Em 2015, um grupo de super-humanos escapa de uma base do governo para salvar o mundo, e acaba descobrindo uma série de segredos sombrios. Essas são suas histórias.
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Dia das Crianças

Londres, nos arredores rurais da cidade, os cidadãos pacíficamente seguiam suas vidas enquanto os termômetros acusavam 30 graus. Era uma tarde ensolarada de Junho e os céus eram de um azul esplandecente ornamentados por um enorme e brilhante ponto amarelo e por calmas e multiformes nuvens brancas. Súbito, como um relâmpago silencioso de luz branca, um risco formou-se nos céus, rompendo a tranqüila e bucólica harmonia da cena.

Algumas centenas de metros acima, voando a duzentos quilômetros por hora, gentilmente envolvido pelos braços e seios de Alisia Bryant, e protegido por um campo invisível de luz densa, estava o pequeno menino Klaus Kohler van der Nistelroy. Enquanto o cenário passava deslumbrante por seus olhos arregalados, o garoto só conseguia esboçar como reação um sorriso largo e honesto em seu rosto. Era a melhor sensação do mundo, era incrível. O vento não agredia seu rosto, nem bagunçava seus cabelos, o campo de força impedia aquilo. Só o que tinha era a magnitude máxima da sensação da gravidade em sua barriga e a vista inacreditável que o passeio proporcionava. Em poucos segundos já estavam sobrevoando a cidade, e minutos depois passavam pela costa da Irlanda. Alisia não dizia nada, apenas deixava que o menino aproveitasse a viagem e, vez ou outra, comentava sobre o nome dos lugares que estavam sobrevoando. Klaus mal podia ouvir, embasbacado pela experiência.

A cerca de 300 metros abaixo e centenas de quilômetros a Sudeste, no terraço da Nistelroy Security Technologies, Claude estava sentado no mesmo ponto em que dissera até logo a Klaus e vira Sunshine desaparecer com ele nos céus. Pelo comunicador, podia ver e ouvir tudo pelo ângulo de Sunshine. Ela era fabulosa. Havia telefonado para o prédio das Nações Unidas no dia anterior perguntando se ela poderia lhe fazer um favor. Nove da manhã, ela chegou no terraço exatamente às nove da manhã, e nem era britânica. Dos últimos Dias das Crianças, Klaus estava mais empolgado com aquele. Por algum motivo, a idéia de voar o fascinava. Claude tinha medo daquilo, torcia sinceramente para que ele se tornasse piloto de caças, algo muito mais seguro do que a outra possibilidade. Sete anos e ainda não conseguia se sentir completamente pronto como pai. Tinha uma tarefa no mundo, um ideal pelo qual lutar, mas não conseguia – e sabia que não devia – deixar de lado suas responsabilidades paternas.

Em meio a divagações, o inglês notou pelo visor que eles já estavam se aproximando do prédio. Olhou para o relógio, tinha pedido uma hora e ela já estava no ar com Klaus a quase duas. Viu com o olho esquerdo o terraço do prédio se aproximando da visão de Sunshine, enquanto o olho direito via um facho de luz vindo em sua direção. A meio metro do chão, ela desacelerou e ambos pousaram suavemente, Alisia colocando o pequeno Klaus no chão. Em meio a inúmeros pedidos de bis do menino, Claude agradeceu a Alisia pela gentileza. Após dar um beijo no rosto de ambos e dizer que não foi nada, ela partiu novamente nos céus, dizendo que precisava voltar para a ONU.

"Ela é legal" deixou escapar, enquanto se aproximava instintivamente das pernas do pai. Claude assentiu com a cabeça. Era estranho, ou nem tanto, mas ele confiava em Alisia, Nicholas e Gunther o bastante para entregar-lhes nas mãos a vida de seu próprio filho, a coisa mais importante que tinha.

Caminharam pela cidade, Klaus queria comer porcariadas e comprar quadrinhos. Na banca de jornais do shopping, enquanto escolhia as revistas, Klaus observava silencioso seu pai sentado na mesa da cafeteria ao lado. Sabia que ele não era como as outras pessoas, pelo menos não como a maioria. Ele podia fazer coisas diferentes, podia ir rápido de um lugar a outro sem que ninguém visse. Ele nunca se machucava, nunca ficava doente como os pais de seus amigos. Olhou para a revista em suas mãos. Na capa, um herói impedia um trem. Sabia quem era aquele herói, seu pai já havia lhe dito. Conhecia mais da metade dos super-heróis de verdade do mundo. Adorava, muito mais do que ler quadrinhos, de ouvir seu pai contar-lhe as histórias dele e de seus amigos. Nunca contara isso, mas seu personagem favorito era Impacto, e não seu pai. Gostava dele, mas não achava que ser rápido era tão legal quanto ser forte.

Pegou as revistas e deu o dinheiro ao jornaleiro. Contou o troco e guardou, organizadamente, em sua carteira. Notou que o jornaleiro o olhou admirado. Era um menino que aparentava nove anos, mas era muito mais inteligente que seus amigos, sabia disso. Na escola, se esforçava para não chamar tanto a atenção, afinal era extremamente tímido e falava muito pouco com qualquer um que não fosse seu pai. Mesmo assim tinha as melhores notas da classe e era um aluno prodígio nas aulas de ginástica. Achava que, assim como seu pai era diferente dos outros, ele também devia ser. Lembrava que uma vez havia perguntado a seu pai se ele também ia ter super-poderes. Ele desconversou, dizendo que estudar e ter conhecimento era o maior poder que existia. Não acreditava mesmo naquilo, preferiria mil vezes ter super-força. Sabia que Claude o queria um estudioso, mas tinha outros planos para si. Mesmo que não ganhasse super-poderes, sabia que era rápido e esperto, e queria ser um grande ladrão como seu pai era antes de ser herói. Deteve seu pensamento ao lembrar-se da interminável e severa bronca seguida de castigo que seu pai lhe aplicara da última vez que falou disso. Decidira então não falar mais, mas sem desistir, absolutamente, da idéia. Victoria tinha reagido melhor, até o ensinou como abrir cadeados e trancas simples, mas advertindo para que nunca fizesse aquilo em casa. Aprendera também com ela que o grande ladrão é aquele que não deixa pistas. Ainda tentava entender direito aquilo.

Sentou-se à mesa junto de seu pai. Colocou as revistas ao lado da xícara de café e pediu um refrigerante. Claude pediu a bebida ao garçom e pediu para que Klaus fechasse os olhos e abrisse as mãos. O garoto atendeu ao pedido e Claude colocou em suas mãos um pequeno microchip de silício e ouro.

"O que é isso?" perguntou o menino, olhando um tanto desinteressado para a peça. Claude respondeu que era um microchip como todos os outros milhares que tinha na oficina da Nistelroy, mas que esse tinha um detalhe diferente. Veio do futuro de outra dimensão. Havia tirado das peças que trouxera da base futurista da Extreme. Era um chip ordinário, um dos poucos do aparelho que podia ser substituído por tecnologia da Terra atual. Mas, no momento em que Klaus ouvira sobre a origem do objeto, o mesmo ganhou um aspecto completamente novo e misterioso. Era de outra dimensão.

Todo ano era assim. Klaus sabia todo ano que aquilo aconteceria. Seu pai nunca o levava a parques ou circos no Dia das Crianças. Esse lugares Klaus freqüentava sempre que queria, seu pai sempre o ensinara a cuidar e administrar o próprio dinheiro. O Dia das Crianças era algo que todo ano era especial. Depois, iam fazer compras e seu pai sempre lhe dava algo diferente de tudo, que o dinheiro nunca podia comprar. Dizia que era justamente para que ele entendesse que nem todas as coisas do mundo estavam à venda. Os amigos, por exemplo, ele dizia. No ano passado Klaus conheceu o fundo do mar junto de seu tio Nicholas. Tio Nicholas, tio Gunther, tia Alisia. Não tinha tios de verdade, sabia daquilo, mas sabia que aquelas pessoas eram os que seu pai considerava como família. Sabia que nenhuma outra criança do mundo tinha Dias das Crianças como aqueles, e imaginava que fosse o jeito de seu pai para compensar o tempo fora de casa, o fato de nunca poder chamar amigos para brincar em casa, ou o fato de que casa para ele era uma base subterrânea servida por sistemas computadorizados. Sabia que era assim sua vida, e que era assim que tinha que ser. Não podia contar a ninguém sobre seus Dias das Crianças, sobre como seu pai salvou o mundo naquela semana, sobre a Melon Soda que só vende no Japão e que seu pai trazia todo dia. Quando as aulas voltavam, sabia que, enquanto as outras crianças inventavam coisas extraordinárias que não haviam acontecido para suas redações de "Minhas Férias", ele teria que inventar quatro semanas de histórias chatas e sem graça, porque absolutamente não podia contar o que havia acontecido de verdade. Primeiro porque não acreditariam, segundo porque não precisava da redação para saber que o seu havia sido o melhor dos Dias das Crianças.

Dia dos Pais

- Claude! Klaus! Vão ficar o resto do dia aí fora? O almoço está servido!

Ouço as palavras de Victoria. Céus, como gosto dessa voz. Poucos programas me agradam mais do que visitar Victoria. Primeiro porque ela é linda, divertida, inteligente e também a melhor profissional do crime europeu depois de mim. Segundo porque ela gosta de Klaus, e Klaus gosta dela. Ele brinca com pedrinhas multicoloridas do jardim, desfazendo o minucioso desenho que algum jardineiro cobrou uma fortuna para moldar em pedras. Qualquer pessoa em sã consciência ficaria aborrecido, mas não Victoria, ela realmente gostava muito de Klaus, acho até que mais do que de mim. Ele joga uma pedra para o alto e, com a mesma mão, apanha outras 4 dispostas em quadrado no chão para em seguida agarrar com a mesma mão a pedra lançada ao alto. Ele só tem sete anos, acabou de entrar na escola, mas demonstra uma agilidade física e capacidade de entender as coisas que sinceramente me assustam.

redispõe as quatro pedrinhas e me entrega a maior, pedindo para que eu tente. Sorrio novamente e jogo a pedrinha para o alto. Ele não olha para ela, mas sim para minhas mãos. É esperto, sabe as coisas que posso fazer e, por não entendê-las muito bem, observa. É disso que Decido-me por ignorar o chamado de Victoria e sento no chão, ao lado de meu filho. Ele me olha e sorri, dispõe novamente as pedrinhas no chão e repete o movimento, me mostrando que é bom nisso. Eu bato palmas e, pela primeira vez em semanas, deixo que um sorriso se abra. Eletenho medo. Dessa Inteligência. Ele é muito mais esperto que as outras crianças da escola, tem facilidade para tudo, é forte como um menino de nove anos e desde que eu consiga me lembrar, nunca pegou um resfriado ou teve febre nem mesmo quando bebê. "O primeiro filho de um Next Stepper" foi o que disse o Dr. Scheimmer quando o seqüestrou. E o que isso quer dizer? Eu descobri ser filho de um Second Stepper, isso me deu poderes e me tirou o sossego na vida. Mas existe a possibilidade de não ser nada disso. Sim, ele pode ser só geneticamente privilegiado e nada além disso. Sete anos, Robert, sete anos desde que você morreu e Klaus nasceu. Lisa morreu sem saber ela própria qual de nós dois era o pai de Klaus. Eu poderia resolver isso, poderia fazer um exame de DNA dentro de minha própria base e pedir para Nicholas interpretar os resultados. Mas, para quê? O que muda se ele for mesmo filho de Robert? Robert está morto, Lisa também. Somos nós dois, meu filho, os últimos Nistelroy. Ainda bem que você é homem e vai ter a chance de repovoar o mundo com nossa espécie.

Me pego divagando com a pedrinha quase começando a cair. Ele continua fixado em minhas mãos. Eu espero. Espero até que a pedra maior se coloque exatamente no caminho entre seus olhos e minhas mãos. Então pego as quatro pedrinhas, coloco-as sobre a palma de sua pequenina mão e apanho a maior, bem diante de seus olhos. Ele dá um pulo, posso fazer isso mil vezes e ele não se cansa. Morre de rir, como uma criança que viu um truque de mágica.

- Escutem, vocês dois não sentem fome, não?

Ela veste uma calça de ginástica colante e um top. Devia estar correndo na esteira. A sete anos, desde que Klaus nasceu, ela me telefona convidando para passar a tarde com ela. Hoje é Dia dos Pais, e ela é a única pessoa que telefonou. Ela se senta a nosso lado no chão e percebe que Klaus desmanchou seu jardim de pedras de três mil dólares. Ao invés de ficar brava, ela segura o menino no ar e o coloca sentado no canteiro de pedrinhas coloridas, apanhando punhados com as mãos e os jogando suavemente sobre a cabeça de Klaus. Eles riem. Eu estou distante, penso nele. Penso em quanto tempo passo nas ruas literalmente correndo atrás de criminosos, apanhando de Robôs gigantes, viajando para Saturno, viajando para outras dimensões. Penso em quão pouco é o tempo que passamos juntos. É claro, eu passo mais tempo com ele do que com o uniforme, mas ainda assim é pouco. Ele é meu filho, meu único filho e minha única família no que se refere à genealogia. Amo esse menino, mais do que já achei que amaria alguém. Mais do que a mim mesmo, mais do que amei Lisa, mais do que amo os irmãos que conheci como Lightning. Ele está crescendo, fala pouco com estranhos, mas porque prefere ouvir. Comigo, fala pelos cotovelos, mas pergunta muito mais do que afirma. Ele sabe sobre meu segredo. Sabe que o homem de uniforme com raios nos jornais é seu pai. Sabe que não pode deixar que ninguém descubra nunca. É inacreditável, não faz nenhum sentido, mas de todas as pessoas que conhecem minha identidade como Lightning, a que mais me inspira confiança é justamente este menino de sete anos que rola em meio a pedrinhas multicoloridas abraçado à mulher mais perfeita do mundo.

Eu me levanto, respirando fundo. Estava demorando até que demais para essa idéia aparecer de novo. Não, Claude, você não vai fazer isso. Sim, Klaus precisa de uma mãe, alguém que cuide dele e dê exemplos melhores que os seus. Sim, você também já passou da hora de parar com essa história de uma namorada por semana, seria realmente ótimo ter alguém para dividir as coisas, como o Nick faz com a Christine. Mas não, Claude, definitivamente essa mulher para cuidar de você e seu filho não é Victoria Lupin. Essa mulher linda de cabelos longos e negros com uma linda e sensual mecha rosa pode ser realmente encantadora, mas é sempre bom lembrar que ela é a última de uma linhagem secular de ladrões, os Lupin, descendentes do lendário ladrão de casaca, Sir Arnie Lupin. Klaus já será criado por um ex-ladrão, não precisa de uma ladra de primeira e na ativa como mãe.

Mas que idiota. Que belo idiota. Que belo, aliás, charmoso e veloz idiota que eu sou. Não, Claude, você não vai arrumar uma mulher de vida como a sua, não, arrumará uma dona de casa que certamente entenderá o fato de que seus amigos levantam carros e controlam água. Odeio, odeio mesmo quando chego a essas conclusões cretinas que fazem todo o sentido, mas são inevitáveis. Victoria não se importa em não ser mãe de Klaus. Para falar a verdade, se conheço bem essa mulher, deve ter feito laqueaduras para não correr o risco de engravidar e perder a forma física. Não a culpo, seria um desastre estético e profissional. Ela me olha, enquanto Klaus brinca com seus cabelos cor-de-rosa. A melhor parte de ser super-rápido é poder pensar com muita calma antes de falar, sem que a pessoa note que se está pensando. Ela vai me perguntar porque a estou olhando desse jeito. Empatia dos diabos, parece que ela está ouvindo cada pensamento meu desde que cheguei aqui. Eu devia aproveitar essa deixa, devia dizer que ela é linda e que quero jantar com ela essa noite, sem Klaus. Ela poderia deixar uma das empregadas cuidando dele e nós jantaríamos à beira do lago da mansão. Eu diria a ela o quanto quero alguém que entenda minha vida ao meu lado para cuidar de mim e de meu filho. Ela, bem, claro que ela não iria resistir, afinal de contas não é um galã qualquer de Hollywood, oras, sou eu!

- Por que está me olhando assim, Claude?

- ... não é nada, só estava pensando que estou ficando com fome, acho que Klaus também.

Ridículo, absurdo, mas de alguma forma eu simplesmente fico inseguro e nunca consigo. Olho para Klaus e pergunto se ele está com fome. Ele responde que sim, bom garoto, me poupou de arrumar outra desculpa. Às vezes me sinto tão ligado a ele que chego a acreditar que ele sabia no meu tom de voz que eu queria que ele estivesse com fome. Hoje é Dia dos Pais, meu sétimo Dia dos Pais, e pela primeira vez desde que Nicholas e Gunther foram embora para a América, estou verdadeiramente feliz.

Polizist

Londres é uma dessas cidades onde tudo é velho, e, mesmo assim, tudo parece novo. Quinze anos na força policial, e esse sentimento ainda era profundo no Sargento Charles Buckerfield. Era um homem forte, com uma barriga já saliente de seus quarenta anos, e usava um bigode forte e grosso, dum castanho acinzentado. Seus dentes eram meio tortos e manchados de tabaco, e sua pela era cheia de sardas, principalmente nas mãos e nas bochechas. Seus cabelos, no entanto, ainda eram vastos, e faziam um complicado desenho debaixo do chapéu. Bucky, como gostava de ser chamado, era casado pela segunda vez, com uma gorda resmungona, e tinha um filho de mais de 15 anos com sua primeira mulher. No entanto, ele não via o garoto há quase cinco anos, e tinha sérias dúvidas se ele se chamava "Henry" ou "Harry".

Trabalhava no 503 de Londres. Era um bom departamento, vizinhança tranqüila. Bucky gostava de dizer que as pessoas eram tão amáveis que até os bandidos pediam "Por Favor" e "Obrigado", nos poucos assaltos que ocorriam. Pelo menos pensava, até chegar o "Polizist".

Ah, o Polizist. Diziam que era filho de alemães, e que havia mudado para a Inglaterra fazia poucos anos. Sabe-se lá como ele conseguiu entrar para a Academia, mas todos ficaram impressionados. Dois metros e meio de pura salsicha e repolho, diziam os colegas. Sempre de cara amarrada, sempre tentando fazer as coisas da maneira difícil. Diziam que ele havia completado a prova física para o ingresso em menos de dois minutos! Era algum tipo de recordista, pensavam. As melhores notas nas provas escritas. Ninguém queria ficar perto de um cara assim - esse tipo de pessoa tende a fazer o parceiro parecer um completo incompetente. Mas Bucky não teve muita escolha. Ele estava sem parceiro fazia três meses, e não tinha mais como enrolar.

Estavam os dois no carro de patrulha, número 17-4C. Era uma máquina velha, mas tinha sua história. Cada mancha no banco lembrava Bucky de uma piada, e ele fazia questão de contar para o jovem alemão. Contava sobre seu ex-parceiro, Ted, que havia sofrido um ataque cardíaco. Contava sobre a vez em que um bandido se entregou ao vê-los na ronda. Todas as histórias que divertiam os colegas da Academia, nas festas de final de ano. Mas o Polizist não parecia se interessar. Ora, Bucky apresentou para ele as melhores lojas de Rosquinhas da cidade, e o rapaz sequer experimentou!

Enquanto Bucky bebia o último gole de café, o alemão soltou o cinto de segurança, e abriu a porta. O veterano sequer teve tempo de questionar - o rapaz saiu correndo. E esqueceu a arma, pensou.

Era a pior parte da ronda. O porto. Nas últimas três semanas, pelo menos cinco desaparecimentos por aquelas bandas. Bucky ligou o carro, e seguiu o rapaz, até ele entrar em uma ruela estreita. Era impossível continuar. Depois de um suspiro longo, pegou seu revolver e o do parceiro, fechou o carro, e tentou segui-lo.
Um beco sem saída. Olhou para os lados, procurando uma porta. Havia apenas uma janela, cinco metros e meio acima. Tirou o chapéu, e coçou os cabelos. Então, uma telha caiu do seu lado, quase atingindo sua cabeça!

Num salto assustado, quase cai no chão. Olhou para cima, e jurou ter visto um homem com o uniforme da polícia andando no telhado. Não, era impossível. Eram pelo menos dez metros! Nem mesmo um garotão como Polizist poderia fazer isso! Bucky resolveu dar a volta, mas não sem antes arrumar o cinto, que incomodava sua barriga.

Ouviu um barulho forte, como de metal torcendo-se. Correu, quase perdendo o ar duas vezes, e entrou num galpão próximo. Da janela, viu Polizist segurando no gancho de um enorme guindaste de carga. O chapéu do alemão caiu rodopiando pelo ar. Num golpe rápido, o guindaste tremeu, fazendo o corpo do alemão se chocar contra um navio atracado. O barulho forte do metal fez-se novamente. Bucky fechou os olhos, pensando no que diria pra família do pobre rapaz. Então, segurou sua arma, e se arrastou lentamente para uma janela. Não havia sangue no navio, e o gancho de metal também não estava sujo. Ora, será que o malandro deu um jeito?

Havia um homem vestido de preto, flutuando dois metros acima do chão. Céus! Era o reverendo da televisão, o programa que sua mulher assistia aos sábados! Mas ele não parecia tão puro... Tinha um olhar sombrio, e uma luz negra emanava de suas mãos. Era assustador de olhar diretamente. Bucky ficou paralisado de medo.

Viu novamente Polizist surgir. Estava a poucos metros de distância, dentro do mesmo galpão que ele. O alemão tirou o casaco de policial e tampou o rosto com uma máscara preta. Parecia um daqueles lutadores dos filmes chineses, os tais que espreitavam nas sombras. Bucky não lembrou o nome, mas achou que era algo parecido com Sashimi. Talvez, Samurai?

Polizist saltou para fora do galpão como uma bomba, explodindo uma janela. Os cacos de vidro todos pararam no ar, e o seguiram. Na verdade, o atingiram, mas nem sequer arranharam sua roupa. Ah, era esse o segredo! O alemão usava colete a prova de balas! Provavelmente, era por isso que ele nunca se machucava! Bucky sentiu-se mais confortável com isso, pois agora o rapaz não estava tão assim na sua frente. Eram só truques!

O reverendo esticou a mão, e Polizist parou no ar. Bucky não sabia como, mas podia jurar que ouvira o alemão dar uma risada. No mesmo instante, pelo menos dez mil galões de água levantaram-se do Tamisa, formando um dragão de água. Ah! Então ele era mesmo um Sashimi! Provavelmente, estava usando os poderes dos monges! Bucky sempre acreditou que os monges podiam fazer esse tipo de coisa, mas nunca fora defensor da causa!

Levantou-se, confiante. Arrumou o chapéu na cabeça, e puxou mais uma vez o cinto para cima. Viu a torrente do Tamisa engolir o reverendo. Puxou o revolver mais uma vez, certo de estaria amanhã de manhã na capa do jornal.

Um raio prateado cruzou o galpão. Bucky viu o navio à sua frente desmontar. Podia jurar que vira faíscas elétricas por todo o lugar. Desse, já havia lido alguma coisa! Era Lightning, o relâmpago humano! Era mais rápido do que qualquer máquina feita pelo homem! O pobre infeliz do reverendo estava perdido!

Por alguns instantes, as coisas continuaram assim. Até que o reverendo se levantou. Parecia furioso. Bucky se escondeu atrás das caixas, e não teve muita certeza do que viu. O chão tremeu várias vezes, e ouviu gritos de ódio e agonia. Não arriscou espiar. Ouviu a voz grave do vilão, igualzinho era na TV, dizer que eles não atrapalhariam mais seus planos, que os transformaria em escravos.

Bucky puxou sua arma e disparou, sem mirar direito. A bala atravessou as costelas do Reverendo, que não parecia preparado para o golpe. Praguejou com força, e gritou que não iriam se lembrar de nada, não importava os artifícios. Que não conseguiriam parar algo que não sabiam existir. Voou para cima, e desapareceu. Os heróis levantaram-se minutos depois, como zumbis. Andaram sem rumo, até que não fosse mais possível vê-los.

O velho policial andou até a janela novamente. Não havia mais ninguém lá. No chão, achou o chapéu de Polizist. Apanhou-o, e o segurou. Olhou para os lados, esperando algo acontecer, mas não ouviu mais nada. Voltou para o carro, meio assustado. Não tinha certeza do que havia acontecido. De certa forma, não queria saber.

Sentou no banco do motorista, e esperou. Ficou parado talvez 40 minutos, sem responder sequer aos sinais do rádio. Então, Polizist apareceu. Estava com ar desnorteado, como se não tivesse dormido por várias noites.

- Eu... Eu não sei. Eu não me lembro de nada, Bucky. Eu sai do carro, e acordei com essa enorme dor de cabeça!

Bucky deu uma risada, e entregou o chapéu ao alemão.

- Günter, meu rapaz, você deveria comer mais rosquinhas! Elas evitam que você saia correndo por ai e bata a cabeça em canos soltos!

Günter sentou-se emburrado de novo. Não agüentava mais esse papo de rosquinhas. Um policial gordo como Bucky não tinha idéia do que era ser um herói de verdade, do que era salvar a vida de alguém. Céus, até mesmo Sadie deveria ser mais heróica do que ele!