Em 2015, um grupo de super-humanos escapa de uma base do governo para salvar o mundo, e acaba descobrindo uma série de segredos sombrios. Essas são suas histórias.
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Os dias secretos dos Nistelroy

Inverno, um bordel sujo, escuro e malcheiroso em um bairro precário e abarrotado de uma cidade pequena e pouco observada da Costa do Marfim. Em uma mesa, dois homens faziam negócio, enquanto duas prostitutas de aparência lamentável agradavam-lhes as partes íntimas. A doze metros, em outra mesa, mais próxima da janela, Claude Nistelroy e Grenko Mardov bebiam um destilado de sabor característico e procedência envolta em mistério, e fumavam charutos afegãos. Sem qualquer cerimônia, o eslavo baforejou:

“Sabe, senhor N, de todos os muitos clientes improváveis que recebo, e veja bem, em um mundo nada razoável como este em que vivemos, há muitas coisas improváveis mas quase nenhuma impossível... mas bem, como eu dizia, de todos os malucos estranhos e pouco prováveis que fizeram negócio comigo, você com toda a porra duma certeza é o mais engraçado!” e virando mais um copo do misterioso destilado, puxou uma maleta de baixo da cadeira “Trouxe sua parte?”

O inglês baforejou o charuto, pensou no bordel sujo e miserável em que se encontrava, e desejou poder marcar essas reuniões em lugares mais distintos, com mulheres mais bonitas e máquinas de Milk-shake. Puxou um estojo grande de baixo de sua própria cadeira, e colocou sobre a mesa. Era cúbico, com não mais do que 12 centímetros de lado.

“Saca só, Mardov, tu pediu essa parada e eu peguei, e nós dois concordamos que isso nem direta e nem indiretamente vai ser usado ou vendido para quem pretenda usar para ferir ou ameaçar pessoas, isso está correto e bem entendido?”

Uma confirmação, na forma de um arroto etílico e fumacento. O mercenário empurrou a valise na direção de Claude, sorrindo.

“Saca só você, senhor N, o que ta combinado ta combinado, e palavra de ladrão é uma só” uma rápida olhada no estojo “fala pra mim, senhor N, como foi que você conseguiu passar pela segurança de uma porra dum laboratório da Max...” um chute, impressionante, inacreditavelmente rápido, cruzou por sob a mesa a distância entre Claude e a canela de Mardov, que tossiu mais fumaça, deu um soco na mesa, sacou um revólver e apontou para o inglês, que fingiu, sem grande sucesso, sentir-se ameaçado.

“Guarda essa porra e não fala alto o nome de quem não conhece, moleque. Tem certeza que são os documentos certos?”

“Claro que são. Eu não sou o maior negociador da Ásia Menor à toa, ta sabendo? Agora, senhor N, eu vou sair por aquela porta e nós dois vamos esquecer que nos conhecemos, está certo?”

*****

RELATÓRIO DE ANÁLISE DE MÚLTIPLOS ASPECTOS DE GENEATIVO

Exemplar: 08/0001 – Klaus Kohler van der Nistelroy.

(...)

ASPECTOS SUPER-HUMANOS: Ainda que o exemplar, atualmente um bebê com 7
anos de idade, não apresente qualquer manifestação notável de habilidades super-humanas, observações das estruturas genéticas comparadas a amostras de DNA obtidas de ambos os pais (conforme Tópico 3.2.4 deste relatório) sugerem a manifestação de habilidades ligadas a matéria e energia negra (conforme detalhado no Apêndice 2) quando das alterações hormonais referentes à puberdade masculina. Extrapolações de modelos observados em filhos de Second Steppers sugerem que, de certa forma, as habilidades do exemplar possam estar ligadas a aspectos do tempo.

(...)

*****

Uma pequena ilha tropical, com não mais que dois quilômetros de diâmetro, a 300 milhas marítimas de Madagascar, na costa Leste da África. Em seu centro, o único refúgio visível de civilização cercado por uma pequena floresta e uma grande e bela praia de areias brancas e macias. Um complexo de aparência industrial e pouco sofisticada, ocupando um grande quadrado com cerca de 700 metros de lado, cercado por grades e arames eletrificados, pavimentado e asfaltado em uma disposição organizada de quatro enormes galpões. Uma estrada recém-concluída dava acesso do complexo a um porto na costa Sul, onde um barco cargueiro de proporções medianas repousava flutuante.

E abaixo desse complexo, mais exatamente 500 metros abaixo, em um complexo incomparavelmente maior e mais sofisticado, Claude Nistelroy encontrava seu filho, Klaus, na sala dos computadores. O garoto vestia jeans, tênis e uma camiseta branca com a estampa de alguma banda de rock (ou daquilo que os garotos de 2018 chamam de rock), e parecia entediado. Claude entrou na sala segurando uma prancheta.

Era um menino de 11 anos recém-concluídos. Uma criança. Era nisso que Claude gostava de acreditar, mas a cada dia se tornava mais difícil. Começou quando notara que as roupas de Klaus duravam não meses como se esperaria de uma criança em crescimento, mas semanas. As notas altas na escola a despeito da total falta de interesse eram a princípio, entendidas apenas como os sintomas de um prodígio. Mas após 20 dias, era absolutamente visível a qualquer um, Klaus estava amadurecendo, física e intelectualmente, a uma taxa 8000% superior à humana. Foi quando o inglês repentinamente entregou todas as atribuições administrativas da Nistelroy Security Solutions a Rose, comprou uma pequena ilha a Leste da África e guardou, sem olhar para trás, o uniforme que tornava o pai Claude Nistelroy no herói Lightning.

A taxa de amadurecimento decaiu, com o passar dos dias, e de acordo com os resultados de exames que Claude tinha em mãos, estavam atualmente em 300% da média humana. Dentro de si abaixo da máscara pouco eficaz de segurança que tentava manter, o herói se sentia aterrorizado com o leque de possibilidades sombrias que se desdobrava diante do primeiro Gen2.

“Está pronto para começar os últimos testes de lógica e resolução de impasses?”

“Eu já terminei. Para o homem mais rápido do mundo, você se atrasa demais...” as palavras do garoto, em um timbre de voz que denunciava uma adolescência, eram carregadas de aborrecimento. Diante dos dois, Claude viu um dos monitores exibindo os resultados do teste, e o score de 100%.

“Impressionante...” o olhar de Claude voltou-se para o filho. Tinha a aparência de um rapaz, poderia comprar álcool em qualquer país sem que ninguém pedisse seus documentos. Tinha apenas 11 anos, mas desdenhava e desafiava o pai como um jovem rapaz.

“Bom, então talvez eu possa sugerir uma nova leitura dos seus índices de ...” as palavras do homem de quase 30 anos que se sentia um velho foram insolentemente interrompidas pelo cinismo amadoresco do garoto.

“Talvez eu pudesse te sugerir uma coisa, que tal isso?” e suas palavras foram guiadas por um olhar desafiador de alguém que não tinha razão alguma para temer seu adversário. Claude respirou fundo.

“É claro.”

“Acho que devia voltar pro trabalho.” Os olhos do adolescente desviaram do rosto do pai, contemplando aleatoriamente as dúzias de monitores da enorme sala.

“Rose pode cuidar perfeitamente da empresa enquanto eu ...” nova interrupção, dessa vez com um tom de impaciência.

“Não estou falando da empresa, olha pai, eu não quero me repetir, mas para o homem mais rápido do mundo você é lerdo demais pra sacar as coisas” as mãos do garoto alcançaram os teclados à sua frente, e com poucos comandos acessaram uma pasta pessoal e uma foto.

No instante em que os dedos de Klaus apertaram ENTER, o monitor central, o maior deles, exibiu a imagem escolhida. Em uma foto de primeira página do The Sun, o Lightning nocauteava o último de 50 piratas em uma embarcação na costa da Somália.

“É disso que tou falando, senhor treinador. Desse trabalho. Ou vai dizer que a Rose arrumou um colante vermelho e tem cuidado dos seus super-inimigos depois do expediente?”

“Não seja tolo, não existem heróis gordos como a Rose. E você e eu ainda temos uma porção de testes para realiz...” parecia, afinal, um grande prazer ou compulsão do garoto cortar as frases do pai.

“Isso era outra coisa que eu tinha pra dizer. Eu to fora, pode terminar seus testes sozinho, eu cansei.”

A expressão de Claude mudou, diametralmente.

“Como assim, cansou? Ta fora de onde? Você ta maluco, garoto?”

“Não, pai!” retrucou em voz alta e levantando-se da cadeira “Você é quem ta maluco! Você decidiu que tínhamos que vir pra cá, você me tirou de Londres, me arrastou pra esse buraco dos infernos e me fez pular, bater, correr, erguer peso, resolver questões de tudo que é merda de matéria e como se não fosse suficiente eu tou em uma merda de uma puberdade hiperacelerada do caralho por culpa dos SEUS GENES e não tem NENHUMA GAROTA NUM RAIO DE QUINHENTAS MILHAS DAQUI!!!”

As palavras do jovem calaram fundo, e Claude esperou até que o silêncio se formasse novamente para falar.

“Ta certo, tudo bem. Eu posso ter exagerado, reconheço que saber que você tinha habilidades me deixou fora da normalidade, mas peraí, como assim, você ta fora? O que pretende fazer, supondo que saia daqui, meu jovem?”

“O que eu vou fazer?” e aqui o semblante do rapaz adquiriu um tom divertido, como de alguém que imaginava um futuro enquanto o narrava. Olhou para Claude com um sorriso malicioso, e respondeu descontraído, mas resoluto.

“Eu vou fazer o que qualquer garoto de 11 anos com corpo e inteligência de 18 com um pai multimilionário faria. Vou pegar alguns dos seus cartões de crédito corporativos da Nistelroy, que afinal de contas é nossa empresa, vou falsificar documentos de 21 anos e vou torrar os Euros do meu pai com o que achar legal.”

Claude sorriu. Não conseguia esconder uma ponta profunda e muito bem escondida de orgulho ao reconhecer a si mesmo quando tinha aquela idade. Ou melhor, a idade que aquele jovem aparentava ter.

“E por que acha que seu estimado pai ficaria numa boa com isso?”

“Porque ele tem coisas mais importantes para fazer do que cuidar de um homem que envelhece mais rápido do que seu pai corre. Já olhou os noticiários dos crimes na Europa nesses quatro meses? O mundo inteiro quase foi pro saco no mês retrasado, e tu num tava lá, pai! Porra, que que adianta tu ser o cara mais rápido do mundo se fica parado dentro dessa ilha dentro desse buraco olhando pra mim com cara de medo?”

Dessa vez, Claude não sorriu, nem conseguiu encarar seu interlocutor de 11 anos com cara e argumentos de 18. Respirou profundamente mais uma vez, e quando ergueu a cabeça, tinha certeza de que Klaus estava certo.

“Eu não posso deixar um garoto de 11 anos andando pela Europa com meus cartões de crédito, você não terminou seus estudos, não sabemos quem pode ir atrás de você e faz mais de um mês que não acontece nenhum grande atentado na Europa, senhor Klaus Nistelroy.”

“Bom, eu já te dei suficientes provas de que sou esperto o bastante pra me cuidar. Além disso, seus cartões, que sei que não vão te fazer falta, podem me manter seguro e ninguém sabe como me pareço hoje, então acho que nada me impede, de qualquer forma” nesse ponto, o garoto voltou os olhos atentos, a bem da verdade muito mais atentos que os do pai, para um monitor distante, e apontando com o dedo concluiu “... e sobre atentados na Europa, pai, é melhor olhar de novo, viu?”

A 5 metros, um dos vários monitores de notícias globais exibia imagens ao vivo de uma enorme explosão mandando pelos ares o topo do Big Ben, em Londres. Antes de serem devastadas por uma segunda explosão, as câmeras ainda exibiram um indivíduo, claramente Geneativo, surgindo em meio às chamas. Levantando-se e indo em direção a seu quarto para arrumar as malas, Klaus deu um tapa nas costas de Claude.

“Me parece sua deixa, herói. Vou pegar o barco às 6, então se quiser falar comigo é só rastrear o cartão. Tchau, pai.”

Dia das Crianças

Londres, nos arredores rurais da cidade, os cidadãos pacíficamente seguiam suas vidas enquanto os termômetros acusavam 30 graus. Era uma tarde ensolarada de Junho e os céus eram de um azul esplandecente ornamentados por um enorme e brilhante ponto amarelo e por calmas e multiformes nuvens brancas. Súbito, como um relâmpago silencioso de luz branca, um risco formou-se nos céus, rompendo a tranqüila e bucólica harmonia da cena.

Algumas centenas de metros acima, voando a duzentos quilômetros por hora, gentilmente envolvido pelos braços e seios de Alisia Bryant, e protegido por um campo invisível de luz densa, estava o pequeno menino Klaus Kohler van der Nistelroy. Enquanto o cenário passava deslumbrante por seus olhos arregalados, o garoto só conseguia esboçar como reação um sorriso largo e honesto em seu rosto. Era a melhor sensação do mundo, era incrível. O vento não agredia seu rosto, nem bagunçava seus cabelos, o campo de força impedia aquilo. Só o que tinha era a magnitude máxima da sensação da gravidade em sua barriga e a vista inacreditável que o passeio proporcionava. Em poucos segundos já estavam sobrevoando a cidade, e minutos depois passavam pela costa da Irlanda. Alisia não dizia nada, apenas deixava que o menino aproveitasse a viagem e, vez ou outra, comentava sobre o nome dos lugares que estavam sobrevoando. Klaus mal podia ouvir, embasbacado pela experiência.

A cerca de 300 metros abaixo e centenas de quilômetros a Sudeste, no terraço da Nistelroy Security Technologies, Claude estava sentado no mesmo ponto em que dissera até logo a Klaus e vira Sunshine desaparecer com ele nos céus. Pelo comunicador, podia ver e ouvir tudo pelo ângulo de Sunshine. Ela era fabulosa. Havia telefonado para o prédio das Nações Unidas no dia anterior perguntando se ela poderia lhe fazer um favor. Nove da manhã, ela chegou no terraço exatamente às nove da manhã, e nem era britânica. Dos últimos Dias das Crianças, Klaus estava mais empolgado com aquele. Por algum motivo, a idéia de voar o fascinava. Claude tinha medo daquilo, torcia sinceramente para que ele se tornasse piloto de caças, algo muito mais seguro do que a outra possibilidade. Sete anos e ainda não conseguia se sentir completamente pronto como pai. Tinha uma tarefa no mundo, um ideal pelo qual lutar, mas não conseguia – e sabia que não devia – deixar de lado suas responsabilidades paternas.

Em meio a divagações, o inglês notou pelo visor que eles já estavam se aproximando do prédio. Olhou para o relógio, tinha pedido uma hora e ela já estava no ar com Klaus a quase duas. Viu com o olho esquerdo o terraço do prédio se aproximando da visão de Sunshine, enquanto o olho direito via um facho de luz vindo em sua direção. A meio metro do chão, ela desacelerou e ambos pousaram suavemente, Alisia colocando o pequeno Klaus no chão. Em meio a inúmeros pedidos de bis do menino, Claude agradeceu a Alisia pela gentileza. Após dar um beijo no rosto de ambos e dizer que não foi nada, ela partiu novamente nos céus, dizendo que precisava voltar para a ONU.

"Ela é legal" deixou escapar, enquanto se aproximava instintivamente das pernas do pai. Claude assentiu com a cabeça. Era estranho, ou nem tanto, mas ele confiava em Alisia, Nicholas e Gunther o bastante para entregar-lhes nas mãos a vida de seu próprio filho, a coisa mais importante que tinha.

Caminharam pela cidade, Klaus queria comer porcariadas e comprar quadrinhos. Na banca de jornais do shopping, enquanto escolhia as revistas, Klaus observava silencioso seu pai sentado na mesa da cafeteria ao lado. Sabia que ele não era como as outras pessoas, pelo menos não como a maioria. Ele podia fazer coisas diferentes, podia ir rápido de um lugar a outro sem que ninguém visse. Ele nunca se machucava, nunca ficava doente como os pais de seus amigos. Olhou para a revista em suas mãos. Na capa, um herói impedia um trem. Sabia quem era aquele herói, seu pai já havia lhe dito. Conhecia mais da metade dos super-heróis de verdade do mundo. Adorava, muito mais do que ler quadrinhos, de ouvir seu pai contar-lhe as histórias dele e de seus amigos. Nunca contara isso, mas seu personagem favorito era Impacto, e não seu pai. Gostava dele, mas não achava que ser rápido era tão legal quanto ser forte.

Pegou as revistas e deu o dinheiro ao jornaleiro. Contou o troco e guardou, organizadamente, em sua carteira. Notou que o jornaleiro o olhou admirado. Era um menino que aparentava nove anos, mas era muito mais inteligente que seus amigos, sabia disso. Na escola, se esforçava para não chamar tanto a atenção, afinal era extremamente tímido e falava muito pouco com qualquer um que não fosse seu pai. Mesmo assim tinha as melhores notas da classe e era um aluno prodígio nas aulas de ginástica. Achava que, assim como seu pai era diferente dos outros, ele também devia ser. Lembrava que uma vez havia perguntado a seu pai se ele também ia ter super-poderes. Ele desconversou, dizendo que estudar e ter conhecimento era o maior poder que existia. Não acreditava mesmo naquilo, preferiria mil vezes ter super-força. Sabia que Claude o queria um estudioso, mas tinha outros planos para si. Mesmo que não ganhasse super-poderes, sabia que era rápido e esperto, e queria ser um grande ladrão como seu pai era antes de ser herói. Deteve seu pensamento ao lembrar-se da interminável e severa bronca seguida de castigo que seu pai lhe aplicara da última vez que falou disso. Decidira então não falar mais, mas sem desistir, absolutamente, da idéia. Victoria tinha reagido melhor, até o ensinou como abrir cadeados e trancas simples, mas advertindo para que nunca fizesse aquilo em casa. Aprendera também com ela que o grande ladrão é aquele que não deixa pistas. Ainda tentava entender direito aquilo.

Sentou-se à mesa junto de seu pai. Colocou as revistas ao lado da xícara de café e pediu um refrigerante. Claude pediu a bebida ao garçom e pediu para que Klaus fechasse os olhos e abrisse as mãos. O garoto atendeu ao pedido e Claude colocou em suas mãos um pequeno microchip de silício e ouro.

"O que é isso?" perguntou o menino, olhando um tanto desinteressado para a peça. Claude respondeu que era um microchip como todos os outros milhares que tinha na oficina da Nistelroy, mas que esse tinha um detalhe diferente. Veio do futuro de outra dimensão. Havia tirado das peças que trouxera da base futurista da Extreme. Era um chip ordinário, um dos poucos do aparelho que podia ser substituído por tecnologia da Terra atual. Mas, no momento em que Klaus ouvira sobre a origem do objeto, o mesmo ganhou um aspecto completamente novo e misterioso. Era de outra dimensão.

Todo ano era assim. Klaus sabia todo ano que aquilo aconteceria. Seu pai nunca o levava a parques ou circos no Dia das Crianças. Esse lugares Klaus freqüentava sempre que queria, seu pai sempre o ensinara a cuidar e administrar o próprio dinheiro. O Dia das Crianças era algo que todo ano era especial. Depois, iam fazer compras e seu pai sempre lhe dava algo diferente de tudo, que o dinheiro nunca podia comprar. Dizia que era justamente para que ele entendesse que nem todas as coisas do mundo estavam à venda. Os amigos, por exemplo, ele dizia. No ano passado Klaus conheceu o fundo do mar junto de seu tio Nicholas. Tio Nicholas, tio Gunther, tia Alisia. Não tinha tios de verdade, sabia daquilo, mas sabia que aquelas pessoas eram os que seu pai considerava como família. Sabia que nenhuma outra criança do mundo tinha Dias das Crianças como aqueles, e imaginava que fosse o jeito de seu pai para compensar o tempo fora de casa, o fato de nunca poder chamar amigos para brincar em casa, ou o fato de que casa para ele era uma base subterrânea servida por sistemas computadorizados. Sabia que era assim sua vida, e que era assim que tinha que ser. Não podia contar a ninguém sobre seus Dias das Crianças, sobre como seu pai salvou o mundo naquela semana, sobre a Melon Soda que só vende no Japão e que seu pai trazia todo dia. Quando as aulas voltavam, sabia que, enquanto as outras crianças inventavam coisas extraordinárias que não haviam acontecido para suas redações de "Minhas Férias", ele teria que inventar quatro semanas de histórias chatas e sem graça, porque absolutamente não podia contar o que havia acontecido de verdade. Primeiro porque não acreditariam, segundo porque não precisava da redação para saber que o seu havia sido o melhor dos Dias das Crianças.

Dia dos Pais

- Claude! Klaus! Vão ficar o resto do dia aí fora? O almoço está servido!

Ouço as palavras de Victoria. Céus, como gosto dessa voz. Poucos programas me agradam mais do que visitar Victoria. Primeiro porque ela é linda, divertida, inteligente e também a melhor profissional do crime europeu depois de mim. Segundo porque ela gosta de Klaus, e Klaus gosta dela. Ele brinca com pedrinhas multicoloridas do jardim, desfazendo o minucioso desenho que algum jardineiro cobrou uma fortuna para moldar em pedras. Qualquer pessoa em sã consciência ficaria aborrecido, mas não Victoria, ela realmente gostava muito de Klaus, acho até que mais do que de mim. Ele joga uma pedra para o alto e, com a mesma mão, apanha outras 4 dispostas em quadrado no chão para em seguida agarrar com a mesma mão a pedra lançada ao alto. Ele só tem sete anos, acabou de entrar na escola, mas demonstra uma agilidade física e capacidade de entender as coisas que sinceramente me assustam.

redispõe as quatro pedrinhas e me entrega a maior, pedindo para que eu tente. Sorrio novamente e jogo a pedrinha para o alto. Ele não olha para ela, mas sim para minhas mãos. É esperto, sabe as coisas que posso fazer e, por não entendê-las muito bem, observa. É disso que Decido-me por ignorar o chamado de Victoria e sento no chão, ao lado de meu filho. Ele me olha e sorri, dispõe novamente as pedrinhas no chão e repete o movimento, me mostrando que é bom nisso. Eu bato palmas e, pela primeira vez em semanas, deixo que um sorriso se abra. Eletenho medo. Dessa Inteligência. Ele é muito mais esperto que as outras crianças da escola, tem facilidade para tudo, é forte como um menino de nove anos e desde que eu consiga me lembrar, nunca pegou um resfriado ou teve febre nem mesmo quando bebê. "O primeiro filho de um Next Stepper" foi o que disse o Dr. Scheimmer quando o seqüestrou. E o que isso quer dizer? Eu descobri ser filho de um Second Stepper, isso me deu poderes e me tirou o sossego na vida. Mas existe a possibilidade de não ser nada disso. Sim, ele pode ser só geneticamente privilegiado e nada além disso. Sete anos, Robert, sete anos desde que você morreu e Klaus nasceu. Lisa morreu sem saber ela própria qual de nós dois era o pai de Klaus. Eu poderia resolver isso, poderia fazer um exame de DNA dentro de minha própria base e pedir para Nicholas interpretar os resultados. Mas, para quê? O que muda se ele for mesmo filho de Robert? Robert está morto, Lisa também. Somos nós dois, meu filho, os últimos Nistelroy. Ainda bem que você é homem e vai ter a chance de repovoar o mundo com nossa espécie.

Me pego divagando com a pedrinha quase começando a cair. Ele continua fixado em minhas mãos. Eu espero. Espero até que a pedra maior se coloque exatamente no caminho entre seus olhos e minhas mãos. Então pego as quatro pedrinhas, coloco-as sobre a palma de sua pequenina mão e apanho a maior, bem diante de seus olhos. Ele dá um pulo, posso fazer isso mil vezes e ele não se cansa. Morre de rir, como uma criança que viu um truque de mágica.

- Escutem, vocês dois não sentem fome, não?

Ela veste uma calça de ginástica colante e um top. Devia estar correndo na esteira. A sete anos, desde que Klaus nasceu, ela me telefona convidando para passar a tarde com ela. Hoje é Dia dos Pais, e ela é a única pessoa que telefonou. Ela se senta a nosso lado no chão e percebe que Klaus desmanchou seu jardim de pedras de três mil dólares. Ao invés de ficar brava, ela segura o menino no ar e o coloca sentado no canteiro de pedrinhas coloridas, apanhando punhados com as mãos e os jogando suavemente sobre a cabeça de Klaus. Eles riem. Eu estou distante, penso nele. Penso em quanto tempo passo nas ruas literalmente correndo atrás de criminosos, apanhando de Robôs gigantes, viajando para Saturno, viajando para outras dimensões. Penso em quão pouco é o tempo que passamos juntos. É claro, eu passo mais tempo com ele do que com o uniforme, mas ainda assim é pouco. Ele é meu filho, meu único filho e minha única família no que se refere à genealogia. Amo esse menino, mais do que já achei que amaria alguém. Mais do que a mim mesmo, mais do que amei Lisa, mais do que amo os irmãos que conheci como Lightning. Ele está crescendo, fala pouco com estranhos, mas porque prefere ouvir. Comigo, fala pelos cotovelos, mas pergunta muito mais do que afirma. Ele sabe sobre meu segredo. Sabe que o homem de uniforme com raios nos jornais é seu pai. Sabe que não pode deixar que ninguém descubra nunca. É inacreditável, não faz nenhum sentido, mas de todas as pessoas que conhecem minha identidade como Lightning, a que mais me inspira confiança é justamente este menino de sete anos que rola em meio a pedrinhas multicoloridas abraçado à mulher mais perfeita do mundo.

Eu me levanto, respirando fundo. Estava demorando até que demais para essa idéia aparecer de novo. Não, Claude, você não vai fazer isso. Sim, Klaus precisa de uma mãe, alguém que cuide dele e dê exemplos melhores que os seus. Sim, você também já passou da hora de parar com essa história de uma namorada por semana, seria realmente ótimo ter alguém para dividir as coisas, como o Nick faz com a Christine. Mas não, Claude, definitivamente essa mulher para cuidar de você e seu filho não é Victoria Lupin. Essa mulher linda de cabelos longos e negros com uma linda e sensual mecha rosa pode ser realmente encantadora, mas é sempre bom lembrar que ela é a última de uma linhagem secular de ladrões, os Lupin, descendentes do lendário ladrão de casaca, Sir Arnie Lupin. Klaus já será criado por um ex-ladrão, não precisa de uma ladra de primeira e na ativa como mãe.

Mas que idiota. Que belo idiota. Que belo, aliás, charmoso e veloz idiota que eu sou. Não, Claude, você não vai arrumar uma mulher de vida como a sua, não, arrumará uma dona de casa que certamente entenderá o fato de que seus amigos levantam carros e controlam água. Odeio, odeio mesmo quando chego a essas conclusões cretinas que fazem todo o sentido, mas são inevitáveis. Victoria não se importa em não ser mãe de Klaus. Para falar a verdade, se conheço bem essa mulher, deve ter feito laqueaduras para não correr o risco de engravidar e perder a forma física. Não a culpo, seria um desastre estético e profissional. Ela me olha, enquanto Klaus brinca com seus cabelos cor-de-rosa. A melhor parte de ser super-rápido é poder pensar com muita calma antes de falar, sem que a pessoa note que se está pensando. Ela vai me perguntar porque a estou olhando desse jeito. Empatia dos diabos, parece que ela está ouvindo cada pensamento meu desde que cheguei aqui. Eu devia aproveitar essa deixa, devia dizer que ela é linda e que quero jantar com ela essa noite, sem Klaus. Ela poderia deixar uma das empregadas cuidando dele e nós jantaríamos à beira do lago da mansão. Eu diria a ela o quanto quero alguém que entenda minha vida ao meu lado para cuidar de mim e de meu filho. Ela, bem, claro que ela não iria resistir, afinal de contas não é um galã qualquer de Hollywood, oras, sou eu!

- Por que está me olhando assim, Claude?

- ... não é nada, só estava pensando que estou ficando com fome, acho que Klaus também.

Ridículo, absurdo, mas de alguma forma eu simplesmente fico inseguro e nunca consigo. Olho para Klaus e pergunto se ele está com fome. Ele responde que sim, bom garoto, me poupou de arrumar outra desculpa. Às vezes me sinto tão ligado a ele que chego a acreditar que ele sabia no meu tom de voz que eu queria que ele estivesse com fome. Hoje é Dia dos Pais, meu sétimo Dia dos Pais, e pela primeira vez desde que Nicholas e Gunther foram embora para a América, estou verdadeiramente feliz.