Em 2015, um grupo de super-humanos escapa de uma base do governo para salvar o mundo, e acaba descobrindo uma série de segredos sombrios. Essas são suas histórias.

O Retorno de Midnighter — Parte II

Meu nome é Shedd. Gabriel Shedd II. Mas não soa tão legal quanto em filmes. Cresci na DownTown de Chicago, ouvindo música eletrônica e jogando video-games. Meu pai era um policial do 44º Distrito, havia servido no Golfo e tinha meia dúzia de medalhas de honra ao mérito. Ele era meu herói, minha infância inteira foi baseada na idéia de que um dia eu seria como ele. Ele saia de casa às sete da noite, e só voltava no começo da madrugada, sempre com uniforme impecável. Quando eu tinha oito anos, ele me ensinou a atirar, e me levava nos churrascos da polícia para que eu conhecesse o pessoal. Eram todos bons homens, mas meu pai era o único herói de lá.
Claro, as coisas não eram tão simples. Quando eu tinha nove anos, descobri que ele não era exatamente um policial. Pelo menos, não o tempo todo. Meu pai era um Vigilante. Junto de outros três colegas que lutaram na guerra, eles passavam a madrugada correndo pela cidade, pulando de prédio em prédio, ajudando pessoas e capturando criminosos de uma forma que a polícia não conseguiria, nem ousaria. Não podia contar isso para ninguém, ele me fez prometer. Apresentou-me aos parceiros. Tio Albert, tio John e tia Andrea, era assim que eu os chamava. Eles eram para mim super-heróis de verdade, eram o esquadrão MidNight, os salvadores de Chicago.
Em 2005, eu já tinha 19 anos. Meu pai havia gasto boa parte de seu tempo me convencendo de que eu não deveria ser como ele. Que eu deveria me formar, virar um advogado. Conseguiu pagar com se salário miserável de policial o primeiro semestre em Harvard. Eu estudei, fui o melhor aluno de uma turma de duzentos. Não queria decepcionar meu herói. Ele nunca havia me decepcionado. Ele nunca havia faltado em nenhum dos jogos de baseball da escola, nunca havia descumprido uma promessa. Ele era esse tipo de homem, e havia me criado para ser igual. Quando voltei para casa naquele verão, queria mostrar para ele o quão bem eu havia me saído. Queria que ele tivesse orgulho de mim.
No terminal de ônibus, não o encontrei. Ele nunca se atrasava, nem mesmo quando aconteciam coisas ruins. Eu liguei em casa, mas ninguém atendeu. Não sabia o que fazer. Tio John apareceu em seu lugar. Estava com um olho roxo, um braço engessado, e um curativo enorme no pescoço. Quando vi aquilo, comecei a chorar. Eu sabia o que havia acontecido.
Tio John me contou que a desgraçada da Andrea os havia traído. Uma emboscada, tio Albert foi morto no lugar. Meu pai havia tomado um tiro por tio John, mas havia escapado. Os dois correram quase um quilometro nos esgotos antes de meu pai sucumbir aos ferimentos. Fomos no carro dele até em casa. Mamãe estava chorando, mas ela não sabia a verdade. Para ela, papai havia morrido em serviço, e tio John havia sofrido um acidente de carro. Eu chorei muito. Todos os dias das férias de verão, visitei o túmulo de meu pai, e todos os dias, jurei que ele teria orgulho de mim.
Na época, tio John havia acabado de abrir um negócio, e estava ganhando bastante dinheiro. Disse que eu não deveria me preocupar, pois ele garantiria que eu e mamãe pudéssemos viver em paz. Ele pagou minha faculdade, e fazia questão de me visitar no campus sempre que podia. Eu nunca terei uma forma de repagar a ele tudo que fez por nós.
Nos anos seguintes, usei todo meu tempo livre para me tornar forte. Entrei para o clube de tiro local, me afiliei ao ginásio, aprendi a lutar Full Contact. Estudava como um louco. Não me lembro de um único dia que tivesse abdicado da rotina. Tio John estava me oferecendo uma forma para me tornar bom o suficiente para acabar com a desgraçada que matou meu pai, mesmo que ele não soubesse. Isso me custou toda a vida social da faculdade, mas era um preço pequeno, muito menos do que eu estava disposto a pagar.
Numa noite, estava estudando para uma prova quando vi na Internet notícias sobre um misterioso vigilante de Chicago. Seu nome era Midnigther. Eu sabia que era tio John, sabia que ele não desistiria. Meu pai não desistiria. Nem eu. Formei-me em primeiro lugar, com as melhor médias que Harvard havia visto. Tio John queria que eu fosse trabalhar com ele em Chicago, mas eu não conseguiria ficar naquela cidade sem que as memórias voltassem. Naquela época, eu poderia ter alcançado tudo que quisesse, mas resolvi trabalhar com os casos mais difíceis, que ninguém pegaria em sã consciência, com medo de destruir a própria carreira. Eu não estava interessado no dinheiro, eu queria ajudar as pessoas. Mas ainda não pensava na hipótese de me tornar um vigilante, pois acreditava no sistema, e sabia que, se descobrisse o que aconteceu naquela noite, mandaria todos para a prisão para o resto de suas vidas. Até conhecer Maximillian Maxwell.
Foi em março de 2012. Não faz tanto tempo. Maxwell queria expandir sua empresa, a MaxCorp, para a America. Comparam o quarteirão onde cresci, e despejaram minha mãe. O único problema é que o apartamento era nosso, e não havia meios legais para que tivessem feito aquilo. Preparei o processo. Descobri uma série de irregularidades na empresa. Trabalho escravo, experimentos com seres humanos, uso de produtos proibidos, substâncias tóxicas como matéria prima para alimentos, poluição muito além dos limites permitidos, sonegação de impostos, e mais uma interminável lista. Eu tinha o material perfeito, eu tiraria a MaxCorp do ramo em menos tempo que eles demoliriam o meu velho prédio. Ou assim pensava.
Minha demissão do setor público foi praticamente política. Caçaram minha licença, e me meteram em fraude atrás de fraude. Os advogados da MaxCorp compraram o juiz, e ainda me processaram por difamação. Em um mês, eu perdi tudo que havia conquistado. Todas as provas que reuni desapareceram dos arquivos públicos, fui despejado de casa, e minha noiva me abandonou por achar que eu estava tendo um caso. Tudo em um mês. Mamãe morreu semanas depois, num acidente de carro, onde dirigiu bêbada. Mas ela não sabia sequer dar partida no carro. Pouco tempo depois, fui preso por homicídio e trafico de drogas, sendo que eu sequer bebia álcool, em respeito ao pedido de meu pai. Fiquei cinco anos sendo humilhado, com o pior tratamento possível, um presídio desumano. Presente pessoal da MaxCorp.
Durante todo esse tempo, tio John me visitou. Tinha seus advogados trabalhando no meu caso, contratara detetives. Disse que eu sairia logo. Eu acreditei nele. Tio John nunca mentiu. No começo de 2017, fui solto, mas nunca voltei a ver meu benfeitor. Ele havia sido morto.
Não exatamente. Midnighter morreu, salvando o mundo de um louco em Paris, mas tio John ainda faz aparições em videoconferências. Eu sei que não é ele, que é apenas uma imagem de computador. Fico com dó da filha dele, Shauny, que não deve ter idéia do quão importante é o pai dela. Provavelmente, ela nem sabe que ele morreu. Tio John com certeza pensou em tudo para protegê-la da verdade. Deve ter contratado sósias muitos anos antes. Provavelmente simularia a morte em um acidente aéreo em algumas semanas, ou algo assim. Nunca consegui falar com ela. Ela se tornou reclusa como o pai. Na infância, tínhamos sido bons amigos, mas agora, éramos estranhos.
Chegará a hora de eu fazer alguma coisa. Não podia deixar que os bandidos se safassem dessa, depois de tudo isso. Havia um depósito da guarda nacional a poucos quilômetros da cidade. Não era um posto grande, mas era usado como depósito de equipamento para os quartéis que ficavam nas cidades vizinhas. Brincava lá quando era criança, quando meu pai me levava para conhecer seus amigos da guerra. Demorei semanas para ficar pronto.
Montei um traje a prova de balas, usei os anos que havia estudado para preparar todo o resto. Modifiquei as armas, pintei de preto um blindado urbano, preparei explosivos e todo o tipo de coisa que achei que poderia usar. Agora, estou pronto. Finalmente estou pronto para vingar meu Pai e meu Patrono. Estou pronto para cumprir a única tarefa que me resta nesse mundo.
Pois agora, sou Midnighter.

O Retorno de Midnighter — Parte I

Quando era criança, eu e Abe éramos inseparáveis. Os irmãos Samsom, como nos chamavam naquela vizinhança miserável no centro do Harlem. Ele era Big Samsom, e eu, Lil Samsom, e éramos conhecidos por todo aquele lugar. Quando crescemos, saímos daquela desgraça, e conseguimos faculdade com bolsa, graças ao Futebol. Afinal, os Samsom sempre dizem, “corpo forte, mente forte”.
Abe era um exemplo. Dois metros de altura, forte como um touro, se formou um ano e meio antes de mim. Foi chamado para o exército, trabalhou na inteligência durante a guerra do golfo. Era um homem e tanto, nossa velha mãe tinha orgulho das medalhas. Lembro de que quando ela morreu, Abe fez questão de enterrá-las com ela.
Eu era mais acadêmico. Fiquei na faculdade, virei doutor. Nunca parei de me exercitar, e meus alunos achavam que eu iria agredi-los fisicamente caso não fizessem o dever. Bem, era verdade, eu iria mesmo. Por sorte, nunca precisei. Trabalhei com pesquisa militar, aproveitando as indicações de meu irmão, e me tornei bastante conhecido no meio. Desenvolvi blindagem, hardware e alguns outros segredos, mas nunca senti que fazia alguma diferença.
O que queria mesmo era trabalhar com algo que pudesse ajudar as pessoas. Queria trabalhar com algo que pudesse transformar vizinhanças ruins, como a minha antiga, em bons lugares para se crescer. Queria conseguir uma forma de ensinar aos garotos ficarem na escola e não usar drogas. Meu irmão havia dito que encontrara uma saída, e que queria que eu fosse trabalhar com ele. Passei as semanas seguintes empolgado, esperando minha vida mudar.
Então, Abe morreu. Baleado, por um bando de canalhas do tipo que fez nossa juventude ter sido um inferno. Um amigo dele, John Hasler, veio me dar pessoalmente a notícia. Fiquei arrasado, pois de uma vez só, meu irmão e minha esperança me haviam sido tomados.
Então, Hasler me mostrou o trabalho de Abe, e como meu irmão fazia a diferença. Senti que Abe era realmente o homem que eu achava que era. Enterrei-o naquele verão, do lado de mamãe e papai. Em sua lápide, está escrito “Albert Samsom, filho, irmão e herói”, mas não acho que só isso possa dizer tudo que senti.
Eu pedi demissão da faculdade depois de um tempo. Não conseguia mais olhar para aquela pesquisa, sabendo que havia homens como os que mataram meu irmão, soltos pelo país. Esse tipo de lixo humano deveria ser exterminado, mandado para a pior prisão, apodrecer pela eternidade. Não é o ambiente que faz a pessoa virar um monstro — meu irmão e eu saímos das mesmas condições, e viramos alguém na vida, sem nunca ter que pisar nas pessoas ou partir para o crime — e sim, o caráter.
Hasler me chamou para continuar o trabalho de Abe. Demorei três anos para aceitar. Engordei quase trinta quilos durante a depressão, mas não parei com meus exercícios. Eu estava tão fundo no poço, que morava agora em um quarto alugado em cima de um bar, dividindo minha cama com ratos. Não era exatamente o tipo de vida que as pessoas esperam de um doutor renomado. Achei que era hora de mudar, se quisesse mesmo honrar o bom nome de Abe.
Como sempre, Abe era o melhor de nós. Eu não conseguia reproduzir suas criações, apenas repará-las. Eram avançadas de mais para mim. Tornei-me chefe de projetos na empresa de Hasler, mas apenas como fachada. O que eu fazia mesmo era criar utensílios para o Midnighter. Ah, o Midnighter. Ele era um homem de verdade, do tipo que faria nossa velha mãe aplaudir. Pegava os bandidos, mesmo aqueles que os policiais corruptos tinham medo de perseguir, e dava uma lição neles. Eu me sentia importante em ajudar. Sabia que estava fazendo aquilo por Abe, e tinha certeza de que ele estava orgulhoso de mim.
Tornei-me grande amigo de Hasler. Construí seus veículos, montei o sistema de utensílios retrateis do traje de combate, programei grande parte do sistema dos computadores, e bolei um tecido leve e flexível como seda, que consegue resistir à balas a queima-roupa. Fiz minha parte, ele fez a dele. Assim, funcionava nossa parceria. Trabalhamos assim por quase nove anos.
Mas ele também caiu para os bandidos. Caiu em rede internacional, salvando a pele de todo mundo, e ninguém parece ligar. Eu ligo. Não posso deixar isso acontecer assim. Havia mais uma dúzia de caras lutando lá, qualquer um deles tinha poder suficiente para explodir uma cidade, mas nenhum deles teve o que era preciso para fazer a coisa certa. Mas John Hasler, que poderia ser parado com um golpe de faca, teve. E é isso que eu não posso deixar que as pessoas esqueçam.
Gastei os últimos meses me preparando. Juntei um projeto de uns guris ingleses, algumas tranqueiras que consegui do que sobrou dos andróides dos cientistas da Daydream, umas idéias que meu irmão estava trabalhando, e construí uma armadura de combate. Cento e oitenta quilos de metal e circuitos. Mesmo com os servos-motores, ainda tenho quarenta quilos de sensação em meus ombros. Se eu não fosse tão forte, não conseguiria andar. Fiz tudo isso com bastante cuidado, mas sei que esse exoesqueleto não é nem de longe forte o suficiente para que eu me equipare à esses doidos de capa.
Quando eu estava na metade de minha criação, o tal alemão voltou para Chicago e assumiu o posto de Midnighter por algumas semanas, mas era obvio que ele não gostava de mim. Esse tipo de pessoa não respeita gente como eu, que veio de baixo. Ele não quer que eu o veja sem máscara, uma medida bem nazista, como era de se esperar. Talvez, tenha nojo. Pelo modo que age com Shauny e comigo, fica fácil perceber que ele não gosta de negros. Graças a deus, ele foi embora, mas isso me deixou menos tempo para trabalhar. Mas terminei.
Eu saio da Van onde montei meu posto de abastecimento, e olho para a lua. Faço um teste, e salto quase quinze metros para cima. Um gancho é disparado automaticamente, e me prende numa das paredes. O metal da armadura muda de cor, mimetizando a textura dos tijolos. Eu me jogo com força, e atinjo o terraço de um prédio. A armadura ainda tem quase três horas de energia. Vai ser uma longa noite, e os malditos vão pagar. Não vou deixar que esqueçam.
Pois agora, sou Midnighter.

Olhos Nublados — Parte III

Zed trancou a porta rapidamente e olhou para Mila. Ofegava. Suas mãos tremiam incontrolavelmente, num nervosismo que não estava habituado. "Droga", pensou, "Eu não sou nenhum Nistelroy para ficar invadindo prédios assim, eu não sou um ladrão!".

— Se continuar tremendo, vão perceber.

O golpe da voz triste da garota o fez voltar para a realidade. Ela lhe causava uma sensação completamente estranha de dúvida e piedade. Zed não tinha certeza do que estava fazendo, mas alguma parte dele — talvez a parte que acreditasse em fé, que havia tanto negado — estava trabalhando contra seus instintos.

— Ah!, Moça! Você tem enrolado o Zed aqui até o limite! Fale de uma vez! O que viemos fazer aqui?

Mila fingiu que não ouviu, mas ele insistiu em mais alguns comentários. Ela andou até um dos computadores da sala de segurança e derramou o liquido frio que sobrara num copo de café deixado ali por algum guarda indisciplinado. O soro negro escorreu pela mesa de controle, causando faíscas. As telas de monitoramento começaram a chuviscar. Apanhou um microfone e enfiou o cabo de ligação na mesa faiscante. Zed teve a impressão de que ela tomara choque elétrico.

— Brownwell Park, 2334, é um armazém de peças de carro - sussurrou. O rosto de Zed cresceu em interrogação; sua paciência estava se esgotando.

Ele se sentou em uma cadeira, e sacou a arma. Girou duas vezes entre os dedos, conferiu alguma coisa, e deitou-a sobre a mesa no meio da sala. Levou um cigarro à boca, e começou a estudar Mila calmamente.

— O que está fazendo? Eles vão nos encontrar! O guarda vai entrar pela porta em um instante...

Zed sorriu. Girou o cigarro entre os lábios, e tirou do caminho uma mecha que tampava a visão de seu olho direito. Calmamente, sacou o isqueiro — um raríssimo Ronson Blueberry da época da segunda guerra mundial — e o fez funcionar, tampando a faísca com a outra mão. Deu uma tragada lenta, e soltou a fumaça pelas narinas. Parecia cada vez mais com um ator de filmes Noir.

— Eu cansei de seu jogo, Mila. Tentei ser bonzinho com você, tentei mesmo. Eu não sou o idiota que você deve pensar.

— Você não está entendendo, isso não deveria estar... — os olhos de Mila ficaram enevoados, e ela pareceu perder contato com a realidade por alguns instantes.

— E lá vai você de novo. O plano deu errado, e agora você vai fazer alguma coisa sem sentido para que ele volte ao rumo em... três... dois... um...

Mila jogou o copo de café do lado da porta. Um guarda truculento entrou correndo, com a arma em mãos.

— Mas quem por... — e escorregou no copo, caindo de cabeça no chão. Estava inconsciente.

Mila respirava forte, como se tivesse acordado de um pesadelo. Era como se tivesse perdido todas as palavras.

— Mocinha, agora é a hora de a gente conversar. Se você for prestativa, nosso amigo dorminhoco nem vai entender o que aconteceu. Por que estamos aqui?

— Eu não... eu não sei. — Mila engoliu seco; as coisas pareciam estar saindo de controle — eu não consigo mais controlar. Eu só estou tentando ajudar!

Zed mastigou o filtro do cigarro, e deixou-o pender pelo canto da boca. Não parecia satisfeito. Olhou para o relógio.

— O turno deve acabar em mais uns minutos, e ai o próximo guarda vai chegar... e não estamos vendo nenhum outro copo de café por aqui, estamos?

— Algo ruim... algo muito ruim vai acontecer. Eu não sei o que é, mas... eu... nós podemos impedir, se fizermos direito.

— Minha paciência tem limites, moça. Por que você está invadindo a MaxCorp, e o que eu tenho a ver com isso? — Zed andou até o guarda caído, e começou a revistá-lo.

— O laboratório do quadragésimo oitavo andar... eu... preciso chegar lá, mas não vou conseguir sozinha. Você tem que me ajudar. Se eu não fizer isso, muitas pessoas vão morrer.

Zed tirou alguma coisa da cintura do guarda. Levantou-se, e foi até Mila. Acariciou o rosto da garota com as costas da mão, e sorriu.

— Pronto, vamos. Eu só queria o cartão de acesso do rapaz aqui.

Mila ficou confusa.

— Quer dizer que você só estava..? — ela parecia brava.

Ele riu. Guardou o cartão no bolso, e foi andando. Deu um belo chute na cabeça do guarda, para garantir que ele não acordasse nas próximas horas.

— Eu o vi chegando quando entrei, havia tirado o comunicador para falar no telefone com uma mulher. Eu sabia que ele não ia chamar reforços. Além disso, eu precisava testar como é que você faz seu truquezinho — Ela tentou interromper brava, mas Zed continuou falando — vamos andando, antes que descubram esse aqui.

Saíram pela porta dos fundos, e correram até a escadaria. Vinte minutos depois, estavam os dois no quadragésimo oitavo andar do MaxCorp Silver Tower. O prédio tinha esse nome por parecer ser de uma única peça de vidro espelhado com um tom levemente metálico. Zed acenava para os trabalhadores do escritório, que sorriam em resposta, como se fosse mais um da turma. Ele se divertiu inventando uma história sobre ser do setor de corte de verbas, e fofocou sobre o caso que o fictício Lenny do Recursos Humanos tinha com a secretária gorda do nono andar. Pararam ao se deparar com a ameaçadora imagem dos seguranças da porta dupla no final do corredor.
Zed tentou adivinhar quais seriam as armas que os truculentos homens guardavam sob o uniforme. O negro com nariz achatado tinha cara de uma P-85 Mark II, enquanto o careca com queixo duplo com absoluta certeza portava uma daquelas Colt Double Eagle. Fora isso, havia quatro câmeras panorâmicas e as duas secretárias na recepção ao lado. Ele conhecia bem esses sistemas de segurança, e pensou consigo mesmo que havia acertado em ter se tornado um negociador de risco — nome pelo qual se referia a toda classe de profissionais do jogo, golpistas, banqueiros, e o resto da malandragem formalizada — e não um ladrãozinho qualquer.
Mila o puxou para uma sala. No instante seguinte, a porta dupla da diretoria se abriu, e Zed teve um vislumbre rápido do figurão que era Maximillian Maxwell II, oitavo homem mais rico do mundo, personalidade do ano da Times e rei da filantropia na América. Como da maior parte da população, a opinião de Zed sobre ele era favorável; o homem havia ajudado o mundo a se reconstruir depois de duas crises, havia criado a primeira força policial com capacidade super-humana, e mais um monte de coisas. Claro, houve aquela vez que tiraram todos os remédios da MaxMed de circulação, mas ninguém parecia se lembrar disso.

Mila andou pela sala. Era um laboratório branco-azulado, cheio de geladeiras em miniatura. O lugar cheirava a hospital. Ela abriu uma das portinhas na parede e tomou um saco plástico. Havia um frasco de vidro cheio de um liquido amarelado, mas ela não se deu ao trabalho de olhar. Andou até o final da sala, abrindo sem ver todas as portas disponíveis. No final, abriu uma gaveta e tirou de lá uma ampola vazia. Zed teve a impressão de que a moça fosse uma experiência mal-sucedida de algum cientista louco, e agora estava se voltando contra o criador.

— Zed, preste atenção. Convença os seguranças para que nos deixem entrar na sala do final do corredor.

— Mas ein? Isso é suicídio! Será que não tem nenhum copo de café vazio por aqui?

Mila não respondeu; empurrou Zed com o peso de seu corpo, e o rapaz saiu pela porta, quase batendo de frente com uma parede. Os seguranças trocaram olhares, e o careca foi na direção do rapaz.

— Eu posso ver sua identificação? Eu não acho que tenha te visto aqui dentro antes. — O homem tinha quase dois metros de altura, e com certeza tinha músculos o suficiente para quebrar Zed ao meio sem muito esforço.

Zed tremeu um pouco. Pensou em sacar a arma e acabar com tudo ali mesmo, mas não teve coragem. Leu o nome do segurança no crachá. "Terrance Walker". Era possível sentir a antipatia do brutamontes no ar, e Zed podia dizer facilmente que bastaria uma palavra errada para que fosse parar na delegacia local, na melhor das hipóteses.

— E então? Vai mostrar ou não?

Zed sacou o cartão que havia tirado do guarda. O segurança precisaria estar bêbado para acreditar que era ele na foto. Mostrou-a.

— Ahn... Terry, Terry, você não se lembra de mim? Nós conversamos no elevador, eu te recomendei apostar nos Giants, lembra?

— Em primeiro lugar — o careca segurou o colarinho de Zed — eu sou de Ohio, os Giants são para perdedores. E em segundo lugar — prensou o pobre rapaz com toda a força na parede — é Sr. Walker para você! Agora me diz, que porra você está fazendo aqui, ou eu estouro seus miolos, seu merdinha!

O negro sacou a arma. Era realmente uma Mark II, mas com silenciador. Zed quase sorriu, pensando que tipo de idiota colocaria um silenciador numa Mark II, mas teve a impressão que não seria o melhor comentário a se fazer naquele momento.

— Olha-ugh, olha, eu só preciso entrar ali um-uhg um m-minuto só, vocês... v-vocês podem até fazer um intervalo, que tal? — Zed nesse momento esperava que Mila tivesse encontrado todo o estoque de copos de café do prédio, para tirá-lo dessa confusão. A mão do careca pesava uma tonelada.

Zed tentou alcançar sua arma, mas sentiu que ela não estava mais onde deveria. Sabia que não teria tempo para nenhuma brincadeira. O careca gritava com ele. As secretárias saíram correndo e se esconderam dentro de alguma sala fora do campo de visão.

— Me deixem em paz! — Zed gritou, perdendo todo o ar que tinha acumulado. Sua voz ecoou pela sala, e pareceu ter um poder descomunal.

— Perdão, senhor, perdão! — gritaram os guardas.

Os dois saíram correndo, assustados. O negro tropeçou e foi se arrastando até o final do corredor. Zed ficou parado por alguns instantes, tentando entender o que havia acontecido. Talvez tivesse ficado parado lá pelo resto do dia, se Mila não saísse pela porta e o puxasse. Entraram na sala de porta dupla sem falar uma palavra. Então, Zed explodiu.

— Você quer me matar, sua desgraçada? Aqueles filhos da puta quase fizeram picadinho de Zed! Ou você fala, ou vai tomar uma bala do meio da testa!— Estava já com a arma apontada para a menina, e seu coração batia tão rápido que fazia as costelas vibrar.

— Se não tivesse demorado tanto para usar seu dom, poderia ter evitado tudo isso. — Mila foi andando calmamente na direção de um notebook que estava em cima da mesa de reuniões.

— Que porra é essa, Dom? Do que diabos você está falando? — Zed ainda estava com a arma apontada, mas já não tinha certeza de que iria atirar.

Mila digitou alguma coisa, e só respondeu para Zed quando ele ameaçou ficar histérico.

— Seu dom, sua habilidade especial... — parou um instante, e seus olhos ficaram vazios por alguns segundos — Ah, não! Você não sabia?

— Do que você está falando, moça? Eu não estou entendendo nada, droga!

— Você tem um dom, como o meu... eu achei que você já soubesse, foi um engano! Eu nunca teria...

A porta se abriu num golpe forte. Meia dúzia de homens bem armados entrou no lugar, gritando e berrando. Pareciam estar vestidos para a guerra, com uma armadura cinza e capacetes. Em um instante, cercaram Zed e Mila. O líder deles tinha um bigode farto por trás do vidro da mascara, e sua voz era muito grave, mais ainda quando gritava.

— Muito bem, os dois, pro chão!

Zed olhou nervoso para Mila. A menina parecia calma, mas os olhos dela haviam se perdido no tom acinzentado. O céu já estava escuro, e a janela gigantesca na sala de reuniões dava uma visão bem clara de que os dois não tinham saída.
O som de um disparo assustou as secretárias que estavam escondidas na cozinha do andar. Havia começado.

Dia das Crianças

Londres, nos arredores rurais da cidade, os cidadãos pacíficamente seguiam suas vidas enquanto os termômetros acusavam 30 graus. Era uma tarde ensolarada de Junho e os céus eram de um azul esplandecente ornamentados por um enorme e brilhante ponto amarelo e por calmas e multiformes nuvens brancas. Súbito, como um relâmpago silencioso de luz branca, um risco formou-se nos céus, rompendo a tranqüila e bucólica harmonia da cena.

Algumas centenas de metros acima, voando a duzentos quilômetros por hora, gentilmente envolvido pelos braços e seios de Alisia Bryant, e protegido por um campo invisível de luz densa, estava o pequeno menino Klaus Kohler van der Nistelroy. Enquanto o cenário passava deslumbrante por seus olhos arregalados, o garoto só conseguia esboçar como reação um sorriso largo e honesto em seu rosto. Era a melhor sensação do mundo, era incrível. O vento não agredia seu rosto, nem bagunçava seus cabelos, o campo de força impedia aquilo. Só o que tinha era a magnitude máxima da sensação da gravidade em sua barriga e a vista inacreditável que o passeio proporcionava. Em poucos segundos já estavam sobrevoando a cidade, e minutos depois passavam pela costa da Irlanda. Alisia não dizia nada, apenas deixava que o menino aproveitasse a viagem e, vez ou outra, comentava sobre o nome dos lugares que estavam sobrevoando. Klaus mal podia ouvir, embasbacado pela experiência.

A cerca de 300 metros abaixo e centenas de quilômetros a Sudeste, no terraço da Nistelroy Security Technologies, Claude estava sentado no mesmo ponto em que dissera até logo a Klaus e vira Sunshine desaparecer com ele nos céus. Pelo comunicador, podia ver e ouvir tudo pelo ângulo de Sunshine. Ela era fabulosa. Havia telefonado para o prédio das Nações Unidas no dia anterior perguntando se ela poderia lhe fazer um favor. Nove da manhã, ela chegou no terraço exatamente às nove da manhã, e nem era britânica. Dos últimos Dias das Crianças, Klaus estava mais empolgado com aquele. Por algum motivo, a idéia de voar o fascinava. Claude tinha medo daquilo, torcia sinceramente para que ele se tornasse piloto de caças, algo muito mais seguro do que a outra possibilidade. Sete anos e ainda não conseguia se sentir completamente pronto como pai. Tinha uma tarefa no mundo, um ideal pelo qual lutar, mas não conseguia – e sabia que não devia – deixar de lado suas responsabilidades paternas.

Em meio a divagações, o inglês notou pelo visor que eles já estavam se aproximando do prédio. Olhou para o relógio, tinha pedido uma hora e ela já estava no ar com Klaus a quase duas. Viu com o olho esquerdo o terraço do prédio se aproximando da visão de Sunshine, enquanto o olho direito via um facho de luz vindo em sua direção. A meio metro do chão, ela desacelerou e ambos pousaram suavemente, Alisia colocando o pequeno Klaus no chão. Em meio a inúmeros pedidos de bis do menino, Claude agradeceu a Alisia pela gentileza. Após dar um beijo no rosto de ambos e dizer que não foi nada, ela partiu novamente nos céus, dizendo que precisava voltar para a ONU.

"Ela é legal" deixou escapar, enquanto se aproximava instintivamente das pernas do pai. Claude assentiu com a cabeça. Era estranho, ou nem tanto, mas ele confiava em Alisia, Nicholas e Gunther o bastante para entregar-lhes nas mãos a vida de seu próprio filho, a coisa mais importante que tinha.

Caminharam pela cidade, Klaus queria comer porcariadas e comprar quadrinhos. Na banca de jornais do shopping, enquanto escolhia as revistas, Klaus observava silencioso seu pai sentado na mesa da cafeteria ao lado. Sabia que ele não era como as outras pessoas, pelo menos não como a maioria. Ele podia fazer coisas diferentes, podia ir rápido de um lugar a outro sem que ninguém visse. Ele nunca se machucava, nunca ficava doente como os pais de seus amigos. Olhou para a revista em suas mãos. Na capa, um herói impedia um trem. Sabia quem era aquele herói, seu pai já havia lhe dito. Conhecia mais da metade dos super-heróis de verdade do mundo. Adorava, muito mais do que ler quadrinhos, de ouvir seu pai contar-lhe as histórias dele e de seus amigos. Nunca contara isso, mas seu personagem favorito era Impacto, e não seu pai. Gostava dele, mas não achava que ser rápido era tão legal quanto ser forte.

Pegou as revistas e deu o dinheiro ao jornaleiro. Contou o troco e guardou, organizadamente, em sua carteira. Notou que o jornaleiro o olhou admirado. Era um menino que aparentava nove anos, mas era muito mais inteligente que seus amigos, sabia disso. Na escola, se esforçava para não chamar tanto a atenção, afinal era extremamente tímido e falava muito pouco com qualquer um que não fosse seu pai. Mesmo assim tinha as melhores notas da classe e era um aluno prodígio nas aulas de ginástica. Achava que, assim como seu pai era diferente dos outros, ele também devia ser. Lembrava que uma vez havia perguntado a seu pai se ele também ia ter super-poderes. Ele desconversou, dizendo que estudar e ter conhecimento era o maior poder que existia. Não acreditava mesmo naquilo, preferiria mil vezes ter super-força. Sabia que Claude o queria um estudioso, mas tinha outros planos para si. Mesmo que não ganhasse super-poderes, sabia que era rápido e esperto, e queria ser um grande ladrão como seu pai era antes de ser herói. Deteve seu pensamento ao lembrar-se da interminável e severa bronca seguida de castigo que seu pai lhe aplicara da última vez que falou disso. Decidira então não falar mais, mas sem desistir, absolutamente, da idéia. Victoria tinha reagido melhor, até o ensinou como abrir cadeados e trancas simples, mas advertindo para que nunca fizesse aquilo em casa. Aprendera também com ela que o grande ladrão é aquele que não deixa pistas. Ainda tentava entender direito aquilo.

Sentou-se à mesa junto de seu pai. Colocou as revistas ao lado da xícara de café e pediu um refrigerante. Claude pediu a bebida ao garçom e pediu para que Klaus fechasse os olhos e abrisse as mãos. O garoto atendeu ao pedido e Claude colocou em suas mãos um pequeno microchip de silício e ouro.

"O que é isso?" perguntou o menino, olhando um tanto desinteressado para a peça. Claude respondeu que era um microchip como todos os outros milhares que tinha na oficina da Nistelroy, mas que esse tinha um detalhe diferente. Veio do futuro de outra dimensão. Havia tirado das peças que trouxera da base futurista da Extreme. Era um chip ordinário, um dos poucos do aparelho que podia ser substituído por tecnologia da Terra atual. Mas, no momento em que Klaus ouvira sobre a origem do objeto, o mesmo ganhou um aspecto completamente novo e misterioso. Era de outra dimensão.

Todo ano era assim. Klaus sabia todo ano que aquilo aconteceria. Seu pai nunca o levava a parques ou circos no Dia das Crianças. Esse lugares Klaus freqüentava sempre que queria, seu pai sempre o ensinara a cuidar e administrar o próprio dinheiro. O Dia das Crianças era algo que todo ano era especial. Depois, iam fazer compras e seu pai sempre lhe dava algo diferente de tudo, que o dinheiro nunca podia comprar. Dizia que era justamente para que ele entendesse que nem todas as coisas do mundo estavam à venda. Os amigos, por exemplo, ele dizia. No ano passado Klaus conheceu o fundo do mar junto de seu tio Nicholas. Tio Nicholas, tio Gunther, tia Alisia. Não tinha tios de verdade, sabia daquilo, mas sabia que aquelas pessoas eram os que seu pai considerava como família. Sabia que nenhuma outra criança do mundo tinha Dias das Crianças como aqueles, e imaginava que fosse o jeito de seu pai para compensar o tempo fora de casa, o fato de nunca poder chamar amigos para brincar em casa, ou o fato de que casa para ele era uma base subterrânea servida por sistemas computadorizados. Sabia que era assim sua vida, e que era assim que tinha que ser. Não podia contar a ninguém sobre seus Dias das Crianças, sobre como seu pai salvou o mundo naquela semana, sobre a Melon Soda que só vende no Japão e que seu pai trazia todo dia. Quando as aulas voltavam, sabia que, enquanto as outras crianças inventavam coisas extraordinárias que não haviam acontecido para suas redações de "Minhas Férias", ele teria que inventar quatro semanas de histórias chatas e sem graça, porque absolutamente não podia contar o que havia acontecido de verdade. Primeiro porque não acreditariam, segundo porque não precisava da redação para saber que o seu havia sido o melhor dos Dias das Crianças.

Dia dos Pais

- Claude! Klaus! Vão ficar o resto do dia aí fora? O almoço está servido!

Ouço as palavras de Victoria. Céus, como gosto dessa voz. Poucos programas me agradam mais do que visitar Victoria. Primeiro porque ela é linda, divertida, inteligente e também a melhor profissional do crime europeu depois de mim. Segundo porque ela gosta de Klaus, e Klaus gosta dela. Ele brinca com pedrinhas multicoloridas do jardim, desfazendo o minucioso desenho que algum jardineiro cobrou uma fortuna para moldar em pedras. Qualquer pessoa em sã consciência ficaria aborrecido, mas não Victoria, ela realmente gostava muito de Klaus, acho até que mais do que de mim. Ele joga uma pedra para o alto e, com a mesma mão, apanha outras 4 dispostas em quadrado no chão para em seguida agarrar com a mesma mão a pedra lançada ao alto. Ele só tem sete anos, acabou de entrar na escola, mas demonstra uma agilidade física e capacidade de entender as coisas que sinceramente me assustam.

redispõe as quatro pedrinhas e me entrega a maior, pedindo para que eu tente. Sorrio novamente e jogo a pedrinha para o alto. Ele não olha para ela, mas sim para minhas mãos. É esperto, sabe as coisas que posso fazer e, por não entendê-las muito bem, observa. É disso que Decido-me por ignorar o chamado de Victoria e sento no chão, ao lado de meu filho. Ele me olha e sorri, dispõe novamente as pedrinhas no chão e repete o movimento, me mostrando que é bom nisso. Eu bato palmas e, pela primeira vez em semanas, deixo que um sorriso se abra. Eletenho medo. Dessa Inteligência. Ele é muito mais esperto que as outras crianças da escola, tem facilidade para tudo, é forte como um menino de nove anos e desde que eu consiga me lembrar, nunca pegou um resfriado ou teve febre nem mesmo quando bebê. "O primeiro filho de um Next Stepper" foi o que disse o Dr. Scheimmer quando o seqüestrou. E o que isso quer dizer? Eu descobri ser filho de um Second Stepper, isso me deu poderes e me tirou o sossego na vida. Mas existe a possibilidade de não ser nada disso. Sim, ele pode ser só geneticamente privilegiado e nada além disso. Sete anos, Robert, sete anos desde que você morreu e Klaus nasceu. Lisa morreu sem saber ela própria qual de nós dois era o pai de Klaus. Eu poderia resolver isso, poderia fazer um exame de DNA dentro de minha própria base e pedir para Nicholas interpretar os resultados. Mas, para quê? O que muda se ele for mesmo filho de Robert? Robert está morto, Lisa também. Somos nós dois, meu filho, os últimos Nistelroy. Ainda bem que você é homem e vai ter a chance de repovoar o mundo com nossa espécie.

Me pego divagando com a pedrinha quase começando a cair. Ele continua fixado em minhas mãos. Eu espero. Espero até que a pedra maior se coloque exatamente no caminho entre seus olhos e minhas mãos. Então pego as quatro pedrinhas, coloco-as sobre a palma de sua pequenina mão e apanho a maior, bem diante de seus olhos. Ele dá um pulo, posso fazer isso mil vezes e ele não se cansa. Morre de rir, como uma criança que viu um truque de mágica.

- Escutem, vocês dois não sentem fome, não?

Ela veste uma calça de ginástica colante e um top. Devia estar correndo na esteira. A sete anos, desde que Klaus nasceu, ela me telefona convidando para passar a tarde com ela. Hoje é Dia dos Pais, e ela é a única pessoa que telefonou. Ela se senta a nosso lado no chão e percebe que Klaus desmanchou seu jardim de pedras de três mil dólares. Ao invés de ficar brava, ela segura o menino no ar e o coloca sentado no canteiro de pedrinhas coloridas, apanhando punhados com as mãos e os jogando suavemente sobre a cabeça de Klaus. Eles riem. Eu estou distante, penso nele. Penso em quanto tempo passo nas ruas literalmente correndo atrás de criminosos, apanhando de Robôs gigantes, viajando para Saturno, viajando para outras dimensões. Penso em quão pouco é o tempo que passamos juntos. É claro, eu passo mais tempo com ele do que com o uniforme, mas ainda assim é pouco. Ele é meu filho, meu único filho e minha única família no que se refere à genealogia. Amo esse menino, mais do que já achei que amaria alguém. Mais do que a mim mesmo, mais do que amei Lisa, mais do que amo os irmãos que conheci como Lightning. Ele está crescendo, fala pouco com estranhos, mas porque prefere ouvir. Comigo, fala pelos cotovelos, mas pergunta muito mais do que afirma. Ele sabe sobre meu segredo. Sabe que o homem de uniforme com raios nos jornais é seu pai. Sabe que não pode deixar que ninguém descubra nunca. É inacreditável, não faz nenhum sentido, mas de todas as pessoas que conhecem minha identidade como Lightning, a que mais me inspira confiança é justamente este menino de sete anos que rola em meio a pedrinhas multicoloridas abraçado à mulher mais perfeita do mundo.

Eu me levanto, respirando fundo. Estava demorando até que demais para essa idéia aparecer de novo. Não, Claude, você não vai fazer isso. Sim, Klaus precisa de uma mãe, alguém que cuide dele e dê exemplos melhores que os seus. Sim, você também já passou da hora de parar com essa história de uma namorada por semana, seria realmente ótimo ter alguém para dividir as coisas, como o Nick faz com a Christine. Mas não, Claude, definitivamente essa mulher para cuidar de você e seu filho não é Victoria Lupin. Essa mulher linda de cabelos longos e negros com uma linda e sensual mecha rosa pode ser realmente encantadora, mas é sempre bom lembrar que ela é a última de uma linhagem secular de ladrões, os Lupin, descendentes do lendário ladrão de casaca, Sir Arnie Lupin. Klaus já será criado por um ex-ladrão, não precisa de uma ladra de primeira e na ativa como mãe.

Mas que idiota. Que belo idiota. Que belo, aliás, charmoso e veloz idiota que eu sou. Não, Claude, você não vai arrumar uma mulher de vida como a sua, não, arrumará uma dona de casa que certamente entenderá o fato de que seus amigos levantam carros e controlam água. Odeio, odeio mesmo quando chego a essas conclusões cretinas que fazem todo o sentido, mas são inevitáveis. Victoria não se importa em não ser mãe de Klaus. Para falar a verdade, se conheço bem essa mulher, deve ter feito laqueaduras para não correr o risco de engravidar e perder a forma física. Não a culpo, seria um desastre estético e profissional. Ela me olha, enquanto Klaus brinca com seus cabelos cor-de-rosa. A melhor parte de ser super-rápido é poder pensar com muita calma antes de falar, sem que a pessoa note que se está pensando. Ela vai me perguntar porque a estou olhando desse jeito. Empatia dos diabos, parece que ela está ouvindo cada pensamento meu desde que cheguei aqui. Eu devia aproveitar essa deixa, devia dizer que ela é linda e que quero jantar com ela essa noite, sem Klaus. Ela poderia deixar uma das empregadas cuidando dele e nós jantaríamos à beira do lago da mansão. Eu diria a ela o quanto quero alguém que entenda minha vida ao meu lado para cuidar de mim e de meu filho. Ela, bem, claro que ela não iria resistir, afinal de contas não é um galã qualquer de Hollywood, oras, sou eu!

- Por que está me olhando assim, Claude?

- ... não é nada, só estava pensando que estou ficando com fome, acho que Klaus também.

Ridículo, absurdo, mas de alguma forma eu simplesmente fico inseguro e nunca consigo. Olho para Klaus e pergunto se ele está com fome. Ele responde que sim, bom garoto, me poupou de arrumar outra desculpa. Às vezes me sinto tão ligado a ele que chego a acreditar que ele sabia no meu tom de voz que eu queria que ele estivesse com fome. Hoje é Dia dos Pais, meu sétimo Dia dos Pais, e pela primeira vez desde que Nicholas e Gunther foram embora para a América, estou verdadeiramente feliz.