Em 2015, um grupo de super-humanos escapa de uma base do governo para salvar o mundo, e acaba descobrindo uma série de segredos sombrios. Essas são suas histórias.

Frio.

Era inverno em Moscou, as pessoas evitavam sair de casa, preferindo se manter aquecidas em sua toca bebendo muita vodca. Mikhail Arshavin voltava do trabalho as 17 horas como sempre fazia. Seu motorista parou em frente da sua mansão e abriu a porta para ele. A neve caía grossa e pesada, nublando a visão e entorpecendo a pele, mesmo sob o pesado casaco, Mikhail tremia.
Ele entrou pela enorme porta dupla de carvalho com passos rápidos, buscando o calor de seu lar, enquanto seu motorista fechava as portas e voltava, no frio, para guardar o carro. Dentro do Hall, portas fechadas, ele depositou seu pesado casaco no guardador como sempre fazia e se encaminhou para a sala em busca de um gole de conhaque. Mikhail era um homem de hábitos regulares e se irritava quando algo estava fora do planejamento, tanto no trabalho quanto na vida pessoal, todos os seus movimentos eram planejados com antecedência e meticulosidade. Seus filhos eram criados de uma forma diferente do convencional, brincadeiras e carinho tinham hora marcada e contada, assim como todas as atividades das crianças.
As 17 e 30 ele estava relaxado em sua poltrona terminando de ler seu jornal, enquanto fumava um cigarro tomando conhaque. Sua mulher e filhas só desceriam para a sala as 18 horas quando ceiariam, estavam envolvidas em suas atividades e não poderiam interromper Mikhail em sua leitura. Ás 17 e 40 seria servido o café pela empregada para abrir o apetite e a disposição de mikhail para a conversa com a família. Mikhail gostava de saber os pormenores da existência de suas filhas e do que acontecia em sua casa, de certa forma, procedia como no trabalho, com meticulosidade marcial. Ele trabalhava na contra espionagem Russa, departamento A34 para assuntos externos, cuidava de eliminar possíveis agentes duplos e espiões infiltrados, nos seus 45 anos tinha um currículo militar admirável, de lealdade ao país.
Ele trabalhava na central de Moscou cumprindo um suposto horário comercial de trabalho, o prédio um edifício da Petrolífica Nacional, ramificação da contabilidade, somente uma fachada para a agência Russa. Alguns dias Mikhail fazia serões que varavam a madrugada, mas na maioria dos casos, como este, cumpria seu horário comercial normal. Estranhamente ele se portara mau-humorado no jantar, não perguntara nada para as filhas, permanecera quieto. Sua mulher tentou puxar assunto, mas ignorada, foi-se deitar. Ele permaneceu na sala, deveria estar lendo, mas os acontecimentos do trabalho o incomodavam. Uma discussão que mais parecera um interrogatório guiado por Nicolai, o chefe da espionagem, seu colega de trabalho odioso. Nicolai era uma máquina e suas engrenagens eram movidas por sangue. Nicolai adorava interrogatórios do velho modo da KGB, excruciantes. " A verdade só vem com a dor, a dor da morte" dizia ele sombrio, e depois ria para si mesmo, como se contasse uma piada antiga. Mikhail odiava-o, contudo Nicolai era demasiado eficiente para ser eliminado, tão eficiente quanto Mikhail, o que só aumentava seu ódio. O mais estranho foi a discussão que os dois tiveram, Mikhail se pegava pensando nisso desde que chegara. Ele inquiria Arshavin acerca de negociações com os árabes que Mikhail havia aprisionado, acusando-o de corroborar com os invasores e de ser um agente dos árabes. Era uma tolice, Arshavin nunca trabalharia para os árabes, ele ajudava os Estados Unidos fazia anos! Seria uma tolice comprometer-se com árabes.
Entretanto, Nicolai agira de modo estranho para o seu próprio comportamento, discutindo abertamente, ele que fora sempre reservado, nunca faria uma acusação dessas em aberto. Mikhail tomou um gole de conhaque, estava cansado e a neve caía ainda pesada lá fora. Dentro do quarto a lareira esquentava seus pés enquanto seu pensamento divagava na discussão com Nicolai. Estaria ele em perigo? Por precaução mandara um dos oficiais eliminar Nicolai, seu nome é Andrei Rasputin, um frio assassino da contra espionagem, encarregado do serviço de limpezada agência. Rasputin era rápido e sigiloso, cumpria seu papel sem fazer perguntas e não se questionava sobre quem mataria, era o melhor agente da organização e tinha vários privilégios. Nicolai dizia que ele era um dos geneativos, um dos modificados, mas Mikhail nunca tinha visto nada de especial em Andrei, nada a não ser sua habilidade em matança e sua aparência estranha, com olhos repuxados cinzas e cabelos brancos. Não era de se estranhar, sua mãe era uma mestiça afinal, japonesa e russa. Mas várias informações acerca do seu passado era consideradas secretas, até mesmo para Mikhail. Depois de um trago ele pousou o jornal. eram 20 e 45. Nicolai haveria de estar morto.
Ele bebeu o resto do conhaque num brinde de comemoração, sorriu, seu humor melhorara só com o pensamento de que Nicolai não mais existia. Se virou para a janela e quase caiu sentado novamente. A sua frente estava o mestiço, alto, branco, e frio. Ele olhava diretamente nos olhos de Mikhail, o que era aterrador conhecendo a fama do assassino que atendia por Mushin. "Você terminou o serviço?" perguntou Mikhail com a voz trêmula, as chamas da lareira ardiam fortemente. Andrei caminhou para a lateral da sala, ignorando a pergunta e ligou o rádio, um cd de Tchaikovsky tocou alegremente e preencheu a sala. Mikhail nervoso perguntou novamente.
Andrei se virou para Mikhail e respondeu" Ainda não, mas... Nicolai mandou lembranças." Eram 20 e 51 quando Andrei voltava para o frio.

Innuendo

Em 1947, na pequena cidade de Roswell, nos Estados Unidos da América, uma experiência envolvendo alguns dos maiores cientistas do mundo e um artefato de origens e propriedades desconhecidas desencadeou uma sucessão de eventos que, nas décadas seguintes, daria início a uma Guerra Fria de supersoldados e arquivilões que mudaria por completo e para sempre o destino do pequeno planeta Terra e de alguns de seus patéticos habitantes. Não para melhor, na maioria dos casos, e não de quaisquer de seus patéticos habitantes. Na verdade, apenas alguns poucos – predestinados, eleitos ou simplesmente condenados – de qualquer sorte de poder – humano ou superior – que o colocasse em condição de ver ligeiramente através das paredes de vidro negro. A presença de super-humanos nas principais agências governamentais de Inteligência do mundo cuidou , nos quase 70 anos que hoje nos separam da infeliz e audaz experiência de Roswell, para que tais eleitos tivessem seríssimas dificuldades em agir furtivamente na Terra de 2017. É claro que medidas como aquelas eram absolutamente necessárias, visto que mesmo assim não era possível conter por completo os movimentos desses predestinados. Alguns deles se infiltravam em organizações para-governamentais de iniciativas ocultas para buscar proteção. Outros, tentavam unir-se para somar possibilidades. Existiam, no entanto, alguns condenados que haviam entrado no jogo por acidente, e agora precisavam manter-se vivos. Eram em geral pessoas com poder demasiadamente insignificante para interessar a qualquer grupo de poder, e ao mesmo tempo perigosos e traiçoeiros demais para conseguirem aliados. A essas pessoas, os mais desgraçados de toda a Tragédia Roswelliana, restava cavar buracos até os mais profundos confins da Terra e, de lá, tentar mover suas peças em um tabuleiro de xadrez infinito onde cada peça – cada reles peão – é um jogador.

Grenko Mardov era um desses homens. No ano de 2017, seu grupo de extermínio conseguiu recrutar um jovem com habilidades sobre-humanas. Ninguém soube detalhes de como isso ocorreu, mas nos meses seguintes, o grupo de extermínio de Grenko Mardov decuplicou em contingente e influência. Havia entrado, em Agosto de 2017, na lista dos 50 mais procurados da Interpol, e sua lista de crimes superava até mesmo a de países em que era procurado. Sem poderes que o mantivessem a salvo de olhos e garras hostis, Mardov buscou segurança isolando-se no lugar mais obscuro e remoto que conseguiu encontrar na Terra.

Duchambe, 02h11min AM, GMT+5, hora local.
Tente imaginar becos escuros, de poucos metros de largura entre paredes de pedra irregular e madeira rota e úmida, chão de uma terra vermelha seca a ponto de agredir as narinas de alguém pouco habituado ao árido. Ao longo dessas ruas, homens, mulheres, velhos, crianças e animais partilham em total igualdade da glória do Grande Allah e da desconsolante miséria da menor e mais pobre nação da Ásia Menor. Dos seus pouco mais de sete milhões de habitantes, mais da metade vive em situação de insustentável e deplorável pobreza. Seus fiéis súditos de Allah, os Tadjiques, ainda se recuperavam de uma guerra civil que a menos de duas décadas devastara toda a pequena nação do Tadjiquistão. Seus habitantes, árabes, persas e russos ainda remanescentes, resquícios da Guerra Fria, viviam um governo de desmandos e corrupção que deixava poucas portas abertas ao progresso e muitas a interesses de homens como Grenko Mardov.

E foi em um daqueles becos, escuros e imundos, de odor transitando entre suor, excrementos e ópio, iluminado por uma ou outra rara lamparina a óleo e pelas estrelas de um céu limpo como a Terra jamais seria, que Claude Monet Nistelroy, trajando vestes locais pobres e intencionalmente surradas, olhou ao redor e perguntou-se como diabos encontraria aquele homem naquele inferno.

É bem verdade que qualquer homem, honesto ou bandido, cristão ou muçulmano, veria em tal paradigma um problema insolúvel. Claude não conhecia sequer o centro de Duchambe, a capital do Tadjiquistão, quanto menos sua periferia. As ruas eram incubadoras de assassinos, prostitutas, mercadores de ópio, vigaristas em geral e toda sorte de ladrões. Pelo menos com a última casta Claude estava bem habituado. Os adeptos da vida fácil de Duchambe não podiam, afinal, ser tão diferentes dos de qualquer outro lugar. Além disso, Claude não era qualquer homem, não era um bandido e tampouco um homem honesto e nunca fora cristão ou muçulmano.

Não falar sequer uma palavra do idioma local, uma variação moderna do persa chamada Tadji, também não era exatamente um problema para quem sabia se comunicar com o corpo. Um olhar ameaçador, uma mão que rouba Somonis do bolso de um Tadjique para estendê-los a outro, alguns eventuais e inevitáveis golpes, sempre tomando cuidado com velocidades excessivas, e a capacidade de pronunciar em voz baixa o nome de Grenko Mardov, foram suficientes para que antes do nascer do Sol o londrino com nome francês e sobrenome holandês chegasse ao pequeno sobrado de pedra com grades altas e grossas de ferro arcaicamente enferrujado.

Sabia que estava agindo precipitadamente, sabia que entrar em sigilo no Tadjiquistão, perguntar pelo nome de Mardov nos becos do submundo, roubar, espancar e ameaçar seus homens e bater à porta da frente do covil de um homem que foge de algumas das mais poderosas instituições do mundo, não era exatamente o que se chamaria de um plano prudente e bem arquitetado. Mas Claude sabia improvisar, sabia pensar rápido, e tinha consigo que somente isso poderia mantê-lo no controle da situação toda.

Com movimentos felinos e inauditos, ele se esgueirou escondeu, saltou por sobre grades e nocauteou dois guardas do portão sem emitir um único ruído. Pegou suas armas, os amarrou ao portão e, com a maior naturalidade que seu amadeirado semblante permitiu, acendeu um charuto, caminhando até a grande porta igualmente amadeirada da frente, batendo nela com três pesados golpes. Uma pequena janela de deslizar correu lateralmente, revelando um par de olhos azuis e um cano metálico que parecia de uma .45 norte-americana. O homem grunhiu algo interrogativo em idioma Tadji, que Claude incompreendeu por completo. Deu uma longa tragada no charuto. A fumaça esvaiu, revelando aos olhos azuis um Claude de cabelos grenhos e ensebados, sujo, malcheiroso e que não fazia barba a mais de uma semana. Tirou o charuto da boca e disse aos olhos e ao cano, no mais puro e legítimo inglês que conhecia.

“Diga ao senhor Mardov que ele tem uma adesão”

Times: Milionário Senador.

Ele é brilhante, bonito e milionário, ascendeu como um dos maiores empresários atuais e está entre os maiores inventores da nossa história, com o chip de identificação virtual e o motor solar 3200. Além disso criou uma fundação para promover a ciência e a educação. Mas quem é esse homem, será ele mais um dos tubarões empresariais? Um playboy afetado? Quem é Richard Harris Teabing e o que o motiva a concorrer pelo Senado de Nova York?


Por Tessa Harkness.


Times: Senhor Teabing, muitos o consideram um tubarão empresarial, além disso, foi acusado de espionagem industrial no caso dos acidentes de Nova York, contudo também é um dos maiores filantropos da mesma cidade. O que pode nos contar sobre isso?


Richard: (risos) Você vai direto ao ponto não é? Bom, antes de mais nada eu gostaria de pedir que você não me chamasse de senhor, isso me faz sentir como se tivesse idade pra ser seu pai ou algo do tipo e, convenhamos, ficaria estranho qualquer relação desse tipo. Quanto a ser um tubarão empresarial, eu acho o termo meio afetado, como aquelas fantasias yuppies em relação ao tamanho do falo, entretanto em se tratando do mercado norte-americano, antes ser um tubarão empresarial do que um peixinho, contudo me culpar pela falha dos meus oponentes soa um tanto estranho. Veja só, Nova York é uma cidade imensa e movimentada, por si só já é um caldeirão de probabilidades, agora acrescente a isso a onda de supercrimes que começaram a acontecer antes do atentado, qualquer amador pode observar os gráficos e ver que eles estavam aumentando, o que eu fiz foi me prevenir pra uma catástrofe iminente, solidifiquei minhas finanças e tive muita sorte de fazer isso um dia antes, pois se tivesse demorado mais, muitos funcionários da Warden poderiam estar na rua hoje e eu não gostaria que isso acontecesse, não me considero um filantropo, mas eu acho que se existe uma forma de melhorar nosso mundo é por meio do trabalho e da educação e é por essa razão que é vital a continuidade do trabalho na warden.


Times: E é por essa razão que você decidiu se candidatar ao senado?


Richard: Sim e não. Eu decidi me candidatar pois acho que posso fazer a diferença, que posso dar o melhor de mim para as pessoas e no senado eu posso fazer mais do que somente como empresário. Afinal, existem mais setores do que a educação e o trabalho, setores além da ação filantrópica.


Times: E você vem enfrentando dificuldades pelo fato de ser Galês? Como você lida com isso, você se considera um estrangeiro?


Richard: Não vejo dificuldades e nem motivo para esconder minha nacionalidade. Eu nasci em Gales, estudei em Oxford, mas já conheci metade do mundo e escolhi os Estados Unidos como casa e ele me acolheu de braços abertos. Muitos esquecem que esse país foi forjado pelo sangue e suor dos imigrantes. Os ingleses, os africanos, irlandeses, italianos, japoneses, coreanos, chineses, poloneses, alemães, árabes, turcos, judeus, e mais outros. Os únicos que estavam aqui em origem eram os nativo-americanos. Portanto as únicas etnias que podem criticar a imigração são eles.

Times: Muitos o consideram um solteirão convicto, outros o chamam de libertino. Qual é a sua versão da sua vida pessoal? Você tem namorada?

Richard: Eu devo confessar que tive uma vida boêmia, sempre gostei de me divertir e sempre gostei de uma boa música, por sinal, as duas coisas são encontradas com mais freqüência no horário noturno. Mas eu deixei de ser sozinho faz um bom tempo (risos). Sim eu tenho uma namorada, deveras linda, contudo nossas profissões nos afastam um pouco, embora eu goste muito dela. E não, eu não sou um libertino (risos).

Times: Voltando pras eleições, qual é o carro chefe da sua campanha pelo senado? Quais suas principais propostas?

Richard: Eu não diria que é um carro chefe, nem propostas, veja bem, eu elaborei um planejamento econômico do estado pros próximos vinte anos, contando com melhorias na infra estrutura do transporte, com a reformulação do ensino público devido ao acréscimo de novas bolsas de estudo, com um maior incentivo as fundações e com uma nova política super-humana. Acho então que o carro chefe da minha campanha é planejamento e não simplesmente uma proposta ou uma promessa vaga.

Times: E qual a sua opinião sobre os Super-humanos?

Richard: Minha opinião é muito boa (risos). Bom, eu penso que os meta-humanos são uma realidade. Não adianta fechar os olhos e ignorar a existência deles, nós já tivemos várias experiências com eles e é inegável seu poder de alteração do mundo. Entretanto a política atual em relação aos meta-humanos é estranha, a França como sempre repeliu tudo que é diferente, a Inglaterra abraçou os meta-humanos como heróis... e nós? Estamos indecisos? Alguns de nós, eu tenho certeza, querem iniciar uma caça as bruxas, entretanto não é esta a política que um país deve tomar, afinal nós estamos na terra da liberdade, não somos fascistas, somos? Ao meu ver, estamos todos esquecendo uma coisa: Por mais que estes meta-humanos tenham poderes exacerbados, eles ainda são humanos, muitos deles cidadãos americanos, que vivem e pagam seus impostos. Alguns só querem levar uma vida normal, outros usam seus dons pra proteger os outros e como sempre existe os mal orientados que usam seus dons em proveito próprio ou para praticar crimes. Estes devem ser julgados por uma lei específica e confinados em prisões que sejam capazes de prendê-los. É tolice hoje, querer julgar num julgamento aberto e com a tecnologia comum seres extremamente poderosos. Há de se fazer uma reavaliação dessa situação sem esquecer a humanidade no caminho. @







The Adorable Cricket - Parte X - Final

Quando finalmente se acostumou com a luz, a Salteadora ficou realmente assustada. Estava cercada de super-heróis, ou, mais precisamente, dúzias de posters e action-figures de super-heróis. Tentou se levantar, mas uma dor enorme nas costas decidiu que não era uma opção viável.

"Olha só! Acordou a Cinderela!" falou Josh. Girou a cadeira para se acomodar melhor e fechou o notebook. "Como está se sentindo?"

O rosto da menina apresentava um misto das expressões não-consigo-coçar-aquele-cantinho-costas e da famosa quem-é-você-e-onde-estou. "Quem é você? Onde estou?" Ela tentou mover os braços, mas além da dor, eles estavam sob toneladas de cobertores quentinhos, e algo dizia que seria melhor se manter aquecida. E algo lhe dizia que o rapaz não tinha assistido filmes da Disney o suficiente para saber quem era Cinderela.

"Eu sou um amigo do Carismático Cricket! Ele te trouxe aqui e disse para te tratar bem. Você está no meu quarto, eu até limpei as coisas, não é sempre que uma garota bonita vem aqui." Ela corou, mas provavelmente foi mais raiva que qualquer outra coisa. "E você se machucou muito, os médicos disseram que vai ficar de cama por um bom tempo..."

"Médicos? Não, eu... eu preciso sair daqui!" Disse ela, tentando se levantar novamente e quase gritando com o esforço. "Droga, você não entende, os médicos não podem me examinar, eles vão..."

"O Precavido Cricket me disse que pensou nisso quanto te trouxe pra cá. Ele só te levou para o hospital por causa dos ferimentos, mas assim que os médicos disseram que estava estável, ele fugiu com você do lugar." Josh sorria como um gato, se gatos pudessem sorrir. "Mas você deve estar com fome! Quer que eu faça uma sopa?"

"Olha, eu agradeço o que você está fazendo, mas eu não posso ficar aqui! Você não entende, eu..." ela estava realmente preocupada com o fato de não poder se mover.

"Bom, vou trazer uma sopinha então." Josh saiu do quarto.

Os minutos seguintes foram tentativas frustradas de se levantar, constatação de que não conseguia sentir as pernas e o incomodo cheiro de xampu estranho em seus cabelos. Finalmente, seu corpo começou a responder aos estímulos. Sentiu uma dor horrível quando sua espinha começou a apresentar sinais de melhora, mas era assim que tinha que ser. Sentiu-se feliz quando sentiu que os pés estavam quentinhos.

Por fim, Josh entrou no quarto com um prato de sopa quente e um copo d'água. Teria trazido um suco ou refrigerante, mas não sabia o que a menina gostava. "Aqui, uma sopinha bem sonsa. Você não é alérgica a batatas, é?"

Ela sorriu. Josh se sentou do lado da cama e colocou gentilmente um guardanapo sobre o cobertor. Ele com certeza teria dado sopa na boca dela, não fosse pelo fato da menina ter cambaleado pela cama e, num movimento rápido, estar segurando ele contra a parede, apoiando o braço em seu pescoço.

"S-se você não g-gosta de batatas - ufff - eu também tenho pizza!" Disse Josh, tentando se manter respirando. Ela não apertou forte o suficiente para machucá-lo de verdade, mas a menina era muito mais forte do que aparentava. Do tipo de força que arranca do chão um homem crescido e o arremessa metros adiante.

"Chega de brincadeiras! Onde eu estou?" Ela apertou um pouquinho mais. Josh pensou que até poderia sair, mas não era uma boa idéia destruir o quarto para algo tão besta.

"Newark - coff - N-newark! Dá pra pegar o trem pra New York daqui, não é nem meia hora!" Ele colocou as mãos no braço dela, tentando empurrá-la, mas não fez muita força. "Você - arff - v-você não faria a gentileza..."

"O que?" Ela então notou que o rapaz estava vermelho, e o soltou. Ela corou, envergonhada, por alguns segundos. "Desculpe-me, não sei o que deu em mim. Mas quem é você, afinal?"

Ele retomou a respiração e esperou um pouco antes de falar, como se estivesse tomando fôlego. "Eu me chamo Josh, sou amigo do Memorável Cricket, já disse." Respirou mais um pouco. "Ele disse que você havia se ferido e que não podia deixá-la no hospital, então pediu para que eu cuidasse de você!"

Ela pensou alguns instantes. Sentou-se na cama, como se soubesse que pudesse confiar em Josh. Ele a achava bem atraente; cabelos dourados, olhos azuis e corpo atlético. Usava aparelho, era verdade, mas não se importava.

"Que horas são?"

"Umas duas e meia."

"Então eu fiquei apagada por quase meio dia. Parece que tomei uma surra... quer dizer..."

"Um dia e meio. Hoje é domingo."

"Que?" Ela pulou novamente, e ele se protegeu instintivamente com os braços. "Não, eu não acredito! Meus pais vão me matar! Eu tenho que ir embora!"

"Eu posso te dar uma carona, se quiser. Quero dizer, posso te acompanhar, eu não tenho carta de motorista ainda. Ou você pode telefonar!" Ele disse, pegando as coisas que havia derrubado no chão. Ela se desculpou novamente.

"Eu... não sei como agradecer, mas eu preciso ir sozinha. Eu, eu tenho que fazer umas coisas. Eu já estou bem, não precisa se preocupar." Disse ela. Na verdade, ela se sentia tão bem quanto se sente a maioria das pessoas que entra na emergência de um hospital, mas não podia esperar.

Eles comeram o resto da Pizza do outro dia e conversaram sobre o tempo. Josh emprestou roupas, mas ficaram largas. Os tênis particularmente saiam dos pés. Era estranho estar vestindo as roupas de um menino, mas ela procurou não pensar nisso. Ele a acompanhou até a estação de trem comprou a passagem e deu-lhe o dinheiro para o ônibus.

"O Confiável Cricket disse para você esperar ele hoje à noite, onde se encontraram da outra vez. Ele está com suas coisas, acho que vai ficar contente em poder devolvê-las." Disse Josh.

Ela sorriu. Ficaram se olhando por alguns segundos, até o trem apitar. Ela então deu um passo à frente e deu-lhe um beijo rápido nos lábios. "Obrigado por tudo!" disse, e entrou no carro sem olhar para trás e partiu. Seis metros dali estava a vizinha Sally, que havia seguido o casal, querendo saber quem era a garota estranha que estava com Josh. Ela saiu correndo chorando antes que Josh pudesse notar sua presença. Alias, Josh não notou nada por uns bons três minutos.

...

Naquela noite, Cricket estava esperando. Estava no topo da torre da antena, comendo um cachorro quente com cebolas e mostarda, típica iguaria da Grande Maçã. Perdeu-se nos pensamentos (e na música em volume absurdo que tocava em seu iPod).

"Desculpe o atraso" disse ela "Fiquei presa no transito". Cricket se assustou novamente e caiu da torre de metal. A Salteadora pulou na mesma direção.

"Ah, oi! O Preocupado Cricket adoraria saber se está tudo bem com você." Ele se levantou e limpou a roupa. Por sorte, os poderes (e a experiência em cair de lugares altos) permitiram que ele não se machucasse.

"O que você queria falar comigo?" ela disse, meio desconfiada.

Cricket saltou novamente na torre; a menina se assustou um pouco. Ele caiu uns segundos depois, segurando uma sacola. "Aqui, suas coisas. Eu costurei o uniforme, se não se importa."

"Eu... obrigada". Ela pegou. Mexeu nas coisas e notou que a bolsa ainda estava lá, com as coisas que tinha pegado. "Você... por que você..."

"Precisamos confiar uns nos outros se queremos sair vivos nessa linha de trabalho. O Informado Cricket sabe sobre os remédios. Não geram dependência, não são alucinógenos. São perigosos, no entanto. O Preocupado Cricket acha que você deveria contar a verdade." Ele estava sério.

Ela se sentou no parapeito do prédio. Cricket a acompanhou. A cidade parecia um oceano de pequenas luzes. "Você está certo. Seu sei que é pedir de mais para confiar em mim, mas... bem, eu vou contar tudo, desde o começo."

E contou. Cricket podia sentir a sinceridade nas palavras. Pensou que Cricket & Salteadora realmente não sairia tão ruim nos jornais. Bem, eles pelo menos poderiam se aliar quando ele viesse para Manhattan, não é mesmo?

The Naïve Cricket - Parte IX

Entrar numa sala de emergência com uma garota ferida nos braços seria uma cena de filme, não fosse pelo fato de ambos estarem fantasiados. O mais incrível é a estranha capacidade dos médicos plantonistas ignorarem todos os detalhes estranhos e prepararem imediatamente uma sala de cirurgia.

"Estavamos saindo de um baile a fantasias" disse Josh ao policial "Ai quatro ou cinco caras nos cercaram, queriam o dinheiro... ah seu guarda, eu não consigo me concentrar, eu estava assustado"

O policial assentiu com um sorriso. "Meu bom garoto, você é corajoso de mais. Todo ferido, ainda trouxe a namorada nos braços. Com certeza vamos pegar esse vândalos, a polícia vai fazer o possível!" e saiu do quarto.

Josh estava com várias bandagens, cortes costurados e recebia uma transfusão de sangue. Ainda era três da manhã, e esperava notícias da Salteadora. Além de inventar umas bobagens para manter os policiais ocupados, era só fazer o papel de garoto assustado de mais para entender qualquer coisa e não fariam perguntas.

Não era a primeira vez que teve de ser costurado. Falando a verdade, era a quarta só esse mês. Por alguma sorte, seus ferimentos se cicatrizavam muito mais rápidamente que o das pessoas comuns. Na outra semana, havia tomado um tiro no ombro; hoje não havia nem cicatriz. Sabia que tinha que ser rápido e sair pela janela assim que estivesse se sentindo melhor, mas não podia deixar a Salteadora sozinha. Ele precisava ver ela, precisava falar com ela. Não queria que ela... não podia deixar que morresse sozinha. Os ferimentos dela eram muito graves, disseram os médicos.

"Senhor Parker... Parker Kent, é você? Sua namorada está estabilizada. Foi um milagre cirurgico, eu ainda não entendo o que aconteceu. O ferimento desviou dos orgãos vitais, não houve sangramento interno, ela realmente foi abençoada!" disse um médico ainda com marcas de sangue na roupa.

Josh quase pulou da cama. Depois, conversou com o médico. Sua namorada, "Mary Lane", estaria livre do hospital em uma semana, apesar de provavelmente permanecer esse período inconsciente. Provavelmente teria de fazer muita fisioterapia, pois a ponta da flecha raspou na espinha; teria dificuldades para se mover por meses. Mas apesar disso, estava estabilizada e não corria risco de vida.

Claro que Josh já estava pensando adiante. Ele havia visto a menina tomar o disparo, e era impossível que a flecha tivesse desviado de qualquer orgão vital. A solução lógica era que ela, assim como ele, se curasse mais rápidamente que pessoas comuns. E claro, isso trazia uma nova série de problemas. O que os médicos diriam quando ela começasse a se recuperar milagrosamente, apesar do acompanhamento próximo? Será que lembrariam que eles entraram no hospital vestidos de super-heróis?

Cricket não pensou nisso por algum tempo. Pelo menos não até o trem parar na estação final em Newark. Incrível como as pessoas não notam uma menina inconsciente com roupas de hospital às cinco da manha num trem que vai contra o fluxo.