Em 2015, um grupo de super-humanos escapa de uma base do governo para salvar o mundo, e acaba descobrindo uma série de segredos sombrios. Essas são suas histórias.
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Olhos Nublados — Parte III

Zed trancou a porta rapidamente e olhou para Mila. Ofegava. Suas mãos tremiam incontrolavelmente, num nervosismo que não estava habituado. "Droga", pensou, "Eu não sou nenhum Nistelroy para ficar invadindo prédios assim, eu não sou um ladrão!".

— Se continuar tremendo, vão perceber.

O golpe da voz triste da garota o fez voltar para a realidade. Ela lhe causava uma sensação completamente estranha de dúvida e piedade. Zed não tinha certeza do que estava fazendo, mas alguma parte dele — talvez a parte que acreditasse em fé, que havia tanto negado — estava trabalhando contra seus instintos.

— Ah!, Moça! Você tem enrolado o Zed aqui até o limite! Fale de uma vez! O que viemos fazer aqui?

Mila fingiu que não ouviu, mas ele insistiu em mais alguns comentários. Ela andou até um dos computadores da sala de segurança e derramou o liquido frio que sobrara num copo de café deixado ali por algum guarda indisciplinado. O soro negro escorreu pela mesa de controle, causando faíscas. As telas de monitoramento começaram a chuviscar. Apanhou um microfone e enfiou o cabo de ligação na mesa faiscante. Zed teve a impressão de que ela tomara choque elétrico.

— Brownwell Park, 2334, é um armazém de peças de carro - sussurrou. O rosto de Zed cresceu em interrogação; sua paciência estava se esgotando.

Ele se sentou em uma cadeira, e sacou a arma. Girou duas vezes entre os dedos, conferiu alguma coisa, e deitou-a sobre a mesa no meio da sala. Levou um cigarro à boca, e começou a estudar Mila calmamente.

— O que está fazendo? Eles vão nos encontrar! O guarda vai entrar pela porta em um instante...

Zed sorriu. Girou o cigarro entre os lábios, e tirou do caminho uma mecha que tampava a visão de seu olho direito. Calmamente, sacou o isqueiro — um raríssimo Ronson Blueberry da época da segunda guerra mundial — e o fez funcionar, tampando a faísca com a outra mão. Deu uma tragada lenta, e soltou a fumaça pelas narinas. Parecia cada vez mais com um ator de filmes Noir.

— Eu cansei de seu jogo, Mila. Tentei ser bonzinho com você, tentei mesmo. Eu não sou o idiota que você deve pensar.

— Você não está entendendo, isso não deveria estar... — os olhos de Mila ficaram enevoados, e ela pareceu perder contato com a realidade por alguns instantes.

— E lá vai você de novo. O plano deu errado, e agora você vai fazer alguma coisa sem sentido para que ele volte ao rumo em... três... dois... um...

Mila jogou o copo de café do lado da porta. Um guarda truculento entrou correndo, com a arma em mãos.

— Mas quem por... — e escorregou no copo, caindo de cabeça no chão. Estava inconsciente.

Mila respirava forte, como se tivesse acordado de um pesadelo. Era como se tivesse perdido todas as palavras.

— Mocinha, agora é a hora de a gente conversar. Se você for prestativa, nosso amigo dorminhoco nem vai entender o que aconteceu. Por que estamos aqui?

— Eu não... eu não sei. — Mila engoliu seco; as coisas pareciam estar saindo de controle — eu não consigo mais controlar. Eu só estou tentando ajudar!

Zed mastigou o filtro do cigarro, e deixou-o pender pelo canto da boca. Não parecia satisfeito. Olhou para o relógio.

— O turno deve acabar em mais uns minutos, e ai o próximo guarda vai chegar... e não estamos vendo nenhum outro copo de café por aqui, estamos?

— Algo ruim... algo muito ruim vai acontecer. Eu não sei o que é, mas... eu... nós podemos impedir, se fizermos direito.

— Minha paciência tem limites, moça. Por que você está invadindo a MaxCorp, e o que eu tenho a ver com isso? — Zed andou até o guarda caído, e começou a revistá-lo.

— O laboratório do quadragésimo oitavo andar... eu... preciso chegar lá, mas não vou conseguir sozinha. Você tem que me ajudar. Se eu não fizer isso, muitas pessoas vão morrer.

Zed tirou alguma coisa da cintura do guarda. Levantou-se, e foi até Mila. Acariciou o rosto da garota com as costas da mão, e sorriu.

— Pronto, vamos. Eu só queria o cartão de acesso do rapaz aqui.

Mila ficou confusa.

— Quer dizer que você só estava..? — ela parecia brava.

Ele riu. Guardou o cartão no bolso, e foi andando. Deu um belo chute na cabeça do guarda, para garantir que ele não acordasse nas próximas horas.

— Eu o vi chegando quando entrei, havia tirado o comunicador para falar no telefone com uma mulher. Eu sabia que ele não ia chamar reforços. Além disso, eu precisava testar como é que você faz seu truquezinho — Ela tentou interromper brava, mas Zed continuou falando — vamos andando, antes que descubram esse aqui.

Saíram pela porta dos fundos, e correram até a escadaria. Vinte minutos depois, estavam os dois no quadragésimo oitavo andar do MaxCorp Silver Tower. O prédio tinha esse nome por parecer ser de uma única peça de vidro espelhado com um tom levemente metálico. Zed acenava para os trabalhadores do escritório, que sorriam em resposta, como se fosse mais um da turma. Ele se divertiu inventando uma história sobre ser do setor de corte de verbas, e fofocou sobre o caso que o fictício Lenny do Recursos Humanos tinha com a secretária gorda do nono andar. Pararam ao se deparar com a ameaçadora imagem dos seguranças da porta dupla no final do corredor.
Zed tentou adivinhar quais seriam as armas que os truculentos homens guardavam sob o uniforme. O negro com nariz achatado tinha cara de uma P-85 Mark II, enquanto o careca com queixo duplo com absoluta certeza portava uma daquelas Colt Double Eagle. Fora isso, havia quatro câmeras panorâmicas e as duas secretárias na recepção ao lado. Ele conhecia bem esses sistemas de segurança, e pensou consigo mesmo que havia acertado em ter se tornado um negociador de risco — nome pelo qual se referia a toda classe de profissionais do jogo, golpistas, banqueiros, e o resto da malandragem formalizada — e não um ladrãozinho qualquer.
Mila o puxou para uma sala. No instante seguinte, a porta dupla da diretoria se abriu, e Zed teve um vislumbre rápido do figurão que era Maximillian Maxwell II, oitavo homem mais rico do mundo, personalidade do ano da Times e rei da filantropia na América. Como da maior parte da população, a opinião de Zed sobre ele era favorável; o homem havia ajudado o mundo a se reconstruir depois de duas crises, havia criado a primeira força policial com capacidade super-humana, e mais um monte de coisas. Claro, houve aquela vez que tiraram todos os remédios da MaxMed de circulação, mas ninguém parecia se lembrar disso.

Mila andou pela sala. Era um laboratório branco-azulado, cheio de geladeiras em miniatura. O lugar cheirava a hospital. Ela abriu uma das portinhas na parede e tomou um saco plástico. Havia um frasco de vidro cheio de um liquido amarelado, mas ela não se deu ao trabalho de olhar. Andou até o final da sala, abrindo sem ver todas as portas disponíveis. No final, abriu uma gaveta e tirou de lá uma ampola vazia. Zed teve a impressão de que a moça fosse uma experiência mal-sucedida de algum cientista louco, e agora estava se voltando contra o criador.

— Zed, preste atenção. Convença os seguranças para que nos deixem entrar na sala do final do corredor.

— Mas ein? Isso é suicídio! Será que não tem nenhum copo de café vazio por aqui?

Mila não respondeu; empurrou Zed com o peso de seu corpo, e o rapaz saiu pela porta, quase batendo de frente com uma parede. Os seguranças trocaram olhares, e o careca foi na direção do rapaz.

— Eu posso ver sua identificação? Eu não acho que tenha te visto aqui dentro antes. — O homem tinha quase dois metros de altura, e com certeza tinha músculos o suficiente para quebrar Zed ao meio sem muito esforço.

Zed tremeu um pouco. Pensou em sacar a arma e acabar com tudo ali mesmo, mas não teve coragem. Leu o nome do segurança no crachá. "Terrance Walker". Era possível sentir a antipatia do brutamontes no ar, e Zed podia dizer facilmente que bastaria uma palavra errada para que fosse parar na delegacia local, na melhor das hipóteses.

— E então? Vai mostrar ou não?

Zed sacou o cartão que havia tirado do guarda. O segurança precisaria estar bêbado para acreditar que era ele na foto. Mostrou-a.

— Ahn... Terry, Terry, você não se lembra de mim? Nós conversamos no elevador, eu te recomendei apostar nos Giants, lembra?

— Em primeiro lugar — o careca segurou o colarinho de Zed — eu sou de Ohio, os Giants são para perdedores. E em segundo lugar — prensou o pobre rapaz com toda a força na parede — é Sr. Walker para você! Agora me diz, que porra você está fazendo aqui, ou eu estouro seus miolos, seu merdinha!

O negro sacou a arma. Era realmente uma Mark II, mas com silenciador. Zed quase sorriu, pensando que tipo de idiota colocaria um silenciador numa Mark II, mas teve a impressão que não seria o melhor comentário a se fazer naquele momento.

— Olha-ugh, olha, eu só preciso entrar ali um-uhg um m-minuto só, vocês... v-vocês podem até fazer um intervalo, que tal? — Zed nesse momento esperava que Mila tivesse encontrado todo o estoque de copos de café do prédio, para tirá-lo dessa confusão. A mão do careca pesava uma tonelada.

Zed tentou alcançar sua arma, mas sentiu que ela não estava mais onde deveria. Sabia que não teria tempo para nenhuma brincadeira. O careca gritava com ele. As secretárias saíram correndo e se esconderam dentro de alguma sala fora do campo de visão.

— Me deixem em paz! — Zed gritou, perdendo todo o ar que tinha acumulado. Sua voz ecoou pela sala, e pareceu ter um poder descomunal.

— Perdão, senhor, perdão! — gritaram os guardas.

Os dois saíram correndo, assustados. O negro tropeçou e foi se arrastando até o final do corredor. Zed ficou parado por alguns instantes, tentando entender o que havia acontecido. Talvez tivesse ficado parado lá pelo resto do dia, se Mila não saísse pela porta e o puxasse. Entraram na sala de porta dupla sem falar uma palavra. Então, Zed explodiu.

— Você quer me matar, sua desgraçada? Aqueles filhos da puta quase fizeram picadinho de Zed! Ou você fala, ou vai tomar uma bala do meio da testa!— Estava já com a arma apontada para a menina, e seu coração batia tão rápido que fazia as costelas vibrar.

— Se não tivesse demorado tanto para usar seu dom, poderia ter evitado tudo isso. — Mila foi andando calmamente na direção de um notebook que estava em cima da mesa de reuniões.

— Que porra é essa, Dom? Do que diabos você está falando? — Zed ainda estava com a arma apontada, mas já não tinha certeza de que iria atirar.

Mila digitou alguma coisa, e só respondeu para Zed quando ele ameaçou ficar histérico.

— Seu dom, sua habilidade especial... — parou um instante, e seus olhos ficaram vazios por alguns segundos — Ah, não! Você não sabia?

— Do que você está falando, moça? Eu não estou entendendo nada, droga!

— Você tem um dom, como o meu... eu achei que você já soubesse, foi um engano! Eu nunca teria...

A porta se abriu num golpe forte. Meia dúzia de homens bem armados entrou no lugar, gritando e berrando. Pareciam estar vestidos para a guerra, com uma armadura cinza e capacetes. Em um instante, cercaram Zed e Mila. O líder deles tinha um bigode farto por trás do vidro da mascara, e sua voz era muito grave, mais ainda quando gritava.

— Muito bem, os dois, pro chão!

Zed olhou nervoso para Mila. A menina parecia calma, mas os olhos dela haviam se perdido no tom acinzentado. O céu já estava escuro, e a janela gigantesca na sala de reuniões dava uma visão bem clara de que os dois não tinham saída.
O som de um disparo assustou as secretárias que estavam escondidas na cozinha do andar. Havia começado.

Olhos Nublados — Parte II

Ela acordou lentamente. Seus olhos se abriram, vazios por alguns instantes, e vasculharam lentamente o lugar. Não ousava se mover. Quando encontrou os olhos de Zed no caminho, o rapaz esboçou um sorriso e lançou-se para a frente da poltrona, interessado.

— Então, será que terei a honra de ouvir seu nome, senhorita? Você me pregou peças a noite inteira, com seus bilhetinhos!

Jovem e bonito, Zed ainda demonstrava um corpo atlético, um ar charmoso, e aquela voz melosa e firme de locutor de rádio da decada de 50. Suas roupas eram modernas, como as de um artista, com calça azul-acinzentada, um blazer azul e uma camisa branca sem gravata. Seus cabelos loiros pendiam pelos lados da cabeça, longos o suficiente para dar um ar de descuidado, mas bem cuidados o suficiente para perceber-se que ele cuidava da aparência. A moça pareceu assimilar lentamente cada um dos detalhes da aparência do rapaz, como se as comparasse com alguma imagem mental antiga.

— Ah, qualé? — insistiu Zed — você fala ingês, eu sei disso! Só um nome, como gratidão, não?

Ela respirou fundo e ponderou por alguns instantes. Zed teve a impressão de que os olhos da garota ficaram levemente turvos e vazios, como se cobertos por um chiado de televisão. Antes que ele pudesse ficar assustado, ela abriu bem as mãos por baixo dos cobertores, e forçou os ombros pra fora.

— Mila... Mila Radjavitch, mas o nome muda alguma coisa? — Disse com um sotaque suave de alguma língua do leste europeu. Zed adivinhou que era do leste europeu por que havia passado uma temporada lá, alguns anos antes, para deixar a poeira baixar.

Ela se levantou. Estava usando pijamas estranhos, muito largos. Talvez tivesse sentido a falta do peso frio de suas roupas molhadas.

— São do Hotel, Mila... — Zed saboreou o nome — Você estava congelando, então achei que não se importaria. Pelo menos não li nenhum dos seus bilhetes falando que eu não poderia fazer isso.

Ele sorriu confiante. Levantou-se da poltrona, e jogou o livro que estava em seu colo numa mesinha qualquer. Tagarelou qualquer coisa sobre a baixa qualidade do vinho do bar do hotel, mas seu raciocínio foi interrompido pela voz triste da garota.

— Diga que não quer, que ainda está dormindo.

Antes de Zed poder perguntar alguma coisa, a porta bateu, e um grito avisando serviço de quarto foi ouvido. Zed dispensou. Olhou então para a garota.

— Viu, é desse tipo de coisa que estou falando! Como diabos você faz isso?

— Somos iguais... mas somos diferentes também. Somos diferentes das pessoas normais, não percebe?

Zed fingiu entender. Era algum tipo de filosofia? Talvez ela fosse uma maluca, ou apenas alguma garota em um esquema para lhe pregar uma peça. Ele se jogou na poltrona mais uma vez, afundando bem o corpo.

— Tá, pode parar por ai. Fale em inglês claro, sem rodeios! Quem diabos é você, e o que você quer comigo?

— É engano, não se de ao trabalho...

— Mas que diabos, engano? Eu — o telefone o interrompeu. O recepcionista do hotel havia feito a ligação para o apartamento errado, e se desculpou envergonhado. Zed jogou o aparelho para o lado, assustado.

Ele encarou a menina por alguns minutos. Ela permanecia com um rosto desanimado e um olha vazio. Talvez Zed estivesse esperando que ela lhe dissesse alguma outra coisa dessas, e ele não queria ser pego de surpresa. Quando a ansiedade passou, ele voltou à sua posição inquisidora.

— Como você sabe meu nome?

— Sim.

— Como diabos sim? Que tipo de resposta é essa, que tipo de doida você é?

— Não.

— Ei!, Ei!, Ei!, sem essa de "Bola 8" pra cima de mim! Me diga como você sabe quem eu sou!

— Eu sei.

— Sera que diabos você não entende inglês? - Zed pronunciou novamente todas as palavras lentamente, gesticulando exageradamente.

— Eu entendo inglês. Eu sei essas coisas. Só sei. Igual você, mas diferente, é tão difícil aceitar?

Mais uma vez, Zed estava confuso. Ele pensou em pegar sua arma, mas ela estava no criado mundo do lado da garota. Ele alargou a gola da camisa, respirou fundo, e massageou a testa, pensativo.

— Tá, tá. E por que diabos eu? Por que justo eu? E não me venha com resposta enigmática, eu salvei sua vida, você me deve isso!

— Eu não posso fazer sozinha. Você vai me ajudar, precisa me ajudar.

— Ou então...? O que eu ganho com isso? Digo, além dessa dor de cabeça que você está me dando?

— O suficiente. Às onze e dezessete, dois homens vão entrar no hotel. Eles vão subir o elevador e vão forçar a entrada. Por sorte, vai ser a porta errada. Mas eles vão tentar de novo, e acertar. Se você não vier comigo, eles vão cobrar pelo golpe que você deu no velho do barco. Vão entrar atirando, então você não vai ter tempo de tentar acalma-los.

— Como diabos...?

Zed olhou para o relógio na parede do hotel. Onze e dezesseis. Correu para a janela, e forçou a vista para baixo. Viu dois homens entrando no hotel pela porta da frente. Reconheceu um deles do jogo no iate de Don Rosso, um mafioso local (que, por acaso, havia perdido no Poquer ontém a noite). Diabos, como essa menina fazia isso?

— Tá, você está na liderança. Como eu saio dessa?

Ela fez força para se levantar da cama. O relógio corria ao fundo. Zed pegou a pistola rapidamente, e apertou-a entre os dedos. Ela andou até a janela e puxou uma corda. Uma plataforma para limpadores-de-janela surgiu. Mila fez força para entrar. Zed a empurrou, e se jogou. Com toda sua força, ele puxou as cordas, erguendo-se a pouco mais de metro e meio do limite da janela.
A porta do quarto ao lado se abriu. Tiros. Um grito de pavor. Instante depois, a porta do quarto de Zed se abriu com violência. Uma rajada de balas foi disparada. Um dos homens gritou com um sotaque estranho, enquanto uma barulheira enorme se seguiu. Eles pareceram deixar o quarto. Minutos depois, sirenes foram ouvidas.

— Solte a corda.

— O que? Você está louca, nós vamos cair! São pelo menos vinte metros!

— Não.

— Não o que?

— Solte a corda, agora! — ela puxou uma das mãos de Zed, o balanço da plataforma fez com que ele soltasse a outra.

A plataforma seguiu em queda livre por talvez uns dez metros, e então parou suavemente. Inclinou-se lentamente em uma janela aberta, e os dois deslizaram para dentro de um quarto. Zed estava inginado com aquilo, mas antes de argumentar, lembrou que ele poderia estar morto.

— Tá, tá, e agora?

Mila não respondeu. Andou até o armario e tirou de lá algumas roupas.

— Vire-se.

— Que? Não, perai, o que...

Ela começou a se despir. Zed já havia visto a cena um milhão de vezes. Ele mesmo havia dado um banho quente na desacordada Mila, horas antes, mas ele se sentiu um pouco envergonhado. Se virou.

— Bem, pelo menos não podem dizer que Zed não é um cavalheiro, não senhor.

Percebeu que estava nervoso, pois sempre falava em terceira pessoa quando perdia o controle da situação. Ouviu a porta abrindo, e se virou assustado. Mila estava saindo. Correu até ela.

— Ei, ei, você não vai se livrar de mim assim tão fácil! Pode parar por ai, mocinha!

Ela chamou o elevador. Estava agora vestida com calça jeans e uma camiseta branca. Seus cabelos arrepiados e seus olhos brilhantes contrastavam com a cor de sua pele, e ela parecia magra como uma modelo de moda. Zed pensou que ela provavelmente deveria estar faminta.
Desceram até o andar do térreo, e foram até o balcão. Zed olhou para o responsável, um homem magro e careca, com queixo saliente, pronunciado ainda mais pela gola alta do ridiculo uniforme do hotel.

— O senhor foi procurado por uns cavalheiros, senhor Andreas. Acho que seria incomodo se eles fossem notificados de sua saida — o homem fez um sinal com a mão, esfregando os dedos.
Zed havia sido traido por um atendente de hotel barato. Ótimo, era tudo que ele queria! Olhou firme nos olhos do homem, e falou alguma coisa em tom bem firme. Mila pareceu interessada no que estava acontecendo.

O homem se encolheu atrás do balcão, em posição fetal. Zed calmamente apagou os registros de sua estada no hotel — mesmo de seu nome falso, Pablo Andreas, que ele havia inventado na entrada do lugar. Foi sendo guiado por Mila por um caminho estranho, até chegarem na garagem. Lá, entrou em um carro esporte prata, que havia usado na noite passada.

— Moça, é bom que você realmente valha a pena, esse trabalho todo vai acabar comigo.

Ela sorriu para ela mesma, mas seus olhos ainda pareciam nublados. Zed parecia ser o tipo de canalha que destroi corações de mocinhas por diversão, mas ela não pensou nisso.

— Ceeerto, estamos no Zed-movel, pra onde agora?

— MaxCorp.

Bourbon

Enquanto segurada já não tão firmemente pela singela e quase trêmula mão, a garrafa derramava insensível uma fina cascata de bebida dentro do copo de bordas manchadas com batom rosa-claro. Sentada no chão da sacada do apartamento em NY, costas apoiadas na quina de parede, tendo como companhia uma delgada fumaça que brotava da ponta do cigarro sobre o cinzeiro ao seu lado. A cabeça, tombada para o lado como se pesasse mais que a própria paisagem, olhava para uma direção despropositada. Não precisava olhar para as coisas, na verdade sentia como se tudo estivesse o tempo todo olhando para ela. Podia ver claramente quando caminhava pelas ruas: todos a observavam. Odiava aquilo, talvez por isso apreciasse tanto estar invisível. Levou o copo novamente à boca e bebeu mais um largo gole do líquido, sentiu o álcool atravessar seu peito e em seguida amortecer sua cabeça. A garrafa já passava da metade e ela ainda não atingira o estado que buscava. Um estado de paz, de esquecimento, de isenção. Não gostava tanto assim de ficar embriagada, mas nos últimos tempos aquilo havia se tornado necessário com cada vez mais freqüência. Ouviu o celular tocando dentro do quarto. Moveu seu campo de visão para o visor, apenas para descobrir que era do escritório. A ONU não parava, era uma megainstituição global que não podia parar por um segundo sequer.

Mas ela não. Ela não era uma instituição, era apenas uma garota. Conteve um riso amargo e torturado ao pensar naquilo. Sequer era um ser humano, ao menos não no sentido biológico da palavra. E se um macaco capaz de aprender, sentir, se relacionar e compreender as coisas, continuava sendo um macaco, o que a definiria como humana senão o fator biológico? Lembrava-se das palavras de Pierce, dois anos atrás, quando descobrira sua real natureza. Um projeto militar intergovernamental para criar armas de guerra super-humanas. Super-humana. Sequer conseguia se sentir humana, sequer conseguia sentir qualquer coisa inteira dentro de si, tudo era fragmentado como sua própria história. A começar pela infância. Quinze anos de escuridão. Seus pais haviam morrido em um acidente, era o que seus tios lhe contavam. Ela sofria de uma doença raríssima que a impedia do contato com a luz solar, era o que seus tios lhe diziam. Eles a amavam muito e sempre a amariam, era o que lhe diziam. Mentiras. Absolutamente todas mentiras.

A começar por seus pais, que eram por sua vez também armas governamentais desenvolvidas em laboratório e forçadas à reprodução. Não eram seus pais, eram matrizes genéticas, sequer eles eram humanos, então como estar mais distante que isso daquele mundo? Sua doença era outra enorme mentira, a maior de todas. Não podia sentir a luz solar porque isso ativaria seus poderes, e isso a colocaria em situação de ser efetivamente a arma que a projetaram para ser. Quinze anos. A janela de seu quarto era vedada com fitas adesivas e plásticos pretos. As crianças diziam que ela era um vampiro, um monstro, e por muito tempo ela acreditou nisso. De certa forma, ainda acreditava. Mas a pior mentira de todas não era aquela, e sim a de que seus tios a amavam. Não conseguiu impedir duas lágrimas gêmeas de rolarem paralelas por seu rosto enquanto se lembrava.

Se a amasse mesmo, ela pensou, sua tia jamais teria ido embora. Sem explicações, sem despedidas, sem sequer um bilhete que dissesse o porque. Simplesmente partiu, para nunca mais voltar, deixando para trás uma menina de quinze anos e um homem de 50 que não suportou a dor do abandono e se entregou aos comprimidos. Primeiro os antidepressivos, que o mantinham na cama o dia todo, deixando uma casa inteira para a menina que não podia viver de dia. Depois vieram os barbitúricos, e por último os seratogênicos, que o colocavam em um estado de euforia descontrolada. Foi naquele estado que ele a encontrou, deitada sobre o sofá, cansada e abatida de outro dia igualmente vazio. Foi nesse estado que ele decidiu que ela não era mais uma criança, era uma mulher, crescida e cheia de formas atraentes.

O copo caiu no chão, liberto dos dedos que agora se apertavam contra a palma das mãos. Soluçou, e o soluço deu espaço a um choro incontido. Tremia por dentro e por fora, lembrando-se do momento em que sentiu o cheiro ocre do suor nos braços de um velho possuído pela dor e pelas drogas, determinado por sua vez a possuí-la de alguma forma. Lembrou das mãos, ásperas e insensíveis apertando seu corpo. Lembrou-se de ter gritado e do pesado impacto do braço sobre seu rosto, calando o desespero em pálidos e apavorados gemidos de agonia. De todos os momentos de sua vida, nenhum teria sido tão perfeito para que seus poderes despertassem como aquele. Mas eles não despertaram, permaneceram como ela, calados e impotentes. No dia seguinte, a polícia o levaria para a Penitenciária Hicker, onde ele passaria os 5 anos seguintes de sua miserável vida, até ser morto por outro presidiário. Nunca se interessou em saber o que acontecera. Passou as mãos pelo rosto, enxugando as lágrimas. Tragou longamente o cigarro e espalhou a fumaça pela atmosfera a seu redor. Olhando para os cacos de vidro do copo espalhados pelo chão em meio ao bourbon, teve a inevitável associação com sua própria vida. Cacos. Cacos de uma infância nas sombras, cacos de uma adolescência sem pais, por mais que Douglas Moench tenha sido ótimo a adotando, cacos de uma vida sem sentido em que lutava sem saber o porque, por uma humanidade à qual ela sequer pertencia. Apanhou a garrafa e, sem cerimônias, bebeu um generoso gole direto no gargalo. Podia ter moldado um copo de luz, mas sentia-se em um estado de fim-de-carreira muito mais apropriado a gargalos do que a copos. Perguntou-se, finalmente, porque continuava.

Porque era esse o sentido de sua vida. Riu novamente, dessa vez muito mais amargurada. Que espécie de vida era aquela? Acordava e ia para a ONU, onde passava seis horas trabalhando com os meandros legais envolvendo crianças estrangeiras trabalhando em condições desumanas nos EUA. Todos os meses conseguia devolver dúzias delas a seus países, mas para quê? Para serem exploradas em outro lugar, para serem substituídas por outras que chegavam todos os dias pelos portos ocultas em fétidas caixas de madeira embolorada. Para morrerem, adoentadas antes dos nove anos, assassinadas antes dos doze, de overdose antes dos quinze, de fome um pouco por dia. Por mais que lutasse, não conseguia mudar o mundo. Quantos criminosos já detivera? Lann, Contágio, o Carniçal, cada um derrotado trazia quatro novos em seu rastro. Pensou em Nicholas. Ele nunca acreditara nessa conversa de herói. Talvez tivesse razão. Talvez não valesse mesmo a pena. Talvez não houvesse sentido naquilo tudo. Mais de uma vez pensara em simplesmente mudar de lado. Em usar seus poderes para pura e simples vantagem própria, e que se dane o resto do mundo. Que se danem as crianças escravizadas, as cidades ameaçadas de destruição, que se dane o mundo todo. Se ninguém se preocupava com ela, porque ela precisava se preocupar com um mundo que nunca fora justo?

Sentiu a cabeça rodando. Muito álcool. Finalmente começava a atingir o estado que queria. Mal conseguia se lembrar de onde estava, mal conseguia se lembrar de quem era. Eram aqueles minutos de total e completo torpor alcoólico que ela buscava. Minutos em que não era Alísia e nem Sunshine, em que não precisava lidar com a solidão de cada dia em seu apartamento, quando o trabalho da ONU já estava feito e quando não havia criminoso a ser caçado pela Extreme. Richard devia estar com Tessa, Nicholas com Christine, Gunther provavelmente visitava Sonique. Mas Alísia, sozinha na sacada de seu apartamento, estava completamente desacompanhada naquele momento. Desacompanhada de pessoas, desacompanhada de sentimentos, desacompanhada de esperanças. Sabia que no dia seguinte iria acordar com a cabeça girando ainda mais e que alguma coisa irracional a faria retomar tudo, a luta pelas crianças, pelo mundo, pela lei. Sabia que aquilo era muito mais movido pelo contexto do que por seu próprio ideal. Mas não queria se preocupar com ideais naquele momento.

Ali, jogada no chão sem ninguém que pudesse vê-la naquele estado deplorável, ela sorriu uma última vez antes de apagar, porque não conseguia mais saber quem era, e aquilo a tornava, ainda que por segundos, livre.

Três Segundos

Algum lugar do Oceano Atlântico, 22 de Abril de 2016.03h12am, hora de Greenwich.

Faltavam três segundos. Enquanto suas pernas golpeavam a água sob seus pés, frenéticas e desesperadas como britadeiras, uma infinidade de elétrons da atmosfera era atropelada pelo inglês cuja mente, em pânico, só conseguia pensar na mesma coisa. Faltavam três segundos.

Três segundos para que a bomba explodisse, três segundos para que o RDX conseguisse o que queria. Três segundos para que a casa com a pequena menina Nancy Gray fosse pelos ares. Não podia pensar naquilo. Precisava pensar em correr, precisava ser mais rápido. Segundos atrás estava em Nova York, lutando contra terroristas da Daydream, e finalmente conseguira encurralar pela segunda vez o psicopata especialista em explosivos. Foi quando um telão exibiu uma imagem de uma garotinha, Nancy Gray, desaparecida a 12 semanas, foi na pista dessa garota que ele encontrou a Daydream. O contador do relógio marcava 7 segundos para a explosão. “Corra, herói” foi a única coisa que o miserável disse enquanto sorria. Sete segundos. Demorou cerca de quatro para alcançar a metade do caminho. Três segundos e uma quantidade interminável de água a ser cruzada. Correr sobre alto-mar era sempre uma experiência estranha, parecia que as nuvens é que corriam contra seu caminho, e era difícil saber quanta distância faltava. Não parou para olhar o GPS, não podia perder tempo, não podia se desconcentrar. Precisava correr, precisava correr como nunca correra na vida. Primeiro porque era uma criança e por mais que ele tivesse aprendido a separar sua vida civil da vida como herói, era impossível não lembrar que ele próprio tinha um filho daquela idade. Segundo, porque sabia que ninguém mais no mundo conseguiria correr tanto em tão pouco tempo. Terceiro, e mais importante, porque em seu consciente, sabia que talvez fosse tempo de menos para distância demais. Finalmente, e muito mais importante do que qualquer outra coisa, estava concentrado e desesperado, porque em seu inconsciente ele sabia que não havia como chegar a tempo. Sabia que o RDX provavelmente medira sua velocidade antes de escolher o ponto para colocar a bomba. Mas ele tinha que correr, não podia desistir, mesmo que seus músculos já começassem a doer, mesmo que seus reflexos já estivessem comprometidos pelas enxurradas de ácido lático em suas juntas. Dois segundos. Em um ato de pânico, arrancou o visor e as luvas do uniforme. Precisava aliviar peso, cada milésimo de segundo era imprescindível enquanto Claude Nistelroy, um risco luminoso retilíneo que se formava rasgando o Atlântico entre Manhattan e Londres. Sentiu um ganho de velocidade, mas suas pernas doíam e bolhas começavam a estourar em seus pés. O solado das botas encontrava-se espalhado por todo o trajeto transoceânico. Sentiu um ligamento do joelho se rompendo e, no mesmo segundo, sendo religado ao corpo por seu hiper-metabolismo. Mesmo assim doía muito. Não podia parar. Faltava só um segundo. Sabia que logo as docas de Welshtown surgiriam no horizonte. Um segundo. Pensou por um micro-instante em desistir. Um segundo. Cerca de sete mil quilômetros. Não sabia em que cômodo do prédio estaria a bomba. Não sabia se haveria para onde correr com o explosivo ou como desarmá-lo em tão pouco tempo. Não sabia sequer se o marcador de tempo estava correto ou se sua própria noção dos segundos passados estava certa. Mas sabia uma coisa ao certo, ele sabia que se ele não o fizesse ninguém mais no mundo conseguiria. Ele era o homem mais rápido no mundo, ele e somente ele era a única esperança que a vida de uma pequena menina com a idade de seu filho tinha. Lembrou-se de Liquid e Impacto. Lembrou-se das vezes em que quase morreram para salvar alguém. Lembrou-se de que quase morreram para ajudá-lo a salvar seu filho. Não, não poderia desistir, precisava continuar, precisava correr mais rápido, precisava ser mais rápido que o tempo, que a bomba, que a morte. Arrancou do próprio peito o símbolo da Extreme, único item que não era feito de tecido Sis e que fazia algum peso. O rastro de solado das botas se misturava ao rastro do sangue que saía de seus pés enquanto corria cada vez mais rápido, enquanto o atrito com o ar começava a arrancar fios de seu cabelo e a empurrar suas gengivas para longe dos dentes, inundando sua boca com um gosto férreo e seco. Em um micronésimo de segundo o cenário todo mudou de cor do azul impassível do mar para uma miríade de tons entre verde, cinza, marrom e preto da terra firme. Meio segundo. O caminho mais curto para Londres era pela linha dos trens. Como uma enorme descarga elétrica, como um enorme relâmpago horizontal, ele disparou pelos trilhos enquanto começava a rezar. Nunca acreditara verdadeiramente em deuses ou coisa assim, mas sentia que precisava de algo maior para conseguir. Orou para o tempo, e pediu com todas as suas forças para que fosse o bastante. Um quarto de segundo. A dor em seu corpo já era generalizada, mal conseguia sentir as próprias pernas, que continuavam a se mover como que comandadas por um instinto maior, uma necessidade superior à razão que urrava em seu peito gritando que ele precisava conseguir, precisava salvá-la. Mesmo que isso significasse perder os movimentos das pernas, mesmo que significasse morrer. Não conseguiria olhar para seu filho se deixasse que a menina fosse vítima daqueles que ele diz ao pequeno garoto que vai combater quando sai de casa.

Foi pensando nisso que Claude sentiu o cheiro da fumaça levada pelo vento que ia contra seu trajeto. Tentou imaginar que fosse de outro lugar, mas no instante seguinte seus olhos chegaram ao prédio. O terceiro e último andar tornara-se uma enorme área fumegante. Ele não ouviu o som. A explosão deveria ter propagado um estrondo que se moveria a trezentos metros por segundo, então se ele tivesse se atrasado menos de um segundo, teria chegado a tempo de ouvir. Enquanto descargas elétricas saltavam de seus braços e pernas para os postes das calçadas e cacos de vidro da rua, o homem mais rápido do mundo caiu ao chão. Não de cansaço, embora mal conseguisse respirar. Não de dor, muito embora estivesse com pés, joelhos e boca latejando em espasmos de corte e cicatrização contínuos. Naquele momento, sete segundos depois sair de Manhattan, Lightning caía de joelhos sobre os destroços da rua em frustração, em profundo estado de angústia. Tentou olhar novamente para a construção, mas não conseguiu. Enquanto os ferimentos em seus pés eram regenerados, nada no mundo poderia curar a dor e sensação de completa impotência que rasgavam-no por dentro. Ele era Claude Nistelroy, o Lightning, o homem mais rápido do mundo, mas naquela madrugada fria de Londres, sozinho na rua enquanto a polícia só então era notificada do atentado, ele se curvou prostrado no asfalto e chorou, porque aquela menina dependia dele.

Porque, naquela noite, ele não conseguira ser rápido o bastante.

Aniversário de lágrimas.

Belfast, 13 de abril de 2013.

As chuvas na Irlanda são um espetáculo a parte. Quando do céu cinza as nuvens desabam suas lágrimas. Em nenhum outro lugar do mundo o pranto é o mesmo, em nenhum outro céu a melancolia se confunde tanto com a alegria. As lágrimas prostram-se no concreto das casas, no asfalto das ruas e nos casacos. Hoje, nas ruas enxarcadas, dois homens caminham. Um alto com um sobretudo negro, os cabelos vermelhos curtos em estilo militar escondidos pela toca verde, os olhos verdes profundos focados no invisível. O outro, de altura mediana, os cabelos negros escorrem pelo rosto desesperado, os olhos verdes se confundem com a chuva.
O sino de uma Igreja toca, como se as lágrimas dos anjos fossem saudadas pelo sinete de Deus. É a chamada para a missa, a convocação dos fiéis, soturnos ou desesperados. Ambos entram na Igreja.

"Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo" recita a palavra de Deus o emissário na terra. As pessoas sentadas, ouvem. O homem alto entra, ele tira sua toca e em profunda reverência se ajoelha. Foi ensinado a rezar assim, de joelhos, quando se é órfão, Deus é pai, mãe e padrasto. Há de se saber diferenciar cada faceta. Uma explosão tempos atrás, duas vidas apagadas, vetadas do futuro por um segundo de fogo infinito. Uma vida lançada na escuridão do mundo, suas lágrimas tocando as lágrimas do firmamento. Uma criança perdida, furtada do amor pertencido. Seu nome é James, ele segura um crucifixo dourado.

O outro homem entra, ele limpa o rosto contorcido pela angústia. A água que escorre de seus cabelos some no piso sacro. Seus olhos buscam a figura do Cristo. Os olhos do mártir dos mártires. Quando seus olhos tocam os da figura entalhada, sua alma chove. Tempos atrás uma explosão, Nitroglicerina concentrada compactada e conduzida ao inferno por uma fagulha fulgurante de fósforo. Duas vidas apagadas, uma antes de ser vida, negada da própria probabilidade mundana do ciclo do nascer. Dois futuros negados. Uma vida condenada ao ódio, a dor eterna da eterna dor interna. Uma dor que não fenece, todavia cresce, alimenta-se de mais dor. Seu nome é George, ele carrega uma mochila nas costas.

É chegada a hora da consumação do corpo do divino. O ritual católico atinge seu auge, os fiéis se levantam e enfileirados se dirigem para a remissão das suas almas ao devorar o corpo de seu Deus simbólicamente. James se coloca atrás de uma senhora, George atrás dele aperta alça da mochila com força. O desespero em seu rosto atinge o limite. "Você não deveria carregar um fardo tão pesado sozinho" diz o ruivo sem se virar. A atenção de George é trazida de volta de seu próprio tormento para o mundo exterior. "O que... o que você disse?". James se vira para o homem atormentado, seus olhos tristes encontram os do outro. Ele toca o ombro de George na altura da alça "Eu disse que não deveria carregar um fardo tão pesado sozinho, o que você traz consigo para a casa de Deus?". Seu rosto era a tristeza cortês do mortal condenado, a espada sangrenta embainhada. George recuou assustado, seus passos trêmulos como sua voz recuando. "Q q quê?... quem é você?" Suas mãos circulavam a mochila, como pássaros que protegem o ninho do falcão. "O que você quer?".

James baixa sua cabeça a essas perguntas, a senhora que estava a sua frente prefere ignorar a cena e se dirigir para o altar. Pombas voam assustadas com uma explosão distante no tempo, um carro em chamas, bombeiros, cães latindo assustados. Um menino perdido, na janela do apartamento assistindo. "Sou um pecador, esta é a resposta mais correta, um pecador perdido em busca da remissão dos seus pecados." ele levantou seus olhos e estes se chocaram com os de George. "O que eu quero? Que você me entregue este ódio que carrega consigo e que parta em paz." Por um segundo as vontades dos dois homens se digladiaram e trocaram pedaços de tristeza e raiva, sangue e sofrimento compartilhados. Vidas arruinadas, esperanças perdidas, vontades opostas. George recua ainda mais, agora, enraivecido pela sua própria cunfusão e humanidade. Determinado a seguir sua sina, ele leva a mão ao bolso do sobretudo e morre. O vermelho cobre seu peito, espalhando-se cada vez mais num círculo crescente em meio ao jorro da vida que se esvai. A lâmina suja da adaga respinga o líguido escarlate no chão sagrado, quando o corpo toca o chão num baque surdo, ainda demora-se três segundos para que as pessoas Dêem- se conta do ocorrido, começando a gritar desesperados. James se abaixa junto ao corpo, a adaga já guardada. Ele abre o bolso e retira um objeto singular, parecido como uma caneta grossa, mas com um botão no centro, pega a bolsa e sai, deixando o crucifixo no peito do homem. "Espero que agora a paz de Deus o acompanhe George Hamilton, e que o ódio que você carregava não o persiga na outra vida. " Dizendo isso ele se levanta, o padre estarrecido correndo em sua direção. O rosto coberto de medo, indignação e estupefação. As pessoas gritando por simplesmente não saberem o que fazer além disso. "James Stuart , capitão da primeira divisão anti-terrorismo do exército Irlandês. "Dizendo isso retira do bolso um documento de identificação do governo. Junto a este documento havia uma outra papelada dobrada com os seguintes dizeres: George hamilton, atentado em 2009 em Dublin deixa-o viúvo da esposa grávida, terrorista protestante, chegada 11 de abril de 2013.

Lá fora, a melancolia tocava a alegria nas lágrimas do firmamento. Onde mãe e filho poderiam descansar sobre o recanto da tristeza.

Polizist

Londres é uma dessas cidades onde tudo é velho, e, mesmo assim, tudo parece novo. Quinze anos na força policial, e esse sentimento ainda era profundo no Sargento Charles Buckerfield. Era um homem forte, com uma barriga já saliente de seus quarenta anos, e usava um bigode forte e grosso, dum castanho acinzentado. Seus dentes eram meio tortos e manchados de tabaco, e sua pela era cheia de sardas, principalmente nas mãos e nas bochechas. Seus cabelos, no entanto, ainda eram vastos, e faziam um complicado desenho debaixo do chapéu. Bucky, como gostava de ser chamado, era casado pela segunda vez, com uma gorda resmungona, e tinha um filho de mais de 15 anos com sua primeira mulher. No entanto, ele não via o garoto há quase cinco anos, e tinha sérias dúvidas se ele se chamava "Henry" ou "Harry".

Trabalhava no 503 de Londres. Era um bom departamento, vizinhança tranqüila. Bucky gostava de dizer que as pessoas eram tão amáveis que até os bandidos pediam "Por Favor" e "Obrigado", nos poucos assaltos que ocorriam. Pelo menos pensava, até chegar o "Polizist".

Ah, o Polizist. Diziam que era filho de alemães, e que havia mudado para a Inglaterra fazia poucos anos. Sabe-se lá como ele conseguiu entrar para a Academia, mas todos ficaram impressionados. Dois metros e meio de pura salsicha e repolho, diziam os colegas. Sempre de cara amarrada, sempre tentando fazer as coisas da maneira difícil. Diziam que ele havia completado a prova física para o ingresso em menos de dois minutos! Era algum tipo de recordista, pensavam. As melhores notas nas provas escritas. Ninguém queria ficar perto de um cara assim - esse tipo de pessoa tende a fazer o parceiro parecer um completo incompetente. Mas Bucky não teve muita escolha. Ele estava sem parceiro fazia três meses, e não tinha mais como enrolar.

Estavam os dois no carro de patrulha, número 17-4C. Era uma máquina velha, mas tinha sua história. Cada mancha no banco lembrava Bucky de uma piada, e ele fazia questão de contar para o jovem alemão. Contava sobre seu ex-parceiro, Ted, que havia sofrido um ataque cardíaco. Contava sobre a vez em que um bandido se entregou ao vê-los na ronda. Todas as histórias que divertiam os colegas da Academia, nas festas de final de ano. Mas o Polizist não parecia se interessar. Ora, Bucky apresentou para ele as melhores lojas de Rosquinhas da cidade, e o rapaz sequer experimentou!

Enquanto Bucky bebia o último gole de café, o alemão soltou o cinto de segurança, e abriu a porta. O veterano sequer teve tempo de questionar - o rapaz saiu correndo. E esqueceu a arma, pensou.

Era a pior parte da ronda. O porto. Nas últimas três semanas, pelo menos cinco desaparecimentos por aquelas bandas. Bucky ligou o carro, e seguiu o rapaz, até ele entrar em uma ruela estreita. Era impossível continuar. Depois de um suspiro longo, pegou seu revolver e o do parceiro, fechou o carro, e tentou segui-lo.
Um beco sem saída. Olhou para os lados, procurando uma porta. Havia apenas uma janela, cinco metros e meio acima. Tirou o chapéu, e coçou os cabelos. Então, uma telha caiu do seu lado, quase atingindo sua cabeça!

Num salto assustado, quase cai no chão. Olhou para cima, e jurou ter visto um homem com o uniforme da polícia andando no telhado. Não, era impossível. Eram pelo menos dez metros! Nem mesmo um garotão como Polizist poderia fazer isso! Bucky resolveu dar a volta, mas não sem antes arrumar o cinto, que incomodava sua barriga.

Ouviu um barulho forte, como de metal torcendo-se. Correu, quase perdendo o ar duas vezes, e entrou num galpão próximo. Da janela, viu Polizist segurando no gancho de um enorme guindaste de carga. O chapéu do alemão caiu rodopiando pelo ar. Num golpe rápido, o guindaste tremeu, fazendo o corpo do alemão se chocar contra um navio atracado. O barulho forte do metal fez-se novamente. Bucky fechou os olhos, pensando no que diria pra família do pobre rapaz. Então, segurou sua arma, e se arrastou lentamente para uma janela. Não havia sangue no navio, e o gancho de metal também não estava sujo. Ora, será que o malandro deu um jeito?

Havia um homem vestido de preto, flutuando dois metros acima do chão. Céus! Era o reverendo da televisão, o programa que sua mulher assistia aos sábados! Mas ele não parecia tão puro... Tinha um olhar sombrio, e uma luz negra emanava de suas mãos. Era assustador de olhar diretamente. Bucky ficou paralisado de medo.

Viu novamente Polizist surgir. Estava a poucos metros de distância, dentro do mesmo galpão que ele. O alemão tirou o casaco de policial e tampou o rosto com uma máscara preta. Parecia um daqueles lutadores dos filmes chineses, os tais que espreitavam nas sombras. Bucky não lembrou o nome, mas achou que era algo parecido com Sashimi. Talvez, Samurai?

Polizist saltou para fora do galpão como uma bomba, explodindo uma janela. Os cacos de vidro todos pararam no ar, e o seguiram. Na verdade, o atingiram, mas nem sequer arranharam sua roupa. Ah, era esse o segredo! O alemão usava colete a prova de balas! Provavelmente, era por isso que ele nunca se machucava! Bucky sentiu-se mais confortável com isso, pois agora o rapaz não estava tão assim na sua frente. Eram só truques!

O reverendo esticou a mão, e Polizist parou no ar. Bucky não sabia como, mas podia jurar que ouvira o alemão dar uma risada. No mesmo instante, pelo menos dez mil galões de água levantaram-se do Tamisa, formando um dragão de água. Ah! Então ele era mesmo um Sashimi! Provavelmente, estava usando os poderes dos monges! Bucky sempre acreditou que os monges podiam fazer esse tipo de coisa, mas nunca fora defensor da causa!

Levantou-se, confiante. Arrumou o chapéu na cabeça, e puxou mais uma vez o cinto para cima. Viu a torrente do Tamisa engolir o reverendo. Puxou o revolver mais uma vez, certo de estaria amanhã de manhã na capa do jornal.

Um raio prateado cruzou o galpão. Bucky viu o navio à sua frente desmontar. Podia jurar que vira faíscas elétricas por todo o lugar. Desse, já havia lido alguma coisa! Era Lightning, o relâmpago humano! Era mais rápido do que qualquer máquina feita pelo homem! O pobre infeliz do reverendo estava perdido!

Por alguns instantes, as coisas continuaram assim. Até que o reverendo se levantou. Parecia furioso. Bucky se escondeu atrás das caixas, e não teve muita certeza do que viu. O chão tremeu várias vezes, e ouviu gritos de ódio e agonia. Não arriscou espiar. Ouviu a voz grave do vilão, igualzinho era na TV, dizer que eles não atrapalhariam mais seus planos, que os transformaria em escravos.

Bucky puxou sua arma e disparou, sem mirar direito. A bala atravessou as costelas do Reverendo, que não parecia preparado para o golpe. Praguejou com força, e gritou que não iriam se lembrar de nada, não importava os artifícios. Que não conseguiriam parar algo que não sabiam existir. Voou para cima, e desapareceu. Os heróis levantaram-se minutos depois, como zumbis. Andaram sem rumo, até que não fosse mais possível vê-los.

O velho policial andou até a janela novamente. Não havia mais ninguém lá. No chão, achou o chapéu de Polizist. Apanhou-o, e o segurou. Olhou para os lados, esperando algo acontecer, mas não ouviu mais nada. Voltou para o carro, meio assustado. Não tinha certeza do que havia acontecido. De certa forma, não queria saber.

Sentou no banco do motorista, e esperou. Ficou parado talvez 40 minutos, sem responder sequer aos sinais do rádio. Então, Polizist apareceu. Estava com ar desnorteado, como se não tivesse dormido por várias noites.

- Eu... Eu não sei. Eu não me lembro de nada, Bucky. Eu sai do carro, e acordei com essa enorme dor de cabeça!

Bucky deu uma risada, e entregou o chapéu ao alemão.

- Günter, meu rapaz, você deveria comer mais rosquinhas! Elas evitam que você saia correndo por ai e bata a cabeça em canos soltos!

Günter sentou-se emburrado de novo. Não agüentava mais esse papo de rosquinhas. Um policial gordo como Bucky não tinha idéia do que era ser um herói de verdade, do que era salvar a vida de alguém. Céus, até mesmo Sadie deveria ser mais heróica do que ele!

Olhos Nublados — Parte I

A garota deu alguns passos tímidos para atravessar a rua. Não havia trânsito algum, mas a visibilidade era tão ruim que qualquer outra pessoa teria se arriscado a molhar a ponta do nariz para olhar para os lados. A chuva não parecia incomodá-la. Sua única proteção era um casaco surrado, semi-impermeável, que, muito tempo atrás, deveria ter sido azul.
Seus olhos negros acompanhavam o vazio, e estavam quase tão nublados quanto o céu. Um cachorro passou correndo, e quase a derrubou, mas não a fez diminuir sua marcha. Ela apertou o casaco ainda mais, segurando-o com as mãos pálidas. Seus cabelos estavam molhados, negros e sem brilho. Eram uma imagem da noite, e as gotas de chuva faziam-lhe estrelas de vida curta.

Parou em frente a uma loja de conveniência. Enfiou os dedos num telefone público imundo, e tirou de lá uma meia dúzia de moedas. Ela não contou o dinheiro, nem ficou surpresa com tamanha fortuna perdida. Entrou na loja, mas ficou parada alguns instantes na porta, por que tinham uma máquina que fazia ventar um ar quente reconfortante. Esperou que lhe chamassem duas vezes antes de passar pelas prateleiras. Apanhou dois pacotes de alguma coisa, e soltou as moedas de forma tímida no caixa.
O responsável, um senhor de mais de cinqüenta anos, gordo, assistindo um programa de caminhões-monstro no canal de esportes, tirou os pés do caixa e contou as moedas duas vezes, com um olhar desconfiado. Jogou-as na caixa registradora, e balbuciou algumas palavras sem sentido algum.
A garota ficou parada alguns instantes, e abriu um dos pacotes ali mesmo. Aqueles alimentos baratos, com sabor de plástico seco, que nos mantém andando por mais algumas horas. Quando o senhor da loja começou a ficar incomodado com a presença da jovem, pegou um bastão de baseball e começou a praguejar, sem sair de sua posição de conforto.
Ela jogou o segundo saco para trás, e ele descreveu um arco perfeito, caindo poucos passos da entrada da loja. Um homem entrou correndo, com um capacete de moto tapando o rosto. Esticou um revolver pequeno, e gritou.

— É um assalto, tiozinho! Vai passando toda a grana, e quem sabe eu não furo sua testa! E ocê minazinha, vai tomar um belo tiro se...

Escorregou no saco que ela havia jogado no chão, caindo em cima de uma prateleira de enlatados. Disparou por acidente, e a bala passou raspando nos cabelos da moça, fazendo-os balançar, e terminou por atingir uma caixa de metal presa na parede, desligando a eletricidade do local. O velho levantou correndo armado do bastão, e tentou golpear o motoqueiro, apesar da escuridão.
No segundo golpe, alguma coisa se arrastou pelo chão, atingindo os sapatos da menina. Ela se abaixou e pegou o pequeno objeto, que fazia barulho como um sino abafado - chaves. Debruçou-se no balcão, e apanhou alguma coisa pequena. Andou calmamente enquanto ouvia as pancadas da madeira no capacete. Deveria estar trincado há essa hora.

Saiu da loja e entrou num beco escuro. Havia uma moto molhada convenientemente estacionada. Uma sacola de couro estava presa no banco, mas ela não precisou espiar para saber seu conteúdo. Sentou-se e deu ignição. Nunca havia dirigido uma moto americana antes, elas eram maiores, mais imponentes. Estava acostumada com as pequenas Scooter que podia comprar com seu antigo salário. Dirigiu por talvez 20 minutos. Deixou a sacola em frente a um orfanato, com um bilhete molhado e borrado que havia escrito semanas antes.

Empurrou a moto de uma ponte. Já não chovia muito, mas o vento frio havia feito que suas roupas praticamente congelassem sobre sua pele delicada. Ela entrou num Shopping, no meio da madrugada, e ficou parada de frente para algumas vitrines. Não havia ninguém mais no lugar fazia horas. Seus passos eram lentos, mas as câmeras pareciam se virar para o lado oposto, conforme chegava muito perto. Entrou num banheiro. Por sorte, o zelador havia se esquecido de trancar a porta.
Se aqueceu por quase trinta minutos, utilizando as maquinas de ar quente de secar as mãos. Tentou secar as roupas e o cabelo, mas eles pareciam resistir bravamente. Num momento exato, saiu do banheiro e foi até um telefone público do lado da porta. Discou alguns números. Esperou. Uma voz rouca atendeu, daquelas que resistem bravamente ao sono, por peso de alguma responsabilidade.

— Nicholas... Existe... Vá agora para a Ferguson Gate. Existe algo... Importante... Debaixo dela.

Desligou, e saiu andando. As câmeras pareciam evitá-la, como que por medo. Andou até o estacionamento do Shopping, e passou pelo segurança dormente. Roubou-lhe um gole de café quente.

Estava numa avenida enorme, com prédios por todos os lados. Suas mãos tremiam de frio. Tirou de dentro do casaco o pequeno objeto que afanara no balcão da loja de conveniência. Um celular velho e com pouca bateria. Apertou uns números com o indicador tremulo, enquanto atravessava uma das margens do rio de asfalto. Um homem com voz simpática atendeu, dizendo que não reconhecia o número. Falou algo sobre ainda não ter o dinheiro.

— Por favor... Pare o caro... Eu preciso de...

Um carro esporte virou bruscamente uma das esquinas da avenida. Seu motorista tinha um celular em mãos. Ele freiou com força, tocando de leve as pernas da moça com os pára-choques. Ela caiu. Na verdade, parecia ter sucumbido ao próprio peso do corpo. O homem saiu correndo do carro. Era levemente loiro, com cabelos longos e lisos. Usava um blazer cinza por cima de uma camisa branca, e tinha uma barba milimetricamente deixada por fazer, tal qual um galã de cinema.

— Moça, moça!?! Fala comigo! Moça!

Assustado, o rapaz segurou-a entre os braços. Colocou-a no banco de passageiros de seu carro. Pensou consigo mesmo por que fazia aquilo. Estava sozinho, ninguém saberia que ele atropelou (mesmo que não tivesse atropelado) a menina. Sentiu um pouco de arrependimento quando pensou naquele casado frio e molhado sujando seu banco de couro. Duas semanas! Duas semanas na América, e já havia lhe acontecido tudo.

Acelerou, olhando de vez em quando pare a menina. Era terrivelmente pálida, e seus cabelos eram de um negro mórbido, de uma beleza dos filmes de Noir. Não podia ver seus olhos, mas tentou adivinhar se eram castanhos ou azuis. Percebeu que ela tinha um pedaço de papel em mãos. Tão logo olhou, o papel caiu. Girou por causa do ar quente do carro, e caiu em seu colo. Ele desviou o olhar, e viu escrito, com tinta borrada. "Zed, eu sou alérgica à aspirina. Por favor, não pare no hospital."

Zed olhou, assustado. Respirou fundo, e notou que havia um gigantesco hospital no cruzamento da avenida. Amassou o papel e praguejou com um sotaque pesado. Virou o carro, e foi direto para o hotel.