Em 2015, um grupo de super-humanos escapa de uma base do governo para salvar o mundo, e acaba descobrindo uma série de segredos sombrios. Essas são suas histórias.
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Horóscopo

Sete e dez da manhã, horário de Greenwich. A mortalha de silêncio e quietude do quarto escuro foi quebrada pelo estilhaçante toque do telefone. Alisia acordou e não quis abrir os olhos. Estava confortável daquela forma e de qualquer maneira, pôde ver toda a extensão do quarto assim que acordou. Estendeu o braço para alcançar o aparelho e desejou como nunca que seus poderes fossem telecinéticos. Ajustando o fone no rosto da melhor forma possível para o momento, balbuciou algo e a voz da recepcionista soou amigável como devem ser as pessoas que nos acordam antes das nove.

“Bom dia, senhorita Bryant, são sete horas e onze minutos, a senhorita pediu para ser acordada, está certo?” pronunciou aquelas palavras como se já tivesse acordado mil pessoas com aquela frase. Alisia respondeu um “muito obrigado” como se já tivesse sido acordada por mil recepcionistas com aquela frase.

Levantou-se. Agora o fósforo já se assentava no cérebro e ela lembrou que estava no Hilton Plaza, em Londres. Levou as mãos à cabeça. Era verdade, tinha compromissos para aquela manhã, e o primeiro deles era o mais importante.

Levantou-se e caminhou até o chuveiro. No banho, pensou no que estava fazendo em Londres e em tudo que acontecera na última semana. Ainda não conseguia deixar de pensar em Richard com mágoa, apesar de já ter os pensamentos melhor assentados. Sabia que havia exagerado, que não devia e nem podia julgá-lo por seus atos. A maioria das pessoas que tinham super-habilidades se preocupava mais em dominar do que em ajudar o mundo. Não, uma caçada por vingança pessoal motivada por meia dúzia de brinquedos quebrados não era certa, e nenhuma boa ação do mundo o eximiria da culpa. Mas e quanto a Robert Porter? Ele morreu dilacerado em uma cama ensopada com seu próprio sangue, e o fato de que ele era um assassino estuprador também não a eximia do remorso. Enxaguou os cabelos e retomou a linearidade do pensamento. Não estava partindo por conta de Richard. Isso também não significava que estava disposta a trabalhar novamente com ele. Não podia mais confiar nele.

Oito e dez da manhã, hora de Greenwich. Uma paisagem caribenha de céu azulado e praias da mais cândida areia emoldurava uma cena envolvendo Claude Nistelroy e três jovens Third Steppers. Súbito como um relâmpago, o estrondoso e catastrófico rugir do despertador irrompeu através do quarto, estraçalhando céus, areias e mulheres com o impiedoso soar da manhã. Ainda um tanto desnorteado com o retorno, Claude estendeu a mão até o despertador, desejando que seus poderes geneativos incluíssem rajadas laser.

Olhou para o relógio. Devia estar em sua sala a dez minutos atrás. Muito pior, Klaus devia estar no ônibus da escola a quinze minutos atrás. Detestava entrar em velocidade ampliada logo que acordava, mas a situação urgia. Antes que o colchão notasse a ausência de seu corpo e pudesse retomar o formato original, Claude já havia passado pelo quarto de Klaus e notado que o menino não estava lá. Correu até o computador e solicitou a visão das câmeras da escola. Privilégios de quem havia desenhado o sistema de vigilância e segurança da escola do próprio filho. Lá estava ele, sentado na última carteira do fundo da classe. Devia ter acordado sozinho e apanhado o ônibus sem acordá-lo. Era independente com sete anos de idade, o que fazia Claude ponderar sobre o que aconteceria se ele desenvolvesse poderes. Não tinha tempo para pensar naquilo às oito e onze da manhã.

Em um clarão de luz seguido de um estampido surdo de som, Claude cuidou de tomar banho, fazer a barba e se trajar com um elegante terno marrom de corte italiano discreto. Oito e doze, e o elevador que o conduzia através de trezentos metros de rocha que separavam o Poliedro – base de operações de Lightning e lar secreto dos Nistelroy – do prédio da Nistelroy Security Technologies de Londres já o entregava no sexto e último andar da construção.

Parou por um segundo diante da porta. Abriu o celular e, enquanto sensores espalhados pelas paredes faziam dezenas de leituras por seu corpo em diferentes comprimentos de onda, o milionário acompanhava os resultados na tela do portátil. Era o protótipo NISS-6942, já em fase final de testes para ser aplicado ao Consulado do México, seu mais novo cliente. Um suave ruído, seguido do acender de luzes, anunciou a liberação de acesso ao andar. Uma voz feminina sintética e agradável desejou-lhe bom dia.

Olhou por sobre sua mesa enquanto ligava o notebook. Uma garrafa de café, certamente servida por Rosemary às oito em ponto. E o jornal, ah, como começar o dia sem o jornal?

Sentou-se esparramado em sua enorme poltrona de couro e, enquanto colocava café em uma xícara, começou a passar rapidamente os olhos pela primeira página. Atentados no Japão, resgate de vítimas na Costa Oeste dos EUA, eleições na França. Nada de mais. Tomou um largo gole de café e, enquanto apertava o botão do aparelho telefônico que chamava Rosemary, virou a página do jornal. Achou graça ao ler o horóscopo do dia. Áries, de 20 de Março a 20 de Abril. O dia é propício para mudanças, seja favorável a convites inusitados. Cor da sorte: Azul. Número da sorte: 4.

Uma voz feminina, mas agora bastante natural e muito menos agradável, soou do viva-voz. “Para alguém com suas habilidades, senhor Nistelroy, o senhor compromete seriissimamente a reputação da pontualidade inglesa...” a voz de Rosemary era casual e cínica, demonstrando que mais infalível do que a pontualidade era o sarcasmo britânico. Divagou por mais um instante, como conseqüência do sono deixado ainda a pouco na cama. Rosemary era sem dúvida a mais imprescindível dos mais de mil empregados que compunham a Nistelroy Security Technologies. Mais até do que o próprio Claude. Sabia das senhas, dos compromissos, dos clientes secretos, do passado criminoso de seu patrão e até mesmo de sua vida oculta como Lightning. Era a pessoa em que o até mesmo o ladrão confiava. Quarenta anos, nenhum filho, nenhum parente vivo e um pós-doutorado em Administração de Empresas. Lembrou-se dos heróis da ficção e concluiu que, sem dúvida, todo super-herói deveria mesmo ter um Alfred em quem possa confiar.

“É o sangue francês, Rosie, meu fuso horário está em Paris, cherí” sorriu, fechando o jornal e voltando-se para o computador. “Tenho algum compromisso urgente para o qual já esteja perdendo hora nesse momento?” perguntou, um tanto temeroso da resposta, que nunca era muito boa naqueles contextos.

“Só a senhorita Alisia Bryant, da ONU, que o está aguardando aqui embaixo desde as oito. Devo manda-la subir?”

Alisia. Claude engoliu seco como que em um reflexo. Havia conversado no telefone com Nicholas na manhã anterior e ficara sabendo do conflito entre ela e Crusade. Ela havia deixado a equipe de Nova York, mas Claude não fazia a mínima idéia de o que ela poderia querer ali.

“É claro que pode, traga também chá verde, ela gosta bastante. Ahn, pode por favor deter todas as ligações para a minha sala enquanto ela estiver aqui?” Rosemary respondeu afirmativamente e Claude desligou o telefone. No tempo que decorreu até que ela entrasse na sala, conseguiu ponderar quatro possibilidades para o que a jovem diplomata poderia querer. Fechou os olhos e torceu para que não fosse a terceira possibilidade.

“A senhorita pode subir, o senhor Nistelroy a está aguardando em sua sala ...”

Alisia levantou-se e ajustou a barra da calça de tom pastel que delineava suas formas femininas perfeitas. Não usava roupas civis todos os dias, normalmente preferia moldar roupas de luz sólida e vestir-se de ilusões, mas naquela manhã sentiu a necessidade de algo mais real. Agradeceu e dirigiu-se ao elevador. Conhecia bem o caminho, e podia ver nitidamente cada uma das dúzias de câmeras e sensores espalhados e minuciosamente escondidos pelos corredores e portas. Chegou ao último andar e observou ainda de dentro do elevador que não havia mais ninguém ali. Tentou olhar dentro da sala de Claude. Finas camadas de espelhos sobrepostas por entre o concreto e a alvenaria bloqueavam completamente sua visão. Muito inteligente, pensou, um lugar onde nem mesmo os amigos podem observa-lo. Chegou à porta e abriu, sem bater.

“Onde está a diplomacia canadense, meu Deus?” brincou o inglês, acerca da entrada sem bater na porta. Ele levantou-se e deu três passos até ela, observando cuidadosamente suas vestes e, inevitavelmente, perguntando-se se o que ela vestia eram mesmo roupas ou apenas luz. Era difícil, de qualquer forma, não se distrair da conversa com uma mulher tão deslumbrantemente linda.

“Creio que esteja no Canadá. Já tem um bom tempo que não nos vemos, senhor Nistelroy, como está Klaus?” ela tinha aquele suave tom que misturava uma finíssima ironia com a maciez de palavras amigas. Claude a abraçou e deu-lhe um beijo no rosto. Tentou deduzir algo das roupas pelo toque, mas não pôde ser conclusivo.

Sentaram-se. A porta foi aberta novamente e Rosemary entrou na sala carregando uma bandeja com chá verde. Claude e Alisia agradeceram e, tão logo a secretária os deixou, voltaram-se um para o outro.

“Você deve estar se perguntando porque eu vim para cá, certo?”

“Imagino que não tenha sido para provar a mundialmente famosa culinária inglesa. O que aconteceu em Nova York?” Claude cruzava as pernas e colocava mais café em sua xícara. A pergunta eliminou a primeira hipótese.

“Mundialmente infame, você quer dizer. De fato, não. O que aconteceu em Nova York você já sabe, é evidente. O porquê, isso realmente não faz mais diferença alguma. Eu preciso de sua ajuda, Claude.”

Segunda hipótese descartada. Torceu para que não fosse mesmo a terceira. Deu um gole no café e, quando a jovem acendeu um cigarro, não conseguiu deixar de pedir um. Fez sinal para que ela prosseguisse.

“O que sabe dos MaxCops?” perguntou, incisivamente. Ainda não descartava totalmente a terceira hipótese, mas fez com que Claude ponderasse acerca de onde ela queria chegar.

“Projeto da MaxCorp que conseguiu legitimidade legal para patrulhar as ruas de Londres. A opinião pública a respeito deles é dividida mas os favoráveis têm crescido em número ... Nada que não esteja nos jornais, porque?”

Alisia abriu uma pasta e apanhou alguns papéis, estendendo-os para o milionário. Ele folheou em um micronésimo de segundo e, em seguida, retornou um olhar assustado para a bela mulher.

“MaxCops pelo mundo? Ele quer formar uma nova ISC?”

“Ele já tem algo próximo disso. O primeiro passo agora é conseguir instalar a MaxCorp como mantenedora da ordem pública na América do Norte. Lá terão uma vitrine mundial que certamente fará outros governantes a se questionarem sobre se não valeria a pena tercerizar o problema da criminalidade. Entende o que isso acarretaria, Claude?”

“Eles teriam controle sobre a inocência ou culpa dos civis que interessassem a Maxwell. Poderiam criar unidades governamentalmente amparadas para impedir a ação de super-humanos que não trabalhassem para o maldito ... Quando isso vai acontecer?”

“Em dois meses haverá uma assembléia governamental na ONU que decidirá a aprovação ou não de uma unidade experimental em Nova York e em Montreal. Eu estou fazendo de tudo para ser nomeada para discursar nessa reunião, mas isso não vai bastar, e é por isso que preciso de você.”

Claude engoliu seco novamente. Não queria mais pensar nas quatro hipóteses, então olhou para Alisia e fez a pergunta crucial. “E no que consiste essa ajuda?”

“Eu estou tirando férias da vida como Sunshine durante esses meses. Primeiro porque tenho trabalhado demais e o stress começou a comprometer a clareza de algumas escolhas que tenho feito. Segundo, porque não tenho mais o menor desejo de voltar a trabalhar com Richard Teabing nos próximos vinte ou trinta anos. Finalmente, porque nesses meses pretendo permanecer em Londres e investigar até o último beco dessa cidade atrás de sujeiras da MaxCorp que possam ser utilizadas para impedir que essa loucura vá adiante.” Alisia interrompeu-se quando Claude levantou, com olhar cinicamente ingênuo, a mão. “Sim?”

“Eu não perguntei a razão de ter se afastado, mon amour, eu perguntei no que consiste a judá que me envolve ...”

Alisia sorriu e respirou um pouco mais fundo. Ele era irritante e provocativo, e era exatamente o que o fazia um adversário patético porém divertido para retórica. Decidiu cortar diretamente ao ponto.

“Eu quero usar o Poliedro nesses meses, e quero que você vá para Nova York trabalhar com eles.”

Silêncio. Não era a terceira hipótese. Nem a quarta. Perguntou-se sobre se Richard teria pensado nessa quinta hipótese ou mesmo em outras dezenas que não lhe vieram à mente.

“E o que eu vou fazer em Nova York, pelo amor de Deus?!” exclamou, estupefato pela inesperabilidade do pedido.

“Ajuda-los. Sem mim eles estão com uma baixa estratégica de suporte em combate. Você tem o cinismo necessário para lidar com Crusade e é o único que conhece a equipe bem o bastante para me substituir. Além disso, e agora o mais importante, se Maxwell souber que o Lightning está atuando na América do Norte, vai diminuir suas ações por lá em vista do processo iminente da MaxCops e descuidar-se em Londres, onde eu estarei observando cuidadosa e silenciosamente.”

Claude odiava aquilo, mas Alisia sabia unir elementos retóricos aparentemente soltos em um discurso que, para quem partilhava o momento da performance, convenciam como o diabo.

“E Klaus? Ele está em época de provas na escola, não posso simplesmente tira-lo de lá agora!” não sabia muito bem o quanto daquilo era pelo menino e o quanto era por si próprio. “Além disso, onde vou morar em Nova York? Eu não tenho nada contra Richard, mas não quero morar em algum lugar onde não controlo os sistemas de segurança!”

“Fique tranqüilo, querido. Eu pensei em tudo, olha só: vocês vão morar no meu apartamento de cobertura em NY, pertinho do prédio da ONU e de uma excelente escola. E quanto a Klaus, ele pode fazer as provas lá, deixe toda essa parte de burocracia comigo, certo?”

Claude respirou fundo e, consciente de que não possuía a eloqüência necessária para dissuadir a diplomata de cabelos e olhos dourados, olhou vencido para o jornal dobrado sobre a mesa e só conseguiu pensar no horóscopo do dia.

Áries, de 20 de Março a 20 de Abril. O dia é propício para mudanças, seja favorável a convites inusitados. Cor da sorte: Azul. Número da sorte: 4.

Um dia cheio de surpresas

São exatamente meio dia do dia 21 de Outubro e estou com dor de cabeça. Minha manhã foi um tanto atribulada, fui acordado por Nicholas às 7 horas da manhã, devo dizer que fui retirado, seqüestrado por ele da minha cama e do meu sonho fabuloso com a minha exótica amante oriental. Ora, não foi sonho, o perfume dela ainda está impregnado no meu corpo, mais um motivo para odiar ter levantado tão cedo. A manhã foi deveras complicada, a começar pelo motivo do despertar, uma reunião com Denorus, um ser muito intrigante, e muito poderoso. Parece um elfo saído das histórias de Tolkien, com aparelhos tecnológicos tão sofisticados que parece magia. Perto dele minha armadura é um moinho de vento. O que me motiva a vê-lo, mas me faz odiar o 19º lugar no ranking. Segundo Nicholas, Denorus teria poderes para curar Christine e com essa esperança partimos para o meio do oceano índico, entre a Índia e a Austrália. Lá encontramos o elfo em seu disco voador no meio do nada.
Após uma mistura de 20.000 léguas submarinas com Star Trek, dentro da fortaleza de Denorus, Nicholas me volta do fundo do mar me dizendo que precisamos encontrar ajuda para romper uma barreira ancestral no fundo da água. A primeira candidata a ajudante é Waterfall, ex-Supremos, salvamos o rabo dela da ultima vez quando ela estava dominada pelo Knight, mas mesmo assim ela ainda é carne de pescoço e nos obriga a fazer outro favor para ela. Não que eu não fizesse se ela soubesse como pedir, afinal aqueles olhos azuis e aqueles cabelos negros já são um ótimo pagamento. Seguindo as ordens da Israelense, partimos de Israel para os Estados Unidos, em busca do noivo dela. Lá descobrimos que o rapaz estava com grandes problemas, trabalhando com tecnologia avançada em computação biológica para um pequeno país da Europa que não consta na maioria das enciclopédias. Heintzenberg é uma ilha exportadora de petróleo e com um ministro muito mal humorado, além de mentiroso. Ele nos recebe junto com o que parece ser todo o exército nacional, e depois de uma conversa amigável com Alísia, que usa toda a sua diplomacia e charme, ele nos leva para o seu gabinete, onde mente descaradamente e após algumas palavras grossas de ambos os lados somos expulsos do país. Interessante a tecnologia que eles possuem, avançada demais para o nível do lugar.
Fomos expulsos, mas como estávamos curiosos não desistimos. Sunshine viajou camuflada até o limite da ilha e usando sua supervisão achou o ministro. Ela o seguiu até o castelo real, onde ele foi se encontrar com ninguém menos que Nightmare. Aquele holandês traiçoeiro estava trabalhando com o paiseco, penso se a pesquisa do rapaz não teria a ver com a armadura do holandês. Fato é que Herman sentiu a presença de Alísia e nós tivemos que fugir do país sendo perseguidos por caças altamente tecnológicos, mas claro que não tão tecnológicos quanto é Claymore. Pelo menos existem vigésimos e trigésimos lugares na grande lista. Partimos e contamos a Waterfall o que descobrimos. A cortesã já sabia de tudo e nos mandou na busca apenas para se divertir. Dou a ela minha palavra e 20.000 dólares e ela concorda em nos ajudar.
A segunda e a terceira ajudante são mais fáceis. Nêmeses dos Peacekeepers se oferece espontaneamente para ajudar-nos e Trauma, uma menina da família Werner também. Grupo reunido, voltamos para a fortaleza de Denorus. Ele, Liquid, Trauma, Nêmeses e Waterfall partem para quebrar a barreira. Sunshine, Impacto e eu ficamos na fortaleza a espera. O tempo passa e logo o mundo começa a cair, o oceano treme e a fortaleza começa a baixar, faço as contas e me pergunto se minha armadura resistiria à pressão da água e chego a duvidar que vá sair vivo desta empreitada.
Súbito, para o bem ou para o mal, o mar explode e uma imensa cascata d’água se forma, jogando a fortaleza em que estamos para uma altura absurda. Eu consigo ver o satélite Armada 3 até. E então a fortaleza começa a cair, atravessando a enorme corrente de água vertical. Acho que estamos a 300 mph aproximadamente, faço força para erguer a sala onde estamos, mas é inútil, penso em sair pela abertura, mas a corrente causaria grandes estragos no hardware. Os segundos passam e então Impacto age. Ele nos agarra e nos transporta para fora do perigo, imaculados. Não sabia que ele tinha esses poderes, ele transmutou nossas moléculas e as dele para o estado de fase 4 e como fantasmas atravessamos a água e chegamos salvos na nave, respiro aliviado.
Enquanto estávamos presos, Liquid, Waterfall e as duas meninas impediam que a queda da corrente provocasse um Tsunami de destruição. No final, todos vivos, embora cansados, podemos seguir para casa. Deixamos cada uma das meninas em sua respectiva casa. Waterfall deixa bem claro que espera que eu cumpra minha palavra, eu a asseguro que cumprirei. Não que o namorado dela seja a minha motivação, mas qualquer um que trabalhe com Herman não é boa coisa.
E quando eu acho que finalmente poderei voltar para minha cama e descansar eis que me aparece mais um problema. Estamos a 190 metros e eu posso ver a fumaça em Camelot, 170 metros e posso ver a torre Sul desabando. Penso em 6 possibilidades para o atacante e logo descubro que é a terceira. 100 metros e eu vejo a forma verde brilhante disparando rajadas radiativas na direção de quem eu reconheço como sendo Ionns, um dos soldados de Jack Larsen. Pelo visto ele estava se virando bem contra Miracle, afinal ele veio para cá para ajudar no caso dela. Ionns parece controlar energia, todas as rajadas de Miracle se dissipam ao chegar nele. Estamos a 50 metros quando vemos a cena, Nicholas já estava acordado fazia 1 minuto, ele viu tudo. Miracle tentou partir para uma abordagem mais física contra Ionns, mas ao chegar perto dele, voltou a forma humana e ele a segurou pelos braços. Aproveitando a situação Christine deu um beijo em Ionns de fazer inveja. Adoro as mulheres, elas conseguem tudo o que querem, não importa os modos empregados.
A raiva de Nicholas é palpável quando ele ordena a Claymore que abra a porta lateral e logo em seguida sai voando. Incrível como ele consegue ser tão idiota de cair nessa provocação barata, fazer o que... Todos os apaixonados são idiotas.
Pouso a nave a tempo de ver a discussão entre ele e Miracle, ela tem um problema de dupla personalidade, uma é a Christine amável e fútil, a outra é um ser cruel e desprezível. Ela está com a personalidade esquerda hoje. “Por que você está destruindo Camelot?” Pergunto com mais vontade de derrubar a vadia do que de ser razoável, mas Nicholas está do meu lado, então sou polido com Miracle. “Eu estava cansada daquela prisão.” Me responde a cretina com a cara mais safada do mundo. “E precisava destruir tudo?” Grito quase perdendo o controle. “Se eu fosse vocês, me preocuparia mais com sua amiguinha japonesa, antes que o fogo atômico que espalhei nos andares abaixo a consuma.”, a vadia sorri enquanto me diz isso, tenho vontade de atacar, entretanto parto para salvar Miharu junto com Ghünter deixando Sunshine para ajudar Liquid.
Dentro de Camelot eu vejo o inferno, fogo atômico destruindo tudo, fundindo portas e destruindo meu sistema de 6 bilhões de dólares. O calor é tão intenso que destruiu o programa anti-incêndio de Camelot. Desisto de procurar Miharu e parto para o laboratório onde espero criar um aparelho capaz de apagar as chamas, Ghünter tem 85 % de chance de salvá-la. Preocupo-me com as soluções possíveis para o dilema das chamas, em um segundo chego a uma conclusão, em um minuto tenho um nulificador de partículas subatômicas pronto. Com ele resolvo o problema das chamas e retorno para onde estão os outros.
Chego a tempo de ver Ghünter chegando com Claymore, ele traz Miharu curada e a responsável pelo feito, Hisa. Entre todos os dotes de minha amante, um deles é seu poder geneativo, ela é capaz de curar ferimentos. Ao me ver ela corre em minha direção, é linda a preocupação em seus olhos, sinto-me lisonjeado.
Miracle fugiu, Liquid insiste em ir atrás dela, mas ele não está em condições. Eu olhos nos seus olhos e sei que ele irá, não importa o que seja preciso. Ele me pede para que Hisa o cure, eu falo com ela em Japonês e ela me responde com sinais. Ela me diz que pode deixar Nicholas inconsciente, o que eu peço que faça. “Richard, se você estiver planejando algo, não é a hora.” Ameaça Liquid pouco antes de apagar. Eu seguro Hisa que também desmaia devido ao esforço que faz. Após deixarmos os dois na enfermaria, partimos com Ionns para localizar Miracle, o soldado consegue rastrear energia.
Fazendo seu trabalho maravilhosamente, Ionns nos leva até onde o rastro de energia termina. O soldado é extremamente competente no que faz. Para nossa surpresa nos descobrimos no rastro de Singularity, uma mulher demente que possui poder suficiente para atrapalhar Van Rayner. Da última vez que a encontramos, além de levarmos uma surra, ela deixou Miracle no seu estado atual radioativo. Só não entendo o que ela estava fazendo numa cidade onde assistia o louco Lann.
Estávamos investigando o local quando recebemos uma mensagem de Nicholas. Ele estava indo para a França encontrar Miracle. Eu não entendi como ele acordou tão cedo, ou mesmo como ele sabia onde estava Miracle. Só sei que logo terminamos nossa investigação partimos para lá. Eu estava preocupado com Nicholas enfrentar sozinho Christine, por isso coloquei os motores da nave em toda a potência. Aliás, coloquei os motores em potência superior. Fazendo a Nave se desgastar no processo. Mas Nicholas é meu amigo, a nave não é nada.
Quando chegamos, temos mais surpresas. Encontramos Nicholas enfrentando Singularity e Miracle, mas o corpo de Christine está separado, distante do corpo atômico. Organizo o ataque, deixando Ionns para cuidar da parte atômica enquanto Sunshine, Liquid, Impacto e eu atacamos Singularity. Ela resiste aos nossos golpes individuais, portanto decidimos um ataque conjunto. Enquanto isso Ionns neutraliza a contraparte atômica de Miracle.
Voando em Mach 1 eu me posiciono atrás de Singularity enquanto Sunshine provoca uma abertura na guarda de dela. Nicholas carrega todo o seu poder se concentrando e então disparamos juntos. Nem mesmo a barreira de Singularity consegue segurar todo o nosso poder e ela perde a consciência por alguns instantes.
Neste pequeno espaço de tempo, aproximadamente 3,5 segundos, chega a cavalaria. Primeiro os antigos Supremos: Ignus, Earthquake, Metallie e a deliciosa Whisper. Depois os antigos Peacekeepers: Stunner, Cybelle e Fastep. Junto com Pierce chegam Lightnning, Sonique e sua irmã Symphony. Eles chegam, pois eu havia informado Pierce sobre a descoberta do paradeiro de Syngularity quando a descobrimos em Irwin. Chegam para desencorajar qualquer vilão que queira se meter nos assuntos da Extreme e de nossos aliados. Chegam para mostrarmos para a ISC que ela não está sozinha como senhora do mundo. Chegam e em segundos, Singularity está deitada ao chão e permanecera neste estado por muito tempo.
Quando os Supremos desceram de sua nave, Ignus e eu combinamos um ataque apenas com o olhar. Nós dividimos as equipes. Crusader, Sunshine, Ignus, Nicholas, Whisper e Cybelle atacaram por cima juntando toda sua energia num feixe único. Enquanto isso em terra, providos por bastões de pedras criados por EarthQuake, todos os pesos pesados atacaram fisicamente o alvo que foi levantado ao ar por um ciclone provocado por Lightnning, Sonique e Fastep. Symphony atacou sozinha mentalmente o alvo.
O resultado final foi a queda de Syngularity e a aplainagem de 30 metros quadrados de chão. Nosso recado foi dado, uma bela lição.
Quando acabamos aproveitamos uns dos poucos momentos em que podemos ficar todos juntos para conversarmos. Nós só nos reunimos assim para lutar. Nicholas convida a todos para jantarem em sua casa. Pierce me pergunta se um ataque deste nível fora necessário. Eu afirmo que sim. A lição era necessária. Agora todos sabem que estamos aqui para ficar. E eles vão temer isso. Partimos em carona com Ignus, Claymore segue em piloto automático aos trancos. Nada que uma tarde na oficina do hangar de Camelot não resolva.
Chegamos e eu recebo mais uma surpresa. Ao nos despedirmos de Ignus, Nicholas agradece a todos. Ignus parte. Quando Nicholas se prepara para ir embora ele me diga “Richard, eu estou te devendo” Eu ia dizer algo, mas quando olhei nos olhos de Nicholas não tive tempo de me defender a tempo de salvar meu nariz. Ele se virou e saiu, me lembrando de ir jantar na casa dele esta noite.
Adoro o humor austríaco.
Todos se vão, eu fico. Preciso terminar o exoesqueleto que estávamos criando para Phase. Trabalho nisto por duas horas, estou exausto quanto sinto uma mão no meu ombro. Antes de me virar sinto o perfume de cereja. “Você descansou bem?” pergunto em japonês enquanto me viro. Hisa acena que sim com a cabeça. Ela se assusta com meu nariz quebrado. “Não foi nada.” eu respondo. Com um simples toque, ela restaura a cartilagem do nariz e cura as feridas do meu corpo, me sinto bem, disposto novamente. Eu a pego nos braços. Palavras são desnecessárias, a base estava vazia exceto por nós, o doce aroma de cereja e suor.
3 horas e 35 minutos depois voamos para casa. Ela me abraça quando chegamos e me beija como se quisesse roubar meu sopro vital. Ela está apaixonada, perdidamente. Sinto-me lisonjeado.
Quando entro no quarto ela me segue e tranca a porta. Palavras são desnecessárias. Após um banho quente nos vestimos. Eu escolho um terno cinza escuro com uma camisa escarlate. Hisa coloca um vestido de seda chinesa vermelho, com um dragão estampado na frente.
Desta vez escolho minha Lotus preferida. Modelo atual, curvas arrojadas e o motor, meu é claro. No caminho para o prédio de Nicholas encomendo comida do Masa para Hisa. Ela é um tanto enjoada em relação à comida. Sinto falta da alegria de Tessa. Com esse pensamento ligo para uma pizzaria e encomendo uma das famosas Pizzas gigantes. Peço também para entregar sorvete. Nina, a irmã mais nova de Nicholas adora sorvete. Para meu próprio gosto estou levando uma garrafa de Scotch irlandês.
Chegamos, Nicholas está feliz. Isso é bom, assim tenho certeza de que não levarei mais um soco. Cumprimentamos-nos, sigo para a cozinha e pego dois copos para servir a ele uma dose. Alísia já está na casa conversando com Christine, aparentemente curada, sobre as futilidades comuns das mulheres. Ghünter não vem, preferiu ficar com Miharu, provavelmente patrulhando.
Sento-me com Nicholas e começamos a conversar sobre as futilidades comuns aos homens. Hisa não está feliz, está com ciúmes de mim, provavelmente acha que eu não estou dando atenção a ela, ou que não a assumo em frente dos meus amigos. Ela começa a me irritar. A festa foi organizada no topo do prédio, Nicholas mora na cobertura de um antigo bairro respeitável de NY.
Logo chegam Kelvin e Cecile, sua esposa. Junto a eles chegam Claude e seu filho Klaus. Reunimos-nos e aproveitamos uns aos outros. Kelvin, eu e Claude conversamos sobre tecnologia de segurança. Hisa parece beber mais do que devia e em pouco tempo está claramente embriagada. Em dado momento, Nicholas me chama a um canto da casa. “E então o que você acha?” Ele me diz mostrando um anel de noivado. “Nicholas, eu sempre soube que você me amava” respondo brincando. “Ela vai adorar meu amigo, desejo tudo de bom para você” Respondo sério desta vez. “Richard, eu queria saber se você não gostaria de ser meu padrinho de casamento.” Eu fico lisonjeado com o pedido e respondo que será a maior honra que alguém me ofereceu em toda a minha vida.
Sabendo do pedido faço uma rápida reunião com Claude que em segundos busca uma aliada nossa, senhorita Amanda, vulgo Whisper. Uma cantora de sucesso, lindíssima. Nós aproveitamos a festa. Eu não tiro os olhos de Amanda. Hisa está ocupada demais conversando com o sakê para perceber meu interesse na espanhola. Nicholas se prepara para fazer o pedido. Eu olho para Claude, ele acena em acordo. Quando Nicholas se levanta e faz o pedido, todos nós recebemos instrumentos musicais. Eu começo a tocar o violino acompanhado pelo teclado tocado por Cecile e do sax tocado por Claude. A linda voz de Amanda se sobressai. Dos céus surge um anjo de gelo iluminado por uma radiante luz, ele traz o anel para Christine que maravilhada chora de emoção.
Quando todos levantamos nossas taças para um brinde, Hisa me agarra, beija e desmaia embriagada. Eu a levo para o sofá de Nicholas e a deixo lá. Quando volto para a festa, começo a conversar com Amanda, ela é um tanto distante, avoada, mas linda. Quando Ignus ia se despedir algo estanho acontece. Um homem em uma armadura vermelha passa em um vôo rasante ao lado de nosso prédio. 2,4 segundos depois um homem num uniforme que lembra ao antigo personagem japonês Kamen Rider salta sobre nossa mesa. “Desculpem pessoal, mas o apressado Cricket está em uma perseguição” É o que ele grita logo após sumir em um salto gigantesco e cair sobre o armadureiro.
Ficamos alguns instantes sem fala. Ignus me olha questionador, eu apenas encolho os ombros e sorvo um gole de Scotch voltando minhas atenções para Amanda. Ela tem os maiores seios que eu já vi, e lindos. Pergunto-me se não cairiam sem o sutiã. Após algum tempo todos começam a ir embora. Eu peço para Amanda ficar, dizendo que eu a levarei embora. Ela aceita. Nicholas me pergunta sobre Hisa. “Não se preocupe” eu respondo “Jarvis, virá buscá-la.” Jarvis sempre as busca para mim.
Despeço-me de Nicholas e chamo Claymore, ela está nova em folha. Entramos eu e Amanda. Conversamos um pouco mais. Ela é distante, mas gosta do que ouve. Eu toco em sua mão, subo para os seus braços e depois para seus cabelos. Ela me olha, nos beijamos. Ela pede para que eu abra o teto da nave. As estrelas são lindas. Nós nos beijamos, nos acariciamos. As estrelas se tornam ofuscantes. No final, nos abraçamos. Realizo uma fantasia compartilhada por grande parte dos homens do mundo, descubro que existem forças maiores que a própria gravidade. Foi divertido, mas não foi metade do que poderia ter sido. Amanda é linda, mas péssima amante. Sinto falta de Tessa, nenhuma delas é tão habilidosa quanto Hisa. Hisa é majestosa neste aspecto, mas Tessa é divertida, Tessa tem paixão. Amanda é distante. É como comer um petit gateu quando tudo que se quer é uma banana split.
Mas sempre se pode provar o petit gateu mais de uma vez. Passo a noite na Espanha com Amanda. Despedimos-nos de manhã. Eu traço o curso para a Inglaterra. Tomo um banho, troco de roupa. 8 horas da manhã entro no apartamento de Tessa. Ela ainda dorme. Enfio-me debaixo de suas cobertas e a abraço. Ela se vira e me beija. Palavras nunca foram tão inúteis.

Dia das Crianças

Londres, nos arredores rurais da cidade, os cidadãos pacíficamente seguiam suas vidas enquanto os termômetros acusavam 30 graus. Era uma tarde ensolarada de Junho e os céus eram de um azul esplandecente ornamentados por um enorme e brilhante ponto amarelo e por calmas e multiformes nuvens brancas. Súbito, como um relâmpago silencioso de luz branca, um risco formou-se nos céus, rompendo a tranqüila e bucólica harmonia da cena.

Algumas centenas de metros acima, voando a duzentos quilômetros por hora, gentilmente envolvido pelos braços e seios de Alisia Bryant, e protegido por um campo invisível de luz densa, estava o pequeno menino Klaus Kohler van der Nistelroy. Enquanto o cenário passava deslumbrante por seus olhos arregalados, o garoto só conseguia esboçar como reação um sorriso largo e honesto em seu rosto. Era a melhor sensação do mundo, era incrível. O vento não agredia seu rosto, nem bagunçava seus cabelos, o campo de força impedia aquilo. Só o que tinha era a magnitude máxima da sensação da gravidade em sua barriga e a vista inacreditável que o passeio proporcionava. Em poucos segundos já estavam sobrevoando a cidade, e minutos depois passavam pela costa da Irlanda. Alisia não dizia nada, apenas deixava que o menino aproveitasse a viagem e, vez ou outra, comentava sobre o nome dos lugares que estavam sobrevoando. Klaus mal podia ouvir, embasbacado pela experiência.

A cerca de 300 metros abaixo e centenas de quilômetros a Sudeste, no terraço da Nistelroy Security Technologies, Claude estava sentado no mesmo ponto em que dissera até logo a Klaus e vira Sunshine desaparecer com ele nos céus. Pelo comunicador, podia ver e ouvir tudo pelo ângulo de Sunshine. Ela era fabulosa. Havia telefonado para o prédio das Nações Unidas no dia anterior perguntando se ela poderia lhe fazer um favor. Nove da manhã, ela chegou no terraço exatamente às nove da manhã, e nem era britânica. Dos últimos Dias das Crianças, Klaus estava mais empolgado com aquele. Por algum motivo, a idéia de voar o fascinava. Claude tinha medo daquilo, torcia sinceramente para que ele se tornasse piloto de caças, algo muito mais seguro do que a outra possibilidade. Sete anos e ainda não conseguia se sentir completamente pronto como pai. Tinha uma tarefa no mundo, um ideal pelo qual lutar, mas não conseguia – e sabia que não devia – deixar de lado suas responsabilidades paternas.

Em meio a divagações, o inglês notou pelo visor que eles já estavam se aproximando do prédio. Olhou para o relógio, tinha pedido uma hora e ela já estava no ar com Klaus a quase duas. Viu com o olho esquerdo o terraço do prédio se aproximando da visão de Sunshine, enquanto o olho direito via um facho de luz vindo em sua direção. A meio metro do chão, ela desacelerou e ambos pousaram suavemente, Alisia colocando o pequeno Klaus no chão. Em meio a inúmeros pedidos de bis do menino, Claude agradeceu a Alisia pela gentileza. Após dar um beijo no rosto de ambos e dizer que não foi nada, ela partiu novamente nos céus, dizendo que precisava voltar para a ONU.

"Ela é legal" deixou escapar, enquanto se aproximava instintivamente das pernas do pai. Claude assentiu com a cabeça. Era estranho, ou nem tanto, mas ele confiava em Alisia, Nicholas e Gunther o bastante para entregar-lhes nas mãos a vida de seu próprio filho, a coisa mais importante que tinha.

Caminharam pela cidade, Klaus queria comer porcariadas e comprar quadrinhos. Na banca de jornais do shopping, enquanto escolhia as revistas, Klaus observava silencioso seu pai sentado na mesa da cafeteria ao lado. Sabia que ele não era como as outras pessoas, pelo menos não como a maioria. Ele podia fazer coisas diferentes, podia ir rápido de um lugar a outro sem que ninguém visse. Ele nunca se machucava, nunca ficava doente como os pais de seus amigos. Olhou para a revista em suas mãos. Na capa, um herói impedia um trem. Sabia quem era aquele herói, seu pai já havia lhe dito. Conhecia mais da metade dos super-heróis de verdade do mundo. Adorava, muito mais do que ler quadrinhos, de ouvir seu pai contar-lhe as histórias dele e de seus amigos. Nunca contara isso, mas seu personagem favorito era Impacto, e não seu pai. Gostava dele, mas não achava que ser rápido era tão legal quanto ser forte.

Pegou as revistas e deu o dinheiro ao jornaleiro. Contou o troco e guardou, organizadamente, em sua carteira. Notou que o jornaleiro o olhou admirado. Era um menino que aparentava nove anos, mas era muito mais inteligente que seus amigos, sabia disso. Na escola, se esforçava para não chamar tanto a atenção, afinal era extremamente tímido e falava muito pouco com qualquer um que não fosse seu pai. Mesmo assim tinha as melhores notas da classe e era um aluno prodígio nas aulas de ginástica. Achava que, assim como seu pai era diferente dos outros, ele também devia ser. Lembrava que uma vez havia perguntado a seu pai se ele também ia ter super-poderes. Ele desconversou, dizendo que estudar e ter conhecimento era o maior poder que existia. Não acreditava mesmo naquilo, preferiria mil vezes ter super-força. Sabia que Claude o queria um estudioso, mas tinha outros planos para si. Mesmo que não ganhasse super-poderes, sabia que era rápido e esperto, e queria ser um grande ladrão como seu pai era antes de ser herói. Deteve seu pensamento ao lembrar-se da interminável e severa bronca seguida de castigo que seu pai lhe aplicara da última vez que falou disso. Decidira então não falar mais, mas sem desistir, absolutamente, da idéia. Victoria tinha reagido melhor, até o ensinou como abrir cadeados e trancas simples, mas advertindo para que nunca fizesse aquilo em casa. Aprendera também com ela que o grande ladrão é aquele que não deixa pistas. Ainda tentava entender direito aquilo.

Sentou-se à mesa junto de seu pai. Colocou as revistas ao lado da xícara de café e pediu um refrigerante. Claude pediu a bebida ao garçom e pediu para que Klaus fechasse os olhos e abrisse as mãos. O garoto atendeu ao pedido e Claude colocou em suas mãos um pequeno microchip de silício e ouro.

"O que é isso?" perguntou o menino, olhando um tanto desinteressado para a peça. Claude respondeu que era um microchip como todos os outros milhares que tinha na oficina da Nistelroy, mas que esse tinha um detalhe diferente. Veio do futuro de outra dimensão. Havia tirado das peças que trouxera da base futurista da Extreme. Era um chip ordinário, um dos poucos do aparelho que podia ser substituído por tecnologia da Terra atual. Mas, no momento em que Klaus ouvira sobre a origem do objeto, o mesmo ganhou um aspecto completamente novo e misterioso. Era de outra dimensão.

Todo ano era assim. Klaus sabia todo ano que aquilo aconteceria. Seu pai nunca o levava a parques ou circos no Dia das Crianças. Esse lugares Klaus freqüentava sempre que queria, seu pai sempre o ensinara a cuidar e administrar o próprio dinheiro. O Dia das Crianças era algo que todo ano era especial. Depois, iam fazer compras e seu pai sempre lhe dava algo diferente de tudo, que o dinheiro nunca podia comprar. Dizia que era justamente para que ele entendesse que nem todas as coisas do mundo estavam à venda. Os amigos, por exemplo, ele dizia. No ano passado Klaus conheceu o fundo do mar junto de seu tio Nicholas. Tio Nicholas, tio Gunther, tia Alisia. Não tinha tios de verdade, sabia daquilo, mas sabia que aquelas pessoas eram os que seu pai considerava como família. Sabia que nenhuma outra criança do mundo tinha Dias das Crianças como aqueles, e imaginava que fosse o jeito de seu pai para compensar o tempo fora de casa, o fato de nunca poder chamar amigos para brincar em casa, ou o fato de que casa para ele era uma base subterrânea servida por sistemas computadorizados. Sabia que era assim sua vida, e que era assim que tinha que ser. Não podia contar a ninguém sobre seus Dias das Crianças, sobre como seu pai salvou o mundo naquela semana, sobre a Melon Soda que só vende no Japão e que seu pai trazia todo dia. Quando as aulas voltavam, sabia que, enquanto as outras crianças inventavam coisas extraordinárias que não haviam acontecido para suas redações de "Minhas Férias", ele teria que inventar quatro semanas de histórias chatas e sem graça, porque absolutamente não podia contar o que havia acontecido de verdade. Primeiro porque não acreditariam, segundo porque não precisava da redação para saber que o seu havia sido o melhor dos Dias das Crianças.

Luzes de Mercúrio

Enquanto as finas pontas dos saltos altos golpeavam alternada e calmamente a calçada, minúsculas partículas do pavimento eram espalhadas pelo impacto, misturando-se à poeira e sujeira das ruas do Soho. Dentro das lojas, interruptores eram ligados e desligados, gerando microscópicas faíscas multiformes. Acima das nuvens, uma enorme tela negra dispunha sobre si dúzias de desenhos pontiformes de luminosidades variadas, cujo brilho já era tão obscurecido pela poluição que mal podia ser visto. Acima das casas, dúzias de arranha-céus construíam com suas janelas acesas uma disléxica e multidimensional paisagem noturna. Acima das cabeças, postes luminosos jorravam fótons esparsos e multidirecionais em todas as direções. Alisia podia ver tudo aquilo, simultaneamente, dentro de cada casa, em cada lado dos prédios, cada uma das constelações. Podia ver os elétrons correndo pela fiação metálica dentro dos conduítes encapados. Podia ver a lâmpada se aquecendo e os filamentos de mercúrio começando a brilhar. Para quem podia ver de perto, nada era mais bonito que aquilo. Nem o pôr-do-Sol no Norte, nem cristal líquido. A sensação de cor de Alisia era muito diferente. Ela não via as coisas como as pessoas comuns. Era como um novo sentido, muito diferente da visão, muito mais amplo, muito mais profundo. Era muito mais próximo da audição e do tato do que da visão em si. A luz, em todas as suas extensões de onda, refletia e se misturava e Alisia podia captar tudo aquilo simultaneamente o tempo todo, como uma sinfonia luminosa constante.

355, Walt Baker St. Quinto andar. Parou de caminhar e virou a cabeça na direção da loja de conveniências do outro lado da rua. Quinto andar, ele estava no apartamento 52, sentado na privada. Atravessou a rua e adentrou a loja. Queria comprar cigarros, decidiu que não interromperia o homem em uma hora daquelas. Comprou um maço de Dunhill, uma pastilha de cereja e uma revista sobre Super-Heróis na América, que notou ao lado do caixa. Na capa, o Crusade cravava sua espada no chão para impedir que um metrô colidisse em Nova York. Era a única na Extreme que se preocupava em saber sobre a opinião pública. No geral era muito boa. Enquanto pagava a compra, leu as páginas internas. Um cara dava entrevista contando como o Crusade salvou o dia e inspirou ele próprio a salvar uma senhora em perigo dentro do metrô. Acendeu um cigarro saindo da loja, e colocou uma pastilha na boca. Sentiu-se estranha. Não sabia o que dizer da reportagem. Richard era um playboy excêntrico com síndromes de megalomania, mas havia conseguido alcançar o preceito máximo do herói, ele havia conseguido inspirar o heroísmo do próximo. Alisia não conseguia achar aquilo ruim, pelo contrário, mas sentia algo estranho, como se não acreditasse totalmente que fosse mesmo possível mudar o mundo pelo poder do exemplo.

Guardou a revista na bolsa E terminou o cigarro. No 52, ele também já havia terminado. Subiu as escadas do prédio, passando incólume e despercebida pelo porteiro. Dentro do circuito interno de câmeras, as lentes captavam uma imagem projetada de homens passando pela portaria. Decidiu subir as escadas, não estava disposta a chamar a atenção de ninguém naquela noite. Cinco lances de degraus flutuando a dois palmos do chão, e em um minuto Alisia já caminhava novamente sobre os finos saltos altos. Parou diante da porta. 4h13am. Os vizinhos certamente dormiam, e era melhor que fosse assim. Aproximou o olhar dentro da fechadura e, moldando um pequeno objeto de luz sólida, abriu a porta. Ele estava deitado na cama do quarto, acabara de se cobrir. Alisia fechou a porta e voltou a flutuar centímetros acima do chão. Moveu-se até a cozinha e abriu a geladeira, pegando uma lata de cerveja do congelador. Deixou a bolsa sobre a mesa de jantar e deslocou-se calmamente até a porta do quarto. Repetiu o truque da primeira porta e adentrou o aposento. Deitado na cama, um homem de aproximadamente 30 anos com aspecto de pouca higiene virou-se olhando assustado.Uma fina camada de luz invisível sólida formou-se ao redor de todas as paredes do quarto, criando uma imperceptível barreira acústica. O homem levantou-se rapidamente, pegando um revólver que Alisia notara sob seu travesseiro enquanto comprava os cigarros. Quatro disparos, ele sequer perguntou quem era ou o que fazia ali. Sua mão tremia segurando a arma e, em seguida, deixando-a cair apavorado enquanto assistia às balas amassadas no ar caindo no chão. Alisia acendeu outro cigarro e tirou um papel de dentro do bolso, desdobrando-o.

"Eu realmente não estou com pressa nenhuma, mas se estivesse no seu lugar ia querer que isso acabasse o quanto antes, então me diga: Você é Robert Porter, número de seguridade social 54876387/NY?"

Ele relutou um pouco, e então respondeu afirmativamente. Era a certeza de que precisava. Aquele homem, Robert Porter, 31 anos, duas passagens por suspeita de homicídio, era o responsável por violentar e matar 12 meninas de 11 a 14 anos entre New Jersey, Rhode Island e New York, desaparecidas entre 2 anos e um mês atrás. Era muito bom no que fazia, nunca deixava rastros, nunca ficava muito tempo na cidade, nunca usava cartões de crédito. Alisia demorou um mês inteiro para localizá-lo. Havia sido chamada pelo NYPD para auxiliar no caso e conseguira descobrir o paradeiro do monstro. No último assassinato, o único em que Alisia presenciou a cena do crime, ele deixou para trás uma única digital, na parede do corredor da casa abandonada. Alisia respirou fundo, lembrou-se da visão do corpo da menina de 14 anos morta após ser estuprada. Deu um longo trago no cigarro e tentou esquecer-se de que ela própria já havia passado por aquilo aos 14 anos. Não precisava de mais ódio daquele homem. Já tinha em si mais do que o ssuficiente.

***

4h40am. Os vizinhos continuavam dormindo. Amarrado sem suas roupas, Robert Porter era suspenso pelas mãos por correntes luminosas que pendiam do teto. De seu corpo, inúmeros filetes de sangue vertiam de incontáveis cortes sobre a pele, formando uma enorme mancha vermelha que já começava a coagular no carpete. Com o único olho que ainda lhe restava, Porter continuava olhando, aterrorizado, a mulher loira de aproximadamente 25 anos e formas delicadas que acendia mais um cigarro enquanto apanhava outra pastilha. A expressão no rosto dela não havia mudado em absolutamente nada na última hora e meia em que ela o havia torturado. Sua pele havia sido queimada por fótons, seu olho esquerdo e órgãos genitais esfacelados por lâminas laser. Suas unhas arrancadas dos dedos jaziam ao chão misturadas ao sangue. Nenhum ruído, nenhum som havia deixado aquele cômodo do apartamento, apesar dos urros bestiais que o monstro emitia cada vez que Alisia desferia outro golpe. Mas ela não se alterava. Apenas olhava em sua direção e, entre um suplício e outro, perguntava-lhe sobre uma das doze meninas. Perguntava sobre a sensação de possuí-las, de sentir seus corpos parando de respirar aos poucos. Robert Porter ainda se propôs ao despeito de responder a primeira das perguntas. Não pareceu muito cooperativo a partir da segunda, no entanto. Já estava tarde. Observou novamente o homem pendurado a sua frente. Pensou em Crusade. Ele não faria aquilo, ele teria entregue o criminoso à justiça.

Mas ela não era Crusade. Ela não via sentido naquilo. Ele seria julgado mentalmente insano e mandado para tratamento em uma clínica estadual. Passaria o resto de seus dias sendo sustentado pela população, pelos pais das meninas mortas. Jamais pagaria pela dor que causou, pelo mal que trouxe ao mundo. Não, Alisia não podia fazer aquilo, não podia deixá-lo escapar. Ele não era um homem, não tinha senso algum de moralidade, era um monstro, muito pior do que um animal. Ela apenas fez o que era preciso.

Deixou o apartamento, gravando outra cena de homens agora saindo da portaria na câmera. A polícia não encontraria pista alguma sobre os homens que mataram Robert Porter, e o caso seria arquivado em duas semanas. Ainda na calçada em frente ao prédio, pôde observar dentro do quarto o momento em que o coração de Porter parou de bater. Acendeu outro cigarro e caminhou pelas calçadas. Enquanto a sinfonia luminosa se mantinha nas ruas do Soho, Alisia olhava para a capa da revista em sua bolsa. Nela, o Crusade encravava sua espada no chão para impedir a colisão de um metrô em New York. Um cara dava entrevista contando que o ato o inspirou a salvar uma senhora em perigo dentro do metrô. Na noite seguinte, todos os estupradores de NY iam ler nos jornais o que aconteceu a Robert Porter. Caminhando sozinha pelas calçadas do Soho, Alisia concluiu que, de certa forma, ainda que por meios inumanos – palavra que para ela tinha outra conotação – estava inspirando, através do exemplo, uma sensação inversa à de Crusade. Não a coragem de fazer o bem, mas o medo de praticar o mal. Banhada pelas fabulosas luzes de mercúrio, Alisia sentiu que fizera o certo, e ninguém e nem revista alguma precisava saber daquilo.

Making Of: Alisia Kelly Bryant.

A Sunshine sempre foi, e de certa forma ainda é, para mim, um problema. Como tenho dois Making Of's para fazer, decidi começar por ela por dois motivos: foi minha primeira personagem aqui e é a mais difícil de explicar. O Claude é bem mais tranqüilo porque tem inspirações mais evidentes.

Bom, depois de jogar a saudosa (e agora iminente) campanha de Rurouni Kenshin com os caras, dando criação à modalidade PbS (play by skype), o Calliban me chamou para jogar uma campanha de Era do Apocalypse, para a qual eu pensei em criar um cara chinês controlador de sombras. Bom, acabou que a campanha não foi de Era do Apocalypse, meu personagem no fim não era chinês, não controlava sombras e nem era um cara.

Foi trabalhoso criar personagem. O Calliban é o sujeito mais mala do multiverso para aprovar personagem. Vetou uns 5 meus, alegando que eram alvos móveis, que não tinham estilo, que não iam funcionar em grupo, e por aí vai. Foi quando eu relia uma edição do Superboy e vi um heróizinho fuleiro da terceira divisão da Liga da Justiça, o Ray. Esse maluco tinha passado a infância sendo criado à noite porque diziam que ele tinha uma doença rara que o impedia do contato com luz solar. Ele aos 20 anos fez uma experiência com o irmão mais velho, depois que os pais já tinham morrido, e descobriu que na verdade ganhava super-poderes em contato com luz. A primeira coisa que pensei foi "puta dum mote legal prum PC, mas ta mal aproveitado". Tudo bem, não acho que a Alisia seja a melhor forma já empregada para o tema, mas convenhamos que ficou mais estilosa que o Ray. Mas o ponto não é esse.

Na primeira versão, a Alisia já usava o codinome Sunshine, mas seu poder era basicamente voar e disparar rajadas laser. Ela também tinha uma limitação extremamente chata: precisava de luz para ter poderes. Isso já complicou a vida dela mais de uma vez. Quando saíram os suplementos Power Corrupts 1 e 2 pela Devil's Workshop, surgiu o poder Photon Control. Foi aí que montei o combo de visão absoluta da moça. Esse poder, devo confessar, é o mais divertido de todos, nem a supervelocidade do Claude é tão legal. Bom, basicamente depois disso (e com a chegada da segunda edição do M&M) a ficha dela mudou pouco, ampliando os usos de luz e efeitos da supervisão. Ah, sim, ela perdeu a limitação de precisar de luz, agora ela pode inclusive emitir quantidades enormes de luz.

Mas a grande questão com a Alisia não é a ficha. A personalidade dessa moça sempre foi um problema. Primeiro porque só havia jogado com personagens femininas uma vez antes disso, em uma campanha de Dungeons & Dragons. Pensei em como montar uma personalidade feminina que convencesse. Lembrei da frase do Jack Nicholson no "Melhor Impossível" quando seu personagem escritor é perguntado sobre como conseguia criar personagens femininas tão convincentes. "I think about a man, and then take away the reason and accountability". Talvez seja verdade, mas com a Alisia não deu certo, ou pelo menos não me convenceu. Tentei moldar aos poucos sua personalidade, o que me fez começar a escrever os primeiros registros (hoje perdidos) dos Diários da Alisia, que o Call até curtia ler. Ajudou um pouco, mas com o passar dos anos aquela personalidade de menininha da Alisia não colava mais. A mulher já tinha visto o fim do mundo de perto meia dúzia de vezes, já tinha visto gente morrendo aos baldes, já tinha quase morrido outras tantas (lembrando a histórica ocasião em que o Voltage disparou a eletricidade de Manhattan inteira nela). Definitivamente a garota precisava de uma personalidade mais madura.

Comecei colocando ela de vez dentro da ONU, cuidando de incidentes diplomáticos envolvendo super-humanos. Também acabei com a história de loira burrinha, comprando mais Inteligência e perícias ligadas a geopolítica. Adicionei também um tom irônico e sarcástico no discurso dela. Achei por bem colocar mais um trauma na infância noturna dela, e transformei o tio bonzinho num bêbado solitário abandonado pela mulher e disposto a fazer coisas más com ela. Esse trauma fortíssimo fez com que a personalidade dela mudasse para algo afetivamente amargurado e sexualmente distante. A partir daí decidi explorar uma área até então latente nela: o aspecto inumano. O cenário (onde os personagens na prática não são exatamente humanos) favoreceu isso. Não se considerando humana, ela não se considera sujeita aos valores humanos. O que isso significa? Que ela tem um senso de moralidade e justiça próprio, que não necessariamente vai de encontro com o senso comum. Isso piora com o fato de que ela bebe. No princípio pensei em cocaína, mas achei clichê demais, até porque uma versão "What If..." do Claude já tinha feito isso antes. Achei que álcool seria mais romântico, mais decadente. Foi aí que meu lado sombrio deu vazão ao lado sombrio da Alisia. Comecei a imaginar que tipo de coisas um ser humano (e em seguida um ser inumano) faria se pudesse ver e não ser visto? Melhor, se pudesse matar a um quilômetro de distância? Claro, a Alisia não é uma assassina, mas isso não quer dizer que ela não mate quando acha necessário.

Com tanta coisa ruim, como ela trabalha com os heróis? Bom, primeiro ela considera os Next Steppers como iguais. Dentro dessa idéia, ela considera a Extreme (e mais alguns agregados) como amigos, e ela só tem amigos de verdade entre seus iguais. Sendo a luta de seus amigos, é sua luta também. Isso reflete insegurança e pouca auto-perspectiva (o que é interessante paralguém que vê tanto). Ela também luta porque mesmo não se sentindo humana, não se sente à vontade convivendo com o sofrimento humano. Difícil dizer se ela se julga racialmente superior a um ser humano, mas individualmente ela não consegue se imaginar superior a nada. O que deu verdadeiramente um novo sentido a sua vida sem dúvida foram os super-poderes. Ela os vê claramente como uma dádiva, e acredito que se sentiria muito mal se um dia fosse privada deles.

Realmente difícil fazer isso. Do jeito como está ela parece quase uma vilã. Não é o caso, ela ta mais para anti-heroína amargurada, meio como a Elektra porém mais light. Ou melhor, mais disfarçada, como ficará melhor demonstrado no próximo conto. O X da questão ao analisar a moça , acredito eu, acaba sendo: ela é uma pessoa boa, que deu alguns azares na vida (isso descreve bem toda a Extreme, aliás) mas que tem seus lados humanos, seus lados inumanos e que não tem muitos problemas para dormir a noite.