Disguise
Não tenho a menor idéia de como ou porque ele se tornou o que é. Não sei de histórias de infâncias duras na URSS, nem de qualquer tipo de abuso físico ou psicológico ao longo de sua adolescência, se é que esse homem já foi mesmo algum dia uma criança.
O aspecto e fama de Mardov não advêm apenas de sua dureza como líder. É bem verdade que ele executa pessoalmente todo capanga que não cumpre seus deveres, como também é verdade que já o vi matar a sangue frio homens, mulheres, crianças, idosos e até gestantes com igual e indiscernível frieza. Mas nada disso era real diferencial no meio em que trabalha.
Grenko Mardov é um sujeito sem qualquer nível de escolaridade que aprendeu absolutamente tudo o que sabe por empirismo e teimosia. Essa teimosia rendeu-lhe os dois atributos que o tornaram respeitado, temido e procurado internacionalmente.
Primeiro, Grenko é um gênio nas artes às quais se propôs. Atira, luta e comanda melhor do que qualquer um das dezenas de Special Ops que já matou. Aprendeu os idiomas de seus inimigos e espalhou seu poder pela Ásia Menor. Controla tudo aquilo que compreende dentro de sua facção e deixa tudo o restante que não compreende em minhas mãos. Tenho que confessar, afinal: nenhum dinheiro no mundo pagaria o risco que corro diariamente. Eu, como os outros, se sigo Mardov é porque o admiro.
Segundo, porque Grenko é implacável. Em combate e em debate, absolutamente implacável. Intransigente, impassível, ele transparece enquanto negocia e enquanto luta que não vai ceder nada em condição alguma. Sei que isso parece exagero, mas como já disse: eu o vi liderar por quatro anos, e em todo esse tempo, ele só fez impressionar – para bem e, mais freqüentemente, para mal – a mim e a todos que o conheceram. Se nesses quatro anos eu disser que o vi errar uma única vez, minto.
E foi por isso que, quando aquele homem com fenótipo oeste-europeu e sotaque francês bateu na porta da frente do quartel-general e disse que tinha uma adesão, tive a certeza de que não era um Interpol disfarçado. Porque Grenko pessoalmente abriu a porta para o homem, apontando-lhe um rifle e olhando-o no fundo dos olhos.
Olhos de gatuno, foi o que Grenko me disse, quando perguntei-lhe como sabia que não era uma armadilha. Olhos de gatuno, segundo ele, podem ser encontrados em bandidos, terroristas, assassinos, ladrões, mercenários e até mesmo em alguns políticos. Nunca em policiais ou agentes da lei. Uma forma de olhar para as pessoas e para as coisas que as pessoas portam e para as coisas ao redor das pessoas. Mais do que tudo, acredito que Mardov se impressionou com a audácia do sujeito.
O misterioso homem se apresentou como Jean Jacques Perrault, certamente um nome falso. Ex-assassino da máfia francesa, ex-mercenário no Taliban. Dizia ser capaz de derrubar doze homens armados e de liderar qualquer grupo de assalto. Grenko gargalhou e lembro-me do sujeito limpando a saliva que voava da boca de Grenko enquanto ria. Lembro-me de ver Grenko saindo da sala e ordenando aos mais de vinte que lá estavam junto comigo para que matassem o homem e jogassem seu corpo aos cães.
Mas, com muito mais nitidez, lembro-me de ver aquele homem desarmar, fraturar e nocautear mais de vinte homens e, de tudo, nada me é mais claro na memória do que o momento em que ele quebrou meu braço esquerdo em três partes distintas. Chutou nossas costelas quando caímos no chão, descarregou um fuzil nas paredes da sala como quem desafia qualquer um a se opor, e gritou por Mardov.
Mardov atendeu-o prontamente, caindo de um salto pelas costas do homem, e eu pude ver sua faca enterrando fundo e rasgando generosa a carne do intruso, lavando com seu sangue um capanga caído. Acreditei que aquilo encerrava tudo e que então Grenko nos daria um longo e violento sermão sobre como somos fracos.
Deixei de acreditar naquilo quando vi o homem se levantando com a mão sobre a barriga e notei que o ferimento havia simplesmente desaparecido. O homem misterioso que se chamava Perrault era um deles, um dos inumanos, que a mídia chama Geneativos.
Ele se levantou e, no minuto que seguiu, trocou socos e golpes com Mardov. Quando pareciam cansados, Grenko acenou e disse que já bastava. Parecia, ao menos para mim, impossível acreditar naquilo, mas o homem ganhou a confiança de Grenko Mardov exatos quarenta e dois minutos após entrar pela porta de sua casa.
“Ei, Yulav, o chefe ainda não saiu?”
Meus pensamentos se interrompem com a voz de Boris. Ele, como eu e como todos, não está se sentindo nada confortável com isso. Grenko e o homem já a duas horas trancados sozinhos na sala de reunião. Já escutamos um tiro, uma janela quebrando, e uma gargalhada. De resto, mais nada. Não é o primeiro negociante livre que chega aqui, mas é o primeiro que negocia com Mardov sem estar rodeado por armas.
“Teremos que esperar, Boris. Eu confio em Mardov, mas também estou curioso para saber o que esse francês quer”.
Por
Victor Caparica
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4/09/2009 12:23:00 AM
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Innuendo
Grenko Mardov era um desses homens. No ano de 2017, seu grupo de extermínio conseguiu recrutar um jovem com habilidades sobre-humanas. Ninguém soube detalhes de como isso ocorreu, mas nos meses seguintes, o grupo de extermínio de Grenko Mardov decuplicou em contingente e influência. Havia entrado, em Agosto de 2017, na lista dos 50 mais procurados da Interpol, e sua lista de crimes superava até mesmo a de países em que era procurado. Sem poderes que o mantivessem a salvo de olhos e garras hostis, Mardov buscou segurança isolando-se no lugar mais obscuro e remoto que conseguiu encontrar na Terra.
Duchambe, 02h11min AM, GMT+5, hora local.
Tente imaginar becos escuros, de poucos metros de largura entre paredes de pedra irregular e madeira rota e úmida, chão de uma terra vermelha seca a ponto de agredir as narinas de alguém pouco habituado ao árido. Ao longo dessas ruas, homens, mulheres, velhos, crianças e animais partilham em total igualdade da glória do Grande Allah e da desconsolante miséria da menor e mais pobre nação da Ásia Menor. Dos seus pouco mais de sete milhões de habitantes, mais da metade vive em situação de insustentável e deplorável pobreza. Seus fiéis súditos de Allah, os Tadjiques, ainda se recuperavam de uma guerra civil que a menos de duas décadas devastara toda a pequena nação do Tadjiquistão. Seus habitantes, árabes, persas e russos ainda remanescentes, resquícios da Guerra Fria, viviam um governo de desmandos e corrupção que deixava poucas portas abertas ao progresso e muitas a interesses de homens como Grenko Mardov.
E foi em um daqueles becos, escuros e imundos, de odor transitando entre suor, excrementos e ópio, iluminado por uma ou outra rara lamparina a óleo e pelas estrelas de um céu limpo como a Terra jamais seria, que Claude Monet Nistelroy, trajando vestes locais pobres e intencionalmente surradas, olhou ao redor e perguntou-se como diabos encontraria aquele homem naquele inferno.
É bem verdade que qualquer homem, honesto ou bandido, cristão ou muçulmano, veria em tal paradigma um problema insolúvel. Claude não conhecia sequer o centro de Duchambe, a capital do Tadjiquistão, quanto menos sua periferia. As ruas eram incubadoras de assassinos, prostitutas, mercadores de ópio, vigaristas em geral e toda sorte de ladrões. Pelo menos com a última casta Claude estava bem habituado. Os adeptos da vida fácil de Duchambe não podiam, afinal, ser tão diferentes dos de qualquer outro lugar. Além disso, Claude não era qualquer homem, não era um bandido e tampouco um homem honesto e nunca fora cristão ou muçulmano.
Não falar sequer uma palavra do idioma local, uma variação moderna do persa chamada Tadji, também não era exatamente um problema para quem sabia se comunicar com o corpo. Um olhar ameaçador, uma mão que rouba Somonis do bolso de um Tadjique para estendê-los a outro, alguns eventuais e inevitáveis golpes, sempre tomando cuidado com velocidades excessivas, e a capacidade de pronunciar em voz baixa o nome de Grenko Mardov, foram suficientes para que antes do nascer do Sol o londrino com nome francês e sobrenome holandês chegasse ao pequeno sobrado de pedra com grades altas e grossas de ferro arcaicamente enferrujado.
Sabia que estava agindo precipitadamente, sabia que entrar em sigilo no Tadjiquistão, perguntar pelo nome de Mardov nos becos do submundo, roubar, espancar e ameaçar seus homens e bater à porta da frente do covil de um homem que foge de algumas das mais poderosas instituições do mundo, não era exatamente o que se chamaria de um plano prudente e bem arquitetado. Mas Claude sabia improvisar, sabia pensar rápido, e tinha consigo que somente isso poderia mantê-lo no controle da situação toda.
Com movimentos felinos e inauditos, ele se esgueirou escondeu, saltou por sobre grades e nocauteou dois guardas do portão sem emitir um único ruído. Pegou suas armas, os amarrou ao portão e, com a maior naturalidade que seu amadeirado semblante permitiu, acendeu um charuto, caminhando até a grande porta igualmente amadeirada da frente, batendo nela com três pesados golpes. Uma pequena janela de deslizar correu lateralmente, revelando um par de olhos azuis e um cano metálico que parecia de uma .45 norte-americana. O homem grunhiu algo interrogativo em idioma Tadji, que Claude incompreendeu por completo. Deu uma longa tragada no charuto. A fumaça esvaiu, revelando aos olhos azuis um Claude de cabelos grenhos e ensebados, sujo, malcheiroso e que não fazia barba a mais de uma semana. Tirou o charuto da boca e disse aos olhos e ao cano, no mais puro e legítimo inglês que conhecia.
“Diga ao senhor Mardov que ele tem uma adesão”
Por
Victor Caparica
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4/06/2009 05:04:00 PM
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Temporada de Caça
Era inacreditável. Oito assaltos em um mês. Dois bancos na Suíça, três museus entre a Itália e a França, e acervos pessoais de arte no Canadá, na Rússia e na Inglaterra. Títulos de ações ao portador, diamantes, obras de arte super-avaliadas, sempre coisas que podiam se tornar milhões de dólares rapidamente. Nenhum rastro. Pouquíssimas informações concretas. Das oito vítimas, quatro eram clientes preferenciais da Nistelroy Security Technologies. Desses quatro, três tinham seguro parcial contra roubos, o que significou ao final do mês uma duplicata de 11 milhões de dólares à Nistelroy Security. Em um mês onde o Crusade já fizera um volumoso e milionário saque dos cofres da empresa para pagar aos Black Ops – e Claude não gostava sequer de se lembrar daquilo – era causa suficiente para tirar o sono e a tranqüilidade do jovem empresário.
Súbito, um estalo, um lampejo luminoso dentro da mente de Claude, e em seguida um lampejo luminoso no quarto, revirando papéis e deixando cair de uma vez por todas a comida chinesa no chão. A duzentos quilômetros dali, e se afastando rápido como um raio, o Lightning disparava em direção a Londres, local do último assalto. Uma vez diante do prédio, propriedade de um magnata inglês que perdera três quadros de Degas com o assalto, Claude rapidamente adentrou o salão, cena do crime. Aproximou-se do cofre, um USR-536, tecnologia de última geração. Haviam categoricamente três formas de se abrir aquele equipamento. Atravessando o metal, por força ou incorporealidade, abrindo o sistema com um modem remoto e tomando o controle do dispositivo – opção mais plausível, embora se tratasse de uma tarefa árdua, ou pela manipulação dos ferrolhos e mecanismos internos da trava por meio de ímãs hipercarregados. A terceira opção era, por incrível que pareça, mais improvável do que a primeira. Tanto porque ímãs desse nível eram muito difíceis de se conseguir quanto porque a habilidade necessária para executar tal peripécia era própria de, no máximo, quatro pessoas no mundo, e Claude era uma delas.
Levou a mão direita ao cofre, encostando nele um sensor e ligou-o a um pequeno computador que segurava. Um software simples começou a medir, em altíssima precisão, o campo magnético da superfície metálica, traçando um desenho sobre a tela. Muito mais indignado do que surpreso, Claude suspirou novamente. Fazia sentido. Fazia todo o sentido.
Uma semana mais tarde. Cidade do México. Madrugada. Em um quarto de hotel barato, deitado sobre a cama, Claude bebia um milk shake de chocolate, enquanto na tela do laptop ao lado, diversas leituras corriam pelo display. Vinte e sete sensores instalados na propriedade do bilionário mexicano Carlos Slim. Claude estava tranqüilo. Sabia a quem procurava, conhecia muito bem aquele jogo e isso lhe dava a segurança necessária para não cometer erros. Se suas suposições estivessem acertadas, seria exatamente ali o próximo roubo. Se estivessem erradas, estaria fazendo papel d idiota a milhares de quilômetros do lugar onde deveria estar. Sorriu. Sabia que não se enganava, e a confirmação veio quando os sensores dispararam alarmes de leitura no laptop. Levantou os olhos em direção da tela. Impressionante. Sem temperatura, sem barulho, sem imagem visível. Um fantasma.
Exceto pela alteração na pressão atmosférica do salão de jóias da família Slim. Claude gargalhou. Sentia-se daquela forma, como um gato que pegou o pardal, sempre que uma idéia nova da Nistelroy funcionava bem. Claro, fazia pouco sentido usar sensores de pressão atmosférica em um ambiente com imagem, som e temperatura já monitorados.
A menos que se tratasse da pessoa que Claude procurava. Um novo clarão, mais papéis voando e um milk shake sujando o assoalho, e o Lightning já estava diante dos jardins da propriedade.
Dentro da sala reservada às jóias, antiguidades e obras de arte da família Slim, o ambiente estava escuro, iluminado apenas por suaves lâmpadas vermelhas nas paredes. Eram suficientes para alimentar as câmeras de vigilância, e não agrediam desnecessariamente as pinturas expostas pelo ccômodo. Sem que ruído algum fosse emitido, a tampa superior do duto de ar condicionado se moveu. Uma suave e finíssima fumaça começou a espalhar-se em direção ao ambiente, revelando dúzias de filamentos infravermelhos que cortavam o salão em várias direções. Ágil e equilibrada como um gato, a figura sombria do invasor esgueirou-se pelo teto, evitando sensores e aproximando-se de uma das vidraças de exposição, onde era possível ver um amuleto de aparência Azteca. Deslizando do teto em direção a seu objetivo, silencioso e delicado como uma aranha, o gatuno pairou diante do vidro e começou a manusear alguns instrumentos eletrônicos. Ligou uma ponta cristalina a um pequeno dispositivo, e o ativou. Um campo circunferencial de laser de microcorte se formou, e um disco perfeito foi destacado da redoma. Com a frieza de quem já treinara muito aquele movimento, esgueirou a mão direita para dentro do vidro, apanhando e trazendo para junto de si o amuleto.
“Devo admitir, colega, que o gerador de campo acústico estacionário foi brilhante, e que o traje fotorefratário invisível ao espectro vermelho foi absolutamente genial ...” virando-se abruptamente para trás, o ladrão pôde ver a imponente figura do Lightning, em seu traje vermelho e dourado reforçados ainda mais pela luminosidade do lugar. Estava sentado sobre uma bancada ao lado de um vaso chinês, batendo discretas palmas ao interlocutor, que pareceu notavelmente assustado.
“Não precisa se preocupar, os sistemas não vão nos acusar aqui, cuidei disso ao entrar. Somos só nós dois aqui, menininha.” Disse, acendendo um cigarro e retirando a máscara. O invasor se aproximou silencioso de Claude, e tirou também o capuz. Os longos cabelos negros correram por suas costas, revelando uma solitária mecha cor-de-rosa e um delicado rosto de mulher que, apesar de lindo, parecia raivoso e contendo uma explosão de fúria. Rosnou, impaciente.
“O que diabos você quer aqui, Claude?!”tão logo disse isso, foi em um estampido surdo e abafado levada pelos braços do inglês até a parede do outro lado da sala. Pressionada contra o concreto pela mão direita do homem, Victoria Lupin, a famosa ladra que se auto-denominava Pink Panther, notou que ele não estava tão brincalhão como de costume.
“O que eu quero aqui? Quero onze milhões de dólares que a senhorita me causou em prejuízos no último mês, quero saber para quem você está trabalhando e, mais do que qualquer outra coisa, quero que você pare de roubar meus clientes preferenciais!”seus músculos conduziram pequenas cargas elétricas azuladas pela superfície de seu uniforme, dando-lhe um aspecto muito apropriado a seu humor. Ela sorriu, passando os braços pelo pescoço do jovem e dando-lhe um beijo nos lábios. Em uma primeira metade de segundo, ele correspondeu, afastando-se dela logo em seguida.
“Merda, Victoria! É tudo brincadeira para você? Eu não sou mais o Esquiva-Balas, eu não estou mais nesse jogo! Você -”aproximou-se novamente dela, agora atento a seus movimentos. Sabia o quanto ela era perigosa, e que qualquer distração seria o bastante para que ela escapassse “Você vai me dizer para quem está trabalhando, e vai ser agora”
Ela sorriu, novamente. Pegou o cigarro da mão de Claude e deu um trago.
“Onze milhões? Francamente, Claude Monet Nistelroy, você já teve mais classe. Eu não pedi onze milhões emprestados, mon cher, eu os roubei de você. Quer eles de volta? Roube de mim. Quanto a parar de roubar seus clientes, bom, eu não queria colocar as coisas dessa maneira, mon amour, mas se você não consegue mantê-los em segurança ...” novamente, um sorriso pueril. Claude segurou-se, queria joga-la pela janela. Era exatamente o que ela queria que fizesse, estava o provocando. Respirou profundamente, conhecia aquele jogo.
“Se eu quisesse roubar você, menininha, não teria dinheiro nem para tingir o cabelo de rosa. Quanto aos meus clientes, eu te peguei hoje, e agora que sei que é você quem estava me roubando, posso te pegar sempre. Conheço suas técnicas, garota, ensinei metade delas para você. E você ainda não respondeu a pergunta mais importante ...”
Victoria voltou os olhos para Claude, em uma atitude cênicamente disfarçada, e com o ar de quem não entendeu, perguntou cinicamente “Hum? Qual pergunta?” parecia querer de alguma forma ganhar tempo.
“Você tem dinheiro, não precisa se tornar milionária e pode roubar qualquer coisa que não possa comprar. Agora, eu te conheço bem o bastante para saber que você não gosta de artes impressionistas, nem coleciona amuletos nativo-americanos. Assim, é evidente que alguém te pagou para fazer isso, o que me leva à pergunta: quem está interessado nessas peças?”
“Uma pena que eu não vá poder responder isso, não é mesmo, mon petit?” ela gostava de usar aquele francês vagabundo, tudo para provoca-lo. Ele a encostou novamente contra a parede, ainda que dessa vez sem forçar.
“É claro que você pode. Eu não vou te prender, e seja quem for não vai poder te fazer nada ... Então fale!” sentiu uma náusea ao dizer aquilo. A jovem o devolveu para trás com a mão sobre seu peito, e olhou para a entrada do ar condicionado.
“Claude, meu anjo, não é nada disso. Eu só não vou poder te responder porque você não estará acordado para ouvir, e além do que estou com pressa, o sedativo só deve te derrubar por alguns minutos ...”
Sentiu a cabeça girar. A náusea aumentou e as pálpebras começaram a pesar. Pensou em desacorda-la antes de desmaiar, mas deteve-se tempo demais tentando imaginar como diabos aquela maldita trapaceira o sedara.
O batom. Claro. O batom, seu cretino.
Por
Victor Caparica
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7/02/2008 11:08:00 AM
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Horóscopo
“Bom dia, senhorita Bryant, são sete horas e onze minutos, a senhorita pediu para ser acordada, está certo?” pronunciou aquelas palavras como se já tivesse acordado mil pessoas com aquela frase. Alisia respondeu um “muito obrigado” como se já tivesse sido acordada por mil recepcionistas com aquela frase.
Levantou-se. Agora o fósforo já se assentava no cérebro e ela lembrou que estava no Hilton Plaza, em Londres. Levou as mãos à cabeça. Era verdade, tinha compromissos para aquela manhã, e o primeiro deles era o mais importante.
Levantou-se e caminhou até o chuveiro. No banho, pensou no que estava fazendo em Londres e em tudo que acontecera na última semana. Ainda não conseguia deixar de pensar em Richard com mágoa, apesar de já ter os pensamentos melhor assentados. Sabia que havia exagerado, que não devia e nem podia julgá-lo por seus atos. A maioria das pessoas que tinham super-habilidades se preocupava mais em dominar do que em ajudar o mundo. Não, uma caçada por vingança pessoal motivada por meia dúzia de brinquedos quebrados não era certa, e nenhuma boa ação do mundo o eximiria da culpa. Mas e quanto a Robert Porter? Ele morreu dilacerado em uma cama ensopada com seu próprio sangue, e o fato de que ele era um assassino estuprador também não a eximia do remorso. Enxaguou os cabelos e retomou a linearidade do pensamento. Não estava partindo por conta de Richard. Isso também não significava que estava disposta a trabalhar novamente com ele. Não podia mais confiar nele.
Oito e dez da manhã, hora de Greenwich. Uma paisagem caribenha de céu azulado e praias da mais cândida areia emoldurava uma cena envolvendo Claude Nistelroy e três jovens Third Steppers. Súbito como um relâmpago, o estrondoso e catastrófico rugir do despertador irrompeu através do quarto, estraçalhando céus, areias e mulheres com o impiedoso soar da manhã. Ainda um tanto desnorteado com o retorno, Claude estendeu a mão até o despertador, desejando que seus poderes geneativos incluíssem rajadas laser.
Olhou para o relógio. Devia estar em sua sala a dez minutos atrás. Muito pior, Klaus devia estar no ônibus da escola a quinze minutos atrás. Detestava entrar em velocidade ampliada logo que acordava, mas a situação urgia. Antes que o colchão notasse a ausência de seu corpo e pudesse retomar o formato original, Claude já havia passado pelo quarto de Klaus e notado que o menino não estava lá. Correu até o computador e solicitou a visão das câmeras da escola. Privilégios de quem havia desenhado o sistema de vigilância e segurança da escola do próprio filho. Lá estava ele, sentado na última carteira do fundo da classe. Devia ter acordado sozinho e apanhado o ônibus sem acordá-lo. Era independente com sete anos de idade, o que fazia Claude ponderar sobre o que aconteceria se ele desenvolvesse poderes. Não tinha tempo para pensar naquilo às oito e onze da manhã.
Em um clarão de luz seguido de um estampido surdo de som, Claude cuidou de tomar banho, fazer a barba e se trajar com um elegante terno marrom de corte italiano discreto. Oito e doze, e o elevador que o conduzia através de trezentos metros de rocha que separavam o Poliedro – base de operações de Lightning e lar secreto dos Nistelroy – do prédio da Nistelroy Security Technologies de Londres já o entregava no sexto e último andar da construção.
Parou por um segundo diante da porta. Abriu o celular e, enquanto sensores espalhados pelas paredes faziam dezenas de leituras por seu corpo em diferentes comprimentos de onda, o milionário acompanhava os resultados na tela do portátil. Era o protótipo NISS-6942, já em fase final de testes para ser aplicado ao Consulado do México, seu mais novo cliente. Um suave ruído, seguido do acender de luzes, anunciou a liberação de acesso ao andar. Uma voz feminina sintética e agradável desejou-lhe bom dia.
Olhou por sobre sua mesa enquanto ligava o notebook. Uma garrafa de café, certamente servida por Rosemary às oito em ponto. E o jornal, ah, como começar o dia sem o jornal?
Sentou-se esparramado em sua enorme poltrona de couro e, enquanto colocava café em uma xícara, começou a passar rapidamente os olhos pela primeira página. Atentados no Japão, resgate de vítimas na Costa Oeste dos EUA, eleições na França. Nada de mais. Tomou um largo gole de café e, enquanto apertava o botão do aparelho telefônico que chamava Rosemary, virou a página do jornal. Achou graça ao ler o horóscopo do dia. Áries, de 20 de Março a 20 de Abril. O dia é propício para mudanças, seja favorável a convites inusitados. Cor da sorte: Azul. Número da sorte: 4.
Uma voz feminina, mas agora bastante natural e muito menos agradável, soou do viva-voz. “Para alguém com suas habilidades, senhor Nistelroy, o senhor compromete seriissimamente a reputação da pontualidade inglesa...” a voz de Rosemary era casual e cínica, demonstrando que mais infalível do que a pontualidade era o sarcasmo britânico. Divagou por mais um instante, como conseqüência do sono deixado ainda a pouco na cama. Rosemary era sem dúvida a mais imprescindível dos mais de mil empregados que compunham a Nistelroy Security Technologies. Mais até do que o próprio Claude. Sabia das senhas, dos compromissos, dos clientes secretos, do passado criminoso de seu patrão e até mesmo de sua vida oculta como Lightning. Era a pessoa em que o até mesmo o ladrão confiava. Quarenta anos, nenhum filho, nenhum parente vivo e um pós-doutorado em Administração de Empresas. Lembrou-se dos heróis da ficção e concluiu que, sem dúvida, todo super-herói deveria mesmo ter um Alfred em quem possa confiar.
“É o sangue francês, Rosie, meu fuso horário está em Paris, cherí” sorriu, fechando o jornal e voltando-se para o computador. “Tenho algum compromisso urgente para o qual já esteja perdendo hora nesse momento?” perguntou, um tanto temeroso da resposta, que nunca era muito boa naqueles contextos.
“Só a senhorita Alisia Bryant, da ONU, que o está aguardando aqui embaixo desde as oito. Devo manda-la subir?”
Alisia. Claude engoliu seco como que em um reflexo. Havia conversado no telefone com Nicholas na manhã anterior e ficara sabendo do conflito entre ela e Crusade. Ela havia deixado a equipe de Nova York, mas Claude não fazia a mínima idéia de o que ela poderia querer ali.
“É claro que pode, traga também chá verde, ela gosta bastante. Ahn, pode por favor deter todas as ligações para a minha sala enquanto ela estiver aqui?” Rosemary respondeu afirmativamente e Claude desligou o telefone. No tempo que decorreu até que ela entrasse na sala, conseguiu ponderar quatro possibilidades para o que a jovem diplomata poderia querer. Fechou os olhos e torceu para que não fosse a terceira possibilidade.
“A senhorita pode subir, o senhor Nistelroy a está aguardando em sua sala ...”
Alisia levantou-se e ajustou a barra da calça de tom pastel que delineava suas formas femininas perfeitas. Não usava roupas civis todos os dias, normalmente preferia moldar roupas de luz sólida e vestir-se de ilusões, mas naquela manhã sentiu a necessidade de algo mais real. Agradeceu e dirigiu-se ao elevador. Conhecia bem o caminho, e podia ver nitidamente cada uma das dúzias de câmeras e sensores espalhados e minuciosamente escondidos pelos corredores e portas. Chegou ao último andar e observou ainda de dentro do elevador que não havia mais ninguém ali. Tentou olhar dentro da sala de Claude. Finas camadas de espelhos sobrepostas por entre o concreto e a alvenaria bloqueavam completamente sua visão. Muito inteligente, pensou, um lugar onde nem mesmo os amigos podem observa-lo. Chegou à porta e abriu, sem bater.
“Onde está a diplomacia canadense, meu Deus?” brincou o inglês, acerca da entrada sem bater na porta. Ele levantou-se e deu três passos até ela, observando cuidadosamente suas vestes e, inevitavelmente, perguntando-se se o que ela vestia eram mesmo roupas ou apenas luz. Era difícil, de qualquer forma, não se distrair da conversa com uma mulher tão deslumbrantemente linda.
“Creio que esteja no Canadá. Já tem um bom tempo que não nos vemos, senhor Nistelroy, como está Klaus?” ela tinha aquele suave tom que misturava uma finíssima ironia com a maciez de palavras amigas. Claude a abraçou e deu-lhe um beijo no rosto. Tentou deduzir algo das roupas pelo toque, mas não pôde ser conclusivo.
Sentaram-se. A porta foi aberta novamente e Rosemary entrou na sala carregando uma bandeja com chá verde. Claude e Alisia agradeceram e, tão logo a secretária os deixou, voltaram-se um para o outro.
“Você deve estar se perguntando porque eu vim para cá, certo?”
“Imagino que não tenha sido para provar a mundialmente famosa culinária inglesa. O que aconteceu em Nova York?” Claude cruzava as pernas e colocava mais café em sua xícara. A pergunta eliminou a primeira hipótese.
“Mundialmente infame, você quer dizer. De fato, não. O que aconteceu em Nova York você já sabe, é evidente. O porquê, isso realmente não faz mais diferença alguma. Eu preciso de sua ajuda, Claude.”
Segunda hipótese descartada. Torceu para que não fosse mesmo a terceira. Deu um gole no café e, quando a jovem acendeu um cigarro, não conseguiu deixar de pedir um. Fez sinal para que ela prosseguisse.
“O que sabe dos MaxCops?” perguntou, incisivamente. Ainda não descartava totalmente a terceira hipótese, mas fez com que Claude ponderasse acerca de onde ela queria chegar.
“Projeto da MaxCorp que conseguiu legitimidade legal para patrulhar as ruas de Londres. A opinião pública a respeito deles é dividida mas os favoráveis têm crescido em número ... Nada que não esteja nos jornais, porque?”
Alisia abriu uma pasta e apanhou alguns papéis, estendendo-os para o milionário. Ele folheou em um micronésimo de segundo e, em seguida, retornou um olhar assustado para a bela mulher.
“MaxCops pelo mundo? Ele quer formar uma nova ISC?”
“Ele já tem algo próximo disso. O primeiro passo agora é conseguir instalar a MaxCorp como mantenedora da ordem pública na América do Norte. Lá terão uma vitrine mundial que certamente fará outros governantes a se questionarem sobre se não valeria a pena tercerizar o problema da criminalidade. Entende o que isso acarretaria, Claude?”
“Eles teriam controle sobre a inocência ou culpa dos civis que interessassem a Maxwell. Poderiam criar unidades governamentalmente amparadas para impedir a ação de super-humanos que não trabalhassem para o maldito ... Quando isso vai acontecer?”
“Em dois meses haverá uma assembléia governamental na ONU que decidirá a aprovação ou não de uma unidade experimental em Nova York e em Montreal. Eu estou fazendo de tudo para ser nomeada para discursar nessa reunião, mas isso não vai bastar, e é por isso que preciso de você.”
Claude engoliu seco novamente. Não queria mais pensar nas quatro hipóteses, então olhou para Alisia e fez a pergunta crucial. “E no que consiste essa ajuda?”
“Eu estou tirando férias da vida como Sunshine durante esses meses. Primeiro porque tenho trabalhado demais e o stress começou a comprometer a clareza de algumas escolhas que tenho feito. Segundo, porque não tenho mais o menor desejo de voltar a trabalhar com Richard Teabing nos próximos vinte ou trinta anos. Finalmente, porque nesses meses pretendo permanecer em Londres e investigar até o último beco dessa cidade atrás de sujeiras da MaxCorp que possam ser utilizadas para impedir que essa loucura vá adiante.” Alisia interrompeu-se quando Claude levantou, com olhar cinicamente ingênuo, a mão. “Sim?”
“Eu não perguntei a razão de ter se afastado, mon amour, eu perguntei no que consiste a judá que me envolve ...”
Alisia sorriu e respirou um pouco mais fundo. Ele era irritante e provocativo, e era exatamente o que o fazia um adversário patético porém divertido para retórica. Decidiu cortar diretamente ao ponto.
“Eu quero usar o Poliedro nesses meses, e quero que você vá para Nova York trabalhar com eles.”
Silêncio. Não era a terceira hipótese. Nem a quarta. Perguntou-se sobre se Richard teria pensado nessa quinta hipótese ou mesmo em outras dezenas que não lhe vieram à mente.
“E o que eu vou fazer em Nova York, pelo amor de Deus?!” exclamou, estupefato pela inesperabilidade do pedido.
“Ajuda-los. Sem mim eles estão com uma baixa estratégica de suporte em combate. Você tem o cinismo necessário para lidar com Crusade e é o único que conhece a equipe bem o bastante para me substituir. Além disso, e agora o mais importante, se Maxwell souber que o Lightning está atuando na América do Norte, vai diminuir suas ações por lá em vista do processo iminente da MaxCops e descuidar-se em Londres, onde eu estarei observando cuidadosa e silenciosamente.”
Claude odiava aquilo, mas Alisia sabia unir elementos retóricos aparentemente soltos em um discurso que, para quem partilhava o momento da performance, convenciam como o diabo.
“E Klaus? Ele está em época de provas na escola, não posso simplesmente tira-lo de lá agora!” não sabia muito bem o quanto daquilo era pelo menino e o quanto era por si próprio. “Além disso, onde vou morar em Nova York? Eu não tenho nada contra Richard, mas não quero morar em algum lugar onde não controlo os sistemas de segurança!”
“Fique tranqüilo, querido. Eu pensei em tudo, olha só: vocês vão morar no meu apartamento de cobertura em NY, pertinho do prédio da ONU e de uma excelente escola. E quanto a Klaus, ele pode fazer as provas lá, deixe toda essa parte de burocracia comigo, certo?”
Claude respirou fundo e, consciente de que não possuía a eloqüência necessária para dissuadir a diplomata de cabelos e olhos dourados, olhou vencido para o jornal dobrado sobre a mesa e só conseguiu pensar no horóscopo do dia.
Áries, de 20 de Março a 20 de Abril. O dia é propício para mudanças, seja favorável a convites inusitados. Cor da sorte: Azul. Número da sorte: 4.
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Victor Caparica
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12/24/2007 12:25:00 AM
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Dia das Crianças
Algumas centenas de metros acima, voando a duzentos quilômetros por hora, gentilmente envolvido pelos braços e seios de Alisia Bryant, e protegido por um campo invisível de luz densa, estava o pequeno menino Klaus Kohler van der Nistelroy. Enquanto o cenário passava deslumbrante por seus olhos arregalados, o garoto só conseguia esboçar como reação um sorriso largo e honesto em seu rosto. Era a melhor sensação do mundo, era incrível. O vento não agredia seu rosto, nem bagunçava seus cabelos, o campo de força impedia aquilo. Só o que tinha era a magnitude máxima da sensação da gravidade em sua barriga e a vista inacreditável que o passeio proporcionava. Em poucos segundos já estavam sobrevoando a cidade, e minutos depois passavam pela costa da Irlanda. Alisia não dizia nada, apenas deixava que o menino aproveitasse a viagem e, vez ou outra, comentava sobre o nome dos lugares que estavam sobrevoando. Klaus mal podia ouvir, embasbacado pela experiência.
A cerca de 300 metros abaixo e centenas de quilômetros a Sudeste, no terraço da Nistelroy Security Technologies, Claude estava sentado no mesmo ponto em que dissera até logo a Klaus e vira Sunshine desaparecer com ele nos céus. Pelo comunicador, podia ver e ouvir tudo pelo ângulo de Sunshine. Ela era fabulosa. Havia telefonado para o prédio das Nações Unidas no dia anterior perguntando se ela poderia lhe fazer um favor. Nove da manhã, ela chegou no terraço exatamente às nove da manhã, e nem era britânica. Dos últimos Dias das Crianças, Klaus estava mais empolgado com aquele. Por algum motivo, a idéia de voar o fascinava. Claude tinha medo daquilo, torcia sinceramente para que ele se tornasse piloto de caças, algo muito mais seguro do que a outra possibilidade. Sete anos e ainda não conseguia se sentir completamente pronto como pai. Tinha uma tarefa no mundo, um ideal pelo qual lutar, mas não conseguia – e sabia que não devia – deixar de lado suas responsabilidades paternas.
Em meio a divagações, o inglês notou pelo visor que eles já estavam se aproximando do prédio. Olhou para o relógio, tinha pedido uma hora e ela já estava no ar com Klaus a quase duas. Viu com o olho esquerdo o terraço do prédio se aproximando da visão de Sunshine, enquanto o olho direito via um facho de luz vindo em sua direção. A meio metro do chão, ela desacelerou e ambos pousaram suavemente, Alisia colocando o pequeno Klaus no chão. Em meio a inúmeros pedidos de bis do menino, Claude agradeceu a Alisia pela gentileza. Após dar um beijo no rosto de ambos e dizer que não foi nada, ela partiu novamente nos céus, dizendo que precisava voltar para a ONU.
"Ela é legal" deixou escapar, enquanto se aproximava instintivamente das pernas do pai. Claude assentiu com a cabeça. Era estranho, ou nem tanto, mas ele confiava em Alisia, Nicholas e Gunther o bastante para entregar-lhes nas mãos a vida de seu próprio filho, a coisa mais importante que tinha.
Caminharam pela cidade, Klaus queria comer porcariadas e comprar quadrinhos. Na banca de jornais do shopping, enquanto escolhia as revistas, Klaus observava silencioso seu pai sentado na mesa da cafeteria ao lado. Sabia que ele não era como as outras pessoas, pelo menos não como a maioria. Ele podia fazer coisas diferentes, podia ir rápido de um lugar a outro sem que ninguém visse. Ele nunca se machucava, nunca ficava doente como os pais de seus amigos. Olhou para a revista em suas mãos. Na capa, um herói impedia um trem. Sabia quem era aquele herói, seu pai já havia lhe dito. Conhecia mais da metade dos super-heróis de verdade do mundo. Adorava, muito mais do que ler quadrinhos, de ouvir seu pai contar-lhe as histórias dele e de seus amigos. Nunca contara isso, mas seu personagem favorito era Impacto, e não seu pai. Gostava dele, mas não achava que ser rápido era tão legal quanto ser forte.
Pegou as revistas e deu o dinheiro ao jornaleiro. Contou o troco e guardou, organizadamente, em sua carteira. Notou que o jornaleiro o olhou admirado. Era um menino que aparentava nove anos, mas era muito mais inteligente que seus amigos, sabia disso. Na escola, se esforçava para não chamar tanto a atenção, afinal era extremamente tímido e falava muito pouco com qualquer um que não fosse seu pai. Mesmo assim tinha as melhores notas da classe e era um aluno prodígio nas aulas de ginástica. Achava que, assim como seu pai era diferente dos outros, ele também devia ser. Lembrava que uma vez havia perguntado a seu pai se ele também ia ter super-poderes. Ele desconversou, dizendo que estudar e ter conhecimento era o maior poder que existia. Não acreditava mesmo naquilo, preferiria mil vezes ter super-força. Sabia que Claude o queria um estudioso, mas tinha outros planos para si. Mesmo que não ganhasse super-poderes, sabia que era rápido e esperto, e queria ser um grande ladrão como seu pai era antes de ser herói. Deteve seu pensamento ao lembrar-se da interminável e severa bronca seguida de castigo que seu pai lhe aplicara da última vez que falou disso. Decidira então não falar mais, mas sem desistir, absolutamente, da idéia. Victoria tinha reagido melhor, até o ensinou como abrir cadeados e trancas simples, mas advertindo para que nunca fizesse aquilo em casa. Aprendera também com ela que o grande ladrão é aquele que não deixa pistas. Ainda tentava entender direito aquilo.
Sentou-se à mesa junto de seu pai. Colocou as revistas ao lado da xícara de café e pediu um refrigerante. Claude pediu a bebida ao garçom e pediu para que Klaus fechasse os olhos e abrisse as mãos. O garoto atendeu ao pedido e Claude colocou em suas mãos um pequeno microchip de silício e ouro.
"O que é isso?" perguntou o menino, olhando um tanto desinteressado para a peça. Claude respondeu que era um microchip como todos os outros milhares que tinha na oficina da Nistelroy, mas que esse tinha um detalhe diferente. Veio do futuro de outra dimensão. Havia tirado das peças que trouxera da base futurista da Extreme. Era um chip ordinário, um dos poucos do aparelho que podia ser substituído por tecnologia da Terra atual. Mas, no momento em que Klaus ouvira sobre a origem do objeto, o mesmo ganhou um aspecto completamente novo e misterioso. Era de outra dimensão.
Todo ano era assim. Klaus sabia todo ano que aquilo aconteceria. Seu pai nunca o levava a parques ou circos no Dia das Crianças. Esse lugares Klaus freqüentava sempre que queria, seu pai sempre o ensinara a cuidar e administrar o próprio dinheiro. O Dia das Crianças era algo que todo ano era especial. Depois, iam fazer compras e seu pai sempre lhe dava algo diferente de tudo, que o dinheiro nunca podia comprar. Dizia que era justamente para que ele entendesse que nem todas as coisas do mundo estavam à venda. Os amigos, por exemplo, ele dizia. No ano passado Klaus conheceu o fundo do mar junto de seu tio Nicholas. Tio Nicholas, tio Gunther, tia Alisia. Não tinha tios de verdade, sabia daquilo, mas sabia que aquelas pessoas eram os que seu pai considerava como família. Sabia que nenhuma outra criança do mundo tinha Dias das Crianças como aqueles, e imaginava que fosse o jeito de seu pai para compensar o tempo fora de casa, o fato de nunca poder chamar amigos para brincar em casa, ou o fato de que casa para ele era uma base subterrânea servida por sistemas computadorizados. Sabia que era assim sua vida, e que era assim que tinha que ser. Não podia contar a ninguém sobre seus Dias das Crianças, sobre como seu pai salvou o mundo naquela semana, sobre a Melon Soda que só vende no Japão e que seu pai trazia todo dia. Quando as aulas voltavam, sabia que, enquanto as outras crianças inventavam coisas extraordinárias que não haviam acontecido para suas redações de "Minhas Férias", ele teria que inventar quatro semanas de histórias chatas e sem graça, porque absolutamente não podia contar o que havia acontecido de verdade. Primeiro porque não acreditariam, segundo porque não precisava da redação para saber que o seu havia sido o melhor dos Dias das Crianças.
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Victor Caparica
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8/03/2007 07:22:00 PM
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Dia dos Pais
Ouço as palavras de Victoria. Céus, como gosto dessa voz. Poucos programas me agradam mais do que visitar Victoria. Primeiro porque ela é linda, divertida, inteligente e também a melhor profissional do crime europeu depois de mim. Segundo porque ela gosta de Klaus, e Klaus gosta dela. Ele brinca com pedrinhas multicoloridas do jardim, desfazendo o minucioso desenho que algum jardineiro cobrou uma fortuna para moldar em pedras. Qualquer pessoa em sã consciência ficaria aborrecido, mas não Victoria, ela realmente gostava muito de Klaus, acho até que mais do que de mim. Ele joga uma pedra para o alto e, com a mesma mão, apanha outras 4 dispostas em quadrado no chão para em seguida agarrar com a mesma mão a pedra lançada ao alto. Ele só tem sete anos, acabou de entrar na escola, mas demonstra uma agilidade física e capacidade de entender as coisas que sinceramente me assustam.
redispõe as quatro pedrinhas e me entrega a maior, pedindo para que eu tente. Sorrio novamente e jogo a pedrinha para o alto. Ele não olha para ela, mas sim para minhas mãos. É esperto, sabe as coisas que posso fazer e, por não entendê-las muito bem, observa. É disso que Decido-me por ignorar o chamado de Victoria e sento no chão, ao lado de meu filho. Ele me olha e sorri, dispõe novamente as pedrinhas no chão e repete o movimento, me mostrando que é bom nisso. Eu bato palmas e, pela primeira vez em semanas, deixo que um sorriso se abra. Eletenho medo. Dessa Inteligência. Ele é muito mais esperto que as outras crianças da escola, tem facilidade para tudo, é forte como um menino de nove anos e desde que eu consiga me lembrar, nunca pegou um resfriado ou teve febre nem mesmo quando bebê. "O primeiro filho de um Next Stepper" foi o que disse o Dr. Scheimmer quando o seqüestrou. E o que isso quer dizer? Eu descobri ser filho de um Second Stepper, isso me deu poderes e me tirou o sossego na vida. Mas existe a possibilidade de não ser nada disso. Sim, ele pode ser só geneticamente privilegiado e nada além disso. Sete anos, Robert, sete anos desde que você morreu e Klaus nasceu. Lisa morreu sem saber ela própria qual de nós dois era o pai de Klaus. Eu poderia resolver isso, poderia fazer um exame de DNA dentro de minha própria base e pedir para Nicholas interpretar os resultados. Mas, para quê? O que muda se ele for mesmo filho de Robert? Robert está morto, Lisa também. Somos nós dois, meu filho, os últimos Nistelroy. Ainda bem que você é homem e vai ter a chance de repovoar o mundo com nossa espécie.
Me pego divagando com a pedrinha quase começando a cair. Ele continua fixado em minhas mãos. Eu espero. Espero até que a pedra maior se coloque exatamente no caminho entre seus olhos e minhas mãos. Então pego as quatro pedrinhas, coloco-as sobre a palma de sua pequenina mão e apanho a maior, bem diante de seus olhos. Ele dá um pulo, posso fazer isso mil vezes e ele não se cansa. Morre de rir, como uma criança que viu um truque de mágica.
- Escutem, vocês dois não sentem fome, não?
Ela veste uma calça de ginástica colante e um top. Devia estar correndo na esteira. A sete anos, desde que Klaus nasceu, ela me telefona convidando para passar a tarde com ela. Hoje é Dia dos Pais, e ela é a única pessoa que telefonou. Ela se senta a nosso lado no chão e percebe que Klaus desmanchou seu jardim de pedras de três mil dólares. Ao invés de ficar brava, ela segura o menino no ar e o coloca sentado no canteiro de pedrinhas coloridas, apanhando punhados com as mãos e os jogando suavemente sobre a cabeça de Klaus. Eles riem. Eu estou distante, penso nele. Penso em quanto tempo passo nas ruas literalmente correndo atrás de criminosos, apanhando de Robôs gigantes, viajando para Saturno, viajando para outras dimensões. Penso em quão pouco é o tempo que passamos juntos. É claro, eu passo mais tempo com ele do que com o uniforme, mas ainda assim é pouco. Ele é meu filho, meu único filho e minha única família no que se refere à genealogia. Amo esse menino, mais do que já achei que amaria alguém. Mais do que a mim mesmo, mais do que amei Lisa, mais do que amo os irmãos que conheci como Lightning. Ele está crescendo, fala pouco com estranhos, mas porque prefere ouvir. Comigo, fala pelos cotovelos, mas pergunta muito mais do que afirma. Ele sabe sobre meu segredo. Sabe que o homem de uniforme com raios nos jornais é seu pai. Sabe que não pode deixar que ninguém descubra nunca. É inacreditável, não faz nenhum sentido, mas de todas as pessoas que conhecem minha identidade como Lightning, a que mais me inspira confiança é justamente este menino de sete anos que rola em meio a pedrinhas multicoloridas abraçado à mulher mais perfeita do mundo.
Eu me levanto, respirando fundo. Estava demorando até que demais para essa idéia aparecer de novo. Não, Claude, você não vai fazer isso. Sim, Klaus precisa de uma mãe, alguém que cuide dele e dê exemplos melhores que os seus. Sim, você também já passou da hora de parar com essa história de uma namorada por semana, seria realmente ótimo ter alguém para dividir as coisas, como o Nick faz com a Christine. Mas não, Claude, definitivamente essa mulher para cuidar de você e seu filho não é Victoria Lupin. Essa mulher linda de cabelos longos e negros com uma linda e sensual mecha rosa pode ser realmente encantadora, mas é sempre bom lembrar que ela é a última de uma linhagem secular de ladrões, os Lupin, descendentes do lendário ladrão de casaca, Sir Arnie Lupin. Klaus já será criado por um ex-ladrão, não precisa de uma ladra de primeira e na ativa como mãe.
Mas que idiota. Que belo idiota. Que belo, aliás, charmoso e veloz idiota que eu sou. Não, Claude, você não vai arrumar uma mulher de vida como a sua, não, arrumará uma dona de casa que certamente entenderá o fato de que seus amigos levantam carros e controlam água. Odeio, odeio mesmo quando chego a essas conclusões cretinas que fazem todo o sentido, mas são inevitáveis. Victoria não se importa em não ser mãe de Klaus. Para falar a verdade, se conheço bem essa mulher, deve ter feito laqueaduras para não correr o risco de engravidar e perder a forma física. Não a culpo, seria um desastre estético e profissional. Ela me olha, enquanto Klaus brinca com seus cabelos cor-de-rosa. A melhor parte de ser super-rápido é poder pensar com muita calma antes de falar, sem que a pessoa note que se está pensando. Ela vai me perguntar porque a estou olhando desse jeito. Empatia dos diabos, parece que ela está ouvindo cada pensamento meu desde que cheguei aqui. Eu devia aproveitar essa deixa, devia dizer que ela é linda e que quero jantar com ela essa noite, sem Klaus. Ela poderia deixar uma das empregadas cuidando dele e nós jantaríamos à beira do lago da mansão. Eu diria a ela o quanto quero alguém que entenda minha vida ao meu lado para cuidar de mim e de meu filho. Ela, bem, claro que ela não iria resistir, afinal de contas não é um galã qualquer de Hollywood, oras, sou eu!
- Por que está me olhando assim, Claude?
- ... não é nada, só estava pensando que estou ficando com fome, acho que Klaus também.
Ridículo, absurdo, mas de alguma forma eu simplesmente fico inseguro e nunca consigo. Olho para Klaus e pergunto se ele está com fome. Ele responde que sim, bom garoto, me poupou de arrumar outra desculpa. Às vezes me sinto tão ligado a ele que chego a acreditar que ele sabia no meu tom de voz que eu queria que ele estivesse com fome. Hoje é Dia dos Pais, meu sétimo Dia dos Pais, e pela primeira vez desde que Nicholas e Gunther foram embora para a América, estou verdadeiramente feliz.
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Victor Caparica
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8/03/2007 07:21:00 PM
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Making of: Claude Monet Nistelroy.
As influências na criação do cara foram várias porém muito bem definidas. O nome foi uma mescla. Claude Monet foi mesmo por causa do pintor impressionista Oscar Claude Monet. O sobrenome Nistelroy veio do jogador de futebol holandês Van Nistelroy, que eu queria usar já fazia tempo. Bom, ele era um inglês, filho de uma francesa com um sobrenome holandês, já tinha algo para começar.
Na época eu (e mais ninguém no mundo) assistia o seriado Thieves, na Warner Channel, que passava no SBT com o nome Os Vigaristas. Esse seriado era excelente mesmo mas não foi pra frente e só teve 10 episódios. Nessa série, o ator John Stamos interpretava o ladrão Johnny Miles. Refinado, irônico, cínico e sem nenhum senso de lei e ordem. Decidi usar o Johnny como modelo para o humano Claude.
Bom, eu precisava de uma história. Ele havia sido criado dentro da máfia francesa, seu pai era primo do chefão do crime de Paris, e quando o moleque ficou órfão ele foi morar com o tio. Anteriormente houve um outro tio, que só trabalhava para a máfia e se chamava Maurice, mas acabei tirando esse cara do rolo porque não tinha relevância alguma. Dentro da máfia veio o lance com Robert, seu primo/irmão, com o qual fora criado. Em uma versão "What If..." do Claude eu cheguei a trocar esse cara por uma mulher, de nome Nina Nistelroy. A versão What If ficou até legal, mas não tinha nada a ver, e além disso tinha surgido a Nina irmã do Nicholas. Deixei ela de lado, mais para a frente acabei transformando-a em outra personagem.
O lance com Robert foi que eles eram os melhores mesmo dentro da máfia, e competiam para saber quem era o melhor. Resolvi matar o Robert em uma disputa idiota por uma mulher, primeiro porque não sabia bem o que fazer com ele na época (e o Ariano Suassuna me ensinou a matar personagens que não têm mais uso). Segundo, porque isso criaria no Claude um pequeno senso de culpa e um maior de responsabilidade. Mais para a frente eu conversei muito com o Calliban e nós transformamos o Robert (que não morreu no acidente) em um vilão dos BlackOps, o Sniper.
Outro elemento de colagem na construção do Claude foi o único volume que tinha lido na época do Lobo Solitário. Me Apeteceu a idéia de ser o único no grupo com um filho órfão de mãe. Coloquei que a mulher da disputa que matou Robert era uma austríaca criada na França chamada Lisa Marie Kohler, e decidi que ela estava grávida de um dos dois. Assim tinha motivo para a disputa idiota, tinha uma dúvida montada no ar (quem é o pai do menininho), e dá o contexto para inserir no jogo o pequeno Klaus Kohler van der Nistelroy, atualmente (2017) com 7 anos de idade. A personalidade do garoto ainda não foi traçada, e acho que esse é justamente o momento ideal para escrever contos com ele.
Bem, o inglês tem mais personagens secundários. Ele se tornou um grande amigo do milionário norte-americano John Hasler, o Midnighter, que o ajudou a construir em 2016 o Poliedro, nos subterrâneos de Londres, sob o prédio da Nistelroy Security Technologies. Aquela personagem feminina que originalmente era sua irmã, foi transformada em uma ladra irlandesa de nome Victoria Lupin, descendente de Arnie Lupin, o lendário ladrão de casaca. Essa personagem é a única pessoa que Claude respeita como ladrão, e usa o codinome Pink Panther. Ele fez amizades com vários NPC's importantes, mas isso não é o ponto do Making Of.
Os poderes foram um problema. No início ele apenas era rápido e tal. Depois de um tempo fomos problematizando seu poder. Houve uma época em que ele retirava sua velocidade do calor, e perdia os poderes em ambientes frios. Como já havia visto com Alisia. é uma péssima restrição para um poder. Na segunda versão (momento em que ele se tornou efetivamente o homem mais rápido do mundo, na época do PL18), nós mudamos seu efeito colateral de poder para uma descarga de eletricidade causada pelo atrito com o ar. Isso, unido ao codinome que desde o princípio era Lightning, deu uma nova identidade para o herói. Baseado no Impulso dos Jovens Titãs da DC, ele ganhou regeneração (o que o tornou um cara muito difícil de se lidar). Confesso que não tenho a pretensão de que o Claude seja invencível, mas uma coisa que realmente aprecio quando jogo com ele é a dificuldade em ser atingido e – sobretudo – a capacidade de correr ao redor do mundo em uma Full Action.
Isso, é claro, e o fato de ele ser o ladrão mais estiloso do ocidente.
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Victor Caparica
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7/31/2007 06:55:00 PM
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Três Segundos
Faltavam três segundos. Enquanto suas pernas golpeavam a água sob seus pés, frenéticas e desesperadas como britadeiras, uma infinidade de elétrons da atmosfera era atropelada pelo inglês cuja mente, em pânico, só conseguia pensar na mesma coisa. Faltavam três segundos.
Três segundos para que a bomba explodisse, três segundos para que o RDX conseguisse o que queria. Três segundos para que a casa com a pequena menina Nancy Gray fosse pelos ares. Não podia pensar naquilo. Precisava pensar em correr, precisava ser mais rápido. Segundos atrás estava em Nova York, lutando contra terroristas da Daydream, e finalmente conseguira encurralar pela segunda vez o psicopata especialista em explosivos. Foi quando um telão exibiu uma imagem de uma garotinha, Nancy Gray, desaparecida a 12 semanas, foi na pista dessa garota que ele encontrou a Daydream. O contador do relógio marcava 7 segundos para a explosão. “Corra, herói” foi a única coisa que o miserável disse enquanto sorria. Sete segundos. Demorou cerca de quatro para alcançar a metade do caminho. Três segundos e uma quantidade interminável de água a ser cruzada. Correr sobre alto-mar era sempre uma experiência estranha, parecia que as nuvens é que corriam contra seu caminho, e era difícil saber quanta distância faltava. Não parou para olhar o GPS, não podia perder tempo, não podia se desconcentrar. Precisava correr, precisava correr como nunca correra na vida. Primeiro porque era uma criança e por mais que ele tivesse aprendido a separar sua vida civil da vida como herói, era impossível não lembrar que ele próprio tinha um filho daquela idade. Segundo, porque sabia que ninguém mais no mundo conseguiria correr tanto em tão pouco tempo. Terceiro, e mais importante, porque em seu consciente, sabia que talvez fosse tempo de menos para distância demais. Finalmente, e muito mais importante do que qualquer outra coisa, estava concentrado e desesperado, porque em seu inconsciente ele sabia que não havia como chegar a tempo. Sabia que o RDX provavelmente medira sua velocidade antes de escolher o ponto para colocar a bomba. Mas ele tinha que correr, não podia desistir, mesmo que seus músculos já começassem a doer, mesmo que seus reflexos já estivessem comprometidos pelas enxurradas de ácido lático em suas juntas. Dois segundos. Em um ato de pânico, arrancou o visor e as luvas do uniforme. Precisava aliviar peso, cada milésimo de segundo era imprescindível enquanto Claude Nistelroy, um risco luminoso retilíneo que se formava rasgando o Atlântico entre Manhattan e Londres. Sentiu um ganho de velocidade, mas suas pernas doíam e bolhas começavam a estourar em seus pés. O solado das botas encontrava-se espalhado por todo o trajeto transoceânico. Sentiu um ligamento do joelho se rompendo e, no mesmo segundo, sendo religado ao corpo por seu hiper-metabolismo. Mesmo assim doía muito. Não podia parar. Faltava só um segundo. Sabia que logo as docas de Welshtown surgiriam no horizonte. Um segundo. Pensou por um micro-instante em desistir. Um segundo. Cerca de sete mil quilômetros. Não sabia em que cômodo do prédio estaria a bomba. Não sabia se haveria para onde correr com o explosivo ou como desarmá-lo em tão pouco tempo. Não sabia sequer se o marcador de tempo estava correto ou se sua própria noção dos segundos passados estava certa. Mas sabia uma coisa ao certo, ele sabia que se ele não o fizesse ninguém mais no mundo conseguiria. Ele era o homem mais rápido no mundo, ele e somente ele era a única esperança que a vida de uma pequena menina com a idade de seu filho tinha. Lembrou-se de Liquid e Impacto. Lembrou-se das vezes em que quase morreram para salvar alguém. Lembrou-se de que quase morreram para ajudá-lo a salvar seu filho. Não, não poderia desistir, precisava continuar, precisava correr mais rápido, precisava ser mais rápido que o tempo, que a bomba, que a morte. Arrancou do próprio peito o símbolo da Extreme, único item que não era feito de tecido Sis e que fazia algum peso. O rastro de solado das botas se misturava ao rastro do sangue que saía de seus pés enquanto corria cada vez mais rápido, enquanto o atrito com o ar começava a arrancar fios de seu cabelo e a empurrar suas gengivas para longe dos dentes, inundando sua boca com um gosto férreo e seco. Em um micronésimo de segundo o cenário todo mudou de cor do azul impassível do mar para uma miríade de tons entre verde, cinza, marrom e preto da terra firme. Meio segundo. O caminho mais curto para Londres era pela linha dos trens. Como uma enorme descarga elétrica, como um enorme relâmpago horizontal, ele disparou pelos trilhos enquanto começava a rezar. Nunca acreditara verdadeiramente em deuses ou coisa assim, mas sentia que precisava de algo maior para conseguir. Orou para o tempo, e pediu com todas as suas forças para que fosse o bastante. Um quarto de segundo. A dor em seu corpo já era generalizada, mal conseguia sentir as próprias pernas, que continuavam a se mover como que comandadas por um instinto maior, uma necessidade superior à razão que urrava em seu peito gritando que ele precisava conseguir, precisava salvá-la. Mesmo que isso significasse perder os movimentos das pernas, mesmo que significasse morrer. Não conseguiria olhar para seu filho se deixasse que a menina fosse vítima daqueles que ele diz ao pequeno garoto que vai combater quando sai de casa.
Foi pensando nisso que Claude sentiu o cheiro da fumaça levada pelo vento que ia contra seu trajeto. Tentou imaginar que fosse de outro lugar, mas no instante seguinte seus olhos chegaram ao prédio. O terceiro e último andar tornara-se uma enorme área fumegante. Ele não ouviu o som. A explosão deveria ter propagado um estrondo que se moveria a trezentos metros por segundo, então se ele tivesse se atrasado menos de um segundo, teria chegado a tempo de ouvir. Enquanto descargas elétricas saltavam de seus braços e pernas para os postes das calçadas e cacos de vidro da rua, o homem mais rápido do mundo caiu ao chão. Não de cansaço, embora mal conseguisse respirar. Não de dor, muito embora estivesse com pés, joelhos e boca latejando em espasmos de corte e cicatrização contínuos. Naquele momento, sete segundos depois sair de Manhattan, Lightning caía de joelhos sobre os destroços da rua em frustração, em profundo estado de angústia. Tentou olhar novamente para a construção, mas não conseguiu. Enquanto os ferimentos em seus pés eram regenerados, nada no mundo poderia curar a dor e sensação de completa impotência que rasgavam-no por dentro. Ele era Claude Nistelroy, o Lightning, o homem mais rápido do mundo, mas naquela madrugada fria de Londres, sozinho na rua enquanto a polícia só então era notificada do atentado, ele se curvou prostrado no asfalto e chorou, porque aquela menina dependia dele.
Porque, naquela noite, ele não conseguira ser rápido o bastante.
Por
Victor Caparica
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6/05/2007 09:12:00 PM
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