhecido. Um barulho de explosão ao longe. Ela não tinha muito tempo.

– Manchester, 3 a 2 contra Milan. – ela não entendia direito, mas se sentia usada. Ela tinha más lembranças de usar o dom para proveito próprio.

Zed se levantou e saiu. Mila sentiu o barco mudando de direção.

Olhos Nublados — Parte III

Zed trancou a porta rapidamente e olhou para Mila. Ofegava. Suas mãos tremiam incontrolavelmente, num nervosismo que não estava habituado. "Droga", pensou, "Eu não sou nenhum Nistelroy para ficar invadindo prédios assim, eu não sou um ladrão!".

— Se continuar tremendo, vão perceber.

O golpe da voz triste da garota o fez voltar para a realidade. Ela lhe causava uma sensação completamente estranha de dúvida e piedade. Zed não tinha certeza do que estava fazendo, mas alguma parte dele — talvez a parte que acreditasse em fé, que havia tanto negado — estava trabalhando contra seus instintos.

— Ah!, Moça! Você tem enrolado o Zed aqui até o limite! Fale de uma vez! O que viemos fazer aqui?

Mila fingiu que não ouviu, mas ele insistiu em mais alguns comentários. Ela andou até um dos computadores da sala de segurança e derramou o liquido frio que sobrara num copo de café deixado ali por algum guarda indisciplinado. O soro negro escorreu pela mesa de controle, causando faíscas. As telas de monitoramento começaram a chuviscar. Apanhou um microfone e enfiou o cabo de ligação na mesa faiscante. Zed teve a impressão de que ela tomara choque elétrico.

— Brownwell Park, 2334, é um armazém de peças de carro - sussurrou. O rosto de Zed cresceu em interrogação; sua paciência estava se esgotando.

Ele se sentou em uma cadeira, e sacou a arma. Girou duas vezes entre os dedos, conferiu alguma coisa, e deitou-a sobre a mesa no meio da sala. Levou um cigarro à boca, e começou a estudar Mila calmamente.

— O que está fazendo? Eles vão nos encontrar! O guarda vai entrar pela porta em um instante...

Zed sorriu. Girou o cigarro entre os lábios, e tirou do caminho uma mecha que tampava a visão de seu olho direito. Calmamente, sacou o isqueiro — um raríssimo Ronson Blueberry da época da segunda guerra mundial — e o fez funcionar, tampando a faísca com a outra mão. Deu uma tragada lenta, e soltou a fumaça pelas narinas. Parecia cada vez mais com um ator de filmes Noir.

— Eu cansei de seu jogo, Mila. Tentei ser bonzinho com você, tentei mesmo. Eu não sou o idiota que você deve pensar.

— Você não está entendendo, isso não deveria estar... — os olhos de Mila ficaram enevoados, e ela pareceu perder contato com a realidade por alguns instantes.

— E lá vai você de novo. O plano deu errado, e agora você vai fazer alguma coisa sem sentido para que ele volte ao rumo em... três... dois... um...

Mila jogou o copo de café do lado da porta. Um guarda truculento entrou correndo, com a arma em mãos.

— Mas quem por... — e escorregou no copo, caindo de cabeça no chão. Estava inconsciente.

Mila respirava forte, como se tivesse acordado de um pesadelo. Era como se tivesse perdido todas as palavras.

— Mocinha, agora é a hora de a gente conversar. Se você for prestativa, nosso amigo dorminhoco nem vai entender o que aconteceu. Por que estamos aqui?

— Eu não... eu não sei. — Mila engoliu seco; as coisas pareciam estar saindo de controle — eu não consigo mais controlar. Eu só estou tentando ajudar!

Zed mastigou o filtro do cigarro, e deixou-o pender pelo canto da boca. Não parecia satisfeito. Olhou para o relógio.

— O turno deve acabar em mais uns minutos, e ai o próximo guarda vai chegar... e não estamos vendo nenhum outro copo de café por aqui, estamos?

— Algo ruim... algo muito ruim vai acontecer. Eu não sei o que é, mas... eu... nós podemos impedir, se fizermos direito.

— Minha paciência tem limites, moça. Por que você está invadindo a MaxCorp, e o que eu tenho a ver com isso? — Zed andou até o guarda caído, e começou a revistá-lo.

— O laboratório do quadragésimo oitavo andar... eu... preciso chegar lá, mas não vou conseguir sozinha. Você tem que me ajudar. Se eu não fizer isso, muitas pessoas vão morrer.

Zed tirou alguma coisa da cintura do guarda. Levantou-se, e foi até Mila. Acariciou o rosto da garota com as costas da mão, e sorriu.

— Pronto, vamos. Eu só queria o cartão de acesso do rapaz aqui.

Mila ficou confusa.

— Quer dizer que você só estava..? — ela parecia brava.

Ele riu. Guardou o cartão no bolso, e foi andando. Deu um belo chute na cabeça do guarda, para garantir que ele não acordasse nas próximas horas.

— Eu o vi chegando quando entrei, havia tirado o comunicador para falar no telefone com uma mulher. Eu sabia que ele não ia chamar reforços. Além disso, eu precisava testar como é que você faz seu truquezinho — Ela tentou interromper brava, mas Zed continuou falando — vamos andando, antes que descubram esse aqui.

Saíram pela porta dos fundos, e correram até a escadaria. Vinte minutos depois, estavam os dois no quadragésimo oitavo andar do MaxCorp Silver Tower. O prédio tinha esse nome por parecer ser de uma única peça de vidro espelhado com um tom levemente metálico. Zed acenava para os trabalhadores do escritório, que sorriam em resposta, como se fosse mais um da turma. Ele se divertiu inventando uma história sobre ser do setor de corte de verbas, e fofocou sobre o caso que o fictício Lenny do Recursos Humanos tinha com a secretária gorda do nono andar. Pararam ao se deparar com a ameaçadora imagem dos seguranças da porta dupla no final do corredor.
Zed tentou adivinhar quais seriam as armas que os truculentos homens guardavam sob o uniforme. O negro com nariz achatado tinha cara de uma P-85 Mark II, enquanto o careca com queixo duplo com absoluta certeza portava uma daquelas Colt Double Eagle. Fora isso, havia quatro câmeras panorâmicas e as duas secretárias na recepção ao lado. Ele conhecia bem esses sistemas de segurança, e pensou consigo mesmo que havia acertado em ter se tornado um negociador de risco — nome pelo qual se referia a toda classe de profissionais do jogo, golpistas, banqueiros, e o resto da malandragem formalizada — e não um ladrãozinho qualquer.
Mila o puxou para uma sala. No instante seguinte, a porta dupla da diretoria se abriu, e Zed teve um vislumbre rápido do figurão que era Maximillian Maxwell II, oitavo homem mais rico do mundo, personalidade do ano da Times e rei da filantropia na América. Como da maior parte da população, a opinião de Zed sobre ele era favorável; o homem havia ajudado o mundo a se reconstruir depois de duas crises, havia criado a primeira força policial com capacidade super-humana, e mais um monte de coisas. Claro, houve aquela vez que tiraram todos os remédios da MaxMed de circulação, mas ninguém parecia se lembrar disso.

Mila andou pela sala. Era um laboratório branco-azulado, cheio de geladeiras em miniatura. O lugar cheirava a hospital. Ela abriu uma das portinhas na parede e tomou um saco plástico. Havia um frasco de vidro cheio de um liquido amarelado, mas ela não se deu ao trabalho de olhar. Andou até o final da sala, abrindo sem ver todas as portas disponíveis. No final, abriu uma gaveta e tirou de lá uma ampola vazia. Zed teve a impressão de que a moça fosse uma experiência mal-sucedida de algum cientista louco, e agora estava se voltando contra o criador.

— Zed, preste atenção. Convença os seguranças para que nos deixem entrar na sala do final do corredor.

— Mas ein? Isso é suicídio! Será que não tem nenhum copo de café vazio por aqui?

Mila não respondeu; empurrou Zed com o peso de seu corpo, e o rapaz saiu pela porta, quase batendo de frente com uma parede. Os seguranças trocaram olhares, e o careca foi na direção do rapaz.

— Eu posso ver sua identificação? Eu não acho que tenha te visto aqui dentro antes. — O homem tinha quase dois metros de altura, e com certeza tinha músculos o suficiente para quebrar Zed ao meio sem muito esforço.

Zed tremeu um pouco. Pensou em sacar a arma e acabar com tudo ali mesmo, mas não teve coragem. Leu o nome do segurança no crachá. "Terrance Walker". Era possível sentir a antipatia do brutamontes no ar, e Zed podia dizer facilmente que bastaria uma palavra errada para que fosse parar na delegacia local, na melhor das hipóteses.

— E então? Vai mostrar ou não?

Zed sacou o cartão que havia tirado do guarda. O segurança precisaria estar bêbado para acreditar que era ele na foto. Mostrou-a.

— Ahn... Terry, Terry, você não se lembra de mim? Nós conversamos no elevador, eu te recomendei apostar nos Giants, lembra?

— Em primeiro lugar — o careca segurou o colarinho de Zed — eu sou de Ohio, os Giants são para perdedores. E em segundo lugar — prensou o pobre rapaz com toda a força na parede — é Sr. Walker para você! Agora me diz, que porra você está fazendo aqui, ou eu estouro seus miolos, seu merdinha!

O negro sacou a arma. Era realmente uma Mark II, mas com silenciador. Zed quase sorriu, pensando que tipo de idiota colocaria um silenciador numa Mark II, mas teve a impressão que não seria o melhor comentário a se fazer naquele momento.

— Olha-ugh, olha, eu só preciso entrar ali um-uhg um m-minuto só, vocês... v-vocês podem até fazer um intervalo, que tal? — Zed nesse momento esperava que Mila tivesse encontrado todo o estoque de copos de café do prédio, para tirá-lo dessa confusão. A mão do careca pesava uma tonelada.

Zed tentou alcançar sua arma, mas sentiu que ela não estava mais onde deveria. Sabia que não teria tempo para nenhuma brincadeira. O careca gritava com ele. As secretárias saíram correndo e se esconderam dentro de alguma sala fora do campo de visão.

— Me deixem em paz! — Zed gritou, perdendo todo o ar que tinha acumulado. Sua voz ecoou pela sala, e pareceu ter um poder descomunal.

— Perdão, senhor, perdão! — gritaram os guardas.

Os dois saíram correndo, assustados. O negro tropeçou e foi se arrastando até o final do corredor. Zed ficou parado por alguns instantes, tentando entender o que havia acontecido. Talvez tivesse ficado parado lá pelo resto do dia, se Mila não saísse pela porta e o puxasse. Entraram na sala de porta dupla sem falar uma palavra. Então, Zed explodiu.

— Você quer me matar, sua desgraçada? Aqueles filhos da puta quase fizeram picadinho de Zed! Ou você fala, ou vai tomar uma bala do meio da testa!— Estava já com a arma apontada para a menina, e seu coração batia tão rápido que fazia as costelas vibrar.

— Se não tivesse demorado tanto para usar seu dom, poderia ter evitado tudo isso. — Mila foi andando calmamente na direção de um notebook que estava em cima da mesa de reuniões.

— Que porra é essa, Dom? Do que diabos você está falando? — Zed ainda estava com a arma apontada, mas já não tinha certeza de que iria atirar.

Mila digitou alguma coisa, e só respondeu para Zed quando ele ameaçou ficar histérico.

— Seu dom, sua habilidade especial... — parou um instante, e seus olhos ficaram vazios por alguns segundos — Ah, não! Você não sabia?

— Do que você está falando, moça? Eu não estou entendendo nada, droga!

— Você tem um dom, como o meu... eu achei que você já soubesse, foi um engano! Eu nunca teria...

A porta se abriu num golpe forte. Meia dúzia de homens bem armados entrou no lugar, gritando e berrando. Pareciam estar vestidos para a guerra, com uma armadura cinza e capacetes. Em um instante, cercaram Zed e Mila. O líder deles tinha um bigode farto por trás do vidro da mascara, e sua voz era muito grave, mais ainda quando gritava.

— Muito bem, os dois, pro chão!

Zed olhou nervoso para Mila. A menina parecia calma, mas os olhos dela haviam se perdido no tom acinzentado. O céu já estava escuro, e a janela gigantesca na sala de reuniões dava uma visão bem clara de que os dois não tinham saída.
O som de um disparo assustou as secretárias que estavam escondidas na cozinha do andar. Havia começado.

Olhos Nublados — Parte II

Ela acordou lentamente. Seus olhos se abriram, vazios por alguns instantes, e vasculharam lentamente o lugar. Não ousava se mover. Quando encontrou os olhos de Zed no caminho, o rapaz esboçou um sorriso e lançou-se para a frente da poltrona, interessado.

— Então, será que terei a honra de ouvir seu nome, senhorita? Você me pregou peças a noite inteira, com seus bilhetinhos!

Jovem e bonito, Zed ainda demonstrava um corpo atlético, um ar charmoso, e aquela voz melosa e firme de locutor de rádio da decada de 50. Suas roupas eram modernas, como as de um artista, com calça azul-acinzentada, um blazer azul e uma camisa branca sem gravata. Seus cabelos loiros pendiam pelos lados da cabeça, longos o suficiente para dar um ar de descuidado, mas bem cuidados o suficiente para perceber-se que ele cuidava da aparência. A moça pareceu assimilar lentamente cada um dos detalhes da aparência do rapaz, como se as comparasse com alguma imagem mental antiga.

— Ah, qualé? — insistiu Zed — você fala ingês, eu sei disso! Só um nome, como gratidão, não?

Ela respirou fundo e ponderou por alguns instantes. Zed teve a impressão de que os olhos da garota ficaram levemente turvos e vazios, como se cobertos por um chiado de televisão. Antes que ele pudesse ficar assustado, ela abriu bem as mãos por baixo dos cobertores, e forçou os ombros pra fora.

— Mila... Mila Radjavitch, mas o nome muda alguma coisa? — Disse com um sotaque suave de alguma língua do leste europeu. Zed adivinhou que era do leste europeu por que havia passado uma temporada lá, alguns anos antes, para deixar a poeira baixar.

Ela se levantou. Estava usando pijamas estranhos, muito largos. Talvez tivesse sentido a falta do peso frio de suas roupas molhadas.

— São do Hotel, Mila... — Zed saboreou o nome — Você estava congelando, então achei que não se importaria. Pelo menos não li nenhum dos seus bilhetes falando que eu não poderia fazer isso.

Ele sorriu confiante. Levantou-se da poltrona, e jogou o livro que estava em seu colo numa mesinha qualquer. Tagarelou qualquer coisa sobre a baixa qualidade do vinho do bar do hotel, mas seu raciocínio foi interrompido pela voz triste da garota.

— Diga que não quer, que ainda está dormindo.

Antes de Zed poder perguntar alguma coisa, a porta bateu, e um grito avisando serviço de quarto foi ouvido. Zed dispensou. Olhou então para a garota.

— Viu, é desse tipo de coisa que estou falando! Como diabos você faz isso?

— Somos iguais... mas somos diferentes também. Somos diferentes das pessoas normais, não percebe?

Zed fingiu entender. Era algum tipo de filosofia? Talvez ela fosse uma maluca, ou apenas alguma garota em um esquema para lhe pregar uma peça. Ele se jogou na poltrona mais uma vez, afundando bem o corpo.

— Tá, pode parar por ai. Fale em inglês claro, sem rodeios! Quem diabos é você, e o que você quer comigo?

— É engano, não se de ao trabalho...

— Mas que diabos, engano? Eu — o telefone o interrompeu. O recepcionista do hotel havia feito a ligação para o apartamento errado, e se desculpou envergonhado. Zed jogou o aparelho para o lado, assustado.

Ele encarou a menina por alguns minutos. Ela permanecia com um rosto desanimado e um olha vazio. Talvez Zed estivesse esperando que ela lhe dissesse alguma outra coisa dessas, e ele não queria ser pego de surpresa. Quando a ansiedade passou, ele voltou à sua posição inquisidora.

— Como você sabe meu nome?

— Sim.

— Como diabos sim? Que tipo de resposta é essa, que tipo de doida você é?

— Não.

— Ei!, Ei!, Ei!, sem essa de "Bola 8" pra cima de mim! Me diga como você sabe quem eu sou!

— Eu sei.

— Sera que diabos você não entende inglês? - Zed pronunciou novamente todas as palavras lentamente, gesticulando exageradamente.

— Eu entendo inglês. Eu sei essas coisas. Só sei. Igual você, mas diferente, é tão difícil aceitar?

Mais uma vez, Zed estava confuso. Ele pensou em pegar sua arma, mas ela estava no criado mundo do lado da garota. Ele alargou a gola da camisa, respirou fundo, e massageou a testa, pensativo.

— Tá, tá. E por que diabos eu? Por que justo eu? E não me venha com resposta enigmática, eu salvei sua vida, você me deve isso!

— Eu não posso fazer sozinha. Você vai me ajudar, precisa me ajudar.

— Ou então...? O que eu ganho com isso? Digo, além dessa dor de cabeça que você está me dando?

— O suficiente. Às onze e dezessete, dois homens vão entrar no hotel. Eles vão subir o elevador e vão forçar a entrada. Por sorte, vai ser a porta errada. Mas eles vão tentar de novo, e acertar. Se você não vier comigo, eles vão cobrar pelo golpe que você deu no velho do barco. Vão entrar atirando, então você não vai ter tempo de tentar acalma-los.

— Como diabos...?

Zed olhou para o relógio na parede do hotel. Onze e dezesseis. Correu para a janela, e forçou a vista para baixo. Viu dois homens entrando no hotel pela porta da frente. Reconheceu um deles do jogo no iate de Don Rosso, um mafioso local (que, por acaso, havia perdido no Poquer ontém a noite). Diabos, como essa menina fazia isso?

— Tá, você está na liderança. Como eu saio dessa?

Ela fez força para se levantar da cama. O relógio corria ao fundo. Zed pegou a pistola rapidamente, e apertou-a entre os dedos. Ela andou até a janela e puxou uma corda. Uma plataforma para limpadores-de-janela surgiu. Mila fez força para entrar. Zed a empurrou, e se jogou. Com toda sua força, ele puxou as cordas, erguendo-se a pouco mais de metro e meio do limite da janela.
A porta do quarto ao lado se abriu. Tiros. Um grito de pavor. Instante depois, a porta do quarto de Zed se abriu com violência. Uma rajada de balas foi disparada. Um dos homens gritou com um sotaque estranho, enquanto uma barulheira enorme se seguiu. Eles pareceram deixar o quarto. Minutos depois, sirenes foram ouvidas.

— Solte a corda.

— O que? Você está louca, nós vamos cair! São pelo menos vinte metros!

— Não.

— Não o que?

— Solte a corda, agora! — ela puxou uma das mãos de Zed, o balanço da plataforma fez com que ele soltasse a outra.

A plataforma seguiu em queda livre por talvez uns dez metros, e então parou suavemente. Inclinou-se lentamente em uma janela aberta, e os dois deslizaram para dentro de um quarto. Zed estava inginado com aquilo, mas antes de argumentar, lembrou que ele poderia estar morto.

— Tá, tá, e agora?

Mila não respondeu. Andou até o armario e tirou de lá algumas roupas.

— Vire-se.

— Que? Não, perai, o que...

Ela começou a se despir. Zed já havia visto a cena um milhão de vezes. Ele mesmo havia dado um banho quente na desacordada Mila, horas antes, mas ele se sentiu um pouco envergonhado. Se virou.

— Bem, pelo menos não podem dizer que Zed não é um cavalheiro, não senhor.

Percebeu que estava nervoso, pois sempre falava em terceira pessoa quando perdia o controle da situação. Ouviu a porta abrindo, e se virou assustado. Mila estava saindo. Correu até ela.

— Ei, ei, você não vai se livrar de mim assim tão fácil! Pode parar por ai, mocinha!

Ela chamou o elevador. Estava agora vestida com calça jeans e uma camiseta branca. Seus cabelos arrepiados e seus olhos brilhantes contrastavam com a cor de sua pele, e ela parecia magra como uma modelo de moda. Zed pensou que ela provavelmente deveria estar faminta.
Desceram até o andar do térreo, e foram até o balcão. Zed olhou para o responsável, um homem magro e careca, com queixo saliente, pronunciado ainda mais pela gola alta do ridiculo uniforme do hotel.

— O senhor foi procurado por uns cavalheiros, senhor Andreas. Acho que seria incomodo se eles fossem notificados de sua saida — o homem fez um sinal com a mão, esfregando os dedos.
Zed havia sido traido por um atendente de hotel barato. Ótimo, era tudo que ele queria! Olhou firme nos olhos do homem, e falou alguma coisa em tom bem firme. Mila pareceu interessada no que estava acontecendo.

O homem se encolheu atrás do balcão, em posição fetal. Zed calmamente apagou os registros de sua estada no hotel — mesmo de seu nome falso, Pablo Andreas, que ele havia inventado na entrada do lugar. Foi sendo guiado por Mila por um caminho estranho, até chegarem na garagem. Lá, entrou em um carro esporte prata, que havia usado na noite passada.

— Moça, é bom que você realmente valha a pena, esse trabalho todo vai acabar comigo.

Ela sorriu para ela mesma, mas seus olhos ainda pareciam nublados. Zed parecia ser o tipo de canalha que destroi corações de mocinhas por diversão, mas ela não pensou nisso.

— Ceeerto, estamos no Zed-movel, pra onde agora?

— MaxCorp.

Olhos Nublados — Parte I

A garota deu alguns passos tímidos para atravessar a rua. Não havia trânsito algum, mas a visibilidade era tão ruim que qualquer outra pessoa teria se arriscado a molhar a ponta do nariz para olhar para os lados. A chuva não parecia incomodá-la. Sua única proteção era um casaco surrado, semi-impermeável, que, muito tempo atrás, deveria ter sido azul.
Seus olhos negros acompanhavam o vazio, e estavam quase tão nublados quanto o céu. Um cachorro passou correndo, e quase a derrubou, mas não a fez diminuir sua marcha. Ela apertou o casaco ainda mais, segurando-o com as mãos pálidas. Seus cabelos estavam molhados, negros e sem brilho. Eram uma imagem da noite, e as gotas de chuva faziam-lhe estrelas de vida curta.

Parou em frente a uma loja de conveniência. Enfiou os dedos num telefone público imundo, e tirou de lá uma meia dúzia de moedas. Ela não contou o dinheiro, nem ficou surpresa com tamanha fortuna perdida. Entrou na loja, mas ficou parada alguns instantes na porta, por que tinham uma máquina que fazia ventar um ar quente reconfortante. Esperou que lhe chamassem duas vezes antes de passar pelas prateleiras. Apanhou dois pacotes de alguma coisa, e soltou as moedas de forma tímida no caixa.
O responsável, um senhor de mais de cinqüenta anos, gordo, assistindo um programa de caminhões-monstro no canal de esportes, tirou os pés do caixa e contou as moedas duas vezes, com um olhar desconfiado. Jogou-as na caixa registradora, e balbuciou algumas palavras sem sentido algum.
A garota ficou parada alguns instantes, e abriu um dos pacotes ali mesmo. Aqueles alimentos baratos, com sabor de plástico seco, que nos mantém andando por mais algumas horas. Quando o senhor da loja começou a ficar incomodado com a presença da jovem, pegou um bastão de baseball e começou a praguejar, sem sair de sua posição de conforto.
Ela jogou o segundo saco para trás, e ele descreveu um arco perfeito, caindo poucos passos da entrada da loja. Um homem entrou correndo, com um capacete de moto tapando o rosto. Esticou um revolver pequeno, e gritou.

— É um assalto, tiozinho! Vai passando toda a grana, e quem sabe eu não furo sua testa! E ocê minazinha, vai tomar um belo tiro se...

Escorregou no saco que ela havia jogado no chão, caindo em cima de uma prateleira de enlatados. Disparou por acidente, e a bala passou raspando nos cabelos da moça, fazendo-os balançar, e terminou por atingir uma caixa de metal presa na parede, desligando a eletricidade do local. O velho levantou correndo armado do bastão, e tentou golpear o motoqueiro, apesar da escuridão.
No segundo golpe, alguma coisa se arrastou pelo chão, atingindo os sapatos da menina. Ela se abaixou e pegou o pequeno objeto, que fazia barulho como um sino abafado - chaves. Debruçou-se no balcão, e apanhou alguma coisa pequena. Andou calmamente enquanto ouvia as pancadas da madeira no capacete. Deveria estar trincado há essa hora.

Saiu da loja e entrou num beco escuro. Havia uma moto molhada convenientemente estacionada. Uma sacola de couro estava presa no banco, mas ela não precisou espiar para saber seu conteúdo. Sentou-se e deu ignição. Nunca havia dirigido uma moto americana antes, elas eram maiores, mais imponentes. Estava acostumada com as pequenas Scooter que podia comprar com seu antigo salário. Dirigiu por talvez 20 minutos. Deixou a sacola em frente a um orfanato, com um bilhete molhado e borrado que havia escrito semanas antes.

Empurrou a moto de uma ponte. Já não chovia muito, mas o vento frio havia feito que suas roupas praticamente congelassem sobre sua pele delicada. Ela entrou num Shopping, no meio da madrugada, e ficou parada de frente para algumas vitrines. Não havia ninguém mais no lugar fazia horas. Seus passos eram lentos, mas as câmeras pareciam se virar para o lado oposto, conforme chegava muito perto. Entrou num banheiro. Por sorte, o zelador havia se esquecido de trancar a porta.
Se aqueceu por quase trinta minutos, utilizando as maquinas de ar quente de secar as mãos. Tentou secar as roupas e o cabelo, mas eles pareciam resistir bravamente. Num momento exato, saiu do banheiro e foi até um telefone público do lado da porta. Discou alguns números. Esperou. Uma voz rouca atendeu, daquelas que resistem bravamente ao sono, por peso de alguma responsabilidade.

— Nicholas... Existe... Vá agora para a Ferguson Gate. Existe algo... Importante... Debaixo dela.

Desligou, e saiu andando. As câmeras pareciam evitá-la, como que por medo. Andou até o estacionamento do Shopping, e passou pelo segurança dormente. Roubou-lhe um gole de café quente.

Estava numa avenida enorme, com prédios por todos os lados. Suas mãos tremiam de frio. Tirou de dentro do casaco o pequeno objeto que afanara no balcão da loja de conveniência. Um celular velho e com pouca bateria. Apertou uns números com o indicador tremulo, enquanto atravessava uma das margens do rio de asfalto. Um homem com voz simpática atendeu, dizendo que não reconhecia o número. Falou algo sobre ainda não ter o dinheiro.

— Por favor... Pare o caro... Eu preciso de...

Um carro esporte virou bruscamente uma das esquinas da avenida. Seu motorista tinha um celular em mãos. Ele freiou com força, tocando de leve as pernas da moça com os pára-choques. Ela caiu. Na verdade, parecia ter sucumbido ao próprio peso do corpo. O homem saiu correndo do carro. Era levemente loiro, com cabelos longos e lisos. Usava um blazer cinza por cima de uma camisa branca, e tinha uma barba milimetricamente deixada por fazer, tal qual um galã de cinema.

— Moça, moça!?! Fala comigo! Moça!

Assustado, o rapaz segurou-a entre os braços. Colocou-a no banco de passageiros de seu carro. Pensou consigo mesmo por que fazia aquilo. Estava sozinho, ninguém saberia que ele atropelou (mesmo que não tivesse atropelado) a menina. Sentiu um pouco de arrependimento quando pensou naquele casado frio e molhado sujando seu banco de couro. Duas semanas! Duas semanas na América, e já havia lhe acontecido tudo.

Acelerou, olhando de vez em quando pare a menina. Era terrivelmente pálida, e seus cabelos eram de um negro mórbido, de uma beleza dos filmes de Noir. Não podia ver seus olhos, mas tentou adivinhar se eram castanhos ou azuis. Percebeu que ela tinha um pedaço de papel em mãos. Tão logo olhou, o papel caiu. Girou por causa do ar quente do carro, e caiu em seu colo. Ele desviou o olhar, e viu escrito, com tinta borrada. "Zed, eu sou alérgica à aspirina. Por favor, não pare no hospital."

Zed olhou, assustado. Respirou fundo, e notou que havia um gigantesco hospital no cruzamento da avenida. Amassou o papel e praguejou com um sotaque pesado. Virou o carro, e foi direto para o hotel.