Em 2015, um grupo de super-humanos escapa de uma base do governo para salvar o mundo, e acaba descobrindo uma série de segredos sombrios. Essas são suas histórias.
Mostrando postagens com marcador Ghünter Hoffmann. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ghünter Hoffmann. Mostrar todas as postagens

Um dia cheio de surpresas

São exatamente meio dia do dia 21 de Outubro e estou com dor de cabeça. Minha manhã foi um tanto atribulada, fui acordado por Nicholas às 7 horas da manhã, devo dizer que fui retirado, seqüestrado por ele da minha cama e do meu sonho fabuloso com a minha exótica amante oriental. Ora, não foi sonho, o perfume dela ainda está impregnado no meu corpo, mais um motivo para odiar ter levantado tão cedo. A manhã foi deveras complicada, a começar pelo motivo do despertar, uma reunião com Denorus, um ser muito intrigante, e muito poderoso. Parece um elfo saído das histórias de Tolkien, com aparelhos tecnológicos tão sofisticados que parece magia. Perto dele minha armadura é um moinho de vento. O que me motiva a vê-lo, mas me faz odiar o 19º lugar no ranking. Segundo Nicholas, Denorus teria poderes para curar Christine e com essa esperança partimos para o meio do oceano índico, entre a Índia e a Austrália. Lá encontramos o elfo em seu disco voador no meio do nada.
Após uma mistura de 20.000 léguas submarinas com Star Trek, dentro da fortaleza de Denorus, Nicholas me volta do fundo do mar me dizendo que precisamos encontrar ajuda para romper uma barreira ancestral no fundo da água. A primeira candidata a ajudante é Waterfall, ex-Supremos, salvamos o rabo dela da ultima vez quando ela estava dominada pelo Knight, mas mesmo assim ela ainda é carne de pescoço e nos obriga a fazer outro favor para ela. Não que eu não fizesse se ela soubesse como pedir, afinal aqueles olhos azuis e aqueles cabelos negros já são um ótimo pagamento. Seguindo as ordens da Israelense, partimos de Israel para os Estados Unidos, em busca do noivo dela. Lá descobrimos que o rapaz estava com grandes problemas, trabalhando com tecnologia avançada em computação biológica para um pequeno país da Europa que não consta na maioria das enciclopédias. Heintzenberg é uma ilha exportadora de petróleo e com um ministro muito mal humorado, além de mentiroso. Ele nos recebe junto com o que parece ser todo o exército nacional, e depois de uma conversa amigável com Alísia, que usa toda a sua diplomacia e charme, ele nos leva para o seu gabinete, onde mente descaradamente e após algumas palavras grossas de ambos os lados somos expulsos do país. Interessante a tecnologia que eles possuem, avançada demais para o nível do lugar.
Fomos expulsos, mas como estávamos curiosos não desistimos. Sunshine viajou camuflada até o limite da ilha e usando sua supervisão achou o ministro. Ela o seguiu até o castelo real, onde ele foi se encontrar com ninguém menos que Nightmare. Aquele holandês traiçoeiro estava trabalhando com o paiseco, penso se a pesquisa do rapaz não teria a ver com a armadura do holandês. Fato é que Herman sentiu a presença de Alísia e nós tivemos que fugir do país sendo perseguidos por caças altamente tecnológicos, mas claro que não tão tecnológicos quanto é Claymore. Pelo menos existem vigésimos e trigésimos lugares na grande lista. Partimos e contamos a Waterfall o que descobrimos. A cortesã já sabia de tudo e nos mandou na busca apenas para se divertir. Dou a ela minha palavra e 20.000 dólares e ela concorda em nos ajudar.
A segunda e a terceira ajudante são mais fáceis. Nêmeses dos Peacekeepers se oferece espontaneamente para ajudar-nos e Trauma, uma menina da família Werner também. Grupo reunido, voltamos para a fortaleza de Denorus. Ele, Liquid, Trauma, Nêmeses e Waterfall partem para quebrar a barreira. Sunshine, Impacto e eu ficamos na fortaleza a espera. O tempo passa e logo o mundo começa a cair, o oceano treme e a fortaleza começa a baixar, faço as contas e me pergunto se minha armadura resistiria à pressão da água e chego a duvidar que vá sair vivo desta empreitada.
Súbito, para o bem ou para o mal, o mar explode e uma imensa cascata d’água se forma, jogando a fortaleza em que estamos para uma altura absurda. Eu consigo ver o satélite Armada 3 até. E então a fortaleza começa a cair, atravessando a enorme corrente de água vertical. Acho que estamos a 300 mph aproximadamente, faço força para erguer a sala onde estamos, mas é inútil, penso em sair pela abertura, mas a corrente causaria grandes estragos no hardware. Os segundos passam e então Impacto age. Ele nos agarra e nos transporta para fora do perigo, imaculados. Não sabia que ele tinha esses poderes, ele transmutou nossas moléculas e as dele para o estado de fase 4 e como fantasmas atravessamos a água e chegamos salvos na nave, respiro aliviado.
Enquanto estávamos presos, Liquid, Waterfall e as duas meninas impediam que a queda da corrente provocasse um Tsunami de destruição. No final, todos vivos, embora cansados, podemos seguir para casa. Deixamos cada uma das meninas em sua respectiva casa. Waterfall deixa bem claro que espera que eu cumpra minha palavra, eu a asseguro que cumprirei. Não que o namorado dela seja a minha motivação, mas qualquer um que trabalhe com Herman não é boa coisa.
E quando eu acho que finalmente poderei voltar para minha cama e descansar eis que me aparece mais um problema. Estamos a 190 metros e eu posso ver a fumaça em Camelot, 170 metros e posso ver a torre Sul desabando. Penso em 6 possibilidades para o atacante e logo descubro que é a terceira. 100 metros e eu vejo a forma verde brilhante disparando rajadas radiativas na direção de quem eu reconheço como sendo Ionns, um dos soldados de Jack Larsen. Pelo visto ele estava se virando bem contra Miracle, afinal ele veio para cá para ajudar no caso dela. Ionns parece controlar energia, todas as rajadas de Miracle se dissipam ao chegar nele. Estamos a 50 metros quando vemos a cena, Nicholas já estava acordado fazia 1 minuto, ele viu tudo. Miracle tentou partir para uma abordagem mais física contra Ionns, mas ao chegar perto dele, voltou a forma humana e ele a segurou pelos braços. Aproveitando a situação Christine deu um beijo em Ionns de fazer inveja. Adoro as mulheres, elas conseguem tudo o que querem, não importa os modos empregados.
A raiva de Nicholas é palpável quando ele ordena a Claymore que abra a porta lateral e logo em seguida sai voando. Incrível como ele consegue ser tão idiota de cair nessa provocação barata, fazer o que... Todos os apaixonados são idiotas.
Pouso a nave a tempo de ver a discussão entre ele e Miracle, ela tem um problema de dupla personalidade, uma é a Christine amável e fútil, a outra é um ser cruel e desprezível. Ela está com a personalidade esquerda hoje. “Por que você está destruindo Camelot?” Pergunto com mais vontade de derrubar a vadia do que de ser razoável, mas Nicholas está do meu lado, então sou polido com Miracle. “Eu estava cansada daquela prisão.” Me responde a cretina com a cara mais safada do mundo. “E precisava destruir tudo?” Grito quase perdendo o controle. “Se eu fosse vocês, me preocuparia mais com sua amiguinha japonesa, antes que o fogo atômico que espalhei nos andares abaixo a consuma.”, a vadia sorri enquanto me diz isso, tenho vontade de atacar, entretanto parto para salvar Miharu junto com Ghünter deixando Sunshine para ajudar Liquid.
Dentro de Camelot eu vejo o inferno, fogo atômico destruindo tudo, fundindo portas e destruindo meu sistema de 6 bilhões de dólares. O calor é tão intenso que destruiu o programa anti-incêndio de Camelot. Desisto de procurar Miharu e parto para o laboratório onde espero criar um aparelho capaz de apagar as chamas, Ghünter tem 85 % de chance de salvá-la. Preocupo-me com as soluções possíveis para o dilema das chamas, em um segundo chego a uma conclusão, em um minuto tenho um nulificador de partículas subatômicas pronto. Com ele resolvo o problema das chamas e retorno para onde estão os outros.
Chego a tempo de ver Ghünter chegando com Claymore, ele traz Miharu curada e a responsável pelo feito, Hisa. Entre todos os dotes de minha amante, um deles é seu poder geneativo, ela é capaz de curar ferimentos. Ao me ver ela corre em minha direção, é linda a preocupação em seus olhos, sinto-me lisonjeado.
Miracle fugiu, Liquid insiste em ir atrás dela, mas ele não está em condições. Eu olhos nos seus olhos e sei que ele irá, não importa o que seja preciso. Ele me pede para que Hisa o cure, eu falo com ela em Japonês e ela me responde com sinais. Ela me diz que pode deixar Nicholas inconsciente, o que eu peço que faça. “Richard, se você estiver planejando algo, não é a hora.” Ameaça Liquid pouco antes de apagar. Eu seguro Hisa que também desmaia devido ao esforço que faz. Após deixarmos os dois na enfermaria, partimos com Ionns para localizar Miracle, o soldado consegue rastrear energia.
Fazendo seu trabalho maravilhosamente, Ionns nos leva até onde o rastro de energia termina. O soldado é extremamente competente no que faz. Para nossa surpresa nos descobrimos no rastro de Singularity, uma mulher demente que possui poder suficiente para atrapalhar Van Rayner. Da última vez que a encontramos, além de levarmos uma surra, ela deixou Miracle no seu estado atual radioativo. Só não entendo o que ela estava fazendo numa cidade onde assistia o louco Lann.
Estávamos investigando o local quando recebemos uma mensagem de Nicholas. Ele estava indo para a França encontrar Miracle. Eu não entendi como ele acordou tão cedo, ou mesmo como ele sabia onde estava Miracle. Só sei que logo terminamos nossa investigação partimos para lá. Eu estava preocupado com Nicholas enfrentar sozinho Christine, por isso coloquei os motores da nave em toda a potência. Aliás, coloquei os motores em potência superior. Fazendo a Nave se desgastar no processo. Mas Nicholas é meu amigo, a nave não é nada.
Quando chegamos, temos mais surpresas. Encontramos Nicholas enfrentando Singularity e Miracle, mas o corpo de Christine está separado, distante do corpo atômico. Organizo o ataque, deixando Ionns para cuidar da parte atômica enquanto Sunshine, Liquid, Impacto e eu atacamos Singularity. Ela resiste aos nossos golpes individuais, portanto decidimos um ataque conjunto. Enquanto isso Ionns neutraliza a contraparte atômica de Miracle.
Voando em Mach 1 eu me posiciono atrás de Singularity enquanto Sunshine provoca uma abertura na guarda de dela. Nicholas carrega todo o seu poder se concentrando e então disparamos juntos. Nem mesmo a barreira de Singularity consegue segurar todo o nosso poder e ela perde a consciência por alguns instantes.
Neste pequeno espaço de tempo, aproximadamente 3,5 segundos, chega a cavalaria. Primeiro os antigos Supremos: Ignus, Earthquake, Metallie e a deliciosa Whisper. Depois os antigos Peacekeepers: Stunner, Cybelle e Fastep. Junto com Pierce chegam Lightnning, Sonique e sua irmã Symphony. Eles chegam, pois eu havia informado Pierce sobre a descoberta do paradeiro de Syngularity quando a descobrimos em Irwin. Chegam para desencorajar qualquer vilão que queira se meter nos assuntos da Extreme e de nossos aliados. Chegam para mostrarmos para a ISC que ela não está sozinha como senhora do mundo. Chegam e em segundos, Singularity está deitada ao chão e permanecera neste estado por muito tempo.
Quando os Supremos desceram de sua nave, Ignus e eu combinamos um ataque apenas com o olhar. Nós dividimos as equipes. Crusader, Sunshine, Ignus, Nicholas, Whisper e Cybelle atacaram por cima juntando toda sua energia num feixe único. Enquanto isso em terra, providos por bastões de pedras criados por EarthQuake, todos os pesos pesados atacaram fisicamente o alvo que foi levantado ao ar por um ciclone provocado por Lightnning, Sonique e Fastep. Symphony atacou sozinha mentalmente o alvo.
O resultado final foi a queda de Syngularity e a aplainagem de 30 metros quadrados de chão. Nosso recado foi dado, uma bela lição.
Quando acabamos aproveitamos uns dos poucos momentos em que podemos ficar todos juntos para conversarmos. Nós só nos reunimos assim para lutar. Nicholas convida a todos para jantarem em sua casa. Pierce me pergunta se um ataque deste nível fora necessário. Eu afirmo que sim. A lição era necessária. Agora todos sabem que estamos aqui para ficar. E eles vão temer isso. Partimos em carona com Ignus, Claymore segue em piloto automático aos trancos. Nada que uma tarde na oficina do hangar de Camelot não resolva.
Chegamos e eu recebo mais uma surpresa. Ao nos despedirmos de Ignus, Nicholas agradece a todos. Ignus parte. Quando Nicholas se prepara para ir embora ele me diga “Richard, eu estou te devendo” Eu ia dizer algo, mas quando olhei nos olhos de Nicholas não tive tempo de me defender a tempo de salvar meu nariz. Ele se virou e saiu, me lembrando de ir jantar na casa dele esta noite.
Adoro o humor austríaco.
Todos se vão, eu fico. Preciso terminar o exoesqueleto que estávamos criando para Phase. Trabalho nisto por duas horas, estou exausto quanto sinto uma mão no meu ombro. Antes de me virar sinto o perfume de cereja. “Você descansou bem?” pergunto em japonês enquanto me viro. Hisa acena que sim com a cabeça. Ela se assusta com meu nariz quebrado. “Não foi nada.” eu respondo. Com um simples toque, ela restaura a cartilagem do nariz e cura as feridas do meu corpo, me sinto bem, disposto novamente. Eu a pego nos braços. Palavras são desnecessárias, a base estava vazia exceto por nós, o doce aroma de cereja e suor.
3 horas e 35 minutos depois voamos para casa. Ela me abraça quando chegamos e me beija como se quisesse roubar meu sopro vital. Ela está apaixonada, perdidamente. Sinto-me lisonjeado.
Quando entro no quarto ela me segue e tranca a porta. Palavras são desnecessárias. Após um banho quente nos vestimos. Eu escolho um terno cinza escuro com uma camisa escarlate. Hisa coloca um vestido de seda chinesa vermelho, com um dragão estampado na frente.
Desta vez escolho minha Lotus preferida. Modelo atual, curvas arrojadas e o motor, meu é claro. No caminho para o prédio de Nicholas encomendo comida do Masa para Hisa. Ela é um tanto enjoada em relação à comida. Sinto falta da alegria de Tessa. Com esse pensamento ligo para uma pizzaria e encomendo uma das famosas Pizzas gigantes. Peço também para entregar sorvete. Nina, a irmã mais nova de Nicholas adora sorvete. Para meu próprio gosto estou levando uma garrafa de Scotch irlandês.
Chegamos, Nicholas está feliz. Isso é bom, assim tenho certeza de que não levarei mais um soco. Cumprimentamos-nos, sigo para a cozinha e pego dois copos para servir a ele uma dose. Alísia já está na casa conversando com Christine, aparentemente curada, sobre as futilidades comuns das mulheres. Ghünter não vem, preferiu ficar com Miharu, provavelmente patrulhando.
Sento-me com Nicholas e começamos a conversar sobre as futilidades comuns aos homens. Hisa não está feliz, está com ciúmes de mim, provavelmente acha que eu não estou dando atenção a ela, ou que não a assumo em frente dos meus amigos. Ela começa a me irritar. A festa foi organizada no topo do prédio, Nicholas mora na cobertura de um antigo bairro respeitável de NY.
Logo chegam Kelvin e Cecile, sua esposa. Junto a eles chegam Claude e seu filho Klaus. Reunimos-nos e aproveitamos uns aos outros. Kelvin, eu e Claude conversamos sobre tecnologia de segurança. Hisa parece beber mais do que devia e em pouco tempo está claramente embriagada. Em dado momento, Nicholas me chama a um canto da casa. “E então o que você acha?” Ele me diz mostrando um anel de noivado. “Nicholas, eu sempre soube que você me amava” respondo brincando. “Ela vai adorar meu amigo, desejo tudo de bom para você” Respondo sério desta vez. “Richard, eu queria saber se você não gostaria de ser meu padrinho de casamento.” Eu fico lisonjeado com o pedido e respondo que será a maior honra que alguém me ofereceu em toda a minha vida.
Sabendo do pedido faço uma rápida reunião com Claude que em segundos busca uma aliada nossa, senhorita Amanda, vulgo Whisper. Uma cantora de sucesso, lindíssima. Nós aproveitamos a festa. Eu não tiro os olhos de Amanda. Hisa está ocupada demais conversando com o sakê para perceber meu interesse na espanhola. Nicholas se prepara para fazer o pedido. Eu olho para Claude, ele acena em acordo. Quando Nicholas se levanta e faz o pedido, todos nós recebemos instrumentos musicais. Eu começo a tocar o violino acompanhado pelo teclado tocado por Cecile e do sax tocado por Claude. A linda voz de Amanda se sobressai. Dos céus surge um anjo de gelo iluminado por uma radiante luz, ele traz o anel para Christine que maravilhada chora de emoção.
Quando todos levantamos nossas taças para um brinde, Hisa me agarra, beija e desmaia embriagada. Eu a levo para o sofá de Nicholas e a deixo lá. Quando volto para a festa, começo a conversar com Amanda, ela é um tanto distante, avoada, mas linda. Quando Ignus ia se despedir algo estanho acontece. Um homem em uma armadura vermelha passa em um vôo rasante ao lado de nosso prédio. 2,4 segundos depois um homem num uniforme que lembra ao antigo personagem japonês Kamen Rider salta sobre nossa mesa. “Desculpem pessoal, mas o apressado Cricket está em uma perseguição” É o que ele grita logo após sumir em um salto gigantesco e cair sobre o armadureiro.
Ficamos alguns instantes sem fala. Ignus me olha questionador, eu apenas encolho os ombros e sorvo um gole de Scotch voltando minhas atenções para Amanda. Ela tem os maiores seios que eu já vi, e lindos. Pergunto-me se não cairiam sem o sutiã. Após algum tempo todos começam a ir embora. Eu peço para Amanda ficar, dizendo que eu a levarei embora. Ela aceita. Nicholas me pergunta sobre Hisa. “Não se preocupe” eu respondo “Jarvis, virá buscá-la.” Jarvis sempre as busca para mim.
Despeço-me de Nicholas e chamo Claymore, ela está nova em folha. Entramos eu e Amanda. Conversamos um pouco mais. Ela é distante, mas gosta do que ouve. Eu toco em sua mão, subo para os seus braços e depois para seus cabelos. Ela me olha, nos beijamos. Ela pede para que eu abra o teto da nave. As estrelas são lindas. Nós nos beijamos, nos acariciamos. As estrelas se tornam ofuscantes. No final, nos abraçamos. Realizo uma fantasia compartilhada por grande parte dos homens do mundo, descubro que existem forças maiores que a própria gravidade. Foi divertido, mas não foi metade do que poderia ter sido. Amanda é linda, mas péssima amante. Sinto falta de Tessa, nenhuma delas é tão habilidosa quanto Hisa. Hisa é majestosa neste aspecto, mas Tessa é divertida, Tessa tem paixão. Amanda é distante. É como comer um petit gateu quando tudo que se quer é uma banana split.
Mas sempre se pode provar o petit gateu mais de uma vez. Passo a noite na Espanha com Amanda. Despedimos-nos de manhã. Eu traço o curso para a Inglaterra. Tomo um banho, troco de roupa. 8 horas da manhã entro no apartamento de Tessa. Ela ainda dorme. Enfio-me debaixo de suas cobertas e a abraço. Ela se vira e me beija. Palavras nunca foram tão inúteis.

O doce sabor da cereja.

Já está tarde, há seis horas estou trabalhando neste bracelete transdimensional que meus companheiros me trouxeram. A tecnologia dele é absurda, inimaginavelmente maior do que tudo o que eu já fiz. E tudo isso contido num bracelete. É claro que isto tinha de ser obra de Van Rayner, um dos famigerados first steppers. Quando penso nele, no nível das suas produções intelectuais, a disputa entre Ignus e eu se torna infantil. Pra que disputar o segundo lugar? E segundo lugar mesmo? Ou eu não contei os outros first steppers, como Hideo, Tcheckov, aquela chinesa com problemas que nem as teses doentes freudianas explicam? E eu ainda não citei a organização de cientistas que querem dominar o mundo, a Daydream, ou o ancestral Denorus. Neste mundo há tantos seres de poder e conhecimentos maior que os meus que as vezes me sinto como uma criança ouvindo o professor discursar sobre coisas além do meu pequeno universo imaginário. Quando penso no mundo em que vivo, percebo o quão quixotesca é a minha vida como Crusader.
"Os parâmetros da leitura do disco rígido foram estabelecidos, a descompactação do arquivo será iniciada em 4.6 segundos. Tempo previsto para o término da sessão: 35 horas." Avisa Ávalon.
Com essa previsão é melhor arranjar algo para fazer. Essa pesquisa me deixou cansado, meus reflexos estão mais lentos, preciso de uma xícara de café. Impressionante! Eu cruzo o corredor e encontro Nicholas me trazendo uma bem quente e reconfortante, ele me diz algo como ser sua receita secreta, mas eu nem presto atenção, estou completamente tomado pelo aroma do café. Eu bebo um pequeno gole e metade dos meus problemas desaparecem. A química sempre me intrigou nestes aspectos, a mistura de substâncias diferentes, elevadas a uma temperatura x e pronto, temos uma substância completamente nova. A reestruturação e a fusão das moléculas acontecem em momentos banais do dia a dia e quase nínguem repara nisso. Alguns cientistas ignoram as pequenas alterações, como se elas não fossem importantes perto de seus grandes projetos, mas eu não, eu sempre gostei dos detalhes, das pequenas coisas. É claro que nunca me aprofundei em química, sempre gostei mais de mecânica, de construir, de movimento, energia. Mas todos os pequenos detalhes, as pequenas parcelas da construção possuem suas fórmulas químicas.
O café é deveras reconfortante, por um curto espaço de tempo me disperso apenas saboreando o doce e forte líquido. Mas logo volto a conversar com Nicholas, estou preocupado com ele, parece que fazem dias que ele não dorme ou descansa, trancado neste laboratório procurando uma cura para Christine. "Você está precisando descansar meu amigo, sair um pouco, tomar um ar. Seu estado está lastimável. Se ficar assim sua produção cairá assim como sua saúde." Nicholas não responde, não com palavras. Eu me calo. Deve ser muito difícil para o coitado ver Miracle naquele estado, presa em um traje para conter seus poderes radioativos, ele tem razão de não estar com pacência para a minha alegria. Agradeço o café meio sem jeito. Ele sabe que eu me importo com ele e com Christine, que o considero um dos meus melhores amigos, se não o melhor. Porém eu não sou ele, preciso de sono, alegria, conforto. Além do que, não há muito o que eu possa fazer além do que estou fazendo. Tudo isso sobre geneativos é ainda muito novo para mim.
Me despeço de Nicholas e saio da repartição dos laboratórios. Ando até a sala de recreação e encontro Hisa lendo um dos seus romances, daqueles bem dramáticos e tristes. Ela é uma mulher muito bonita e atraente. Quando eu entro ela me olha nos olhos, como se quisesse sugar minha alma para dentro daqueles globos amendoados. A maioria dos homens ficaria envergonhada quando uma mulher o olhasse assim. Eu sou muito diferente da maioria dos homens. Retribuo o olhar, ela abaixa a cabeça e volta a ler. Sorrio e me aproximo do sofá. Sou interrompido pelo barulho regular de saltos altos.
Escuto a voz de Alísia atrás de mim comentando algo sobre as Nações Unidas, algo a ver com seu país de origem, o Canadá. Ela muda o assunto e me pergunta onde se encontra Ghünter, nosso aliado alemão. "Na Justa como sempre" eu respondo sem me virar. Não que Alísia não chame atenção, é uma mulher linda, loira , um corpo escultural. Além disso é inteligente e sabe cativar qualquer pessoa com um sorriso. Por isso mesmo eu me mantenho a distância dela, Alísia é muito parecida comigo em algumas questões e eu odeio isso em uma mulher. Quanto a Ghünter, às vezes eu me pergunto se ele tem realmente uma vida, ou se ele é só um autômato inventado por algum cientista doente. Já me perguntei se ele era gay, mas cheguei a conclusão que não, ele parece ser alheio ao fulgor de viver mesmo, tendo como único motivo impulsionador para continuar vivendo a luta, acho que se um dia tirarem isso dele, ou mesmo se não existir mais a violência do mundo, ele travaria, como um computador que não consegue ler uma nova linha de programa.
Para a sorte de Ghünter e de Miharu, uma versão feminina do alemão, mas sem o discurso religioso ou heróico, exite a Justa. A minha versão da "Sala do Perigo". Uma sala de alta tecnologia virtual, especialmente elaborada para a simulação do combate, ajudando assim no treinamento e na performance geral da Extreme.
Alisia parte em procura do alemão, me deixando a sós com Hisa. Ela se vira para mim e me encara inquisitiva. "Sabe Hisa, já faz um tempo que estou nesta base trabalhando sem parar e estava pensando se você não gostaria de sair pra jantar comigo esta noite." Falo com a voz suave em japonês, olhando nos olhos dela, ela fica envergonhada. Eu noto. "Eu sei que você também deve estar entediada aqui, nós poderíamos sair, aproveitar a noite, nos divertir. O que você acha?" Ela sorri e me responde em ISL que sim. Hisa é muda, vítima de alguma maldade da máfia japonesa que ela não merecia sofrer. A vida é por deveras cruel, mas nós podemos torná-la bem melhor se quisermos. Nós saímos da base em direção a minha casa. A viagem é rápida, em pouco tempo eu estou no meu quarto, penúltimo andar do prédio e Hisa no dela, dois andares abaixo do meu.
É gratificante ter um prédio todo ao meu dispor, eu nunca tenho problemas para alocar amigos. Hisa e Miharu estão morando aqui já faz 5 meses. Ghünter preferiu continuar no seu pequeno apartamento no Harlem, eu respeito isso, ele prefere se sentir independente e se isolar ao mesmo tempo. Eu prefiro o conforto e a qualidade de vida que eu levo. Entro no meu quarto, coloco Schubertz para tocar e entro na ducha. 23 minutos depois estou de roupão. Eu precisava dessa ducha, muito. Caminho lentamente até o mini bar e pego a garrafa de Scotch. Derramo o líquido vagarosamente no copo com 2 pedras de gelo. Paro quando chego na metade do copo, então pego uma soda gelada e completo o drink. Sempre fui bom fazendo drinks. Com o copo na mão caminho até o closet e escolho minha indumentária: Blazer e calças negros e minha camisa azul escura Hugo Boss de seda chinesa, digo minha pois pois fui eu quem criei o estilo junto com Giovanni Bucci no inverno passado em Milão. Ótima idéia comprar boa parte das ações da empresa. Coloco o roléx daytona que ganhei de Merrick no nosso aniversário de 12 anos e estou vestido.
Ainda tenho 5 minutos, me sento e sorvo demoradamente meu club soda enquanto ouço as partes finais da melodia de Schubertz. Quando termino o drink estou completamente relaxado; saio e logo estou na porta de Hisa. Como esperava ela está pronta, e maravilhosamente linda. Maquiagem leve no rosto, um batom com cor, cheiro e provavelmente gosto de cereja; o cabelo extremamente liso está preso em um coque oriental; o corpo esguio veste o vestido negro que comprei, enquanto à mostra o belo e exótico dragão em suas costas aparece pelo decote longo. Mas o que primeiro chega a mim não é a visão exuberante, mas o olor de cereja que se espalha ao seu redor. Eu quase fico boquiaberto, quase.
"Você está perfeita!" eu assevero em voz contente. Ela sorri timidamente em resposta. Nós seguimos até o elevador em passos calmos, no percurso eu aproveito para elogiar os detalhes de sua beleza, as mulheres adoram isso. Durante a descida o perfume dela inebria minha mente, mas eu não comento sobre isso até chegarmos na garagem de carros clássicos onde escolho a chave do Cadillac 1959 azul.
O carro, é claro que não está como o original. Eu refiz todo o motor, começando pelo combustível utilizado para movê-lo. Ao invés do enorme tanque de gasolina há uma câmara ultra tecnológica que funciona a base de células de energia, sim, eu usei os carros como protótipos experimentais para a energia base da armadura de Crusader. A câmara do carro, contudo é enorme se comparado ao bastonete da armadura. Quanto ao motor, digamos que os 4,3 de potência do carro original foram superados pelos meu reajustes e a célula de energia faz o carro andar sem eu me preocupar com o gasto de combustível fóssil ou a destruição do planeta.
Abro a porta para Hisa entrar, ela adora. O motor não ronca como o original, achei muito exagerado, mas faz barulho suficiente para que não percebam a diferença do original. Hisa parece adorar o carro, foi por isso que escolhi exatamente esse dentre tantos.
Chegamos ao restaurante que escolhi, Masa, localizado em Midwest town ele fica um pouco longe do bairro onde moramos (Upper East Side), o que nos faz aproveitar ainda mais o passeio no Cadillac e aumenta o apetite, fora que o Masa é um restaurante 5 estrelas há mais de 10 anos. Embora não tenha feito reservas, uma breve conversa com o gerente nos garante a melhor mesa da casa.
Pedimos sashimi, Hisa se delicia com o Atum azul. Apesar de apreciar o gosto nipônico, ainda prefiro o salmão. Entre o sashimi e o sushi conversamos; Hisa é uma mulher intrigante e muito tradicional. Ela é muito diferente de Tessa, o que é muito interessante. Hisa tem um passado misterioso, mas depreendo algo como uma dívida dos seus pais para com a Yakuza. Por causa dessa dívida tornaram ela muda, acho que fizeram algo com as cordas vocais dela, mas também pode ser psicológica a mudez. Ela tem uma boca bonita, pequena e meiga. Ainda penso se o batom tem mesmo gosto de cereja.
Bebo um pouco do sakê, me tranquilizo com o líquido forte. O Masa é um lugar muito bom, vim com Tessa aqui umas duas vezes. Tessa, tão longe, em Londres, trabalhando, sozinha. Será que ela pensa em mim? Será que está mesmo sozinha? Nunca se sabe, por isso eu não me preocupo, pelo menos estou muito bem acompanhado. Ela pede para que eu fale um pouco de mim, eu pergunto o que ela quer saber. "Tudo", me diz com o movimento das mãos.
Eu falo. Sobre meu pai, que hoje penso ser meu pai adotivo, o Coronel Maddock. Sobre meu irmão e a morte que resultou no meu senso de heroísmo. Falo sobre o responsável por isso, Herman Von Gostrauken, o famigerado e detestável Nightmare. Falo sobre minha Fundação, os projetos que tenho em mente. Mas não falo nada sobre Tessa, ela não precisa saber.
Comemos muito bem, a conta de 1000 dólares me diz isso. Estou um pouco alto, mas em condições de dirigir.
Agradeço o chefe em japonês, a comida estava estupenda. Nos levantamos e quando saímos, todos na casa nos notam, mas eu estou acostumado com isso. Ao chegar perto do carro, um homem nos aborda. 32 anos, 1,86 de altura, 93 kilos, caucasiano, provavelmente do Brooklyn. Ele tem uma Smith & Welson nova nas mãos, arma bonita para um ladrão barato, é claro que é roubada de alguém que resistiu a um assalto. Ele me aponta a arma na cabeça e diz que vai me matar se eu não entregar o dinheiro. Ele acha que me assusta, não faz idéia do que eu já enfrentei. De quantas vezes estive perto da morte. " Passa toda a grana riquinho de merda! Antes que eu te encha de pipoco!!!" O mais nojento é que uma saliva dele voa para meu Blazer.
Infelizmente para o assaltante eu não tenho tempo nem de responder. Hisa pula por trás de mim e atinge o infeliz com o bico do seu salto na testa. Deve doer muito. O que eu mais aprecio nestes sapatos caros femininos, é que elas podem chutar, pular, fazer graça. E eles não quebram. Ela olha para mim, parada ao lado do corpo estirado no chão, linda. Caminho até o assaltante e tiro a arma de suas mãos, é uma arma bonita e bem balanceada. Deixo um cartão no bolso dele sobre a fundação Warden, as cadeias estão lotadas e talvez eu possa lhe dar trabalho.
Abro a porta para ela, coloco a arma no porta luvas e então seguimos para casa. Depois de estacionar o carro, paramos um pouco no salão de recepção do primeiro andar. Coloco uma música lenta e trago Hisa para perto de mim. Ela não esperava por isso, mas se entrega ao movimento. Sorrio intimamente. "Vamos dançar um pouco, a noite está tão linda que eu não quero que termine.¨, sussurro no ouvido dela e ela encosta a cabeça no meu ombro.
Dançamos, os corpos colados um no outro, o aroma do perfume dela tão próximo. Tudo corre naturalmente, eu abaixo meu rosto, ela levanta o dela e me encara. Linda, tão linda e tão pequena, frágil nos meus braços, ela me olha. Não digo nada, não é preciso, ela já é minha.
Nossos lábios se tocam e eu descubro que os dela tinham mesmo o gosto de cereja, delicioso. O beijo demora, minhas mãos acariciam suas costas e a apertam para mais junto de mim, as dela me abraçam. Nos olhamos e nos beijamos de novo, o beijo de Hisa é diferente do de Tessa, Tessa tem mais paixão, mais romance, mas Hisa sabe usar muito bem a boca. A pego no colo e a levo para o elevador, não paramos de nos beijar no caminho. Hisa me surpreende dominando a situação, ela sabe muito bem o que faz e faz muito bem o que sabe. Ao mesmo tempo frágil e selvagem, exótica, linda.
Quando acordo no dia seguinte com o telefonema de Nicholas, não me pergunto se o que fiz foi certo ou errado, ou frases do tipo "o que foi que eu fiz". Eu sei o que eu fiz, afinal eu planejei. E foi muito bom, foi muito bom provar o doce sabor da cereja.
Me levanto e tomo um banho. Quando estou pronto para sair ela ainda está dormindo. Dou-lhe um beijo e saio. No caminho para a base ligo para Tessa. "Bom dia querida, como você está?", "Bem meu amor, estou com saudades" ela responde. "Eu também paixão, arrumando um tempinho livre eu vou para ae está bem?", "Que bom Rick, sinto sua falta, Londres não é nada sem você!" ela me diz com voz tristonha. "Eu também Tess, eu nunca esqueço de você."

O Retorno de Midnighter — Parte III

Shauny. Eu acho engraçado como esse nome soa. Meu pai disse que mamãe o escolheu por que achou que eu era especial de mais para ter um nome comum. Eu não a conheci, ela morreu quando eu ainda era um bebê.
Crescer com um pai como o meu também é algo “especial”. Diferente. Ele é milionário, dono de uma empresa de investimentos e tecnologia, super culto, charmoso e, ainda por cima, poliglota. Para os jornais, ele é um homem recluso e erudito que gasta seu tempo livre com a família (eu) e com viagens de lazer (não é bem assim). Para a empresa, ele é um chefe atencioso, um homem honesto, mas que não tem muita responsabilidade com compromissos (não é bem assim também). Para mim, ele é o melhor pai do mundo (tá, não é bem assim, mas o que posso fazer?).
Eu sei que ele não morreu. Eu sei que está se recuperando, e que vai voltar assim que conseguir. Não tenho dúvidas disso. Bom, pelo menos, eu quero acreditar nisso. Eu não chorei quando os homens de preto vieram falar comigo (o tal Pierce e aquele estranho do Larsen). Não chorei quando vi nos jornais. Eu fiz o que precisava fazer, tudo o que ele havia me dito desde que era pequena. Eu devia fazer as coisas continuarem como eram. Mas é doloroso montar aquelas projeções de computadores nas videoconferências.
Não é qualquer pai que deixa a filha brincar com um video-game de vinte três milhões de dólares — um robô construído para simular os movimentos dele (mas não fazia muito bem o trabalho). No começo, havia cinco desses. Albert Samsom, antigo parceiro de meu pai, havia os construído, e a tecnologia se perdeu quando ele morreu. Nunca conheci nenhum dos ex-parceiros de meu pai. Sei que o irmão de Samsom é o Geoffrey (que é PhD em Mecatrônica, mas mais parece um mecânico de carros), e que o filho de Gabriel Shedd (Gab, eu brincava com ele quando era criança) fez alguma bobagem e ficou presto todos esses anos. Daquelazinha, eu não gosto nem de pensar.
De qualquer forma, eu já quebrei os cinco robôs. Pois é, os cinco, quebradinhos. Não foi assim, quebrar. Dois foram a base de lança-foguetes, um o Conway explodiu, um a DayDream em pessoa quebrou no meio, e o último foi fatiado por uma asiática mestiça com o (incrivelmente útil) poder de encolher. Como meu pai já não estava quando o último quebrou, tive que pedir ajuda pro alemão.
Eu digo, O Alemão. O tal Ghünter. Na verdade, não pedi exatamente ajuda. Ele apareceu em casa, e não foi mais embora, ai eu acabei fazendo ele usar a roupa negra. Ele não tem muito senso de que está incomodando, sabe? Mas não quero falar sobre ele, aconteceram umas coisas que eu realmente não quero me lembrar. Mas ele foi embora, faz um tempo já, e isso é bom.
Fiquei uma semana namorando a chance de fazer ou não uma coisa estúpida. Eu sei que quando meu pai voltar, eu vou tomar a maior bronca de minha vida. Sei que quando o castigo acabar, eu terei idade para ser avó de alguém. Mas não posso deixar a chance passar.
Eu tenho todas as chaves do sistema. Alias, eu mesma programei boa parte dos softwares que estão rodando aqui hoje. Modéstia parte, quando eu coloco uma coisa na cabeça, eu faço, e faço muito bem feito. É por isso que eu preciso tentar. Um dia, ele vai sair, e não vai voltar. Então, eu terei de continuar o legado. Eu estou pronta.
Ligo os sistemas. Ajusto as medidas para meu corpo. O traje é composto por mais de uma dúzia de camadas, presas individualmente (na verdade, ele só usa isso quando tem tempo livre. Tem vezes que ele sai vestido só com um colantezinho preto! Meu pai é muito suicida mesmo). Demora mais de dez minutos, mas no final, não parece que estou usando mais do que um abrigo bem justo. É tão apertado que eu sinto falta de ar, mas a sensação passa rápido. Depois de um tempo, aquilo fica até confortável (exagero meu, foi uma proteção mental de quando percebi que não conseguia puxar a calça para longe do bumbum). Eu sinto todos os sistemas de disparo. Demoro uns dois minutos para entender exatamente como funciona cada um dos apetrechos que estão embutidos na roupa (e quebro dois monitores no processo). Tento conter a euforia. Vou andando até o salão principal (a capa retrátil vai e volta várias vezes, até eu descobrir o que estou fazendo de errado).
Olho no monitor no canto do olho. Incrível como essa coisa funciona, estou vendo o estado de cada parte do meu corpo, além de ter acesso ao computador da base sem fazer nenhum movimento além de olhar forte para um ponto da tela holográfica que é projetada direto em minha retina. Peço acesso aos eventos atuais. Um chamado da polícia, poucas quadras de onde estou. Suposta atividade super-humana. Vou à direção da moto. Sempre sonhei em dirigir essa coisa, mas se meu pai me visse sentado nela, ia me dar bronca. Mas eu tirei carta faz três semanas, eu sei dirigir já, não tem problema!
Saio da base (e quase não raspo muito a moto na lateral do túnel). Termino o caminho numa rampa, e tenho a impressão de que fiquei no ar por meia hora. Quando caio, quase perco o controle de novo. Sigo em frente, e avisto um dos robôs de Conway, daqueles vestidos de gangster. Fico de pé na moto e dou um salto mortal para trás (ninguém vai acreditar, mas tudo bem). A moto segue e esmaga o danado. Ela é um bom veículo, se estabiliza e volta sozinha para o beco.
Eu caio (de pé, nem acredito). Estou cercada por outros quatro gangsters-robos. Saco um bumerangue. Os malditos miram suas armas, mas eles não têm chance nenhuma.
Pois agora, sou Midnighter.

O Retorno de Midnighter — Parte I

Quando era criança, eu e Abe éramos inseparáveis. Os irmãos Samsom, como nos chamavam naquela vizinhança miserável no centro do Harlem. Ele era Big Samsom, e eu, Lil Samsom, e éramos conhecidos por todo aquele lugar. Quando crescemos, saímos daquela desgraça, e conseguimos faculdade com bolsa, graças ao Futebol. Afinal, os Samsom sempre dizem, “corpo forte, mente forte”.
Abe era um exemplo. Dois metros de altura, forte como um touro, se formou um ano e meio antes de mim. Foi chamado para o exército, trabalhou na inteligência durante a guerra do golfo. Era um homem e tanto, nossa velha mãe tinha orgulho das medalhas. Lembro de que quando ela morreu, Abe fez questão de enterrá-las com ela.
Eu era mais acadêmico. Fiquei na faculdade, virei doutor. Nunca parei de me exercitar, e meus alunos achavam que eu iria agredi-los fisicamente caso não fizessem o dever. Bem, era verdade, eu iria mesmo. Por sorte, nunca precisei. Trabalhei com pesquisa militar, aproveitando as indicações de meu irmão, e me tornei bastante conhecido no meio. Desenvolvi blindagem, hardware e alguns outros segredos, mas nunca senti que fazia alguma diferença.
O que queria mesmo era trabalhar com algo que pudesse ajudar as pessoas. Queria trabalhar com algo que pudesse transformar vizinhanças ruins, como a minha antiga, em bons lugares para se crescer. Queria conseguir uma forma de ensinar aos garotos ficarem na escola e não usar drogas. Meu irmão havia dito que encontrara uma saída, e que queria que eu fosse trabalhar com ele. Passei as semanas seguintes empolgado, esperando minha vida mudar.
Então, Abe morreu. Baleado, por um bando de canalhas do tipo que fez nossa juventude ter sido um inferno. Um amigo dele, John Hasler, veio me dar pessoalmente a notícia. Fiquei arrasado, pois de uma vez só, meu irmão e minha esperança me haviam sido tomados.
Então, Hasler me mostrou o trabalho de Abe, e como meu irmão fazia a diferença. Senti que Abe era realmente o homem que eu achava que era. Enterrei-o naquele verão, do lado de mamãe e papai. Em sua lápide, está escrito “Albert Samsom, filho, irmão e herói”, mas não acho que só isso possa dizer tudo que senti.
Eu pedi demissão da faculdade depois de um tempo. Não conseguia mais olhar para aquela pesquisa, sabendo que havia homens como os que mataram meu irmão, soltos pelo país. Esse tipo de lixo humano deveria ser exterminado, mandado para a pior prisão, apodrecer pela eternidade. Não é o ambiente que faz a pessoa virar um monstro — meu irmão e eu saímos das mesmas condições, e viramos alguém na vida, sem nunca ter que pisar nas pessoas ou partir para o crime — e sim, o caráter.
Hasler me chamou para continuar o trabalho de Abe. Demorei três anos para aceitar. Engordei quase trinta quilos durante a depressão, mas não parei com meus exercícios. Eu estava tão fundo no poço, que morava agora em um quarto alugado em cima de um bar, dividindo minha cama com ratos. Não era exatamente o tipo de vida que as pessoas esperam de um doutor renomado. Achei que era hora de mudar, se quisesse mesmo honrar o bom nome de Abe.
Como sempre, Abe era o melhor de nós. Eu não conseguia reproduzir suas criações, apenas repará-las. Eram avançadas de mais para mim. Tornei-me chefe de projetos na empresa de Hasler, mas apenas como fachada. O que eu fazia mesmo era criar utensílios para o Midnighter. Ah, o Midnighter. Ele era um homem de verdade, do tipo que faria nossa velha mãe aplaudir. Pegava os bandidos, mesmo aqueles que os policiais corruptos tinham medo de perseguir, e dava uma lição neles. Eu me sentia importante em ajudar. Sabia que estava fazendo aquilo por Abe, e tinha certeza de que ele estava orgulhoso de mim.
Tornei-me grande amigo de Hasler. Construí seus veículos, montei o sistema de utensílios retrateis do traje de combate, programei grande parte do sistema dos computadores, e bolei um tecido leve e flexível como seda, que consegue resistir à balas a queima-roupa. Fiz minha parte, ele fez a dele. Assim, funcionava nossa parceria. Trabalhamos assim por quase nove anos.
Mas ele também caiu para os bandidos. Caiu em rede internacional, salvando a pele de todo mundo, e ninguém parece ligar. Eu ligo. Não posso deixar isso acontecer assim. Havia mais uma dúzia de caras lutando lá, qualquer um deles tinha poder suficiente para explodir uma cidade, mas nenhum deles teve o que era preciso para fazer a coisa certa. Mas John Hasler, que poderia ser parado com um golpe de faca, teve. E é isso que eu não posso deixar que as pessoas esqueçam.
Gastei os últimos meses me preparando. Juntei um projeto de uns guris ingleses, algumas tranqueiras que consegui do que sobrou dos andróides dos cientistas da Daydream, umas idéias que meu irmão estava trabalhando, e construí uma armadura de combate. Cento e oitenta quilos de metal e circuitos. Mesmo com os servos-motores, ainda tenho quarenta quilos de sensação em meus ombros. Se eu não fosse tão forte, não conseguiria andar. Fiz tudo isso com bastante cuidado, mas sei que esse exoesqueleto não é nem de longe forte o suficiente para que eu me equipare à esses doidos de capa.
Quando eu estava na metade de minha criação, o tal alemão voltou para Chicago e assumiu o posto de Midnighter por algumas semanas, mas era obvio que ele não gostava de mim. Esse tipo de pessoa não respeita gente como eu, que veio de baixo. Ele não quer que eu o veja sem máscara, uma medida bem nazista, como era de se esperar. Talvez, tenha nojo. Pelo modo que age com Shauny e comigo, fica fácil perceber que ele não gosta de negros. Graças a deus, ele foi embora, mas isso me deixou menos tempo para trabalhar. Mas terminei.
Eu saio da Van onde montei meu posto de abastecimento, e olho para a lua. Faço um teste, e salto quase quinze metros para cima. Um gancho é disparado automaticamente, e me prende numa das paredes. O metal da armadura muda de cor, mimetizando a textura dos tijolos. Eu me jogo com força, e atinjo o terraço de um prédio. A armadura ainda tem quase três horas de energia. Vai ser uma longa noite, e os malditos vão pagar. Não vou deixar que esqueçam.
Pois agora, sou Midnighter.

Dia das Crianças

Londres, nos arredores rurais da cidade, os cidadãos pacíficamente seguiam suas vidas enquanto os termômetros acusavam 30 graus. Era uma tarde ensolarada de Junho e os céus eram de um azul esplandecente ornamentados por um enorme e brilhante ponto amarelo e por calmas e multiformes nuvens brancas. Súbito, como um relâmpago silencioso de luz branca, um risco formou-se nos céus, rompendo a tranqüila e bucólica harmonia da cena.

Algumas centenas de metros acima, voando a duzentos quilômetros por hora, gentilmente envolvido pelos braços e seios de Alisia Bryant, e protegido por um campo invisível de luz densa, estava o pequeno menino Klaus Kohler van der Nistelroy. Enquanto o cenário passava deslumbrante por seus olhos arregalados, o garoto só conseguia esboçar como reação um sorriso largo e honesto em seu rosto. Era a melhor sensação do mundo, era incrível. O vento não agredia seu rosto, nem bagunçava seus cabelos, o campo de força impedia aquilo. Só o que tinha era a magnitude máxima da sensação da gravidade em sua barriga e a vista inacreditável que o passeio proporcionava. Em poucos segundos já estavam sobrevoando a cidade, e minutos depois passavam pela costa da Irlanda. Alisia não dizia nada, apenas deixava que o menino aproveitasse a viagem e, vez ou outra, comentava sobre o nome dos lugares que estavam sobrevoando. Klaus mal podia ouvir, embasbacado pela experiência.

A cerca de 300 metros abaixo e centenas de quilômetros a Sudeste, no terraço da Nistelroy Security Technologies, Claude estava sentado no mesmo ponto em que dissera até logo a Klaus e vira Sunshine desaparecer com ele nos céus. Pelo comunicador, podia ver e ouvir tudo pelo ângulo de Sunshine. Ela era fabulosa. Havia telefonado para o prédio das Nações Unidas no dia anterior perguntando se ela poderia lhe fazer um favor. Nove da manhã, ela chegou no terraço exatamente às nove da manhã, e nem era britânica. Dos últimos Dias das Crianças, Klaus estava mais empolgado com aquele. Por algum motivo, a idéia de voar o fascinava. Claude tinha medo daquilo, torcia sinceramente para que ele se tornasse piloto de caças, algo muito mais seguro do que a outra possibilidade. Sete anos e ainda não conseguia se sentir completamente pronto como pai. Tinha uma tarefa no mundo, um ideal pelo qual lutar, mas não conseguia – e sabia que não devia – deixar de lado suas responsabilidades paternas.

Em meio a divagações, o inglês notou pelo visor que eles já estavam se aproximando do prédio. Olhou para o relógio, tinha pedido uma hora e ela já estava no ar com Klaus a quase duas. Viu com o olho esquerdo o terraço do prédio se aproximando da visão de Sunshine, enquanto o olho direito via um facho de luz vindo em sua direção. A meio metro do chão, ela desacelerou e ambos pousaram suavemente, Alisia colocando o pequeno Klaus no chão. Em meio a inúmeros pedidos de bis do menino, Claude agradeceu a Alisia pela gentileza. Após dar um beijo no rosto de ambos e dizer que não foi nada, ela partiu novamente nos céus, dizendo que precisava voltar para a ONU.

"Ela é legal" deixou escapar, enquanto se aproximava instintivamente das pernas do pai. Claude assentiu com a cabeça. Era estranho, ou nem tanto, mas ele confiava em Alisia, Nicholas e Gunther o bastante para entregar-lhes nas mãos a vida de seu próprio filho, a coisa mais importante que tinha.

Caminharam pela cidade, Klaus queria comer porcariadas e comprar quadrinhos. Na banca de jornais do shopping, enquanto escolhia as revistas, Klaus observava silencioso seu pai sentado na mesa da cafeteria ao lado. Sabia que ele não era como as outras pessoas, pelo menos não como a maioria. Ele podia fazer coisas diferentes, podia ir rápido de um lugar a outro sem que ninguém visse. Ele nunca se machucava, nunca ficava doente como os pais de seus amigos. Olhou para a revista em suas mãos. Na capa, um herói impedia um trem. Sabia quem era aquele herói, seu pai já havia lhe dito. Conhecia mais da metade dos super-heróis de verdade do mundo. Adorava, muito mais do que ler quadrinhos, de ouvir seu pai contar-lhe as histórias dele e de seus amigos. Nunca contara isso, mas seu personagem favorito era Impacto, e não seu pai. Gostava dele, mas não achava que ser rápido era tão legal quanto ser forte.

Pegou as revistas e deu o dinheiro ao jornaleiro. Contou o troco e guardou, organizadamente, em sua carteira. Notou que o jornaleiro o olhou admirado. Era um menino que aparentava nove anos, mas era muito mais inteligente que seus amigos, sabia disso. Na escola, se esforçava para não chamar tanto a atenção, afinal era extremamente tímido e falava muito pouco com qualquer um que não fosse seu pai. Mesmo assim tinha as melhores notas da classe e era um aluno prodígio nas aulas de ginástica. Achava que, assim como seu pai era diferente dos outros, ele também devia ser. Lembrava que uma vez havia perguntado a seu pai se ele também ia ter super-poderes. Ele desconversou, dizendo que estudar e ter conhecimento era o maior poder que existia. Não acreditava mesmo naquilo, preferiria mil vezes ter super-força. Sabia que Claude o queria um estudioso, mas tinha outros planos para si. Mesmo que não ganhasse super-poderes, sabia que era rápido e esperto, e queria ser um grande ladrão como seu pai era antes de ser herói. Deteve seu pensamento ao lembrar-se da interminável e severa bronca seguida de castigo que seu pai lhe aplicara da última vez que falou disso. Decidira então não falar mais, mas sem desistir, absolutamente, da idéia. Victoria tinha reagido melhor, até o ensinou como abrir cadeados e trancas simples, mas advertindo para que nunca fizesse aquilo em casa. Aprendera também com ela que o grande ladrão é aquele que não deixa pistas. Ainda tentava entender direito aquilo.

Sentou-se à mesa junto de seu pai. Colocou as revistas ao lado da xícara de café e pediu um refrigerante. Claude pediu a bebida ao garçom e pediu para que Klaus fechasse os olhos e abrisse as mãos. O garoto atendeu ao pedido e Claude colocou em suas mãos um pequeno microchip de silício e ouro.

"O que é isso?" perguntou o menino, olhando um tanto desinteressado para a peça. Claude respondeu que era um microchip como todos os outros milhares que tinha na oficina da Nistelroy, mas que esse tinha um detalhe diferente. Veio do futuro de outra dimensão. Havia tirado das peças que trouxera da base futurista da Extreme. Era um chip ordinário, um dos poucos do aparelho que podia ser substituído por tecnologia da Terra atual. Mas, no momento em que Klaus ouvira sobre a origem do objeto, o mesmo ganhou um aspecto completamente novo e misterioso. Era de outra dimensão.

Todo ano era assim. Klaus sabia todo ano que aquilo aconteceria. Seu pai nunca o levava a parques ou circos no Dia das Crianças. Esse lugares Klaus freqüentava sempre que queria, seu pai sempre o ensinara a cuidar e administrar o próprio dinheiro. O Dia das Crianças era algo que todo ano era especial. Depois, iam fazer compras e seu pai sempre lhe dava algo diferente de tudo, que o dinheiro nunca podia comprar. Dizia que era justamente para que ele entendesse que nem todas as coisas do mundo estavam à venda. Os amigos, por exemplo, ele dizia. No ano passado Klaus conheceu o fundo do mar junto de seu tio Nicholas. Tio Nicholas, tio Gunther, tia Alisia. Não tinha tios de verdade, sabia daquilo, mas sabia que aquelas pessoas eram os que seu pai considerava como família. Sabia que nenhuma outra criança do mundo tinha Dias das Crianças como aqueles, e imaginava que fosse o jeito de seu pai para compensar o tempo fora de casa, o fato de nunca poder chamar amigos para brincar em casa, ou o fato de que casa para ele era uma base subterrânea servida por sistemas computadorizados. Sabia que era assim sua vida, e que era assim que tinha que ser. Não podia contar a ninguém sobre seus Dias das Crianças, sobre como seu pai salvou o mundo naquela semana, sobre a Melon Soda que só vende no Japão e que seu pai trazia todo dia. Quando as aulas voltavam, sabia que, enquanto as outras crianças inventavam coisas extraordinárias que não haviam acontecido para suas redações de "Minhas Férias", ele teria que inventar quatro semanas de histórias chatas e sem graça, porque absolutamente não podia contar o que havia acontecido de verdade. Primeiro porque não acreditariam, segundo porque não precisava da redação para saber que o seu havia sido o melhor dos Dias das Crianças.

Uma luz diferente.

Seis e meia da manhã e eu ainda estou na cama. Vamos Thomas! Seu imprestável, levante logo antes que perca mais um emprego. Meu pai sempre me dizia isso quando era garoto, dizia tanto que pareço ter pego a mania dele. Droga de vida, 26 anos e ainda moro no sótão da minha mãe. Se eu tivesse seguido a carreira profissional no futebol, ah! eu seria um astro não fosse Ted Barnes ter quase arrancado minha perna fora naquele jogo! O joelho ainda dói todo inverno pra me ajudar a não esquecer aquele dia, como se precisasse.
Céus! Já são sete horas, ainda tenho que tomar banho ... não, o banho fica pra depois, a barba também, tenho que vestir o uniforme logo e voar para o trabalho. Voar, seria bom se eu pudesse, mas infelizmente ainda tenho que pegar o metrô, enfrentar fila, e sufocar por oito horas naquela guarita infernal.
Sair de casa já é uma luta, minha mãe reclamando sobre mim, reclamando sobre minha irmã, reclamando sobre o cadáver do meu pai. Reclamando. Bom, passo pelo meu vizinho Ed na surdina, eu ainda devo 20 pratas a ele. Depois disso, é só esquivar de Melissa e pronto, estou fora da rua mais acabada de Bushwick.
Daí é só caminhar pacificamente, evitando ser assaltado até o metrô, não que seja fácil, mas com os anos se ganha prática nestas coisas. Chego no metrô e como sempre, nenhum banco vago. Um acento livre surge na segunda estação. Eu sento. Uma mulher de 40 anos fica me encarando como se eu tivesse a obrigação de ficar em pé enquanto ela relaxa as pernas, sinto muito, não é por eu ter 26 anos que eu possa ficar em pé sentindo meu joelho ralhar a cada tremida do metrô para a senhora poder descansar seus joanetes.
A cena se repete mais uma ou duas vezes conforme eu troco de trens para chegar ao trabalho. E como sempre, chego atrasado. E como sempre, recebo bronca de Jefferson Malus, o encarregado da segurança do bloco B, e depois de mais 5 minutos, entre olhares de reprovação e comentários maliciosos, volto a rotina diária de entediamento.
Atravesso o salão principal, passo pelo corredor A-D e depois de alguns passos lentos me encontro dentro da guarita do Bloco B.Cara, o salário até que não é um lixo, comparado com os outros lugares, mas aquela guarita da ala B da Warden University é um inferno na terra de tão quente. Não sei quem foi o idiota que projetou aquilo. Por que é tão quente que não dá nem pra cochilar nem pra ficar acordado.
O Bloco B é a área destinada aos médicos da Universidade, para pesquisas e outras coisas que a gente nunca sabe, os médicos nunca se apresentam no horário, então não sei por que brigam tanto comigo. Fico mais 10 minutos sem fazer nada, 15, 20. Começo a ficar sonolento, mas logo tudo começa. Chegam os médicos do setor, saem os médicos do setor. E o dia vai passando assim.
Fico pensando sobre esses médicos, eles ganham pelo menos o triplo do meu salário e ainda parecem não estar contentes, a maioria é como sempre, esnobe, mas um chama muito mais a atenção, Dr. VonBühler acho que é alemão, eu sempre tive pavor de alemães. O Dr. tem um olhar sobrehumano, parece que ele vê os seus temores mais intímos com aquele olhar de gelo, ele me dá arrepios!!
Nossa, hoje tenho até pessoa ilustre passando por aqui, o patrão veio visitar o Dr. de olhar apavorante, acaba de chegar no seu ultimo carro novo. eu nunca vejo ele usando o mesmo carro, sempre um diferente, e sempre um modelo caríssimo, daqueles que eu só posso ver mesmo. Ah! esse Richard leva a vida boa, só nadando no dinheiro, ele passa e sorri como se o mundo fosse dele, sacudindo o rolex do braço enquanto acena um olá tentando ser simpático. O que esse cara fez pra merecer tudo que ele tem que eu não fiz? O que me deixa mais fulo da vida é que não consigo não sorrir pro cara, sei lá, ele tem alguma coisa que mexe coma gente. Ele passa e o tédio recomeça. E o tédio se prolonga. E se estende até que meu horário acaba.
Como cheguei atrasado, faço hora extra, normas da empresa. Tenho vontade de fuzilar quem inventou essas regras, mas o tempo da hora extra também passa como os outros, até que uma hora simplesmente acaba. Estou livre. Assim não me demitem pelo menos. Aproveito e vou pro bar onde os alunos frequentam, uma cerveja vai aliviar meu dia e meu humor. Acabo tomando 2 e pegando o telefone de uma uma menina com tara por homens de uniforme.
Me dou por satisfeito e no final da tarde de serviço me dirijo a passos lentos pro metrô. Fila pequena para entrar e milagrosamente pego um lugar vago logo de cara, mas não me faltam os olhares de acusação. Dá vontade de arriar as calças e gritar, olhem pra porra do meu joelho! Só que com a minha sorte teria algum guarda dentro do vagão para descer a lenha nas minhas costas por isso. Fico quieto e aproveito o banco. Que eles olhem como quiserem.
A viagem se estende como sempre. Mas como estou sentado até me sinto bem em estar no metrô. Quando o trem está chegando na estação do centro de Manhatam, até fico feliz. Metade do caminho já foi, mas então algo estranho acontece, um barulho ensurdecedor, depois outro e tudo parece tremer. Da janela direito consigo ver a parede do tunel ser arrebentada por uma criatura negra gigantesca. Parece um homem, mas não dá pra ver direito, muito rápido, o vulto passa e logo atrás vem outro, mas é claramente um homem com uma roupa verde. Ele salta do buraco do tunel e parece atingir a criatura ao mesmo tempo em que um cavaleiro medieval passa voando. Eu fico embasbacado com tudo isso, porém o tremor do trem me traz de volta.
Parece que o baque entre o cara de verde e o bicho de preto deve ter desestabilizado os trilhos do metrô. O trem treme como nunca, e parece aumentar a velocidade. Nunca tive tanto medo na minha vida. A velha que me olhou feio, rola ao chão com uma sacudida do vagão. Não sou muito inteligente mas saquei que a coisa ferrou pro meu lado, o trem provavelmente desgovernou de vez. Que maneira besta de morrer!
Eu olho pra janela e vejo a estação passar num vulto, rápido demais, e nada de parar, tudo treme, eu me seguro como posso. Que merda, a velha deve ter se machucado de verdade, ela não se mexeu mais, nem tentou se levantar. Tento me levantar pra ir ajudar, mas é difícil, faço um esforço, meus tendões quase se arrebentam, mas consigo me segurar, o vagão, não para de tremer. De repente penso, qual a serventia de ajudar a velha? Vamos todos morrer de qualquer jeito, o trem desgovernou, já era... e então paro de pensar e ajo, Cravo os dedos na poltrona pra me apoiar e então chego perto dela, eu toco o pescoço da senhora, ela não está respirando! Droga! Começo a fazer o procedimento de reanimação, 1,2,3... 1,2,3... segundos que parecem uma eternidade. Estou encostando a minha boca na da velha quando um baque no trem me lança quase um metro a frente dela, acho que morri, mas abro os olhos e percebo que ainda estou vivo. O trem diminuiu um pouco a velocidade, os trilhos rangem mais que a porta do banheiro de casa. Mas como?
Olho para o fundo do vagão (estou no último) e vejo a cena mais bizarra e mais emocionante da minha vida! O cavaleiro medieval com os olhos brilhando com uma fumaça azul está segurando o trem, ele está segurando o trem! Eu nunca imaginei que uma coisa dessas fosse possível. Com os dois braços e parado no ar, ele está segurando o trem! O cara gira uma espada enorme que eu nem vi ele tirar das costas, a espada deve ter o meu tamanho (ele mesmo deve ter mais de dois metros) e finca ela no chão como apoio. Eu juro que não acredito que estou vendo isso! Um cavaleiro medieval de quase 2,5 metros de altura, com uma espada enorme, voando com uma luz azul ao redor do corpo, está segurando a porcaria do vagão! O cara está salvando todo mundo! Eu não consigo acreditar ainda, vou acordar e estarei na minha cama, prestes a ir pra droga do meu emprego de novo.
O trem para de vez, o sangue escorrendo da minha testa me traz de volta a realidade, isso aconteceu mesmo. O cavaleiro, tira sua espada do chão, ele parece estar preocupado se alguém do trem precisa de ajuda, ele olha dentro do vagão. Sinto uma mão no meu ombro direito, me viro pra ver quem é, é a velha mal encarada em quem eu estava fazendo respiração boca a boca. Ela me olha bem diferente agora, como minha mãe olhava pra mim quando eu era pequeno.
Nós ficamos apenas um segundo olhando um pro outro, mas quando me viro o cavaleiro já desapareceu, deve ter ido enfrentar aquele bicho, ou aquele cara, nunca se sabe quem é o vilão com esses caras. Só se sabe quando eles nos salvam, como o cavaleiro. Me volto para a senhora e a ajudo a se levantar, ela me diz seu nome, Angeline Pinkerson, eu lhe digo o meu. Ela agradece e eu respondo que não fiz nada, que foi o que qualquer ser humano faria, e depois me lembro que salvei a vida dela, assim como o cavaleiro salvou a de todos nós.
Eu, Thomas Howley, 26 anos, subempregado, sem casa própria, sem namorada, sem cachorro. Eu salvei uma vida. O peso do meu ato me tira muito do peso que eu carregava nas minhas costas, juntamente com o fato de eu ter quase morrido, dá uma sensação diferente, de repente a vida parece ter novas possibilidades...
Eu salvei uma vida, assim como o cavaleiro mágico salvou a de todos nós. Eu nunca tinha visto um desses caras antes, assisti sobre eles na televisão, mas eles sempre pareceram tão longe... hoje é diferente, eu vi, e eu me sinto como ele, no mesmo nível. E essa comparação dá uma luz diferente ao meu dia.



Polizist

Londres é uma dessas cidades onde tudo é velho, e, mesmo assim, tudo parece novo. Quinze anos na força policial, e esse sentimento ainda era profundo no Sargento Charles Buckerfield. Era um homem forte, com uma barriga já saliente de seus quarenta anos, e usava um bigode forte e grosso, dum castanho acinzentado. Seus dentes eram meio tortos e manchados de tabaco, e sua pela era cheia de sardas, principalmente nas mãos e nas bochechas. Seus cabelos, no entanto, ainda eram vastos, e faziam um complicado desenho debaixo do chapéu. Bucky, como gostava de ser chamado, era casado pela segunda vez, com uma gorda resmungona, e tinha um filho de mais de 15 anos com sua primeira mulher. No entanto, ele não via o garoto há quase cinco anos, e tinha sérias dúvidas se ele se chamava "Henry" ou "Harry".

Trabalhava no 503 de Londres. Era um bom departamento, vizinhança tranqüila. Bucky gostava de dizer que as pessoas eram tão amáveis que até os bandidos pediam "Por Favor" e "Obrigado", nos poucos assaltos que ocorriam. Pelo menos pensava, até chegar o "Polizist".

Ah, o Polizist. Diziam que era filho de alemães, e que havia mudado para a Inglaterra fazia poucos anos. Sabe-se lá como ele conseguiu entrar para a Academia, mas todos ficaram impressionados. Dois metros e meio de pura salsicha e repolho, diziam os colegas. Sempre de cara amarrada, sempre tentando fazer as coisas da maneira difícil. Diziam que ele havia completado a prova física para o ingresso em menos de dois minutos! Era algum tipo de recordista, pensavam. As melhores notas nas provas escritas. Ninguém queria ficar perto de um cara assim - esse tipo de pessoa tende a fazer o parceiro parecer um completo incompetente. Mas Bucky não teve muita escolha. Ele estava sem parceiro fazia três meses, e não tinha mais como enrolar.

Estavam os dois no carro de patrulha, número 17-4C. Era uma máquina velha, mas tinha sua história. Cada mancha no banco lembrava Bucky de uma piada, e ele fazia questão de contar para o jovem alemão. Contava sobre seu ex-parceiro, Ted, que havia sofrido um ataque cardíaco. Contava sobre a vez em que um bandido se entregou ao vê-los na ronda. Todas as histórias que divertiam os colegas da Academia, nas festas de final de ano. Mas o Polizist não parecia se interessar. Ora, Bucky apresentou para ele as melhores lojas de Rosquinhas da cidade, e o rapaz sequer experimentou!

Enquanto Bucky bebia o último gole de café, o alemão soltou o cinto de segurança, e abriu a porta. O veterano sequer teve tempo de questionar - o rapaz saiu correndo. E esqueceu a arma, pensou.

Era a pior parte da ronda. O porto. Nas últimas três semanas, pelo menos cinco desaparecimentos por aquelas bandas. Bucky ligou o carro, e seguiu o rapaz, até ele entrar em uma ruela estreita. Era impossível continuar. Depois de um suspiro longo, pegou seu revolver e o do parceiro, fechou o carro, e tentou segui-lo.
Um beco sem saída. Olhou para os lados, procurando uma porta. Havia apenas uma janela, cinco metros e meio acima. Tirou o chapéu, e coçou os cabelos. Então, uma telha caiu do seu lado, quase atingindo sua cabeça!

Num salto assustado, quase cai no chão. Olhou para cima, e jurou ter visto um homem com o uniforme da polícia andando no telhado. Não, era impossível. Eram pelo menos dez metros! Nem mesmo um garotão como Polizist poderia fazer isso! Bucky resolveu dar a volta, mas não sem antes arrumar o cinto, que incomodava sua barriga.

Ouviu um barulho forte, como de metal torcendo-se. Correu, quase perdendo o ar duas vezes, e entrou num galpão próximo. Da janela, viu Polizist segurando no gancho de um enorme guindaste de carga. O chapéu do alemão caiu rodopiando pelo ar. Num golpe rápido, o guindaste tremeu, fazendo o corpo do alemão se chocar contra um navio atracado. O barulho forte do metal fez-se novamente. Bucky fechou os olhos, pensando no que diria pra família do pobre rapaz. Então, segurou sua arma, e se arrastou lentamente para uma janela. Não havia sangue no navio, e o gancho de metal também não estava sujo. Ora, será que o malandro deu um jeito?

Havia um homem vestido de preto, flutuando dois metros acima do chão. Céus! Era o reverendo da televisão, o programa que sua mulher assistia aos sábados! Mas ele não parecia tão puro... Tinha um olhar sombrio, e uma luz negra emanava de suas mãos. Era assustador de olhar diretamente. Bucky ficou paralisado de medo.

Viu novamente Polizist surgir. Estava a poucos metros de distância, dentro do mesmo galpão que ele. O alemão tirou o casaco de policial e tampou o rosto com uma máscara preta. Parecia um daqueles lutadores dos filmes chineses, os tais que espreitavam nas sombras. Bucky não lembrou o nome, mas achou que era algo parecido com Sashimi. Talvez, Samurai?

Polizist saltou para fora do galpão como uma bomba, explodindo uma janela. Os cacos de vidro todos pararam no ar, e o seguiram. Na verdade, o atingiram, mas nem sequer arranharam sua roupa. Ah, era esse o segredo! O alemão usava colete a prova de balas! Provavelmente, era por isso que ele nunca se machucava! Bucky sentiu-se mais confortável com isso, pois agora o rapaz não estava tão assim na sua frente. Eram só truques!

O reverendo esticou a mão, e Polizist parou no ar. Bucky não sabia como, mas podia jurar que ouvira o alemão dar uma risada. No mesmo instante, pelo menos dez mil galões de água levantaram-se do Tamisa, formando um dragão de água. Ah! Então ele era mesmo um Sashimi! Provavelmente, estava usando os poderes dos monges! Bucky sempre acreditou que os monges podiam fazer esse tipo de coisa, mas nunca fora defensor da causa!

Levantou-se, confiante. Arrumou o chapéu na cabeça, e puxou mais uma vez o cinto para cima. Viu a torrente do Tamisa engolir o reverendo. Puxou o revolver mais uma vez, certo de estaria amanhã de manhã na capa do jornal.

Um raio prateado cruzou o galpão. Bucky viu o navio à sua frente desmontar. Podia jurar que vira faíscas elétricas por todo o lugar. Desse, já havia lido alguma coisa! Era Lightning, o relâmpago humano! Era mais rápido do que qualquer máquina feita pelo homem! O pobre infeliz do reverendo estava perdido!

Por alguns instantes, as coisas continuaram assim. Até que o reverendo se levantou. Parecia furioso. Bucky se escondeu atrás das caixas, e não teve muita certeza do que viu. O chão tremeu várias vezes, e ouviu gritos de ódio e agonia. Não arriscou espiar. Ouviu a voz grave do vilão, igualzinho era na TV, dizer que eles não atrapalhariam mais seus planos, que os transformaria em escravos.

Bucky puxou sua arma e disparou, sem mirar direito. A bala atravessou as costelas do Reverendo, que não parecia preparado para o golpe. Praguejou com força, e gritou que não iriam se lembrar de nada, não importava os artifícios. Que não conseguiriam parar algo que não sabiam existir. Voou para cima, e desapareceu. Os heróis levantaram-se minutos depois, como zumbis. Andaram sem rumo, até que não fosse mais possível vê-los.

O velho policial andou até a janela novamente. Não havia mais ninguém lá. No chão, achou o chapéu de Polizist. Apanhou-o, e o segurou. Olhou para os lados, esperando algo acontecer, mas não ouviu mais nada. Voltou para o carro, meio assustado. Não tinha certeza do que havia acontecido. De certa forma, não queria saber.

Sentou no banco do motorista, e esperou. Ficou parado talvez 40 minutos, sem responder sequer aos sinais do rádio. Então, Polizist apareceu. Estava com ar desnorteado, como se não tivesse dormido por várias noites.

- Eu... Eu não sei. Eu não me lembro de nada, Bucky. Eu sai do carro, e acordei com essa enorme dor de cabeça!

Bucky deu uma risada, e entregou o chapéu ao alemão.

- Günter, meu rapaz, você deveria comer mais rosquinhas! Elas evitam que você saia correndo por ai e bata a cabeça em canos soltos!

Günter sentou-se emburrado de novo. Não agüentava mais esse papo de rosquinhas. Um policial gordo como Bucky não tinha idéia do que era ser um herói de verdade, do que era salvar a vida de alguém. Céus, até mesmo Sadie deveria ser mais heróica do que ele!